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BURACO NEGRO NO CENTRO DA NOSSA GALÁXIA PARECE ESTAR FICANDO MAIS FAMINTO
17 de setembro de 2019

 


Renderização de uma estrela chamada S0-2 orbitando o buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea. Não caiu no buraco negro, mas a sua passagem próxima pode ser uma razão para o cada vez maior apetite do buraco negro.
Crédito: Nicolle Fuller/NSF

 

O enorme buraco negro no centro da nossa Galáxia está a ter uma refeição extraordinariamente grande de gás e poeira interestelar, e os investigadores ainda não entendem porquê.

"Nunca vimos algo assim durante os 24 anos em que temos vindo a estudar o buraco negro supermassivo," disse Andrea Ghez, professora de física e astronomia da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e coautora da investigação. "Geralmente, é um buraco negro muito calmo e fraco sob dieta. Não sabemos o que está a motivar este grande banquete."

O artigo sobre o estudo, liderado pelo Grupo do Centro Galáctico da UCLA, que Ghez lidera, foi publicado na revista The Astrophysical Journal Letters.

Os cientistas analisaram mais de 13.000 observações do buraco negro recolhidas durante 133 noites desde 2003. As imagens foram obtidas pelo Observatório W. M. Keck no Hawaii e pelo VLT (Very Large Telescope) do ESO no Chile. A equipa descobriu que, no dia 13 de maio, a área logo do lado de fora do "ponto de não-retorno" do buraco negro (assim chamado porque quando a matéria entra, nunca poderá escapar) era duas vezes mais brilhante do que a observação mais brilhante seguinte.

Eles também observaram grandes mudanças noutras duas noites este ano; todas estas três mudanças foram "sem precedentes", disse Ghez.

O brilho observado pelos cientistas é provocado pela radiação do gás e poeira que caem no buraco negro; as descobertas levaram-nos a perguntar se este foi um evento singular extraordinário ou um percursor do aumento significativo de atividade.

"A grande questão é se o buraco negro está a entrar numa nova fase - por exemplo, se a 'torneira' foi aberta e o ritmo de queda do gás para o buraco negro aumentou por um longo período - ou se acabámos de ver os fogos-de-artifícios de algumas 'gotas' invulgares de gás," disse Mark Morris, professor de física e astronomia da UCLA e coautor sénior do artigo.

A equipa continuou a observar a área e tentará resolver esta questão com base no que veem em novas imagens.

 

"Queremos saber como é que os buracos negros crescem e como afetam a evolução das galáxias e do Universo," acrescentou Ghez. "Queremos saber por que razão o buraco negro supermassivo fica mais brilhante e como fica mais brilhante."

Os novos achados têm por base observações do buraco negro - chamado Sagitário A* ou Sgr A* - durante quatro noites em abril e maio no Observatório Keck. O brilho em torno do buraco negro varia sempre um pouco, mas os cientistas ficaram impressionados com as variações extremas de brilho durante esse período de tempo, incluindo com as suas observações no dia 13 de maio.

"Na primeira imagem que vi naquela noite, o buraco negro estava tão brilhante que inicialmente o confundi com a estrela S0-2, porque nunca tinha visto Sagitário A* tão brilhante," disse Tuan Do, o autor principal do estudo. "Mas rapidamente ficou claro que a fonte tinha que ser o buraco negro, o que foi realmente emocionante."

Uma hipótese sobre o aumento de atividade é que, quando uma estrela chamada S0-2 se aproximou mais do buraco negro durante o verão de 2018, lançou uma grande quantidade de gás que atingiu este ano o buraco negro.

Outra possibilidade envolve um objeto bizarro conhecido como G2, que provavelmente é um par de estrelas binárias, que se aproximou mais do buraco negro em 2014. É possível que o buraco negro possa ter arrancado a camada externa de G2, disse Ghez, o que poderia ajudar a explicar o aumento de brilho do lado de fora do buraco negro.

Morris disse que outra possibilidade é que o brilho corresponde ao desaparecimento de grandes asteroides atraídos para o buraco negro.

Nenhum perigo para a Terra

O buraco negro está a cerca de 26.000 anos-luz de distância e não representa perigo para o nosso planeta. Do disse que a radiação teria que ser 10 mil milhões de vezes mais forte do que a radiação que os astrónomos detetaram para afetar a vida na Terra.

A revista The Astrophysical Journal Letters também publicou um segundo artigo dos investigadores, descrevendo a técnica que lhes permitiu extrair e usar informações muito fracas de 24 anos de dados que registaram perto do buraco negro.

A equipa de Ghez relatou, dia 25 de julho na revista Science, o teste mais compreensivo da icónica teoria geral da relatividade de Einstein, perto do buraco negro. A sua conclusão de que a teoria de Einstein passou no teste e que está correta, pelo menos por agora, foi baseada no estudo de S0-2, durante uma órbita completa em torno do buraco negro.

A equipa de Ghez estuda mais de 3000 estrelas que orbitam o buraco negro supermassivo. Desde 2004 que os cientistas usam uma técnica poderosa que Ghez ajudou a desenvolver, chamada ótica adaptativa, que corrige os efeitos de distorção da atmosfera da Terra em tempo real. A técnica descrita no segundo artigo permitiu que os cientistas melhorassem os dados da década anterior ao início da utilização da ótica adaptativa. A reanálise desses dados ajudou a equipa a concluir que não via este nível de brilho próximo do buraco negro há 24 anos.

"Foi como fazer uma cirurgia LASIK nas nossas primeiras imagens," afirmou Ghez. "Recolhemos os dados para responder a uma pergunta e, acidentalmente, revelámos outras descobertas científicas empolgantes que não prevíamos."

 


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// UCLA (comunicado de imprensa)
// Observatório W. M. Keck (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)
// Artigo científico #2 (The Astrophysical Journal Letters)
// Buraco negro no centro da nossa Galáxia parece estar ficando mais faminto (UCLA via YouTube)

Saiba mais

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Science alert
PHYSORG
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Newsweek

S0-2:
Wikipedia

Sagitário A*:
Wikipedia

Buraco negro supermassivo:
Wikipedia

Via Láctea:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
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SEDS

G2:
Wikipedia

Observatório W. M. Keck:
Página oficial
Wikipedia

VLT:
ESO
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
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