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  Astroboletim #2163  
  29/11 a 02/12/2024  
     
 
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EFEMÉRIDES

DIA 29/11: 334.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1803, nascia Christian Doppler, matemático e físico austríaco, famoso pela sua descoberta do que é agora denominado efeito Doppler.
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Em 1961, Enos, um chimpanzé, é lançado para o espaço a bordo da missão Mercury-Atlas 5. A nave orbitou a Terra duas vezes e aterrou no mar perto da costa de Porto Rico.
Em 1965, a agência espacial canadiana lança o satélite Alouette 2.
Em 1967, lançamento do primeiro satélite australiano, o WRESAT.
HOJE, NO COSMOS:
À medida que as estrelas começam a aparecer, o "W" de Cassiopeia apoia-se de lado (o seu lado mais ténue), alto a nordeste. Observe Cassiopeia a girar para ficar um "M" achatado, ainda mais alto a norte, com o avançar da noite.

 

DIA 30/11: 335.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1756 nascia Ernst Chladni, físico e músico alemão, conhecido como o "pai dos meteoritos". Também calculou a velocidade do som para gases diferentes.
Em 1954, Ann Elizabeth Hodges é atingida por um meteorito de 5 kg no estado norte-americano do Alabama. É o único caso documentado de um meteorito ter atingido uma pessoa.
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Em 2000, lançamento da missão STS-97, do vaivém espacial Endeavour.
HOJE, NO COSMOS: Vega ainda brilha alta a oeste-noroeste depois do anoitecer. A estrela mais brilhante para cima é Deneb, a cauda do Cisne. O resto da constelação estende-se para baixo e para a esquerda de Deneb. Por volta das 23 horas, Cisne fica como que "implantado" no horizonte a noroeste.

 

DIA 01/12: 336.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1960, os cães espaciais Pchyolka (Pequena Abelha) e Mushka (Pequena Mosca) são lançados a bordo do Korabl-Sputnik-3, também conhecido como Sputnik 6.
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A nave passou um dia em órbita mas a re-entrada foi mal configurada e, ao descer num ângulo muito acentuado, foi destruída.
Em 1984, a NASA leva a cabo a Demonstração de Impacto Controlado. Um Boeing 720 controlado remotamente é intencionalmente despenhado a fim de melhorar a capacidade de sobrevivência dos ocupantes.
Em 2013, a China lança o Yutu, o seu primeiro rover lunar, como parte da missão de exploração Chang'e 3.
Em 2020, o radiotelescópio de Arecibo colapsa.
HOJE, NO COSMOS:
Lua Nova, pelas 06:21.
Orionte sobe totalmente acima do horizonte a este pouco depois das 20:00, dependendo de quão para este ou oeste vive.
A inclinação de Orionte depende da latitude. Se viver acima de 33º N, Betelgeuse estará mais alta que Rigel. Se viver abaixo dos 33º N, Rigel será a mais alta logo após nascerem; Orionte nasce de pés primeiro.
No entanto, com o passar da noite, Betelgeuse ganha sempre a posição superior - como visto de qualquer parte do Hemisfério Norte.

 

DIA 02/12: 337.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1988, lançamento da STS-27, missão do vaivém espacial Atlantis, sob a alçada do Departamento de Defesa dos EUA.
Em 1990, lançamento do vaivém Columbia, na sua missão STS-35
Em 1992, lançamento do vaivém Discovery, na sua missão STS-53, também para suporte do Departamento de Defesa dos EUA. 
Em 1993, lançamento da missão STS-61 do vaivém Endeavour, a primeira missão de manutenção do Hubble.
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HOJE, NO COSMOS:
A Galáxia de Andrómeda (M31) e o Enxame Duplo de Perseu são dois dos objetos mais famosos do céu noturno. Estão ambos catalogados como tendo quase magnitude 4, e num céu relativamente escuro podem ser vistos à vista desarmada. Os binóculos facilitam a observação. Estão separados por apenas 22º, muito alto a este por estas noites - para a direita de Cassiopeia e para baixo e mais perto de Cassiopeia, respetivamente.

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Um "Neptuno quente" numa órbita íntima
 
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Impressão de artista do "Neptuno quente" TOI-3261 b.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/K. Miller (Caltech/IPAC)
 

Um planeta do tamanho de Neptuno, TOI-3261 b, tem uma órbita muito próxima da sua estrela hospedeira. Apenas o quarto objeto deste tipo alguma vez encontrado, poderá revelar pistas sobre a forma como planetas como este se formam.

Uma equipa internacional de cientistas utilizou o telescópio espacial TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA para descobrir o exoplaneta TOI-3261 b, tendo depois efetuado observações adicionais com telescópios terrestres na Austrália, Chile e África do Sul. As medições colocaram o novo planeta diretamente no "deserto neptuniano" - uma categoria de planetas com tão poucos membros que a sua escassez estatística evoca uma paisagem deserta.

Esta variedade de exoplanetas é semelhante ao nosso Neptuno em tamanho e composição, mas orbitam extremamente perto da sua estrela. Neste caso, um "ano" em TOI-3261 b tem apenas 21 horas de duração. Uma órbita tão íntima faz com que este planeta pertença a um grupo exclusivo com, até agora, apenas três outros membros: Neptunos quentes de período ultracurto cujas massas foram medidas com precisão.

TOI-3261 b revela-se um candidato ideal para testar novos modelos informáticos de formação planetária. Parte da razão pela qual os Neptunos quentes são tão raros é o facto de ser difícil manter uma espessa atmosfera gasosa tão perto de uma estrela. As estrelas são massivas e, por isso, exercem uma grande força gravitacional sobre o que as rodeia, o que pode despojar um planeta próximo das camadas de gás que possuem. Também emitem enormes quantidades de energia, o que "sopra" as atmosferas para longe. Estes dois fatores significam que os Neptunos quentes, como TOI-3261 b, podem ter começado a sua vida como planetas muito maiores, do tamanho de Júpiter, e desde então perderam uma grande parte da sua massa.

Ao modelar diferentes pontos de partida e cenários de desenvolvimento, a equipa científica determinou que o sistema tem cerca de 6,5 mil milhões de anos e que o exoplaneta começou como um gigante gasoso muito maior. No entanto, é provável que tenha perdido massa de duas formas: fotoevaporação, quando a energia da estrela faz com que as partículas de gás se dissipem, e remoção por maré, quando a força gravitacional da estrela retira camadas de gás do planeta. O planeta pode também ter sido formado mais longe da sua estrela, onde estes dois efeitos seriam menos intensos, permitindo-lhe manter a sua atmosfera.

A atmosfera remanescente do exoplaneta, uma das suas características mais interessantes, irá provavelmente convidar a mais análises atmosféricas, talvez ajudando a desvendar a história da formação deste habitante do "deserto neptuniano". O exoplaneta TOI-3261 b é cerca de duas vezes mais denso do que Neptuno, o que indica que as partes mais leves da sua atmosfera foram sendo eliminadas ao longo do tempo, deixando apenas os componentes mais pesados. Isto mostra que o exoplaneta deve ter começado com uma variedade de elementos diferentes na sua atmosfera, mas, nesta fase, é difícil dizer exatamente quais.

Este mistério poderá ser resolvido observando o exoplaneta no infravermelho, talvez utilizando o Telescópio Espacial James Webb da NASA - uma forma ideal de ver as impressões digitais identificadoras das diferentes moléculas na atmosfera do planeta. Isto não só ajudará os astrónomos a compreender o passado de TOI-3261 b, mas também a começar a desvendar os processos físicos subjacentes a todos os planetas quentes e gigantes.

A equipa científica internacional, liderada pela astrónoma Emma Nabbie da Universidade do Sul de Queensland, Austrália, publicou o seu artigo científico sobre a descoberta na revista The Astronomical Journal em agosto de 2024.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astronomical Journal)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Quer saber mais?

TOI-3261 b:
NASA
IPAC
Exoplanet.eu

Deserto neptuniano:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de exoplanetas mais próximos (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Lista de exoplanetas candidatos a albergar água líquida (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Exoplanet.eu

TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite):
NASA
NASA/Goddard
Programa de Investigadores do TESS (HEASARC da NASA)
MAST (Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais)
Exoplanetas descobertos pelo TESS (NASA Exoplanet Archive)
Wikipedia

 
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Supercomputadores fornecem uma nova explicação "perturbadora" para as luas de Marte
 
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A fragmentação de um asteroide que passa demasiado perto de Marte. Os pedaços e detritos podem, eventualmente, ter formado as duas luas do planeta.
Crédito: NASA/Jacob Kegerreis
 

Um estudo da NASA, recorrendo a uma série de simulações em supercomputador, revela uma potencial nova solução para um mistério marciano de longa data: como é que Marte obteve as suas luas? O primeiro passo, segundo os resultados, pode ter envolvido a destruição de um asteroide.

A equipa de investigação, liderada por Jacob Kegerreis, investigador de pós-doutoramento do Centro de Pesquisa Ames da NASA, em Silicon Valley, no estado norte-americano da Califórnia, descobriu que um asteroide que passasse perto de Marte podia ter sido perturbado - uma forma simpática de dizer "destruído" - pela forte atração gravitacional do Planeta Vermelho.

As simulações da equipa mostram os fragmentos rochosos resultantes a serem espalhados numa variedade de órbitas em torno de Marte. Mais de metade dos fragmentos teriam escapado ao sistema de Marte, mas outros teriam ficado em órbita. Puxados pela gravidade de Marte e do Sol, nas simulações, alguns dos restantes pedaços do asteroide são colocados em trajetórias de colisão uns com os outros, sendo que cada encontro os "tritura" ainda mais e espalha mais detritos.

Muitas colisões depois, pedaços mais pequenos e detritos do antigo asteroide podem ter-se depositado num disco em redor do planeta. Com o tempo, é provável que algum deste material se tenha aglomerado, possivelmente formando as duas pequenas luas de Marte, Fobos e Deimos.

Para avaliar se esta cadeia de acontecimentos era realista, a equipa de investigação explorou centenas de simulações diferentes de encontros próximos, variando o tamanho, a rotação, a velocidade e a distância do asteroide na sua maior aproximação ao planeta. A equipa utilizou o seu código informático de alto desempenho e de código aberto, denominado SWIFT, e os sistemas informáticos avançados da Universidade de Durham, no Reino Unido, para estudar em pormenor tanto a perturbação inicial como, utilizando outro código, as órbitas subsequentes dos detritos.

Num artigo publicado a 20 de novembro na revista Icarus, os investigadores referem que, em muitos dos cenários, sobrevivem fragmentos de asteroides suficientes que colidem em órbita e servem de matéria-prima para formar as luas.

"É excitante explorar uma nova opção para a formação de Fobos e Deimos - as únicas luas do nosso Sistema Solar que orbitam um planeta rochoso para além da Terra", disse Kegerreis. "Além disso, este novo modelo faz previsões diferentes acerca das propriedades das luas que podem ser testadas contra as ideias padrão para este evento chave na história de Marte".

Existem duas hipóteses principais para a formação das luas marcianas. Uma propõe que dois asteroides passageiros foram capturados pela gravidade de Marte, o que poderia explicar o aspeto "asteroidal" das luas. A outra diz que um impacto gigante no planeta libertou material suficiente - uma mistura de Marte e detritos do objeto impactante - para formar um disco e, finalmente, as luas. Os cientistas pensam que um processo semelhante formou a Lua da Terra.

A segunda hipótese explica melhor os trajetos que as luas percorrem atualmente - em órbitas quase circulares que se alinham de perto com o equador de Marte. No entanto, um impacto gigante expele material para um disco que, na sua maioria, fica perto do planeta. E as luas de Marte, especialmente Deimos, ficam bastante afastadas do planeta e provavelmente também se formaram lá fora.

"A nossa ideia permite uma distribuição mais eficiente do material que produz as luas nas regiões exteriores do disco", disse Jack Lissauer, investigador em Ames e coautor do artigo científico. "Isto significa que um asteroide 'pai' muito mais pequeno pode ainda assim fornecer material suficiente para enviar os blocos de construção das luas para o sítio certo".

Testar ideias diferentes acerca da formação das luas de Marte é o principal objetivo da próxima missão de envio de amostras MMX (Martian Moons eXploration) liderada pela JAXA (Japan Aerospace Exploration Agency). A nave espacial fará um levantamento de ambas as luas para determinar a sua origem e irá recolher amostras de Fobos para as trazer para a Terra para estudo. Um instrumento da NASA a bordo, chamado MEGANE (Mars-moon Exploration with GAmma rays and Neutrons), identificará os elementos químicos de que Fobos é feita e ajudará a selecionar locais para a recolha de amostras. Algumas das amostras serão recolhidas por um amostrador pneumático também fornecido pela NASA como uma contribuição de demonstração tecnológica. Compreender de que são feitas as luas é uma pista que pode ajudar a determinar se tiveram origem num asteroide ou num evento de impacto.

Antes dos cientistas poderem deitar as mãos a uma amostra de Fobos para análise, Kegerreis e a sua equipa vão continuar de onde pararam, demonstrando a formação de um disco que tem material suficiente para formar Fobos e Deimos.

"A seguir, esperamos desenvolver este projeto de prova de conceito para simular e estudar em maior detalhe a completa linha temporal da formação", disse Vincent Eke, professor associado do Instituto de Cosmologia Computacional da Universidade de Durham e coautor do artigo científico. "Isto permitir-nos-á examinar a estrutura do próprio disco e fazer previsões mais detalhadas sobre o que a missão MMX poderá encontrar".

Para Kegerreis, este trabalho é excitante porque também expande a nossa compreensão de como as luas podem nascer - mesmo que se descubra que as de Marte se formaram por outra alternativa. As simulações fornecem uma exploração fascinante, diz ele, dos possíveis resultados de encontros entre objetos como asteroides e planetas. Estes eventos eram comuns no início do Sistema Solar e as simulações podem ajudar os investigadores a reconstruir a história da evolução do nosso quintal cósmico.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Universidade de Durham (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Icarus)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Como é que Marte obteve as suas luas? (Centro de Pesquisa Ames da NASA via YouTube)

 


Quer saber mais?

Fobos:
CCVAlg - Astronomia
NASA
Wikipedia

Deimos:
CCVAlg - Astronomia
NASA
Wikipedia

Marte:
NASA
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
The Nine Planets

Código SWIFT:
Página principal

MMX (Martian Moons eXploration):
JAXA
Wikipedia

 
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Uma supernova próxima podia pôr fim à procura pela matéria escura
 
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Impressão de artista de uma estrela de neutrões altamente magnetizada. De acordo com a teoria atual, os axiões seriam criados no interior quente da estrela de neutrões. Os astrofísicos da Universidade da Califórnia em Berkeley afirmam que o forte campo magnético da estrela transformará estes axiões em raios gama que podem ser detetados a partir da Terra, determinando a massa do axião.
Crédito: Casey Reed, cortesia da Penn State
 

A procura pela matéria escura do Universo podia terminar amanhã - caso houvesse uma supernova próxima e tivéssemos um pouco de sorte.

A natureza da matéria escura ilude os astrónomos há 90 anos, desde que se percebeu que 85% da matéria do Universo não é visível através dos nossos telescópios. Atualmente, o candidato mais provável à matéria escura é o axião, uma partícula leve que investigadores de todo o mundo estão a tentar desesperadamente encontrar.

Os astrofísicos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, argumentam agora que o axião podia ser descoberto segundos após a deteção de raios gama provenientes da explosão de uma supernova próxima. Os axiões, a existirem, seriam produzidos em quantidades abundantes durante os primeiros 10 segundos após o núcleo de uma estrela massiva colapsar numa estrela de neutrões, e esses axiões escapariam e seriam transformados em raios gama altamente energéticos no intenso campo magnético da estrela.

Uma tal deteção só é possível hoje em dia se o único telescópio de raios gama no espaço, o Telescópio Espacial Fermi, estiver a apontar na direção da supernova no momento em que esta explode. Tendo em conta o campo de visão do telescópio, isso representa cerca de uma hipótese em 10.

No entanto, uma única deteção de raios gama permitiria determinar a massa do axião, em particular o chamado axião QCD, numa enorme gama de massas teóricas, incluindo intervalos de massas que estão agora a ser analisados em experiências na Terra. Contudo, a ausência de uma deteção eliminaria uma grande gama de massas potenciais para o axião e tornaria irrelevante a maioria das atuais pesquisas por matéria escura.

O problema é que, para que os raios gama sejam suficientemente brilhantes para serem detetados, a supernova tem de estar próxima - dentro da nossa Via Láctea ou de uma das suas galáxias satélite - e as estrelas próximas só explodem, em média, de poucas em poucas décadas. A última supernova próxima ocorreu em 1987 na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia satélite da Via Láctea. Na altura, um telescópio de raios gama, o SMM (Solar Maximum Mission), apontava na direção da supernova, mas não era suficientemente sensível para detetar a intensidade prevista dos raios gama, de acordo com a análise da equipa da Universidade de Berkeley.

"Se víssemos uma supernova, como a supernova 1987A, com um telescópio moderno de raios gama, seríamos capazes de detetar ou excluir este axião QCD muito interessante, na maioria do seu espaço de parâmetros - essencialmente todo o espaço de parâmetros que não podem ser estudados em laboratório e em grande parte do espaço de parâmetros que podem ser estudados em laboratório", disse Benjamin Safdi, professor de física na UC Berkeley e autor sénior de um artigo científico publicado online dia 19 de novembro na revista Physical Review Letters. "E tudo isto aconteceria em 10 segundos".

No entanto, os investigadores receiam que, quando a tão esperada supernova surgir no Universo próximo, não estejamos preparados para ver os raios gama produzidos pelos axiões. Os cientistas estão agora a falar com colegas que constroem telescópios de raios gama para avaliar a viabilidade de lançar um ou uma frota desses telescópios para cobrir 100% do céu 24 horas por dia, 7 dias por semana, e ter a certeza de apanhar qualquer explosão de raios gama. Até propuseram um nome para a sua constelação de satélites de raios gama de céu completo - GALAXIS (GALactic AXion Instrument for Supernova).

"Penso que todos nós neste trabalho estamos stressados com a possibilidade de haver uma supernova próxima antes de termos a instrumentação adequada", disse Safdi. "Seria uma pena se uma supernova explodisse amanhã e perdêssemos a oportunidade de detetar o axião - pode ser que ele só volte daqui a 50 anos".

Axiões QCD

A procura pela matéria escura centrou-se inicialmente nos ténues MACHOs (MAssive Compact Halo Objects), teoricamente espalhados pela nossa Galáxia e pelo cosmos, mas quando estes não se materializaram, os físicos começaram a procurar partículas elementares que teoricamente estão à nossa volta e deveriam ser detetáveis em laboratórios terrestres. Estas WIMPs (Weakly Interacting Massive Particles) também não foram detetadas. Atualmente, o melhor candidato para a matéria escura é o axião, uma partícula que se enquadra perfeitamente no modelo padrão da física e que resolve vários outros enigmas importantes da física de partículas. Os axiões também se enquadram perfeitamente na teoria das cordas, uma hipótese sobre a geometria subjacente do Universo, e pode ser capaz de unificar a gravidade, que explica as interações em escalas cósmicas, com a teoria da mecânica quântica, que descreve o infinitesimal.

"Parece quase impossível ter uma teoria consistente da gravidade combinada com a mecânica quântica que não tenha partículas como o axião", disse Safdi.

O candidato mais forte para o axião, chamado axião QCD - nome dado em homenagem à teoria reinante da força forte, QCD (quantum chromodynamics) ou cromodinâmica quântica - teoricamente interage com toda a matéria, embora fracamente, através das quatro forças da natureza: gravidade, eletromagnetismo, a força forte, que mantém os átomos unidos, e a força fraca, que explica a quebra dos átomos. Uma das consequências é que, num campo magnético forte, um axião pode ocasionalmente transformar-se numa onda eletromagnética, ou fotão. O axião é distintamente diferente de outra partícula leve e de fraca interação, o neutrino, que apenas interage através da gravidade e da força fraca e ignora totalmente a força eletromagnética.

As experiências de laboratório - como o Consórcio ALPHA (Axion Longitudinal Plasma HAloscope), o DMradio e o ABRACADABRA (A Broadband/Resonant Approach to Cosmic Axion Detection with an Amplifying B-field Ring Apparatus), todas elas envolvendo investigadores da UC Berkeley - utilizam cavidades compactas que, tal como um diapasão, ressoam e amplificam o fraco campo eletromagnético ou fotão produzido quando um axião de baixa massa se transforma na presença de um forte campo magnético.

Em alternativa, os astrofísicos propuseram a procura de axiões produzidos no interior de estrelas de neutrões imediatamente após uma supernova de colapso do núcleo, como SN 1987A. Até agora, no entanto, têm-se concentrado principalmente na deteção de raios gama resultantes da lenta transformação destes axiões em fotões nos campos magnéticos das galáxias. Safdi e os seus colegas aperceberam-se que esse processo não é muito eficiente na produção de raios gama, ou pelo menos não o suficiente para ser detetado a partir da Terra.

Ao invés, exploraram a produção de raios gama por axiões nos fortes campos magnéticos em torno da própria estrela que gerou os axiões. As simulações em supercomputador mostraram que esse processo cria, de forma muito eficiente, uma explosão de raios gama que depende da massa do axião, e que a explosão deveria ocorrer simultaneamente com uma explosão de neutrinos do interior da estrela de neutrões quente. Esta explosão de axiões, no entanto, dura apenas 10 segundos após a formação da estrela de neutrões - depois disso, o ritmo de produção cai drasticamente - embora horas antes da explosão das camadas exteriores da estrela.

"Isto levou-nos a pensar nas estrelas de neutrões como laboratórios perfeitos para a procura de axiões", disse Safdi. "As estrelas de neutrões têm muitas coisas a seu favor. São objetos extremamente quentes. Também albergam campos magnéticos muito fortes. Os campos magnéticos mais fortes do nosso Universo encontram-se à volta das estrelas de neutrões, como os magnetares, que têm campos magnéticos dezenas de milhares de milhões de vezes mais fortes do que qualquer coisa que possamos construir em laboratório. Isso ajuda a converter estes axiões em sinais observáveis".

Há dois anos, Safdi e os seus colegas estabeleceram o melhor limite superior para a massa do axião QCD em cerca de 16 milhões de eletrões-volt, ou seja, cerca de 32 vezes menos do que a massa do eletrão. Este valor baseou-se na taxa de arrefecimento das estrelas de neutrões, que arrefeceriam mais rapidamente se os axiões fossem produzidos juntamente com os neutrinos no interior destes corpos quentes e compactos.

No presente artigo científico, a equipa da Universidade da Califórnia em Berkeley não só descreve a produção de raios gama após o colapso do núcleo para formar uma estrela de neutrões, como também utiliza a não deteção de raios gama da supernova 1987A para colocar as melhores restrições até agora sobre a massa de partículas do tipo axião, que diferem dos axiões QCD na medida em que não interagem através da força forte.

Preveem que uma deteção de raios gama lhes permita identificar a massa do axião QCD se esta for superior a 50 microeletrões-volt (micro-eV, ou μeV), ou cerca de 1x10^-10 da massa do eletrão. Uma única deteção poderia reorientar as experiências existentes para confirmar a massa do axião, disse Safdi. Embora uma frota de telescópios de raios gama dedicados seja a melhor opção para detetar raios gama de uma supernova próxima, um golpe de sorte com o Fermi seria ainda melhor.

"O melhor cenário para os axiões é o Fermi avistar uma supernova. Só que a probabilidade de isso acontecer é pequena", disse Safdi. "Mas se o Fermi a visse, seríamos capazes de medir a sua massa. Seríamos capazes de medir a sua força de interação. Seríamos capazes de determinar tudo o que precisamos de saber sobre o axião, e estaríamos incrivelmente confiantes no sinal, porque não há matéria comum que possa criar um tal evento".

// UC Berkeley (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Physical Review Letters)

 


Quer saber mais?

Matéria escura:
Wikipedia
Axião (Wikipedia)

Estrelas de neutrões:
Wikipedia
Universidade de Maryland

SN 1987A:
SEDS
Wikipedia

Supernova:
Wikipedia 
Supernova do Tipo II (Wikipedia)

Telescópio Espacial Fermi:
NASA
Wikipedia

 
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Também em destaque
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exemplo   Tornado magnético está a agitar a neblina nos polos de Júpiter (via UC Berkeley)
Embora a Grande Mancha Vermelha de Júpiter seja uma característica constante do planeta há séculos, os astrónomos descobriram manchas igualmente grandes nos polos norte e sul do planeta que aparecem e desaparecem aparentemente ao acaso. As ovais do tamanho da Terra, que são visíveis apenas em comprimentos de onda ultravioleta, estão inseridas em camadas de neblina estratosférica que cobrem os polos do planeta. As ovais escuras, quando vistas, estão quase sempre localizadas logo abaixo das brilhantes zonas aurorais em cada polo. Ler fonte
     
  Cientistas descobriram uma nova maneira de estudar asteroides próximos da Terra (via Universidade Western)
Cientistas descreveram, num novo estudo, uma abordagem pioneira e integradora para o estudo de asteroides próximos da Terra, baseada em grande parte numa bola de fogo de novembro de 2022 que deixou meteoritos na região do Niagara, Canadá. Os cientistas espaciais determinaram a composição e o tamanho do asteroide 2022 WJ1 (WJ1) antes de se ter fraturado ao entrar na atmosfera terrestre, comparando as observações telescópicas baseadas no estado norte-americano do Arizona com um vídeo captado da bola de fogo - um meteoro invulgarmente brilhante - no dia 19 de novembro de 2022. Ler fonte
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Álbum de fotografias
A Galáxia do "Sombrero" pelo Webb e pelo Hubble

exemplo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: NASAESACSASTScIProjeto Legado Hubble (STScIAURA)
 
Este anel flutuante tem o tamanho de uma galáxia. De facto, é uma galáxia - ou pelo menos parte de uma: a fotogénica Galáxia do "Sombrero" é uma das maiores galáxias do vizinho Enxame de Galáxias de Virgem. A faixa escura de poeira que obscurece a secção média da Galáxia do "Sombrero" no visível (painel inferior) brilha na realidade no infravermelho (painel superior). A imagem em destaque mostra o brilho infravermelho em cores falsas de azul, obtida recentemente pelo Telescópio Espacial James Webb, acima de uma imagem de arquivo tirada pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA no visível. A Galáxia do "Sombrero", também conhecida por M104, estende-se por cerca de 50.000 anos-luz e encontra-se a 28 milhões de anos-luz de distância. M104 pode ser vista com um pequeno telescópio na direção da constelação de Virgem.
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