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  Astroboletim #1860  
  04/01 a 06/01/2022  
     
 
Efemérides

Dia 04/01: 4.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1610, os dias entre 4 e 15 de janeiro foram possivelmente os mais importantes da história da Astronomia.

Galileu Galilei aponta o seu telescópio ao céu e observa crateras e montanhas na Lua, manchas em movimento no Sol, quatro luas à volta de Júpiter, as fases de Vénus e as estrelas da Via Láctea.
Em 1958, o Sputnik 1 cai para a Terra a partir de órbita.
Em 1959, a Luna 1 torna-se na primeira sonda a chegar à vizinhança da Lua.
Em 2004, o rover Spirit da NASA aterra com sucesso em Marte.
Observações: A fina Lua Crescente brilha para baixo e para a esquerda do planeta Saturno, ambos baixos a sudoeste após o pôr-do-Sol.

Dia 05/01: 5.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1969, lançamento da sonda soviética Venera 5.

Chega a Vénus no dia 16 de maio de 1969. Antes de se fragmentar na atmosfera, a cápsula foi suspensa por um pára-quedas durante 53 minutos enquanto recolhia dados da atmosfera venusiana. A sonda também transportava um medalhão com os símbolos da antiga União Soviética.
Em 2005, Éris, o mais massivo planeta anão conhecido do Sistema Solar, é descoberto pela equipa científica de Michael E. BrownChad Trujillo e David L. Rabinowitz, usando imagens obtidas originalmente a 21 de outubro de 2003, no Observatório Palomar.
Observações: Esta noite a Lua está para baixo do planeta Júpiter.
Sirius brilha baixa a este-sudeste após a hora de jantar. Procyon, a estrela mais brilhante de Cão Menor, brilha para a esquerda de Sirius a cerca de dois punhos à distância do braço esticado. Se vive perto da latitude 30º N, as duas estrelas caninas estarão à mesma altura acima do seu horizonte pouco depois de nascerem. Se estiver a norte dessa latitude, Procyon estará mais alta. Se estiver a sul, Sirius será a estrela mais alta das duas.

Dia 06/01: 6.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1912, o geofísico alemão Alfred Wegener apresenta pela primeira vez a sua teoria da deriva continental.

Observações: Depois da hora de jantar, o enorme complexo de Andrómeda-Pégaso vai do zénite até ao horizonte a oeste.
Perto do zénite, aviste o pé alto de Andrómeda, Gamma Andromedae (Almach), de magnitude 2, ligeiramente laranja. Andrómeda apoia-se na sua cabeça, sobre o Grande Quadrado de Pégaso. O Grande Quadrado está a meio do caminho entre o zénite e o horizonte a oeste, apoiado num canto. Marte brilha para a esquerda do canto mais baixo.
A partir do canto inferior do Quadrado, siga as estrelas que compõem o pescoço e a cabeça de Pégaso, terminando no seu nariz: a estrela de segunda magnitude, Enif, para oeste e também um pouco alaranjada.

 
 
   
Podem formas de vida neutralizar ácido e criar regiões habitáveis nas nuvens de Vénus?

É difícil imaginar um mundo mais inóspito do que o nosso vizinho planetário mais próximo. Com uma espessa atmosfera de dióxido de carbono e uma superfície suficientemente quente para derreter chumbo, Vénus é um deserto infernal e sufocante onde a vida, tal como a conhecemos, não poderia sobreviver. As nuvens do planeta são igualmente hostis, cobrindo o planeta com gotículas de ácido sulfúrico, cáustico o suficiente para queimar um buraco na pele humana.

No entanto, um novo estudo suporta a ideia de longa data de que, a existir vida, poderá ter um lar nas nuvens de Vénus. Os autores do estudo, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), da Universidade de Cardiff e da Universidade de Cambridge, identificaram um percurso químico pelo qual a vida poderia neutralizar o ambiente ácido de Vénus, criando uma região auto-sustentável e habitável nas nuvens.

 
Impressão de artista da biosfera aérea nas camadas de nuvens da atmosfera de Vénus. Nesta imagem, a hipotética vida microbiana nas nuvens de Vénus reside no interior de partículas protectoras nas nuvens e é transportada pelos ventos ao redor do planeta.
Crédito: J. Petkowska
 

Os cientistas há muito tempo que observam anomalias enigmáticas na atmosfera de Vénus - assinaturas químicas difíceis de explicar, tais como pequenas concentrações de oxigénio e partículas não esféricas, ao contrário das gotas redondas de ácido sulfúrico. Talvez o maior dos enigmas seja a presença de amoníaco, um gás que foi detetado hesitantemente na década de 1970, e que por todos os relatos não deveria ser produzido através de qualquer processo químico conhecido em Vénus.

No seu novo estudo, os investigadores modelaram um conjunto de processos químicos para mostrar que se o amoníaco estiver, de facto, presente, desencadearia uma cascata de reações químicas que neutralizariam as gotículas de ácido sulfúrico e poderiam também explicar a maioria das anomalias observadas nas nuvens de Vénus. Quanto à fonte de amoníaco propriamente dita, os autores propõem que a explicação mais plausível é de origem biológica, e não uma fonte não biológica, como relâmpagos ou erupções vulcânicas.

Como escrevem no seu estudo, a química sugere que "a vida pode estar a fazer o seu próprio ambiente em Vénus."

Esta nova hipótese tentadora é testável e os investigadores fornecem uma lista de assinaturas químicas para futuras missões medirem nas nuvens de Vénus, quer para confirmar quer para contradizer a sua ideia.

"Nenhuma vida que conhecemos poderia sobreviver nas gotículas de Vénus," diz a coautora do estudo Sara Seager, professora de Ciências Planetárias no Departamento de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias do MIT. "Mas o ponto a salientar é que talvez exista lá vida e que esta está a modificar o seu ambiente para que seja habitável."

Os coautores do estudo incluem Janusz Petkowski, William Bains e Paul Rimmer, afiliados ao MIT, à Universidade de Cardiff e à Universidade de Cambridge.

"Vida em Vénus" foi uma frase em voga em 2020 quando cientistas, incluindo Seager e os seus coautores, relataram a deteção de fosfina nas nuvens do planeta. Na Terra, a fosfina é um gás que é produzido principalmente através de interações biológicas. A descoberta de fosfina em Vénus deixa espaço para a possibilidade de vida. No entanto, desde então a descoberta tem sido amplamente contestada.

"A deteção de fosfina acabou por tornar-se incrivelmente controversa," disse Seager. "Mas a fosfina foi como uma porta de entrada, tem havido este ressurgimento no estudo de Vénus."

Inspirado para olhar mais de perto, Rimmer começou a vasculhar os dados de missões passadas a Vénus. Nestes dados, identificou anomalias, ou assinaturas químicas, nas nuvens que tinham permanecido inexplicadas durante décadas. Além da presença de oxigénio e de partículas não esféricas, as anomalias incluíam níveis inesperados de vapor de água e de dióxido de enxofre.

Rimmer propôs que as anomalias pudessem ser explicadas por poeira. Ele argumentou que os minerais, tranportados da superfície de Vénus até às nuvens, podiam interagir com o ácido sulfúrico para produzir algumas anomalias observadas, embora não todas. Ele mostrou que a química era válida, mas os requisitos físicos eram impraticáveis: uma enorme quantidade de poeira teria que ser depositada nas nuvens para produzir as anomalias observadas.

Seager e colegas perguntaram-se se as anomalias poderiam ser explicadas pelo amoníaco. Na década de 1970, o gás foi hesitantemente detetado nas nuvens do planeta pelas sondas Venera 8 e Pioneer Venus. A presença de amoníaco, ou NH3, era um mistério não resolvido.

"Não deveria existir amoníaco em Vénus," diz Seager. "Contém hidrogénio e há muito pouco hidrogénio. Qualquer gás que não pertença ao contexto do seu ambiente é automaticamente suspeito de ter origem biológica."

Se a equipa assumisse que a vida era a fonte do amoníaco, poderia isto explicar as outras anomalias nas nuvens de Vénus? Os cientistas modelaram uma série de processos químicos em busca de uma resposta.

Eles descobriram que se a vida produzisse amoníaco da forma mais eficiente possível, as reações químicas associadas produziriam naturalmente oxigénio. Uma vez presente nas nuvens, o amoníaco dissolver-se-ia em gotículas de ácido sulfúrico, efetivamente neutralizando o ácido para tornar as gotículas relativamente habitáveis. A introdução de amoníaco nas gotículas transformaria a sua forma anteriormente redonda, líquida, numa forma mais não esférica. Uma vez o amoníaco dissolvido em ácido sulfúrico, a reação desencadearia qualquer dióxido de enxofre a dissolver-se também.

A presença de amoníaco poderia então, de facto, explicar a maioria das principais anomalias observadas nas nuvens de Vénus. Os investigadores também mostraram que fontes como relâmpagos, erupções vulcânicas e mesmo impactos de meteoritos não poderiam produzir quimicamente a quantidade de amoníaco necessária para explicar as anomalias. A vida, no entanto, poderia.

De facto, a equipa salienta que existem formas de vida na Terra - particularmente nos nossos próprios estômagos - que produzem amoníaco para neutralizar e tornar habitável um ambiente de outro modo altamente ácido.

"Há ambientes muito ácidos na Terra onde a vida impera, mas nada como o ambiente em Vénus - a não ser que a vida esteja a neutralizar algumas destas gotículas," diz Seager.

Os cientistas podem ter a oportunidade de verificar a presença de amoníaco, e de sinais de vida, nos próximos anos com um conjunto de missões propostas recorrendo a financiamento privado, das quais Seager é a investigadora principal, que planeiam enviar naves espaciais para Vénus para medir as suas nuvens de amoníaco e outras possíveis assinaturas de vida.

"Vénus tem anomalias atmosféricas persistentes, inexplicáveis, que são incríveis," comenta Seager. "Deixa espaço para a possibilidade de vida."

// MIT (comunicado de imprensa)
// Universidade de Cardiff (comunicado de imprensa)
// Universidade de Cambridge (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (PNAS)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

CCVAlg - Astronomia:
29/01/2021 - Novo estudo mostra que a suposta fosfina em Vénus é provavelmente dióxido de enxofre
15/09/2020 - Descoberto possível marcador de vida em Vénus

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Vénus:
CCVAlg - Astronomia 
Wikipedia

 
   
Astrónomos capturam erupção de buraco negro que se estende por 16 Luas Cheias no céu

Os astrónomos produziram a imagem mais compreensiva da emissão de rádio do buraco negro supermassivo, em alimentação ativa, mais próximo da Terra.

A emissão é alimentada por um buraco negro central na galáxia Centauro A, a cerca de 12 milhões de anos-luz de distância.

 
Centauro A é uma gigante galáxia ativa elíptica a 12 milhões de anos-luz de distância. No seu coração encontra-se um buraco negro com uma massa de 55 milhões de sóis. Esta imagem mostra a galáxia no rádio, revelando vastos lóbulos de plasma que vão muito além da galáxia visível, que ocupa apenas uma pequena mancha no centro da imagem. Os pontos no plano de fundo não são estrelas, mas radiogaláxias muito semelhantes a Centauro A, a distâncias muito maiores.
Crédito: Ben McKinley, ICRAR/Curtin e Connor Matherne, Universidade Estatal do Louisiana

 

À medida que o buraco negro se alimenta de gás em queda, ejeta material a uma velocidade próxima da luz, fazendo com que "bolhas de rádio" cresçam ao longo de centenas de milhões de anos.

Quando vista a partir da Terra, a erupção de Centauro A estende-se agora oito graus no céu - o comprimento de 16 Luas Cheias colocadas lado a lado.

A imagem foi capturada usando o telescópio MWA (Murchison Widefield Array) no "outback" da Austrália Ocidental.

A investigação foi publicada na revista Nature Astronomy.

 
O componente 107, ou o "Outlier", como é conhecido, um dos 256 do MWA, localizado a 1,5 km do núcleo do telescópio. O MWA é um instrumento precursor do SKA.
Crédito: Pete Wheeler, ICRAR
 

O autor principal Dr. Benjamin McKinley, do polo da Universidade Curtin do ICRAR (International Centre for Radio Astronomy Research), disse que a imagem revela novos detalhes espetaculares da emissão rádio da galáxia.

"Estas ondas de rádio vêm do material que está a ser sugado para o buraco negro supermassivo no centro da galáxia," disse.

"Forma um disco à volta do buraco negro e à medida que a matéria é rasgada perto do buraco negro, poderosos jatos formam-se em cada lado do disco, ejetando a maior parte do material de volta para o espaço, para distâncias provavelmente superiores a um milhão de anos-luz.

"As observações anteriores, no rádio, não conseguiam lidar com o brilho extremo dos jatos e os detalhes da área maior, à volta da galáxia, eram distorcidos, mas a nossa nova imagem ultrapassa estas limitações."

Centauro A é a radiogaláxia mais próxima da nossa Via Láctea.

"Podemos aprender muito com Centauro A em particular, só porque está tão perto e podemos vê-la com tanto detalhe," disse o Dr. McKinley.

"Não apenas no rádio, mas também em todos os comprimentos de onda do espetro eletromagnético.

"Nesta investigação conseguimos combinar as observações de rádio com dados óticos e de raios-X, para nos ajudar a compreender melhor a física destes buracos negros supermassivos."

 
Centauro A é uma gigante galáxia ativa elíptica a 12 milhões de anos-luz de distância. No seu coração encontra-se um buraco negro com uma massa de 55 milhões de sóis. Esta composição mostra a galáxia e o espaço intergaláctico circundante em vários comprimentos de onda. O plasma, no rádio, é exibido a azul e parece interagir com gás quente, emissor de raios-X (laranja) e com o hidrogénio neutro frio (roxo). As nuvens que emitem H-alpha (vermelho) são também mostradas por cima da parte ótica principal da galáxia que se encontra entre as duas mais brilhantes manchas de rádio. O "fundo" está em comprimentos de onda visíveis, mostrando estrelas na nossa própria Via Láctea que estão, de facto, em primeiro plano.
Crédito: Connor Matherne, Universidade Estatal do Louisiana (ótico/H-alpha), Kraft et al. (raios-X), Struve et al. (HI), Ben McKinley, ICRAR/Curtin (rádio)
 

O Dr. Massimo Gaspari, astrofísico do INAF (Instituto Nacional de Astrofísica, Itália), disse que o estudo corroborou uma teoria nova conhecida como CCA (Chaotic Cold Accretion), que está a emergir em diferentes campos.

"Neste modelo, nuvens de gás frio condensam-se no halo galáctico e 'chovem' sobre as regiões centrais, alimentando o buraco negro supermassivo," disse.

"Desencadeado por esta chuva, o buraco negro reage vigorosamente, lançando energia através de jatos de rádio que 'insuflam' os lóbulos espetaculares visto na imagem obtida pelo MWA. Este estudo é um dos primeiros a analisar com tanto detalhe o 'clima' CCA multifásico em toda a gama de escalas," concluiu o Dr. Gaspari.

O Dr. McKinley disse que a galáxia parece mais brilhante no centro, onde é mais ativa e onde há muita energia.

"Depois é mais fraca à medida que nos afastamos, porque a energia perde-se e as coisas 'assentam'," realça.

"Mas há características interessantes onde as partículas carregadas reaceleram e estão a interagir com fortes campos magnéticos."

O professor Steven Tingay, diretor do MWA, disse que a investigação foi possível devido ao campo de visão extremamente amplo do telescópio, à sua excelente localização e à sua excelente sensibilidade.

"O MWA é um precursor do SKA (Square Kilometre Array) - uma iniciativa global para construir os maiores radiotelescópios do mundo na Austrália Ocidental e na África do Sul," disse.

"O vasto campo de visão e, como consequência, a extraordinária quantidade de dados que podemos recolher, significa que o potencial de descoberta de cada observação do MWA é muito elevado. Isto proporciona um fantástico passo em direção ao ainda maior SKA."

// ICRAR (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Centauro A (ICRAR via vimeo)

 


Saiba mais

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Centauro A:
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Radiogaláxia:
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Buraco negro supermassivo:
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Núcleo galáctico ativo:
Wikipedia

MWA (Murchison Widefield Array):
Página principal
Wikipedia

SKA (Square Kilometre Array):
Página internacional
Wikipedia

ICRAR:
Página principal

 
   
Álbum de fotografias - A Longa Cauda do Cometa Leonard
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Jan Hattenbach
 
Não conseguimos ver a cauda extremamente longa do Cometa Leonard com um telescópio - é simplesmente demasiado longa. Também não a podemos observar com binóculos - ainda é demasiado longa. Ou à vista desarmada - é demasiado fraca. Ou a partir de uma cidade - o céu é demasiado brilhante. Mas a partir de um local escuro com um horizonte desimpedido - uma câmara pode conseguir. E ainda poderá - caso o cometa sobreviva ao encontro mais próximo do Sol, que ocorre entre as órbitas de Mercúrio e Vénus. A imagem em destaque foi criada a partir de duas exposições profundas e de grande angular obtidas a partir de La Palma, nas Ilhas Canárias, Espanha, no final do mês passado. Se sobreviver, o que restar do núcleo do Cometa Leonard sairá do nosso Sistema Solar, para nunca mais voltar.
 
   
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