O Sloan Digital Sky Survey-III (SDSS-III) anunciou a maior imagem digital do céu jamais feita, e é grátis para todos. A imagem foi composta ao longo da última década a partir de milhões de imagens com 2,8 megapixéis, criando assim uma imagem a cores com mais de um bilião de pixéis. Esta imagem é tão grande que seriam precisas 500.000 televisões HD para a ver à resolução completa.
"A nova imagem fornece oportunidades para muitas descobertas científicas durante anos," exclama Bob Nichol, professor da Universidade de Porstmouth e porta-voz científico da colaboração SDSS-III.
No coração da nova imagem estão novos dados anunciados pela colaboração SDSS-III na 217.ª reunião da Sociedade Astronómica Americana em Seattle, EUA. Os novos dados do SDSS-III, bem como os dados previamente anunciados sobre o qual se baseia, dão aos astrónomos o olhar mais compreensivo de sempre do céu nocturno. Os dados do SDSS já foram usados para descobrir quase meio-milhão de objectos astronómicos, incluindo asteróides, estrelas, galáxias e quasares distantes. As posições mais precisas e recentes, cores e formas de todos estes objectos foram também anunciados.
"É um dos maiores tesouros da história da ciência," afirma o professor Mike Blanton da Universidade de Nova Iorque, que lidera o trabalho de arquivo no SDSS-III. Blanton e muitos outros cientistas trabalharam durante meses preparando o anúncio de todos estes dados. "Os dados serão um legado para a posteridade", explica Blanton, "tal como grandes estudos do céu do passado, como o Estudo do Céu Palomar dos anos 50, são ainda hoje usados. Esperamos que os dados do SDSS tenham uma vida longa".
A imagem teve início em 1998, usando o que era na altura a maior câmara digital do mundo, um detector de 138 megapixéis acoplado ao telescópio de 2,5 metros do Observatório Apache Point no Novo México, EUA. Ao longo da última década, o SDSS estudou um-terço de todo o céu. Agora, com a reforma da sua câmara, fará parte da colecção permanente do museu Smithsonian em reconhecimento das suas contribuições para a astronomia.
"Tem sido maravilhoso ver os resultados científicos desta câmara," afirma Connie Rockosi, astrónoma da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, que começou o seu trabalho com a câmara nos anos 90, quando ainda era estudante, em conjunto com Jimm Gunn, professor de astronomia da Universidade de Princeton e cientista do projecto SDSS-I/II. Toda a carreira de Rockosi até agora correu em paralelo com a câmara do SDSS. "É um sentimento agridoce ver a reforma da câmara, porque há já quase 20 anos que trabalho com ela," afirma.
O que vem a seguir? Esta imagem enorme formou a base de novos estudos do Universo usando o telescópio SDSS. Estes estudos dependem do espectro, uma técnica astronómica que usa instrumentos para espalhar a luz de uma estrela ou galáxia nos seus componentes de onda. O espectro pode ser usado para descobrir as distâncias de galáxias distantes, e as propriedades (como a temperatura e composição química) de diferentes tipos de estrelas e galáxias.
"Temos actualizado os instrumentos do SDSS e estamos a utilizá-los para medir distâncias de mais de um milhão de galáxias detectadas na imagem," explica David Schlegel, astrónomo do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, e investigador principal do Estudo Espectroscópico Oscilatório Baryon (BOSS) do SDSS-III. Schlegel explica que a medição de distâncias de galáxias consome mais tempo que simplesmente capturar imagens, mas em retorno, oferece um mapa tridimensional detalhado da sua distribuição no espaço.
O estudo BOSS começou a obter dados em 2009 e vai continuar até 2014, explica Schlegel. Uma vez terminado, o BOSS será o maior mapa de galáxias em 3D jamais feito, aumentando o estudo galáctico original do SDSS para um volume muito maior do Universo. O objectivo do BOSS é medir com precisão como a chamada "energia escura" tem mudado ao longo da história recente do Universo. Estas medições vão ajudar os astrónomos a compreender a natureza desta substância misteriosa. "A energia escura é o maior mistério da ciência hoje em dia," afirma Schlegel, "e o SDSS continua a liderar o caminho na sua cada vez maior compreensão."
Além do BOSS, a colaboração SDSS-III tem estudado as propriedades e movimentos de centenas de milhares de estrelas nas partes exteriores da nossa Via Láctea. O estudo, conhecido como SEGUE (Sloan Extension for Galactic Understanding and Exploration), começou há vários anos atrás mas só agora terminou como parte do primeiro ano do SDSS-III.
Em conjunto com a imagem, os astrónomos do SEGUE também anunciaram o maior mapa do exterior da Galáxia de sempre. "Este mapa tem sido usado para estudar a distribuição de estrelas na nossa Galáxia," afirma Rockosi, investigadora principal do SEGUE. "Descobrimos muitas correntes de estrelas que originalmente pertenciam a outras galáxias, destruídas pela gravidade da Via Láctea. Há muito que pensávamos que as galáxias evoluem através da fusão com outras; as observações do SEGUE confirmam este quadro básico."
O SDSS-III também está a levar a cabo outros dois estudos da nossa Galáxia e até 2014. O primeiro, chamado MARVELS, irá usar um novo instrumento para medir repetidamente o espectro de aproximadamente 8500 estrelas como o nosso Sol, em busca de oscilações tantalizantes provocadas por planetas tipo-Júpiter em órbita. Prevê-se que o MARVELS descubra cerca de 100 novos planetas gigantes, bem como potencialmente um número semelhante de "anãs castanhas" que são a categoria intermédia entre os planetas mais massivos e as estrelas mais pequenas.
O segundo estudo é o APOGEE (APO Galactic Evolution Experiment), que está a usar um dos maiores espectrógrafos infravermelhos já construídos para levar a cabo o primeiro estudo sistemático de estrelas em todas as partes da nossa Galáxia; até mesmo estrelas no noutro lado da Galáxia, para lá do bojo central. Tais estrelas são tradicionalmente difíceis de estudar dado que a sua luz visível está obscurecida por grandes quantidades de poeira no disco galáctico. No entanto, ao trabalhar em comprimentos de onda infravermelhos mais longos, o APOGEE pode estudá-las em grande detalhe, revelando assim as suas propriedades e movimentos para explorar como é que os diferentes componentes da nossa Galáxia foram "montados".
"O SDSS-III é um projecto extremamente diverso, construído sobre o legado do SDSS original e dos estudos SDSS-II," sumariza Nichol. "Esta imagem é o culminar de décadas de trabalho por centenas de pessoas, e já produziu muitas descobertas incríveis. A astronomia tem uma rica tradição de tornar todos estes dados disponíveis gratuitamente para o público, e esperamos que toda a gente deles disfrutem tanto quanto nós."
Links:
Notícias relacionadas:
Comunicado de imprensa (Brookhaven National Laboratory)
New Scientist
SPACE.com
Universe Today
LiveScience
Astronomy
Astronomy Now Online
PHYSORG.com
Nature
Wired
BBC News
MSNBC
SDSS-III:
Página oficial
Vários arquivos do SDSS (formato imagem)
Wikipedia |
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Esta ilustração mostra o tesouro de informação em escalas tanto pequenas como grandes, disponíveis na nova imagem do SDSS-III. A imagem do canto superior esquerdo mostra uma pequena parte do céu, centrada na galáxia M33 do SDSS-III. A do centro no topo é uma maior ampliação de M33, mostrando os braços espirais da galáxia, incluindo intensas regiões de formação estelar. A do canto superior direito é ainda outra ampliação de M33, mostrando o objecto NGC 604, um das maiores regiões HII dessa galáxia. As figuras abaixo são as imagens de todo o céu, separadas por hemisférios. Visíveis no mapa, enxames e paredes de galáxias que formam as maiores estruturas do Universo.
Crédito: M. Blanton e SDSS-III
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