Dia 28/01: 28.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1608 nascia Giovanni Alfonso Borelli, físico e matemático italiano e renascentista. Contribuiu para o princípio moderno da investigação científica através da continuação do costume de Galileu, de testar hipóteses contra observações. Fez também estudos prolongados das luas de Júpiter.
Em 1611, nascia Johannes Hevelius, que seria o primeiro astrónomo a observar as fases de Mercúrio.
Hevelius também ganhou reputação como "fundador da topografia lunar" e descreveu dez novas constelações, sete das quais são ainda hoje reconhecidas pelos astrónomos. Morreria neste mesmo dia em 1687, quando fazia 76 anos.
Em 1612, Galileu observa pela primeira vez o planeta Neptuno, confundindo-o com uma estrela 233 anos antes da sua descoberta.
Em 1622 nascia Adrien Auzout, astrónomo francês que fez observações de cometas e argumentou a favor das suas órbitas elípticas ou parabólicas. Foi um dos membros fundadores do Observatório de Paris.
Em 1986, o vaivém espacial Challenger explode 73 segundos depois de descolar. A tripulação inteira morre: Francis Scobee, Michael Smith, Judith Resnik, Ellison Onizuka, Ronald McNair, Gregory Jarvis e Sharon Christa McAuliffe. Observações: Logo após o anoitecer, volte-se para este e procure, bem alta, a estrela capella. Para a sua direita, a dois dedos à distância do braço esticado, está um pequeno e estreito triângulo de estrelas de 3.ª e 4.ª magnitudes conhecido como "As Crianças". Não são propriamente notáveis, mas formam um bonito asterismo com Capella.
Dia 29/01: 29.º dia do calendário gregoriano. Observações: Pouco depois do cair da noite, aviste o equilátero Triângulo de Inverno a sudeste. Sirius é a estrela mais brilhante e mais baixa do triângulo. Betelgeuse encontra-se para cima de Sirius a cerca de dois punhos à distância do braço esticado. Para a esquerda do seu ponto médio está Procyon.
Consegue discernir as suas cores? Sirius (tipo espectral Ao) é branca, Betelgeuse (M2) é laranja pálida, e Procyon (F5) é muito mais pálida de tom amarelo-esbranquiçada.
E, a mais ou menos 4º para cima de Procyon está a estrela de terceira magnitude, Gomeisa (Beta Canis Minoris), a outra única estrela visível a olho nu da constelação de Cão Menor.
Dia 30/01: 30.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1964, era lançada a sonda Ranger 6 da NASA.
A sua missão era filmar a Lua televisivamente até se despenhar sobre ela.
Em 2013, o Naro-1 torna-se o primeiro veículo de lançamento da Coreia do Sul. Observações: Assim que anoitecer, aviste o Triângulo de Inverno a sudeste. Sirius é a estrela mais brilhante e também a mais baixa. Betelgeuse fica acima de Sirius a cerca de dois punhos à distância do braço esticado. Para a esquerda do ponto intermédia entre as duas estrelas está Procyon.
Dia 31/01: 31.º dia do calendário gregoriano. História: Em 1862, Alvan Graham Clark Jr. descobre a ténue companheira de Sirius, de nome Sirius B, durante testes de um refrator de 18 polegadas que estava a ser construído para o Observatório Dearborn pelo seu pai, irmão, e por ele próprio. Friedrich Bessel propôs a existência de uma companheira invisível em 1844.
Em 1961, era lançada a Mercury-Redstone 2 - com o chimpanzé Ham a bordo.
Foi o primeiro hominídeo no espaço.
Em 1966, lançamento da soviética Luna 9. Realizou a primeira aterragem com sucesso noutro corpo planetário.
Em 1971, lançamento da Apollo 14, a terceira missão tripulada à Lua.
Em 1996, era descoberto o cometa Hyakutake pelo astrónomo amador japonês, Yuji Hiakutake. Observações: Orionte, bem alta para cima e para a direita de Sirius, é a mais brilhante das 88 constelações. Mas o seu padrão principal é surpreendentemente pequeno em comparação com algumas das vizinhas mais ténues. A maior é Erídano, o Rio, para oeste, enorme mas difícil de traçar. A Fornalha, para baixo e para a direita de Erídano, é quase tão grande quanto Orionte! Até o padrão principal de Lebre, por baixo dos pés de Orionte, não é assim muito mais pequeno que o do Caçador.
MRO descobre que água fluiu em Marte durante mais tempo do que se pensava
Marte já esteve repleto de rios e lagos há milhares de milhões de anos, fornecendo um potencial habitat para a vida microbiana. À medida que a atmosfera do planeta foi ficando mais fina, essa água evaporou-se, deixando o mundo gelado e desértico que a sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) da NASA estuda hoje em dia.
Pensa-se que a água de Marte evaporou há cerca de 3 mil milhões de anos. Mas duas cientistas que estudam os dados que a MRO acumulou em Marte ao longo dos últimos 15 anos encontraram evidências que reduzem significativamente essa linha temporal: a sua investigação revela sinais de água líquida no Planeta Vermelho tão recentemente quanto há 2 mil milhões a 2,5 mil milhões de anos, o que significa que a água fluiu aí cerca de mil milhões de anos mais do que as estimativas anteriores.
A sonda MRO da NASA utilizou o seu instrumento CTX (Context Camera) para capturar esta imagem de Bosporos Planum, um local em Marte. As manchas brancas são depósitos de sal encontrados dentro de um canal seco. A maior cratera de impacto na paisagem tem quase 1,5 quilómetros de diâmetro.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS
Os resultados - publicados na revista AGU Advances - centram-se nos depósitos de sais minerais de cloreto deixados para trás à medida que água no estado sólido, que derreteu e que fluiu pela superfície, se evaporava.
Embora a forma de certas redes de vales tenha sugerido que a água pode ter percorrido Marte assim tão recentemente, os depósitos de sal fornecem as primeiras evidências minerais que confirmam a presença de água líquida. A descoberta levanta novas questões sobre quanto tempo a vida microbiana poderia ter sobrevivido em Marte, se é que alguma vez se formou. Na Terra, pelo menos, onde há água, há vida.
A autora principal do estudo, Ellen Leask, realizou grande parte da sua investigação como parte do seu trabalho de doutoramento no Caltech em Pasadena, EUA. Ela e Bethany Ehlmann, professora na mesma instituição de ensino, usaram dados do instrumento CRISM (Compact Reconnaissance Imaging Spectrometer for Mars) da MRO para mapear os sais de cloreto nas terras altas e ricas em argila do hemisfério sul de Marte - terreno marcado por crateras de impacto. Estas crateras foram uma das chaves para datar os sais: quanto menos crateras tiver um terreno, mais jovem ele é. Ao contar o número de crateras numa área da superfície, os cientistas podem estimar a sua idade.
A MRO tem duas câmaras que são perfeitas para este fim. A CTX (Context Camera), com a sua lente de grande angular a preto e branco, ajuda os cientistas a mapear a extensão dos cloretos. Para fazer zoom, os cientistas recorrem à câmara a cores HiRISE (High-Resolution Imaging Science Experiment), que lhes permite ver detalhes tão pequenos quanto um rover marciano a partir do espaço.
Usando ambas as câmaras para criar mapas digitais de elevação, Leask e Ehlmann descobriram que muitos dos sais se encontravam em depressões - outrora o lar de lagos pouco profundos - ou em planícies vulcânicas suavemente inclinadas. As cientistas também encontraram canais sinuosos e secos nas proximidades - antigos riachos que alimentavam o escoamento superficial (do derretimento ocasional de gelo ou pergelissolo) para estes lagos. A contagem das crateras e as evidências de sais no topo do terreno vulcânico permitiram-lhes datar os depósitos.
"O que é espantoso é que depois de mais de uma década a fornecer imagens de alta resolução, em estéreo e dados infravermelhos, a MRO impulsionou novas descobertas sobre a natureza e o tempo destes antigos lagos salgados ligados a rios," disse Ehlmann, investigadora principal adjunta do CRISM. A sua coautora, Leask, é agora investigadora pós-doutorada no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, que lidera o CRISM.
Os sais minerais foram descobertos pela primeira vez há 14 anos pelo orbitador Mars Odyssey da NASA, que foi lançado em 2001. A MRO, que tem instrumentos de maior resolução do que a sonda Odyssey, foi lançada em 2005 e tem vindo a estudar desde então os sais, entre muitas outras características de Marte.
"Parte do valor da MRO é que a nossa visão do planeta continua a ficar mais detalhada ao longo do tempo," disse Leslie Tamppari, cientista adjunta do projeto MRO no JPL. "Quando mais do planeta for cartografado com os nossos instrumentos, melhor poderemos compreender a sua história."
Os astrónomos estão ansiosos por fazer um "test-drive" do Telescópio Espacial James Webb
A missão mais recente da NASA, da ESA e da CSA, o Telescópio Espacial James Webb (ou JWST - James Webb Space Telescope), lançado no dia de Natal, desdobrou o seu espelho de 6,5 metros há menos de 3 semanas e alcançou o seu destino orbital no início desta semana. Com este novo e moderno telescópio, agora quase uma realidade, os astrónomos de todo o mundo anseiam começar a observar.
Após meses de ansiedade sobre se o telescópio de 10 mil milhões de dólares - 25 anos em construção e o sucessor do famosíssimo Telescópio Espacial Hubble - sobreviveria sequer ao lançamento, quanto mais ao desdobramento no espaço, os astrónomos estão suficientemente confiantes para planear observações de galáxias próximas e de alguns dos nossos vizinhos mais próximos no Sistema Solar.
Esta impressão de artista do Telescópio Espacial James Webb no espaço mostra todos os elementos completamente finalizados. O telescópio estava "dobrado" para caber dentro do seu veículo de lançamento, e depois foi "desdobrado" lentamente ao longo de duas semanas. Crédito: NASA GSFC/CIL/Adriana Manrique Gutierrez
"Estou tão grato por ter sido lançado e por tudo parecer estar a funcionar. Penso que vai ser simplesmente incrível," disse Ned Molter, estudante de doutoramento da Universidade da Califórnia em Berkeley, que trabalha com a astrónoma Imke de Pater, que lidera uma das 13 equipas a quem foi dada a oportunidade de fazer observações iniciais com o JWST. "Falo por muitos de nós, quando digo que estamos simplesmente radiantes com este lançamento."
"Que belo presente de Natal ter o lançamento do Telescópio Espacial James Webb no dia de Natal," ecoou Dan Weisz, professor associado de astronomia em Berkeley, que lidera outra equipa premiada com tempo de observação como parte do programa DD-ERS (Director's Discretionary Early Release Science). "Todo o ano de 2022 vai ser uma extravagância. Na primeira parte do ano, vamos colocar o telescópio em pleno funcionamento, no início do verão e outono vamos começar a observar e depois publicar uma série de artigos sobre os primeiros resultados. Vai ser o ano do Webb. É fantástico."
Após o seu lançamento há pouco mais de um mês, no dia 25 de dezembro, o JWST começou a sua viagem pelo espaço até ao seu destino final, um ponto referido como L2: um local especial no Sistema Solar - um ponto de Lagrange - onde a atração gravitacional do telescópio, pela Terra, é exatamente equilibrada pela atração gravitacional do Sol. O JWST instalou-se em órbita de L2 na passada segunda-feira, 24 de janeiro, onde permanecerá para sempre, olhando para o cosmos do lado da Terra que está oposto ao Sol.
Comissionamento de seis meses
À medida que o telescópio viajava até esse ponto - a 1,5 milhões de quilómetros da Terra e quatro vezes mais longe da Terra do que a Lua - os cientistas começaram a alinhar o espelho primário, que é um aglomerado de 18 espelhos hexagonais e dourados, com o espelho secundário a fim de obter as imagens mais nítidas possíveis. Outros cientistas testaram os muitos instrumentos a bordo para se certificarem de que funcionam corretamente para registar a radiação infravermelha de objetos no espaço.
Após a fase de comissionamento de seis meses, 13 equipas escolhidas pela NASA vão fazer um "test-drive" do telescópio, utilizar os seus instrumentos visando objetos astronómicos que serão o foco principal dos cientistas durante os 10 anos de funcionamento planeados para o telescópio, e provavelmente durante muito mais tempo.
Dada a missão principal do JWST de estudar galáxias distantes e ténues exoplanetas, as observações planeadas por de Pater e pela sua equipa de mais ou menos 50 astrónomos podem parecer fora de carácter: vão apontar o telescópio a um dos objetos mais brilhantes do céu, Júpiter.
"Eles (NASA) queriam o envolvimento da comunidade astronómica para ver o que é viável, o que o Webb pode fazer e para realmente empurrá-lo aos limites," disse de Pater. "Tivemos a ideia de olhar para o sistema joviano, porque Júpiter é extremamente brilhante, mas ao lado do gigante gasoso, temos estes anéis incrivelmente fracos e alguns satélites muito ténues. Além disso, vamos olhar para características espectrais fracas em Io e Ganimedes enquanto estão eclipsados na sombra de Júpiter, uma experiência bastante desafiante uma vez que os dois corpos estarão muito próximos de Júpiter e invisíveis em comprimentos de onda visíveis. Achámos que seria uma proposta muito agradável olhar para estas grandes diferenças de luminosidade."
Durante as suas décadas de carreira, de Pater utilizou radiotelescópios e telescópios óticos e infravermelhos, tais como o par no Observatório W. M. Keck no Hawaii e o Telescópio Espacial Hubble, para estudar as atmosferas dos grandes planetas do nosso Sistema Solar, com particular atenção à grande tempestade de Júpiter, a Grande Mancha Vermelha; aos vulcões da lua de Júpiter, Io; à superfície gelada de outra lua joviana, Ganimedes; e aos anéis de Júpiter. Ela está particularmente ansiosa por tirar partido da capacidade do JWST em detetar luz no infravermelho médio, o que lhe dará acesso a diferentes camadas da atmosfera de Júpiter, aquelas que ela não tem sido capaz de explorar utilizando telescópios terrestres.
Uma imagem do Telescópio Espacial Hubble de luz solar (comprimentos de onda visíveis) reflectindo de nuvens na atmosfera de Júpiter. Com os detetores no infravermelho médio do Telescópio Webb, Imke de Pater e a sua equipa esperam ver mais fundo na Grande Mancha Vermelha.
Crédito:
NASA, ESA e Mike Wong da Universidade da Califórnia em Berkeley
"Esperamos descobrir mais sobre a dinâmica da Grande Mancha Vermelha e da aurora sobre o polo sul, e sobre a química e física da troposfera e da estratosfera," disse.
Molter, que espera terminar o seu doutoramento em agosto e permanecer com de Pater como pós-doutorado para trabalhar com o JWST, planeia usar o AMI (Aperture Masking Interferometer) do telescópio para estudar vulcões individuais em Io. Com novos dados no infravermelho médio, ele espera medir com precisão as temperaturas dos vulcões, o que permitirá a comparação com os vulcões na Terra.
Como estudante em 2017, esperava escrever a sua tese utilizando observações dos vulcões de Io pelo JWST, mas como a data de lançamento foi sendo cada vez mais adiada, ele optou por estudar as atmosferas de Úrano e Neptuno.
"Afastámo-nos da ciência de Io quando o Webb estava a ser tão atrasado," riu-se Molter. "Tive de me formar num determinado período de tempo, por isso encontrei outros projetos."
Formação de galáxias e matéria escura
Weisz e a sua equipa vão usar o tempo que lhes foi atribuído com o JWST para observar a Via Láctea e a suas galáxias satélites próximas. O interesse principal de Weisz é a formação de galáxias e, em particular, o papel da matéria escura - a substância ainda misteriosa que constitui 85% da matéria do Universo - na formação galáctica.
Ele e a sua equipa de cerca de 50 astrónomos estão concentrados em três alvos diferentes. Um é M92, um dos enxames globulares mais antigos da Via Láctea e um dos mais fotografados pelo Hubble. A esperança é que o JWST possa detetar as estrelas mais antigas e ténues e assim proporcionar uma idade mais precisa do enxame - prevendo o que o JWST poderá fazer por todos os mais de 100 enxames globulares da Via Láctea.
O Telescópio Espacial Hubble capturou muitas imagens de M92, incluindo esta ampliação em 2017. Uma "bola" de estrelas, chamada enxame globular, orbita o núcleo da nossa Galáxia como um satélite e é um dos enxames globulares mais brilhantes da Via Láctea. Dan Weisz da Universidade da Califórnia em Berkeley e a sua equipa irão seguir o movimento das estrelas fracas neste enxame utilizando o novo Telescópio Espacial James Webb.
Crédito: ESA/Hubble & NASA; Gilles Chapdelaine
Outro alvo é uma galáxia anã ultraténue - um satélite da Via Láctea a 98.000 anos-luz da Terra - que tem surpreendentemente pouca matéria normal e visível, mas que, ao invés, parece ser sobretudo matéria escura. O JWST deve ser capaz de detetar as estrelas muito fracas da galáxia e, com dados do Hubble, mapear os seus movimentos em 3D, permitindo aos astrónomos "pesar" com precisão a matéria escura e rastrear a sua distribuição, limitando algumas das teorias do que pode ser realmente a matéria escura.
Ainda mais distante - a 3,26 milhões de anos-luz - está uma galáxia formadora de estrelas que Weisz espera venha a testar a resolução do JWST, e talvez melhorar a escada de distâncias cósmicas utilizada para medir a expansão do Universo. Todos os três alvos vão exigir a exploração das capacidades não só do telescópio, mas também dos detetores que produzem os dados.
"Estamos a construir o software necessário para basicamente tirar as imagens do JWST e transformá-las em produtos de dados cientificamente úteis, como fluxos de radiação, luminosidades de estrelas individuais e galáxias e enxames na nossa Via Láctea e no Universo próximo," disse. "E depois, vamos divulgar todo o software de análise, os canais usados para os reduzir, os catálogos que vamos fazer - tudo isto vai ser tornado público assim que tivermos terminado, para que a comunidade possa imediatamente pegar em tudo isto e aplicá-lo nas suas observações ou no planeamento de propostas futuras."
Enquanto Weisz espera que o JWST ajude a avançar o seu campo de formação galáctica no Universo local e a refinar as medições de distâncias no cosmos, ele prevê que as maiores descobertas serão sobre o Universo inicial e sobre as condições em exoplanetas, que eram os objetivos primários da NASA para o JWST. Algumas questões-chave sobre a história do Universo e da vida no Universo poderão ser respondidas nos próximos anos - tudo isto potencialmente valendo o preço do JWST.
"Penso que o Webb recebeu muita atenção negativa devido ao seu custo de 10 mil milhões de dólares, quando era suposto apenas ser um par de mil milhões," disse Weisz. "Mas, em última análise, olhamos para isto e dizemos, 'bem, se vai agora durar 10, 15 anos, e se vai abrir janelas para exoplanetas e estrelas antigas no início do Universo, e dizer-nos como aqui chegámos, está realmente em sintonia com todas as outras coisas que as agências espaciais têm feito.' Olhamos para o JWST em termos do seu potencial de descoberta e pensamos que realmente tem um grande valor."
Astrónomos descobrem a primeira explosão de uma estrela Wolf-Rayet
Um estudo internacional, com a participação de investigadores do GTC (Gran Telescopio Canarias) filiados ao IAC (Instituto de Astrofísica de Canarias), descobriu uma estrela explosiva inédita que se pensava existir apenas na teoria. As descobertas foram publicadas na revista Nature.
Num passado não muito distante, a descoberta de uma supernova - uma estrela em explosão - era considerada uma ocasião rara. Hoje em dia, os instrumentos de medição e os avançados métodos de análise permitem detetar diariamente cinquenta destas explosões, o que também aumentou a probabilidade de os investigadores serem capazes de detetar tipos mais raros de explosões que até agora só existiam como construções teóricas.
Recentemente, uma equipa internacional de cientistas, liderada por Avishay Gal-Yam do Departamento de Física de Partículas e Astrofísica do Instituto Weizmann, descobriu uma supernova que nunca tinha sido observada antes. A explosão de uma estrela Wolf-Rayet, um tipo de estrela massiva altamente evoluída que perde uma grande quantidade de massa devido a ventos estelares intensos.
Infográfico sobre a nova descoberta de uma supernova de uma estrela Wolf-Rayet.
Crédito: Instituto Weizmann
Evolução das estrelas Wolf-Rayet
O núcleo de cada estrela é alimentado pela fusão nuclear, onde os núcleos de elementos mais leves se fundem para formar elementos mais pesados. A fusão de quatro núcleos de hidrogénio resulta na formação de um átomo de hélio, enquanto vários núcleos de hélio combinados resultam na formação de carbono, oxigénio e assim por diante. O último elemento que se irá formar naturalmente através da fusão nuclear é o ferro, que é o núcleo atómico mais estável. Em circunstâncias normais, a energia produzida no núcleo da estrela mantém temperaturas extremamente elevadas que provocam a expansão da sua matéria gasosa, preservando assim o fino equilíbrio com a força da gravidade, atraindo a massa da estrela para o seu centro. Quando a estrela fica sem elementos para fundir e deixa de produzir energia, este equilíbrio é perturbado, levando ou a um buraco negro que se abre no coração da estrela, provocando o colapso sob si própria, ou à explosão da estrela, que liberta os elementos pesados, fundidos durante a sua evolução, para o Universo.
A vida das estrelas massivas é considerada relativamente curta, alguns milhões de anos no máximo. O Sol, em comparação, tem uma esperança de vida de cerca de 10 mil milhões de anos. Os processos subsequentes de fusão nuclear no núcleo das estrelas massivas levam à sua estratificação, em que os elementos pesados se concentram no núcleo e gradualmente elementos mais leves compõem as camadas externas.
As estrelas Wolf-Rayet são estrelas particularmente massivas que não têm uma ou mais das camadas externas que são compostas por elementos mais leves. Desta forma, em vez do hidrogénio - o elemento mais leve - a superfície da estrela é caracterizada pela presença de hélio, ou mesmo de carbono e elementos mais pesados. Uma explicação possível para este fenómeno é que ventos fortes que sopram devido à alta pressão no invólucro da estrela, dispersam a sua camada mais externa, fazendo com que a estrela perca uma camada após a outra ao longo de várias centenas de milhares de anos.
Uma estrela Wolf-Rayet e a nebulosa que a rodeia, capturada pelo Telescópio Espacial Hubble. Gal-Yam e colegas são os primeiros a descobrir uma supernova originada por este tipo de estrela.
Crédito:
Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA
A primeira explosão estelar do seu tipo
Apesar da sua vida relativamente curta e do seu estado de desintegração progressiva, a análise do número sempre crescente de descobertas de supernovas levou à hipótese de que as estrelas Wolf-Rayet simplesmente não explodem - elas simplesmente colapsam silenciosamente em buracos negros - caso contrário, já teríamos sido capazes de observar uma. Esta hipótese, contudo, acabou de ser abalada devido à recente descoberta.
A análise espectroscópica da luz emitida pela explosão levou à descoberta de assinaturas espectrais que estão associadas a elementos específicos. Desta forma, os investigadores conseguiram demonstrar que a explosão continha átomos de carbono, oxigénio e néon, este último um elemento que ainda não tinha sido observado desta maneira em nenhuma supernova até à data. Além disso, os investigadores identificaram que a matéria que "jorrava" radiação cósmica não participou na explosão, mas que tinha origem no espaço que rodeava a estrela volátil. Isto, por sua vez, reforçou a sua hipótese a favor de ventos fortes que tomaram parte na remoção do invólucro externo da estrela.
Uma vez que esta observação é a primeira do seu género, Gal-Yam afirma que pode ser demasiado cedo para determinar inequivocamente o destino de todas essas estrelas. "Não podemos dizer, nesta fase, se todas as estrelas Wolf-Rayet terminam a sua vida com um estrondo ou não. Pode ser que algumas delas colapsem silenciosamente num buraco negro," diz.
Os investigadores estimam que a massa que se dispersou durante a explosão é provavelmente igual à massa do Sol ou à de uma estrela ligeiramente mais pequena; a estrela que explodiu era significativamente mais massiva - tendo pelo menos 10 vezes a massa do Sol, pelo que os cientistas se perguntam onde vai parar a maior parte da sua massa.
Gal-Yam sugere um cenário intermédio, em que ambos os possíveis destinos são cumpridos ao mesmo tempo: uma vez esgotada a fusão nuclear no núcleo da estrela, ocorre uma explosão que expele parte da massa para o espaço, enquanto a massa restante colapsa sob si própria, formando um buraco negro. "Uma coisa é certa," diz Gal-Yam, "este não é o colapso 'silencioso' frequentemente referido no passado."
O estudo utilizou observações feitas com diferentes telescópios, incluindo o GTC localizado no Observatório Roque de los Muchachos (Garafía, La Palma). Para Antonio Cabrera Lavers, chefe de operações científicas do GTC e investigador afiliado ao IAC que participou no estudo, "vale a pena mencionar que desde esta descoberta já foi observada outra explosão semelhante, o que implica que este fenómeno não é, de facto, uma ocorrência única."
David García Álvarez, coautor do artigo científico e astrónomo do GTC afiliado ao IAC, pensa que "é possível que quanto melhores forem os nossos instrumentos de deteção e medição, mais este tipo de explosão - hoje considerada rara e exótica - se tornará uma observação comum."
O operador do GTC, Antonio Marante Barreto, que também participou nas observações, acrescenta que "as supernovas podem parecer eventos colossais que acontecem longe, demasiado longe para terem impacto direto nas nossas vidas. Mas, verdade seja dita, estão no centro da própria vida. O planeta Terra e todas as suas várias e diversas formas de vida (incluindo nós) são o resultado de tal ocorrência."
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