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Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1894  
  03/05 a 05/05/2022  
     
 

Apresentação às Estrelas | Entre Eclipses
Data: 12 de maio de 2022
Hora: 20:30-22:30
Local: Centro Ciência Viva do Algarve
Estamos numa altura do ano propícia à ocorrência de eclipses! Vamos explicar o porquê disto, e falar no eclipse lunar que aí vem. Após a apresentação, e se a meteorologia for favorável, iremos observar o céu com telescópio.
Adulto: 4€
Jovem: 2€
Menores de 12 anos: gratuito.
A observação astronómica com telescópio depende de condições meteorológicas favoráveis.
Pré-inscrição: siga este link
Telefone: 289 890 920
E-mail: info@ccvalg.pt

 
     
 
Efemérides

Dia 03/05: 123.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1715, durante um eclipse na Inglaterra, Edmond Halley é o primeiro a registar o fenómeno mais tarde conhecido por Contas de Baily (há quem diga que Francis Baily foi o primeiro a notar estes efeitos mais tarde em 1836, daí o seu nome).

Também observa proeminências vermelhas e brilhantes e a assimetria este-oeste na coroa, que atribui a uma atmosfera na Lua ou no Sol. Este eclipse tinha sido previsto por Halley com uma precisão de 4 minutos.
Observações: Arcturo é a estrela mais brilhante alta a este por estas noites, de pálido tom amarelo-alaranjado. Espiga, azul-esbranquiçada, brilha para a direita de Arcturo a cerca de três punhos à distância do braço esticado. Para a direita de Espiga, a metade dessa distância, está a distintiva constelação de quatro estrelas, Corvo.
De volta a Arcturo. Forma a extremidade pontiaguda do asterismo "papagaio-de-papel" de Boieiro. O papagaio-de-papel é estreito e encontra-se de lado, para a esquerda de Arcturo. Mede 23º de comprimento, cerca de dois punhos à distância do braço esticado.

Dia 04/05: 124.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1989 era lançada a missão Magalhães para Vénus.

O seu objetivo era obter imagens de alta-resolução de toda a superfície do planeta. Tempo de duração da viagem: 1 ano, 3 meses e 6 dias. Depois uma missão carregada de êxitos, ordenou-se à sonda para penetrar na densa atmosfera do planeta a 11 de outubro de 1994.
Observações: A Lua Crescente encontra-se nos pés da figura de Castor. Mais uma vez, como o tem feito uma vez por mês há já algum tempo, a Lua forma um triângulo quase isósceles com as estrelas das pontas dos chifres de Touro: Beta e a mais ténue Zeta Tauri. Beta está 8º para baixo e para a direita da Lua; Zeta está mais diretamente para baixo do nosso satélite natural.

Dia 05/05: 125.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1961, Alan Shepard torna-se o primeiro norte-americano no espaço, a bordo da nave Freedom 7

O seu voo sub-orbital dura 15 minutos.
Observações:
Durante estas noites de primavera, a longa mas ténue serpente marinha, Hidra, desliza pelo céu a sul. Encontre a sua cabeça, um asterismo bem fraco com aproximadamente o tamanho do polegar à distância do braço esticado, para sudoeste (está para baixo e para a direita de Régulo, a cerca de dois punhos à distância do braço esticado. Também, uma linha de Castor, passando por Pollux, aponta para lá a cerca de 2,5 punhos à distância do braço esticado). Para baixo e para a esquerda está o coração de Hidra, a alaranjada Alphard. A cauda de Hidra estica-se até Balança a sudeste. O padrão atual de Hidra, desde a cabeça até à ponta da cauda, mede 95º. Corresponde a mais de um-quarto da esfera celeste.

 
 
   
Supernova revela segredos a equipa de astrónomos
 
A supernova conhecida como SN 2014C teve lugar há oito anos - mas os cientistas ainda estão a observar e a aprender com as suas consequências. A explosão, muito pouco visível, é mostrada no círculo vermelho.
Crédito: SDSS (Sloan Digital Sky Survey)
 

Uma equipa internacional de astrónomos liderada por Benjamin Thomas da Universidade do Texas em Austin utilizou observações do HET (Hobby-Eberly Telescope) no Observatório McDonald da mesma universidade para desvendar um mistério intrigante sobre uma explosão estelar descoberta há vários anos e que ainda está a evoluir. Os resultados, publicados na revista The Astrophysical Journal, vão ajudar os astrónomos a compreender melhor o processo de como as estrelas massivas vivem e morrem.

Quando uma explosão estelar é detetada pela primeira vez, os astrónomos de todo o mundo começam a segui-la com telescópios à medida que a luz que emite muda rapidamente ao longo do tempo. Eles veem a luz de uma supernova ficar mais brilhante, eventualmente com o seu pico, e depois começa a escurecer. Ao observar os tempos destes picos e vales no brilho da luz, chamado "curva de luz", bem como os comprimentos de onda característicos da luz emitida em diferentes momentos, podem deduzir as características físicas do sistema.

"Penso que o que é realmente interessante neste tipo de ciência é que estamos a olhar para a emissão que vem da matéria que foi lançada do sistema progenitor antes de explodir como uma supernova," disse Thomas. "E assim isto torna-se numa espécie de máquina do tempo."

No caso da supernova 2014C, a progenitora era uma estrela binária, um sistema em que duas estrelas se orbitavam uma à outra. A estrela mais massiva evoluiu mais rapidamente, expandiu-se e perdeu o seu manto exterior de hidrogénio para a estrela companheira. O núcleo interno da primeira estrela continuou a queimar elementos químicos mais leves em elementos mais pesados, até ficar sem combustível. Quando isso aconteceu, a pressão externa do núcleo, que tinha aguentado a grande massa da estrela, caiu. O núcleo da estrela entrou em colapso, provocando uma explosão gigantesca.

Isto produz um tipo de supernova que os astrónomos chamam de "Tipo Ib". Em particular, as supernovas do Tipo Ib caracterizam-se por não apresentarem qualquer hidrogénio no seu material ejetado, pelo menos no início.

Thomas e a sua equipa têm seguido SN 2014C com telescópios no Observatório McDonald desde a sua descoberta nesse ano. Muitas outras equipas de todo o mundo também a estudaram com telescópios no solo e no espaço, e em diferentes tipos de luz, incluindo ondas de rádio com o VLA (Very Large Array), no infravermelho e em raios-X pelo Observatório de raios-X Chandra.

Mas os estudos de SN 2014C de todos os vários telescópios não se traduziram numa imagem coesa de como os astrónomos pensavam que uma supernova de Tipo Ib se deveria comportar.

Por um lado, a assinatura ótica pelo HET mostrou que SN 2014C continha hidrogénio - um achado surpreendente que também foi descoberto independentemente por outra equipa utilizando um telescópio diferente.

"Para uma supernova do Tipo Ib começar a mostrar hidrogénio, é completamente estranho," disse Thomas. "Há apenas uma mão-cheia de eventos que se têm demonstrado serem semelhantes."

Por outro, o brilho ótico (curva de luz) desse hidrogénio estava a comportar-se de forma estranha.

 
Esquema da supernova 2014C.
Crédito: Thomas et al.; Universidade do Texas em Austin
 

A maioria das curvas de luz de SN 2014C - rádio, infravermelho e raios-X - seguiram o padrão esperado: ficaram mais brilhantes, atingiram um pico e depois começaram a cair. Mas a luz ótica do hidrogénio manteve-se estável.

"O mistério com que lutámos foi 'como encaixamos as nossas observações HET do hidrogénio e das suas características com a imagem [do Tipo Ib]?'," disse J. Craig Wheeler, professor da Universidade do Texas em Austin e membro da equipa.

O problema, percebeu a equipa, foi que os modelos anteriores deste sistema assumiram que a supernova tinha explodido e enviado a sua onda de choque de uma forma esférica. Os dados do HET mostraram que esta hipótese era impossível - algo mais deve ter acontecido.

"Apenas não caberia numa imagem esférica simétrica," disse Wheeler.

A equipa propõe um modelo onde os invólucros de hidrogénio das duas estrelas no sistema binário progenitor se fundiram para formar uma "configuração de invólucro comum", em que ambos estavam contidos numa única concha de gás. O par então expulsou esse invólucro numa estrutura em expansão, em forma de disco e em torno das duas estrelas. Quando uma das estrelas explodiu, o seu material expelido a alta velocidade colidiu com o disco de movimento lento, e também deslizou da superfície do disco a uma "camada de fronteira" de velocidade intermédia.

A equipa sugere que esta camada limite é a origem do hidrogénio que detetaram e depois estudaram durante sete anos com o HET.

Assim, os dados HET revelaram-se a chave que desvendou o mistério da supernova SN 2014C.

"Num sentido amplo, a questão de como as estrelas massivas perdem a sua massa é a grande questão científica que estávamos a perseguir," disse Wheeler. "Quanta massa? Onde está? Quando foi ejetada? Por que processo físico? Essas eram as grandes perguntas que procurávamos.

"E 2014C acabou por ser um acontecimento único realmente importante que está a ilustrar o processo," disse Wheeler.

// Universidade do Texas em Austin (comunicado de imprensa)
// Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

CCVAlg - Astronomia:
27/01/2017 - NuSTAR descobre novas pistas sobre "supernova camaleão"

Supernovas do Tipo Ib:
Wikipedia

Observatório McDonald:
Página oficial
Wikipedia

 
   
A atmosfera da Terra pode ser fonte de alguma água lunar

De acordo com novas investigações por cientistas do Instituto Geofísico da Universidade do Alaska Fairbanks, os iões de hidrogénio e oxigénio que escapam da atmosfera superior da Terra e se combinam na Lua podem ser uma das fontes de água e gelo lunares conhecidas.

O trabalho liderado por Gunther Kletetschka, professor associado, acrescenta a um corpo crescente de investigação sobre a água nos polos norte e sul da Lua.

Encontrar água é fundamental para o projeto Artemis da NASA, a planeada presença humana a longo prazo na Lua. A NASA planeia enviar humanos de volta à Lua nesta década.

 
A imagem mostra a distribuição de gelo superficial no polo sul (esquerda) e no polo norte (direita) da Lua, detetado pelo instrumento M3 (Moon Mineralogy Mapper) da NASA a bordo da sonda indiana Chandrayaan-1 em 2009. O azul representa as localizações de gelo, traçadas sobre uma imagem da superfície lunar, onde a escala cinzenta corresponde à temperatura da superfície (zonas mais escuras representando áreas mais frias e sombras mais claras indicando zonas mais quentes). O gelo está concentrado nos locais mais escuros e frios, nas sombras das crateras. Esta imagem foi a primeira vez que os cientistas observaram diretamente evidências de água gelada na superfície da Lua.
Crédito: NASA
 

"Dado que a equipa Artemis da NASA planeia construir uma base no polo sul da Lua, os iões de água que tiveram origem há muitos éones atrás na Terra podem ser usados no sistema de suporte de vida dos astronautas," disse Kletetschka.

A nova investigação estima que as regiões polares da Lua podem conter até 3500 quilómetros cúbicos ou mais de água gelada à superfície ou subsuperficial criada a partir de iões que escaparam à atmosfera da Terra. Trata-se de um volume comparável ao lago Huron da América do Norte, o oitavo maior lago do mundo.

Os investigadores basearam esse total no cálculo do modelo de volume mais baixo - 1% do escape atmosférico da Terra que alcança a Lua.

Pensa-se geralmente que a maioria da água lunar tenha sido depositada por asteroides e cometas que colidiram com a Lua. A maioria foi durante um período conhecido como Intenso Bombardeamento Tardio. Argumenta-se que nesse período, há cerca de 3,5 mil milhões de anos, quando o Sistema Solar tinha cerca de mil milhões de anos, os planetas interiores primitivos e a Lua da Terra sofreram impactos invulgarmente pesados por asteroides.

Os cientistas também teorizam que o vento solar possa ser uma fonte. O vento solar transporta iões de oxigénio e hidrogénio, que podem ter sido combinados e depositados na Lua como moléculas de água.

Agora há uma forma adicional de explicar como a água se acumula na Lua.

A investigação foi publicada dia 16 de março na revista Scientific Reports num artigo em coautoria com o estudante de doutoramento Nicholas Hasson do Instituto Geofísico e do Centro de Investigação da Água e do Ambiente da Universidade do Alaska Fairbanks. Vários colegas da República Checa estão também entre os coautores.

Kletetschka e colegas sugerem que os iões de hidrogénio e oxigénio são levados para a Lua quando esta passa pela cauda da magnetosfera da Terra, o que acontece em cinco dias da viagem mensal da Lua em torno do planeta. A magnetosfera é a bolha em forma de lágrima criada pelo campo magnético da Terra que protege o planeta de grande parte do fluxo contínuo de partículas solares carregadas.

Medições recentes de várias agências espaciais - NASA, ESA, JAXA e ISRO - revelaram números significativos de iões formadores de água presentes durante o trânsito da Lua através desta parte da magnetosfera.

Estes iões têm-se acumulado lentamente desde o Intenso Bombardeamento Tardio.

 
Este diagrama do trabalho de investigação de Gunther Kletetschka mostra a Lua a aproximar-se da magnetocauda da Terra.
Crédito: Gunther Kletetschka
 

A presença da Lua na cauda da magnetosfera, chamada magnetocauda, afeta temporariamente algumas das linhas do campo magnético da Terra - aquelas que são quebradas e que se arrastam simplesmente para o espaço durante muitos milhares de quilómetros. Nem todas as linhas do campo magnético da Terra estão ligadas ao planeta em ambas as extremidades; algumas têm apenas um ponto de ligação.

A presença da Lua na magnetocauda faz com que algumas destas linhas partidas de campo voltem a ligar-se com a sua contraparte oposta partida. Quando isso acontece, os iões de hidrogénio e oxigénio que escaparam à Terra correm para essas linhas de campo reconectadas e são acelerados de volta para a Terra.

Os autores do artigo sugerem que muitos desses iões que regressam atingem a Lua que passa, a qual não tem uma magnetosfera própria para os repelir.

"É como se a Lua estivesse no duche - um duche de iões de água que voltam para a Terra, caindo sobre a superfície da Lua," disse Kletetschka.

Os iões combinam-se então para formar o pergelissolo lunar. Parte, através de processos geológicos e outros, tais como impactos de asteroides, são conduzidos abaixo da superfície, onde podem tornar-se água líquida.

A equipa de investigação usou dados gravitacionais da sonda LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter) da NASA para estudar regiões polares juntamente com várias grandes crateras lunares. Anomalias em medições subterrâneas de crateras de impacto indicam locais de rocha fraturada conducentes a conter água líquida ou gelo. As medições de gravidade nesses locais subterrâneos sugerem a presença de gelo ou água líquida, lê-se no artigo científico.

A investigação mais recente baseia-se em trabalhos publicados em dezembro de 2020 por quatro dos autores do novo artigo, incluindo Kletetschka.

// Universidade do Alaska Fairbanks (comunicado de imprensa)
// Universidade Carolina de Praga (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Scientific Reports)

 


Saiba mais

Lua:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
Água lunar (Wikipedia)

LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter):
NASA
Wikipedia

Programa Artemis:
NASA
Wikipedia

 
   
A instabilidade no início do Sistema Solar

Seth Jacobson, da Universidade Estatal do Michigan, e colegas na China e na França revelaram uma nova teoria que pode ajudar a resolver um mistério galáctico de como o nosso Sistema Solar evoluiu. Especificamente, como é que os gigantes gasosos - Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno - acabaram onde estão, nas suas órbitas em torno do Sol.

A investigação também tem implicações no modo como planetas terrestres como a Terra se formaram e na possibilidade de um quinto gigante gasoso escondido a mais de 80 mil milhões de quilómetros de distância.

"O nosso Sistema Solar nem sempre teve o aspeto que tem hoje. Ao longo da sua história, as órbitas dos planetas mudaram radicalmente," disse Jacobson, professor assistente no Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente da Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Estatal do Michigan. "Mas podemos descobriu o que aconteceu."

A investigação, publicada dia 27 de abril na revista Nature, fornece uma explicação para o que aconteceu aos gigantes de gás noutros sistemas solares e no nosso.

 
Todas as estrelas, incluindo o nosso Sol, nasceram a partir de uma nuvem de gás e poeira. Esta nuvem também pode "semear" planetas que vão orbitar a estrela.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
 

O modelo de Nice

As estrelas nascem a partir de nuvens massivas e rodopiantes de gás e poeira cósmica. Assim que o Sol começou a brilhar, o Sistema Solar primitivo ainda tinha um disco primordial de gás que desempenhou um papel integral na formação e evolução dos planetas, incluindo os gigantes gasosos.

No final do século XX, os cientistas começaram a pensar que os gigantes de gás circulavam inicialmente o Sol em órbitas organizadas, compactas e uniformemente espaçadas. Júpiter, Saturno e os outros planetas gigantes, contudo, instalaram-se há muito tempo em órbitas relativamente oblongas, tortas e dispersas.

Assim, a questão para os investigadores agora é, porquê?

Em 2005, uma equipa internacional de cientistas propôs uma resposta a essa pergunta num trio de artigos de referência na revista Nature. A solução foi originalmente desenvolvida em Nice, França e é conhecida como o modelo de Nice. Afirma a existência de uma instabilidade entre estes planetas, um conjunto caótico de interações gravitacionais que eventualmente colocou os planetas nas suas órbitas atuais.

"Esta foi uma mudança gigante na forma como as pessoas pensavam sobre o Sistema Solar primitivo," disse Jacobson.

O modelo de Nice continua a ser uma explicação principal mas, nos últimos 17 anos, os cientistas encontraram novas questões a colocar sobre o que desencadeia a instabilidade no modelo de Nice.

Por exemplo, pensava-se originalmente que a instabilidade dos gigantes gasosos ocorreu centenas de milhões de anos após a dispersão daquele disco primordial de gás que deu origem ao Sistema Solar. Mas novas evidências, incluindo algumas encontradas nas rochas lunares recuperadas pelas missões Apollo, sugerem que isso aconteceu mais cedo. Isso também levanta novas questões sobre como o Sistema Solar interior, que hospeda a Terra, evoluiu.

Trabalhando com Beibei Liu da Universidade Zhejiang na China e Sean Raymond da Universidade de Bordéus na França, Jacobson ajudou a encontrar uma solução que tem a ver com a forma como a instabilidade começou. A equipa propôs um novo "gatilho".

"Penso que a nossa nova ideia poderia realmente relaxar muitas tensões no campo, porque o que propusemos é uma resposta muito natural para quando ocorreu a instabilidade dos planetas gigantes," disse Jacobson.

O novo "gatilho"

A ideia começou com uma conversa que Raymond e Jacobson tiveram em 2019. Eles teorizaram que os gigantes de gás podem ter sido colocados nas suas órbitas atuais devido à forma como o disco primordial de gás se evaporou. Isso poderia explicar como os planetas se espalharam muito mais cedo na evolução do Sistema Solar do que o modelo de Nice originalmente afirmou e talvez mesmo sem a instabilidade os empurrar para lá.

"Perguntámo-nos se o modelo de Nice era realmente necessário para explicar o Sistema Solar," disse Raymond. "Surgiu-nos a ideia de que os planetas gigantes poderiam eventualmente espalhar-se por um efeito de 'ricochete' à medida que o disco se dissipava, talvez sem nunca se tornar instável."

Raymond e Jacobson falaram então com Liu, pioneiro nesta ideia de efeito de "ricochete" através de extensas simulações de discos de gás e exoplanetas gigantes - planetas noutros sistemas solares - que orbitam perto das suas estrelas.

"A situação no nosso Sistema Solar é ligeiramente diferente porque Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno estão distribuídos em órbitas mais largas," disse Liu. "Após algumas iterações de sessões de 'brainstorming', tomámos consciência de que o problema poderia ser resolvido se o disco de gás se dissipasse de dentro para fora."

 
Renderização de artista que mostra um hipotético sistema solar precoce com uma jovem estrela a limpar um caminho no gás e poeira deixada pela sua formação. Esta ação de limpeza afetaria as órbitas dos gigantes gasosos que orbitam a estrela.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/T. Pyle (SSC)
 

A equipa descobriu que esta dissipação de dentro para fora proporcionava um "gatilho" natural para a instabilidade no modelo de Nice, disse Raymond.

"Acabámos por reforçar o modelo de Nice, em vez de o destruir," explicou. "Foi uma ilustração divertida de testar as nossas ideias pré-concebidas e de seguir os resultados, para onde quer que nos levassem."

Com o novo "gatilho", a imagem no início da instabilidade parece a mesma. Ainda temos um Sol nascente rodeado por uma nuvem de gás e poeira. Um punhado de jovens gigantes gasosos giram em torno da estrela em órbitas organizadas e compactas ao longo daquela nuvem.

"Todos os sistemas solares são formados num disco de gás e poeira. É um subproduto natural de como as estrelas se formam," disse Jacobson. "Mas à medida que o Sol é 'ligado' e começa a queimar o seu combustível nuclear, gera luz, aquecendo o disco e eventualmente soprando-o de dentro para fora."

Isto criou um buraco cada vez maior na nuvem de gás, buraco este centrado no Sol. À medida que o buraco crescia, a sua orla varria as órbitas de cada um dos gigantes gasosos. Esta transição leva à instabilidade necessária com uma probabilidade muito alta, de acordo com simulações computorizadas da equipa. O processo de deslocação destes planetas gigantes para as suas órbitas atuais também é rápido em comparação com a linha temporal original de centenas de milhões de anos do modelo de Nice.

"A instabilidade ocorre cedo, à medida que o disco gasoso do Sol se dissipa, limitada entre poucos milhões a 10 milhões de anos após o nascimento do Sistema Solar," disse Liu.

O novo "gatilho" também leva à mistura de material do Sistema Solar exterior e do Sistema Solar interior. A geoquímica da Terra sugere que tal mistura teve que ocorrer enquanto o nosso planeta ainda estava em formação.

"Este processo vai realmente 'agitar' o Sistema Solar interior e a Terra pode crescer a partir daí," disse Jacobson. "Isso é bastante consistente com as observações." A exploração da ligação entre a instabilidade e a formação da Terra é um tema de trabalho futuro para o grupo.

Finalmente, a nova explicação da equipa também se aplica a outros sistemas solares da nossa Galáxia onde os cientistas observaram gigantes gasosos a orbitar as suas estrelas em configurações como as que vemos no nosso.

"Somos apenas um exemplo de um sistema solar na nossa Galáxia," disse Jacobson. "O que estamos a mostrar é que a instabilidade ocorreu de forma diferente, mais universal e mais consistente."

O planeta 9 do espaço exterior

Embora o artigo da equipa não enfatize isto, Jacobson disse que o trabalho tem implicações para um dos debates mais populares e ocasionalmente acalorados sobre o nosso Sistema Solar: quantos planetas tem?

Atualmente a resposta é oito, mas ao que parece o modelo de Nice funciona ligeiramente melhor quando o Sistema Solar tinha cinco gigantes gasosos em vez de quatro. Infelizmente, de acordo com o modelo, aquele planeta extra foi "pontapeado" do nosso Sistema Solar durante a instabilidade, o que ajuda os restantes gigantes gasosos a alcançar as suas órbitas.

 
Impressão de artista do Planeta 9.
Crédito: ESO/Tom Ruen/nagualdesign
 

No entanto, em 2015, investigadores do Caltech encontraram evidências de que pode ainda haver um planeta por descobrir a cerca de 80 mil milhões de quilómetros do Sol, mais de 75 mil milhões de quilómetros para lá de Neptuno.

Ainda não existem evidências concretas de que este planeta hipotético - apelidado Planeta X ou Planeta 9 - ou de que o planeta "extra" do modelo de Nice realmente existam. Mas, a ser verdade, será que dizem respeito ao mesmo objeto?

Jacobson e colegas não conseguiram responder diretamente a esta pergunta com as suas simulações, mas conseguiram chegar à segunda melhor coisa. Sabendo que o "gatilho" da instabilidade reproduz corretamente a imagem atual do nosso Sistema Solar, puderam testar se o seu modelo funciona melhor começando com quatro ou com cinco gigantes gasosos.

"Para nós, o resultado foi muito semelhante caso comecemos com quatro ou cinco," disse Jacobson. "Se começarmos com cinco, é mais provável que acabemos com quatro. Mas se começarmos com quatro, as órbitas acabam por corresponder melhor."

Seja como for, a humanidade poderá ter em breve uma resposta. O Observatório Vera Rubin, programado para ficar operacional no final de 2023, deverá ser capaz de avistar o Planeta 9 se realmente ele existir.

"O Planeta 9 é super controverso, por isso não o sublinhámos no artigo," disse Jacobson, "mas gostamos de falar sobre ele com o público."

É um lembrete de que o nosso Sistema Solar é um lugar dinâmico, ainda cheio de mistérios e de descobertas à espera de serem feitas.

// Universidade Estatal do Michigan (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)
// Simulação da instabilidade no Sistema Solar (Liu et al.)

 


Saiba mais

Modelo de Nice:
Wikipedia

Sistema Solar:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia

Formação e evolução do Sistema Solar:
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  Webb em foco completo, pronto para comissionamento dos instrumentos (via NASA)
O alinhamento do Telescópio Espacial James Webb da NASA está agora terminado. Após revisão completa, o observatório foi confirmado como sendo capaz de capturar imagens nítidas e bem focadas com cada um dos seus quatro poderosos instrumentos científicos a bordo. Ao completar a sétima e última fase do alinhamento do telescópio, a equipa realizou um conjunto de reuniões e concordou unanimemente que o Webb está pronta para avançar para a sua próxima e última série de preparativos, conhecida como comissionamento de instrumentos científicos. Este processo levará cerca de dois meses até que as operações científicas comecem no verão. Ler fonte
 
   
Álbum de fotografias - M44: O Enxame da Colmeia
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Drew Evans
 

A apenas 600 anos-luz de distância, M44 é um dos enxames abertos mais próximos do nosso Sistema Solar. Também conhecido como Presépio ou o enxame da Colmeia, as suas estrelas são jovens, com cerca de 600 milhões de anos em comparação com os 4,5 mil milhões de anos do nosso Sol. Com base nas idades e movimentos semelhantes através do espaço, pensa-se que M44 e o enxame estelar das Híades, ainda mais próximo e em Touro, tenham nascido juntos na mesma grande nuvem molecular. Um enxame aberto com cerca de 15 anos-luz de diâmetro, M44 contém mais ou menos 1000 estrelas e cobre cerca de 3 Luas Cheias (1,5 graus) no céu na direção da constelação de Caranguejo. Visível a olho nu, M44 é conhecido desde a Antiguidade. Descrito como uma nuvem fraca ou névoa celeste muito antes de ser incluído como a 44.ª entrada no catálogo do século XVIII de Charles Messier, o enxame só foi resolvido em estrelas individuais aquando da invenção do telescópio. Um alvo popular para os espetadores modernos do céu, equipados com binóculos, as poucas gigantes vermelhas, frias e de tom amarelado, estão espalhadas pelo campo sobretudo de estrelas azuis, mais brilhantes, de sequência principal da imagem. Os dramáticos picos de difração, que realçam os membros mais brilhantes do enxame, foram criados com fio cruzado em frente da lente objetiva do telescópio.

 
   
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