Dados da sonda Cassini da NASA revelaram que a lua de Saturno, Titã, provavelmente contém uma camada de água líquida por baixo da sua concha de gelo.
Os investigadores viram que a lua era espremida e esticada à medida que orbita Saturno. Então deduziram que se Titã fosse composta inteiramente por rocha sólida, a atracção gravitacional de Saturno provocaria bojos, ou "marés" sólidas na lua até 1 metro de altura. Os dados da sonda mostram que Saturno cria marés sólidas de aproximadamente 10 metros em altura, o que sugere que Titã não é inteiramente constituída por material rochoso sólido. A descoberta aparece na edição da semana passada da revista Science.
"A detecção de grandes marés em Titã pela Cassini aponta para a conclusão quase inevitável de que existe um oceano escondido nas suas profundezas," afirma Luciano Iess, autor principal do artigo e membro da equipa da Cassini da Universidade Sapienza em Roma, Itália. "A procura por água é um objectivo importante na exploração do Sistema Solar, e agora descobrimos outro local onde é abundante."
Titã demora apenas 16 dias a orbitar Saturno, e os cientistas foram capazes de estudar a forma da lua em diferentes partes da sua órbita. Dado que Titã não é esférica, mas ligeiramente alongada como uma bola de râguebi, o seu eixo longo cresceu quando estava mais próxima de Saturno. Oito dias mais tarde, quando Titã estava mais longe de saturno, tornou-se menos alongada e mais arredondada. A Cassini mediu o efeito gravitacional desse aperto e dilatação.
Os cientistas não tinham a certeza que a Cassini era capaz de detectar os bojos provocados pela atracção de Saturno em Titã. Ao estudar seis voos rasantes por Titã desde 27 de Fevereiro de 2006 até 18 de Fevereiro de 2011, os investigadores foram capazes de determinar a estrutura interna da lua ao medir variações na atracção gravitacional de Titã usando dados enviados pela DSN (Deep Space Network) da NASA.
"Nós estávamos fazendo medições ultra-sensíveis, e felizmente a Cassini e a DSN foram capazes de manter uma ligação muito estável," afirma Sami Asmar, membro da equipa da Cassini no JPL da NASA em Pasadena Califórnia, EUA. "As marés em Titã puxadas por Saturno não são muito grandes em comparação com a atracção que o maior planeta, Júpiter, tem sobre algumas das suas luas. Mas, longe de ser capaz de perfurar na superfície de Titã, as medições de gravidade fornecem os melhores dados que temos da estrutura interna de Titã."
Uma camada oceânica não tem que ser grande ou profunda para criar estas marés. Uma camada líquida entre a concha externa e deformável e um manto sólido permite com que Titã crie bojos e se comprima e expanda à medida que orbita Saturno. Dado que a superfície de Titã é composta na maioria por água gelada, que é abundante em luas do Sistema Solar exterior, os cientistas inferem que o oceano subterrâneo de Titã é provavelmente constituído por água líquida.
Na Terra, as marés resultam da atracção gravitacional da Lua e do Sol puxando os oceanos. Nos oceanos abertos, podem chegar a 60 centímetros. Embora a água seja mais fácil de mover, a atracção gravitacional do Sol e da Lua também faz com que a crosta da Terra crie bojos em marés sólidas de aproximadamente 50 centímetros.
A presença de uma camada subsuperficial de água líquida em Titã não é por si só um indicador de vida. Os cientistas pensam que a vida tem mais probabilidade de surgir quando a água líquida está em contacto com rocha, e estas medições não conseguem dizer se o chão do oceano é feito de rocha ou gelo Os resultados têm uma implicação maior para o mistério do reabastecimento do metano em Titã.
"A presença de uma camada de água líquida em Titã é importante porque queremos compreender como o metano é armazenado no interior de Titã e como chega à superfície," afirma Jonathan Lunine, membro da equipa da Cassini da Universidade de Cornell, em Ithaca, no estado americano de Nova Iorque. "Isto é importante porque tudo o que é único em Titã deriva da presença abundante do metano, mas mesmo assim o metano na atmosfera é instável e será destruído em curtas escalas de tempo geológico."
Um oceano de água líquida, "salgado" com amónia, pode produzir líquidos flutuantes de amónia-água que borbulham através da crosta e libertam metano do gelo. Tal oceano pode servir como um reservatório profundo para armazenar metano.
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