Tempo extra é algo regularmente associado com desporto e não com uma missão espacial pioneira. "Estamos definitivamente em tempo extra," afirma o gestor do projecto Stardust-NExT, Tim Larson, do JPL da NASA em Pasadena, Califórnia, EUA. "Esta sonda já passou por um asteróide e por um cometa, enviou amostras de poeira cometária para a Terra e já quase duplicou o seu tempo planeado de vida. Agora prepara-se para mais outra passagem rasante por outro cometa."
A nave Stardust da NASA foi lançada a 7 de Fevereiro de 1999, numa missão que iria explorar um cometa como nunca antes tinha sido alcançado. Antes da Stardust, sete sondas da NASA, Rússia, Japão e da ESA já tinham visitado cometas - tinham perfis de voo que permitiu encontros breves, recolhendo dados e por vezes imagens do núcleo durante os "flybys".
Tal como estes caçadores de cometas antes dela, a Stardust foi encarregada de passar perto de um cometa, recolher dados e capturar imagens. Também teve capacidade para voltar novamente a casa, transportando com ela um tesouro fora deste mundo para os cientistas cometários - partículas do próprio cometa. Pelo caminho, o caçador de cometas com o tamanho de uma cabine telefónica alcançou inúmeros marcos e alguns "primeiros espaciais".
Na primeira parte da sua missão principal, a Stardust levou a cabo observações do asteróide Annefrank, apenas o sexto asteróide da História a ser fotografado de perto. Depois, a Stardust alcançou outros marcos para a exploração espacial. Tornou-se na primeira a capturar partículas de poeira interestelar para regresso à Terra. Foi a primeira a passar por um cometa e capturar partículas de poeira cometária (rasando pelo astro a quase 8 km/s) para análises posteriores. Foi a primeira a fazer a viagem de volta à Terra após viajar para lá da órbita de Marte (uma viagem de dois anos e 1,2 mil milhões de quilómetros). Quando a Stardust libertou a sua cápsula de amostras obtidas no cometa Wild 2, esta última tornou-se no mais rápido objecto feito pela mão humana a entrar na atmosfera da Terra. A missão foi também a primeira a providenciar uma cápsula contendo amostras de poeira cometária, amostras estas alvo de estudo científicos há já durante anos e com muitos mais pela frente.
Com uma pontuação de "primeiros" tão alta, seria de pensar que a Stardust recebia uns presentes de despedida e "ia para o balneário". E uma parte importante da sonda original está actualmente a disfrutar da reforma - embora uma reforma de alto-perfil: a cápsula de amostras, com 45 kg, encontra-se no museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian em Washington. Mas o resto do caçador de cometas veterano da NASA ainda voa - e ainda tem trabalho para fazer.
"Colocámos a Stardust numa órbita estacionária que a levaria a passar pela Terra a cada par de anos, e pedimos à comunidade científica que propusesse ideias de objectivos para a sonda com já muitos zeros no seu odómetro, mas que ainda tinha algum combustível e bons quilómetros por percorrer," afirma Jim Green, director da Divisão de Ciência Planetária da NASA.
Em Janeiro de 2007, de um conjunto de propostas com ideias intrigantes, a NASA escolheu a Stardust-NExT (Stardust's Next Exploration of Tempel). Era um plano para revisitar o cometa Tempel 1 por um décimo do custo de uma missão nova. O cometa Tempel 1 é de interesse particular para a NASA. Foi já alvo de uma visita passada por outra sonda da NASA em Julho de 2005. Essa missão, Deep Impact, colocou um objecto impactante com 360 kg numa rota de colisão com o cometa e observou os resultados do acidente cósmico com as suas câmaras a bordo da maior parte da sonda, que observava de distância segura.
"O plano do nosso encontro é ser mais simpático com o cometa Tempel 1 do que o nosso antecessor", afirma Joe Veverka, investigador principal da Stardust-NExT e da Universidade de Cornell em Ithaca, Nova Iorque. "Vamos passar a cerca de 200 km do cometa e observar as mudanças que tiveram lugar ao longo dos últimos cinco anos e meio."
Esse período de tempo é importante para o Tempel 1 -- é o período de tempo que o cometa demora a orbitar uma vez o Sol. Durante o trânsito de um cometa pelos cantos mais frios do Sistema Solar exterior, não há grandes mudanças. Mas quando se aproxima do periélio (o ponto na órbita de um objecto, seja ele planeta, asteróide ou cometa, que está mais próximo do Sol), as coisas começam a agitar-se.
"Os cometas podem ser espectaculares quando se aproximam do Sol, mas ainda não os compreendemos tão bem como devíamos," afirma Veverka. "São também mensageiros do passado. Dizem-nos como o Sistema Solar foi formado há muito tempo atrás, e a Stardust-NExT vai ajudar-nos a compreender como mudaram desde a sua formação."
Por isso a sonda que já viajou mais do que qualquer das outras que a precederam, foi novamente para o "campo" em nome da oportunidade científica. Entre a sonda e o cometa estavam quatro anos e meio, mais de mil milhões de quilómetros, e mais alguns problemas.
"Um dos desafios ao reusar uma sonda desenhada para uma missão principal diferente é que não começamos com um tanque de combustível cheio," afirma Larson. "Praticamente todas as missões de exploração espacial têm uma quantidade de combustível adequada à sua função, algumas têm reservas para manobras de contingência e outras incertezas. Felizmente, a equipa de navegação da missão Stardust fez um trabalho impecável, a sonda operou extremamente bem, e a quantidade de combustível que restava era suficiente para tentar este novo flyby cometário - mas à rasquinha."
"Estimamos que a sonda tenha menos de 3% da sua quantidade original de combustível," afirma Larson. "É uma estimativa, porque ninguém inventou ainda um medidor de combustível completamente fiável para as naves espaciais. Existem técnicas excelentes para fazer estas estimativas, mas são apenas estimativas."
Uma das maneiras que os cientistas podem aproximar o consumo de combustível é observar a história do voo do veículo e quantas vezes e por quanto tempo foram usados os seus motores. Quando estes cálculos foram feitos para a Stardust, a equipa descobriu que os seus motores tinham sido disparados quase meio milhão de vezes ao longo dos últimos 12 anos.
"Existem sempre incertezas com cada disparo dos motores. Quando os totalizamos, chegamos ao intervalo de respostas possível acerca do combustível que resta," afirma Larson.
O combustível não é a única questão que precisa ser trabalhada a caminho de um segundo encontro cometário. A juntar à mistura está o facto de um cometa perto do Sol poder expelir jactos de gás e poeira que podem provocar uma mudança na sua órbita, por vezes inesperadamente, potencialmente alterando uma órbita precisa para outra menos precisa. E não nos podemos esquecer das distâncias aqui envolvidas. A Stardust vai passar pelo cometa Tempel 1 no lado quase oposto do Sol em relação à Terra, o que torna as comunicações de espaço profundo verdadeiramente profundas. E para mais a própria Stardust. Lançada quando ainda Bill Clinton estava na Casa Branca, a Stardust foi aquecida e arrefecida inúmeras vezes durante as suas viagens entre o Sistema Solar interior e exterior. Também já sofreu várias exposições a tempestades solares recheadas de radiação. Mas embora o seu tanque de combustível esteja quase vazio, isto não significa que a Stardust não deva viajar.
"Todos os desafios da missão são mesmo isso - desafios," afirma Larson. "Nós acreditamos que a nossa equipa e que a nossa sonda vai ultrapassá-los a todos, e estamos ansiosos por ver como está o Tempel 1 agora."
Larson, Veverka e o todo mundo terão uma hipótese de ver as imagens do cometa poucas horas após o encontro de Segunda para Terça-feira à noite, pelas 04:57 (hora de Portugal), quando a primeira de 72 imagens do núcleo do cometa Tempel 1 for enviada.
Todas as imagens do cometa vão ser capturadas pela câmara de navegação da sonda - uma mistura de hardware sobresselente que restou de missões anteriores da NASA: Voyager (lançada em 1977), Galileu (lançada em 1989) e Cassini (lançada em 1997). Cada imagem vai demorar cerca de 15 minutos a ser transmitida. Espera-se que as primeiras cinco imagens a serem recebidas e processadas cá na Terra incluam uma ampliação do núcleo do Tempel 1. Todos os dados da passagem rasante (incluindo as imagens e os dados científicos obtidos pelos dois instrumentos de poeira da sonda) devem demorar 10 horas a alcançar o nosso planeta.
Links:
Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
SPACE.com
PHYSORG.com
Space Daily
Space Fellowship
Stardust-NExT:
Página da NASA
Universidade de Cornell
Cometa Tempel 1:
Wikipedia
Gary W. Kronk's Cometography
Cometa Wild 2:
NASA
Wikipedia
Stardust:
Página da NASA
Wikipedia
Gráfico da missão Stardust |