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QUAL É A DURAÇÃO DE UM DIA EM VÉNUS? CIENTISTAS DESVENDAM OS MISTÉRIOS DO NOSSO VIZINHO
4 de maio de 2021

 


O planeta Vénus.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

 

Vénus é um enigma. É nosso vizinho, mas, no entanto, revela pouco sobre si próprio. Um manto opaco de nuvens sufoca uma paisagem agreste atingida pela chuva ácida e cozida em temperaturas que podem liquidificar o chumbo.

Agora, novas observações a partir da segurança da nossa Terra estão a levantar o véu sobre algumas das propriedades mais básicas de Vénus. Ao disparar repetidamente radar da superfície do planeta ao longo dos últimos 15 anos, uma equipa liderada pela UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) determinou a duração precisa de um dia em Vénus, a inclinação do seu eixo e o tamanho do seu núcleo. As descobertas foram publicadas na revista Nature Astronomy.

"Vénus é o nosso planeta irmão, e ainda assim estas propriedades fundamentais permaneceram desconhecidas," disse Jean-Luc Margot, professor de ciências terrestres, planetárias e espaciais que liderou a investigação.

A Terra e Vénus têm muito em comum: ambos os planetas rochosos têm quase o mesmo tamanho, massa e densidade. E, no entanto, evoluíram por caminhos totalmente diferentes. Características fundamentais como quantas horas existem num dia venusiano fornecem dados essenciais para a compreensão das histórias divergentes destes mundos vizinhos.

Mudanças na rotação e orientação de Vénus revelam como a massa se espalha no interior. O conhecimento da sua estrutura interna, por sua vez, fornece informações sobre a formação do planeta, a sua história vulcânica e como o tempo alterou a superfície. Além disso, sem dados precisos sobre como o planeta se move, quaisquer tentativas futuras de pouso podem ter um desvio de até 30 quilómetros.

"Sem estas medições," disse Margot, "estamos essencialmente a voar às cegas."

As novas medições de radar mostram que um dia médio em Vénus dura 243,0226 dias terrestres - cerca de dois-terços de um ano terrestre. Além do mais, a rotação de Vénus está sempre a mudar: um valor medido num determinado momento será um pouco maior ou menor do que um valor anterior. A equipa estimou a duração de um dia a partir de cada uma das medições individuais e observou diferenças de pelo menos 20 minutos.

"Isto provavelmente explica porque é que as estimativas anteriores não correspondiam," disse Margot.

A atmosfera pesada de Vénus é provavelmente a culpada pela variação. À medida que gira em torno do planeta, troca muito momento com o chão sólido, acelerando e diminuindo a sua rotação. Isto também acontece na Terra, mas a troca acrescenta ou retira apenas um milissegundo de cada dia. O efeito é muito mais dramático em Vénus porque a atmosfera é cerca de 93 vezes mais massiva do que a da Terra e, portanto, tem muito momento para trocar.

A equipa também relata que Vénus inclina-se para um lado precisamente 2,6392 graus (a Terra está inclinada cerca de 23º), uma melhoria na precisão das estimativas anteriores por um fator de 10. As medições repetidas de radar revelaram também o ritmo glacial no qual a orientação do eixo de rotação de Vénus muda, como o pião de uma criança. Na Terra, esta "precessão" leva cerca de 26.000 anos a completar um ciclo. Vénus precisa de um pouco mais de tempo: cerca de 29.000 anos.

Com estas medições precisas de como Vénus gira, a equipa calculou que o núcleo do planeta tem cerca de 3500 quilómetros de diâmetro - bastante semelhante à Terra - embora ainda não consigam deduzir se é líquido ou sólido.

Vénus como uma gigante bola de espelhos

Em 21 ocasiões separadas de 2006 a 2020, Margot e colegas direcionaram ondas de rádio para Vénus a partir da antena Goldstone de 70 metros no deserto de Mojave, Califórnia, EUA. Vários minutos depois, essas ondas de rádio ricochetearam de Vénus e voltaram para a Terra. O eco de rádio foi captado em Goldstone e no GBT (Green Bank Telescope) no estado norte-americano da Virgínia Ocidental.

"Nós usamos Vénus como uma gigante bola de espelhos," disse Margot, com a antena parabólica agindo como uma lanterna e a paisagem do planeta como milhões de refletores minúsculos. "Iluminamos o planeta com uma lanterna extremamente poderosa - cerca de 100.000 vezes mais brilhante do que uma típica lanterna. E se rastrearmos os reflexos da bola de espelhos, podemos inferir propriedades sobre a rotação."

As reflexões complexas clareiam e escurecem erraticamente o sinal de retorno, que se espalha pela Terra. A antena de Golsdtone vê o eco primeiro, o GBT vê cerca de 20 segundos depois. O atraso exato entre o recebimento nas duas instalações fornece um instantâneo de quão depressa Vénus está a girar, enquanto a janela de tempo específica em que os ecos são mais semelhantes revela a inclinação do planeta.

As observações exigiram uma cronometragem de excelência para garantir que Vénus e a Terra estivessem posicionados corretamente. E ambos os observatórios tinham que estar a funcionar perfeitamente - o que nem sempre era o caso. "Descobrimos que é realmente desafiador fazer tudo funcionar perfeitamente num período de 30 segundos," disse Margot. "Na maioria das vezes, obtemos alguns dados. Mas é invulgar obtermos todos os dados que esperamos obter."

Apesar dos desafios, a equipa está a avançar e voltou os seus olhos para as luas de Júpiter, Europa e Ganimedes. Muitos investigadores suspeitam fortemente que Europa, em particular, esconde um oceano de água líquida sob uma espessa camada de gelo. Medições de radar a partir do solo podem fortalecer o caso de um oceano e revelar a espessura da camada de gelo.

E a equipa vai continuar a refletir radar de Vénus. Com cada eco de rádio, o véu sobre Vénus levanta-se um pouco mais, vendo o nosso planeta irmão cada vez mais nitidamente.

 


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// UCLA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv.org)

Saiba mais

Vénus:
CCVAlg - Astronomia 
Wikipedia

GSSR (Goldstone Solar System Radar):
NASA
Wikipedia

GBT (Telescópio Robert C. Byrd Green Bank):
Página oficial
Wikipedia

 
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