Selado durante milhões de anos por baixo de uma camada de gelo quase impenetrável, o Lago Vostok tem mantido um vasto arquivo histórico à espera do momento ideal para se revelar. Um ecossistema fechado e único, capturado no tempo por baixo de quatro quilómetros de gelo. A salvo da contaminação ambiental, a sua água tem estado isolada da atmosfera terrestre e do mundo, há bem mais tempo do que a Humanidade existe. Apenas uma importante questão permanece - será que o Lago Vostok mostra os primeiros sinais de vida?
"De acordo com a nossa pesquisa, a quantidade de oxigénio lá presente excede a quantidade de outras partes do nosso planeta entre 10 até 20 vezes. Quaisquer formas de vida que possamos encontrar são provavelmente únicas na Terra," afirma Sergey Bulat, líder científico da expedição russa ao Lago.
Então por que razão é esta possível descoberta de organismos excitante? A razão é tão clara como as suas águas escondidas. Se existirem lá formas de vida, podem também existir em mundos semelhantes - na lua de Júpiter, Europa, e na lua de Saturno, Encelado.
"A descoberta de microrganismos no Lago Vostok pode significar que, talvez, o primeiro encontro com vida extra-terrestre pode acontecer em Europa," afirma o Dr. Vladimir Kotlyakov, director do Instituto de Geografia da Academia Russa de Ciências.
No entanto, perfurar mais de 3700 metros de gelo puro não é tarefa fácil - especialmente se estivermos a trabalhar sob temperaturas tão baixas quanto -80º C. Esta complicada operação começou em 1970, mas só mais de 25 anos depois é que os especialistas russos descobriram o lago escondido por baixo da camada de gelo. Com o apoio do Reino Unido, começaram estudos de satélite e de sonar com o intuito de revelar um dos maiores reservatórios fechados de água doce do mundo. Agora, no entanto, é que a especulação começou a sério. O que podem conter estas águas? Serão pequenos micróbios? Ou talvez até um organismo perigoso? Só há uma maneira de descobrir. Perfurar e retirar amostras.
"Tudo menos as próprias amostras serão cuidadosamente descontaminadas usando radiação. Não há razão para alarme," afirma Valeriy Lukin, líder da expedição árctica. De acordo com os investigadores do Instituto de Pesquisa da Antártica, supõem que os achados são "o único sistema gigante de águas super-limpas do planeta". E esta água pristina será "duas vezes mais limpa que água duplamente destilada".
Ao longo das últimas décadas, tem havido grande discórdia acerca dos métodos de perfuração anti-congelante - cada com os seus prós e contras. Desde querosene até freon - mesmo até água quente - o resultado final necessita ser o mesmo. Não poderá haver nenhuma hipótese de contaminação - quer para as amostras, quer para o ambiente nativo. O método utilizado pelos russos tem sido este último quando 40 litros de água pura e congelada (dado que a água precisa de viajar quase 4 km até à superfície, sempre em temperaturas baixíssimas, a água líquida do Lago Vostok acaba por congelar) vieram ao de cima a 4 de Fevereiro devido à abertura e à libertação de pressão acumulada no lago. Apenas um dia depois, 1500 litros de querosene e freon foram colocados em contentores especiais sem problemas e a amostra inicial provou-se estar imaculada. As águas pristinas estão agora seladas em contentores estéreis e a caminho de um laboratório.
"Esperamos encontrar vida lá como nada parecido na Terra," afirma Sergei Bulat, biólogo molecular do Instituto de Física Nuclear de S. Petersburgo. Qualquer organismo vivo no lago estará adaptado a viver sem luz, sob grandes pressões, em água com temperaturas de -2º C e com uma grande concentração de oxigénio. "Se lá existir vida, será uma forma de vida desconhecida para a Ciência. Nesse caso, estamos a falar de uma descoberta fundamental, um novo marco no nosso conhecimento da vida". Reciprocamente, a inexistência de vida seria também única na Terra, afirma. "Se não descobrirmos nada, é por si só também uma descoberta, porque na Terra não há um único local completamente estéril, onde nem sequer existam bactérias".
"É um sistema dinâmico e activo, não um mundo perdido. Por baixo está um fluxo de hidrogénio e metano, e o gelo por cima derrete a uma enorme velocidade de três metros por ano." Os sedimentos do lago podem revelar mudanças na Terra e no seu clima ao longo dos últimos 20 milhões de anos. Para os geólogos, é importante perfurar e recolher amostras dos sedimentos no chão do lago. Contêm informações acerca das mudanças do clima nos últimos 15 a 20 milhões de anos.
Com a chegada do duro Inverno antárctico, a perfuração teve esta semana que ser colocada em espera. Os cientistas esperam recolher amostras mais profundas do lago e enviar um robot para recolher amostras sedimentares do chão do lago no futuro.
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Reuters
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Lago Vostok:
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Localização do Lago Vostok no Este da Antárctica.
Crédito: NASA
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Diagrama do Lago Vostok e da sua perfuração.
Crédito: NSF
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Imagem de radar do Lago Vostok, capturada por satélite.
Crédito: NASA
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