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Gaia termina as suas observações científicas
17 de janeiro de 2025
 

Infografia que mostra os números da missão Gaia da ESA durante a sua fase de exploração do céu.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC, representação da Via Láctea por Stefan Payne-Wardenaar
 
     
 
 
 

O observatório espacial Gaia da ESA completou a fase de varrimento do céu, acumulando mais de três biliões de observações de cerca de dois mil milhões de estrelas e outros objetos ao longo da última década, a fim de revolucionar a visão da nossa Galáxia natal e da vizinhança cósmica.

O depósito de combustível do Gaia está agora quase vazio - utiliza cerca de uma dúzia de gramas de gás frio por dia para se manter a girar com uma precisão exata. Mas isto está longe de ser o fim da missão. Estão programados testes tecnológicos para as próximas semanas, antes do Gaia ser transferido para a sua órbita de "reforma", e estão previstos dois lançamentos massivos de dados, para meados de 2026 e para o final desta década, respetivamente.

"O dia de hoje [15 de janeiro] marca o fim das observações científicas e estamos a celebrar esta incrível missão que excedeu todas as nossas expetativas, durando quase o dobro do tempo de vida inicialmente previsto", afirma Carole Mundell, Diretora Científica da ESA.

"O tesouro de dados recolhidos pelo Gaia deu-nos uma visão única sobre a origem e a evolução da nossa Via Láctea e também transformou a astrofísica e a ciência do Sistema Solar de uma forma que ainda não apreciámos plenamente. O Gaia baseou-se na excelência europeia única em astrometria e deixará um legado duradouro para as gerações futuras".

"Depois de 11 anos no espaço e de sobreviver a impactos de micrometeoritos e tempestades solares, o Gaia terminou a recolha de dados científicos. Agora todas as atenções estão viradas para a preparação dos próximos lançamentos de dados", afirma o cientista do projeto Gaia, Johannes Sahlmann.

"Estou muito satisfeito com o desempenho desta incrível missão e entusiasmado com as descobertas que nos esperam".

Gaia fornece o melhor mapa da Via Láctea

O Gaia tem estado a cartografar as posições, distâncias, movimentos, alterações de brilho, composição e várias outras características das estrelas, monitorizando-as com os seus três instrumentos muitas vezes ao longo da missão.

Isto permitiu ao Gaia cumprir o seu objetivo principal de construir o maior e mais preciso mapa da Via Láctea, mostrando-nos a nossa Galáxia natal como nenhuma outra missão o fez antes. Como tal, temos agora também a melhor visão reconstruída de como a nossa Galáxia poderia parecer a um observador exterior. Esta nova impressão artística da Via Láctea incorpora dados do Gaia provenientes de uma multiplicidade de estudos efetuados ao longo da última década.

 
Impressão de artista da nossa Galáxia, a Via Láctea, com base nos dados do telescópio espacial Gaia da ESA, vista de face. Veja aqui a imagem sem rótulos e aqui a imagem com rótulos.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC, Stefan Payne-Wardenaar
 

"Contém grandes alterações em relação aos modelos anteriores, porque o Gaia mudou a nossa impressão da Via Láctea. Mesmo ideias básicas foram revistas, como a rotação da barra central da nossa Galáxia, a deformação do disco, a estrutura detalhada dos braços espirais e a poeira interestelar perto do Sol", diz Stefan Payne-Wardenaar, visualizador científico da Haus der Astronomie, Alemanha, e do Gabinete de Astronomia para a Educação da União Astronómica Internacional.

"Ainda assim, as partes distantes da Via Láctea continuam a ser palpites baseados em dados incompletos. Com a publicação dos novos dados do Gaia, a nossa visão da Via Láctea tornar-se-á ainda mais precisa".

A máquina de descobertas da década

As medições repetidas de distâncias, movimentos e características estelares feitas pelo Gaia são fundamentais para realizar a "arqueologia galáctica" da nossa Via Láctea, revelando elos em falta na complexa história da nossa Galáxia para assim nos ajudar a conhecer melhor as nossas origens. Desde a deteção de "fantasmas" de outras galáxias e de múltiplas correntes de estrelas antigas que se fundiram com a Via Láctea no início da sua história, até à descoberta de evidências de uma colisão em curso com a galáxia anã de Sagitário, o Gaia está a reescrever a história da Via Láctea e a fazer previsões sobre o seu futuro.

 
Impressão de artista da nossa Galáxia, a Via Láctea, com base nos dados do telescópio espacial Gaia da ESA, mas vista de lado.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC, Stefan Payne-Wardenaar
 

Ao analisar as estrelas da nossa própria Galáxia, o Gaia também detetou outros objetos, desde asteroides no "quintal" do nosso Sistema Solar até galáxias e quasares - os centros brilhantes e ativos de galáxias alimentadas por buracos negros supermassivos - para lá da nossa Via Láctea.

Por exemplo, o Gaia forneceu órbitas exatas de mais de 150.000 asteroides e dispõe de medições de qualidade tão elevada que permitiu descobrir possíveis luas à volta de centenas deles. Criou também o maior mapa tridimensional de cerca de 1,3 milhões de quasares, sendo que os mais longínquos brilharam quando o Universo tinha apenas 1,5 mil milhões de anos.

O Gaia descobriu também uma nova espécie de buracos negros, incluindo um com uma massa quase 33 vezes superior à do Sol, escondido na constelação de Águia, a menos de 2000 anos-luz da Terra - a primeira vez que um buraco negro de origem estelar desta dimensão foi detetado na Via Láctea.

"É impressionante o facto destas descobertas se basearem apenas nos primeiros anos de dados do Gaia, e muitas delas foram feitas apenas no último ano. O Gaia tem sido a máquina de descobertas da década, uma tendência que deverá continuar", afirma Anthony Brown, presidente do DPAC (Data Processing and Analysis Consortium) do Gaia, sediado na Universidade de Leiden, nos Países Baixos.

Atenção! Mais ciência inovadora a caminho

As equipas científicas e de engenharia da missão já estão a trabalhar a todo o vapor nos preparativos para o DR4 (Data Release 4) do Gaia, previsto para 2026. O volume e a qualidade dos dados melhoram a cada lançamento e o DR4, com uma previsão de 500 TB de dados, não é exceção. Além disso, cobrirá os primeiros 5,5 anos da missão, o que corresponde à sua duração inicialmente prevista.

"Este é o lançamento de dados do Gaia que a comunidade tem estado à espera e é emocionante pensar que só cobre metade dos dados recolhidos", afirma Antonella Vallenari, Vice-Presidente do DPAC no INAF (Istituto Nazionale di Astrofisica), Observatório Astronómico de Pádua, Itália. "Apesar da missão ter agora parado de recolher dados, a nossa atividade continuará a ser normal durante muitos anos, à medida que preparamos estes incríveis conjuntos de dados para utilização".

O DR4 do Gaia vai alargar o seu catálogo de estrelas binárias, o maior catálogo deste tipo até à data. O Gaia tem uma capacidade única para detetar os pequenos movimentos de pares de objetos celestes que orbitam perto um do outro e já detetou companheiros anteriormente ocultos em torno de estrelas brilhantes.

A propósito, a última observação do Gaia, de 10 de janeiro, foi do par binário 61 Cygni. Esta estrela emblemática atraiu a atenção dos astrónomos do século XIX, tendo produzido algumas das primeiras medições de movimento próprio e de paralaxe, técnicas utilizadas pelo Gaia em cerca de dois mil milhões de estrelas.

As descobertas exoplanetárias do Gaia também deverão aumentar com os próximos conjuntos de dados, graças ao período de tempo mais longo das observações, que torna muito mais fácil detetar estrelas "oscilantes", suavemente puxadas por planetas em órbita.

"Durante os próximos meses continuaremos a transferir todos os dados do Gaia e, ao mesmo tempo, as equipas de processamento irão acelerar os preparativos para a quinta e última grande publicação de dados no final desta década, cobrindo a totalidade dos 10,5 anos de dados da missão", diz Rocio Guerra, chefe da equipa de operações científicas do Gaia, baseada no ESAC (European Space Astronomy Centre) da ESA, perto de Madrid, Espanha.

"Isto irá concluir um incrível esforço coordenado entre centenas de especialistas do centro de operações científicas aqui no ESAC, a equipa de operações da missão que controla o Gaia a partir do Centro Europeu de Operações Espaciais da ESA na Alemanha, e o enorme consórcio de especialistas em processamento de dados, que juntos asseguraram o bom funcionamento desta bela missão durante tanto tempo".

O plano de reforma do Gaia

 
Ilustração do satélite Gaia da ESA a observar a Via Láctea. A imagem de fundo do céu é compilada a partir de dados de mais de 1,8 mil milhões de estrelas. Mostra o brilho total e a cor das estrelas observadas pelo Gaia, divulgados como parte do EDR3 (Early Data Release 3) do Gaia em dezembro de 2020.
Crédito: satélite - ESA/ATG medialab; Via Láctea - ESA/Gaia/DPAC; reconhecimento - A. Moitinho
 

Embora as observações científicas tenham chegado ao fim, começa agora um curto período de testes tecnológicos. Os testes têm o potencial de melhorar ainda mais as calibrações do Gaia, aprender mais sobre o comportamento de certas tecnologias após dez anos no espaço e até ajudar no design de futuras missões espaciais.

Após várias semanas de testes, o Gaia deixará a sua órbita atual em torno do ponto L2 de Lagrange, a 1,5 milhões de km da Terra na direção oposta ao Sol, para ser colocado na sua órbita heliocêntrica final, longe da esfera de influência da Terra. A nave espacial será desativada no dia 27 de março de 2025, para evitar qualquer dano ou interferência com outras naves espaciais.

Diga adeus ao observatório Gaia

Durante os testes tecnológicos, a orientação do Gaia será alterada, o que significa que se tornará temporariamente várias magnitudes mais brilhante, facilitando em muito as observações através de pequenos telescópios (não será visível a olho nu). Foi criado um guia para localizar o Gaia e os astrónomos amadores estão convidados a partilhar as suas observações.

"O Gaia vai presentear-nos com esta última surpresa quando nos despedirmos, brilhando entre as estrelas antes da sua merecida reforma", conclui Uwe Lammers, gestor da missão Gaia. "É um momento para celebrar esta missão transformadora e agradecer a todas as equipas por mais de uma década de trabalho árduo a operar o Gaia, a planear as suas observações e a garantir que os seus preciosos dados são transmitidos sem problemas para a Terra".

 

// ESA (comunicado de imprensa)
// Localize o Gaia (guia da ESA para astrónomos amadores)
// Os testes de tecnologia do Gaia (ESA)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
13/08/2024 - Gaia deteta possíveis luas em redor de centenas de asteroides
25/06/2024 - Cientistas avistam companheiras "escondidas" de estrelas brilhantes
11/06/2024 - Gaia: a última grande colisão da Via Láctea ocorreu há relativamente pouco tempo
19/04/2024 - Identificado o buraco negro estelar mais massivo da nossa Galáxia descoberto até à data
26/03/2024 - Gaia revela duas antigas correntes estelares da Via Láctea
22/12/2023 - A década de descobertas do Gaia: desvendando as complexidades da nossa Galáxia
13/04/2023 - Confirmada a presença de um planeta em torno de uma estrela "oscilante" recorrendo a dados do Gaia-Hipparcos
04/04/2023 - Gaia descobre uma nova família de buracos negros
06/03/2020 - Gaia sugere que distorção da Via Láctea foi provocada por colisão galáctica
02/11/2018 - Astrónomos descobrem o gigante que moldou os primórdios da Via Láctea

Gaia:
ESA
Página da ESA para a comunidade científica
Arquivo de dados do Gaia (ESA)
Wikipedia

Via Láctea:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
SEDS

Anã de Sagitário:
SolStation.com
Wikipedia

Gaia-Salsicha-Encélado:
Wikipedia

Gaia BH1:
Simbad
Wikipedia

Gaia BH2:
Simbad
Wikipedia

Gaia BH3:
Simbad
Wikipedia

Buracos negros:
Wikipedia
Buraco negro de massa estelar (Wikipedia)

61 Cygni:
Wikipedia

 
   
 
 
 
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