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BOLETIM ASTRONÓMICO - EDIÇÃO N.º 323
16 de Maio de 2007
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ANDRÓMEDA - O NOSSO FUTURO LAR?

Astrónomos correram novas simulações para saber o que aconteceria quando uma colisão esperada tiver lugar entre a nossa Galáxia e a galáxia de Andrómeda, uma nossa vizinha conhecida.

Os resultados foram surpreendentes: o "fogo-de-artifício" celeste que se esperava à medida que as grandes nuvens de gás se juntarem para formar novas estrelas não será um grande espectáculo. Em seu lugar, surgiu uma possibilidade ainda mais louca.

De acordo com os cientistas T. J. Cox e Abraham Loeb do Centro para Astrofísica de Harvard-Smithsonian, as simulações de computador indicam que há uma possibilidade entre 37 de acabarmos por viver na outra galáxia - a majestosa Andrómeda.


A nossa vizinha galáxia de Andrómeda, o objecto mais distante visível à vista desarmada.
Crédito: Robert Gendler
(clique na imagem para ver versão maior)

"Os futuros astrónomos no Sistema Solar poderão observar a Via Láctea", a nossa presente Galáxia, "como uma galáxia externa no céu nocturno", escreveram Cox e Loeb num artigo sobre o que descobriram. Por outras palavras, a Via Láctea já não seria aquela faixa familiar esbranquiçada que passa pelo céu, mas um distante borrão de luz.

Paradoxalmente, isto poderá proporcionar uma muito melhor visão do nosso antigo lar galáctico do que quando lá vivíamos. A Via Láctea visível no céu nocturno é apenas uma pequena parte da nossa Galáxia, e bloqueia tudo o resto.

A Via Láctea, Andrómeda e cerca de 40 outras galáxias mais pequenas constituem a nossa vizinhança galáctica, com o nome de Grupo Local. Como tal, este é "o laboratório mais próximo, e por isso a nossa ferramenta mais poderosa para estudar a formação e evolução das estruturas galácticas."

Devido a este grupo local de galáxias estar unido pela gravidade, quebram uma regra geral, que as galáxias por todo esse Universo se estão a afastar umas das outras. Em particular, Andrómeda está a aproximar-se da Via Láctea a uns estimados 120 km por segundo - embora ainda permaneça a uns 2.5 milhões de anos-luz de distância, a reunião familiar ainda está longe de acontecer. Um ano-luz é a distância que a luz percorre num ano.

Os astrónomos não estão à espera de uma colisão. Ao invés, os dois monstros estelares orbitar-se-ão um ao outro cada vez mais perto, atraídos pela gravidade. Isto provocará umas quantas passagens rasantes, as suas formas serão alteradas, que culminarão com uma fusão final numa única gigante galáxia desprovida de elegância.

As duas galáxias provavelmente fundir-se-ão dentro de cinco mil milhões de anos, por isso, "ainda dentro do tempo de vida do Sol," escrevem Cox e Loeb no seu artigo, publicado on-line e entregue ao jornal mensal da Sociedade Astronómica Real.


Concepção de artista da colisão da Via Láctea com a galáxia de Andrómeda, vista da Terra.
Crédito: James Gitlin (STScI)
(clique na imagem para ver versão maior)

Por volta do fim do segundo encontro imediato, existe uma probabilidade de 50% que o nosso Sol seja arrastado, em conjunto com os seus planetas e outras estrelas, numa longa cauda que se extende da nossa Galáxia, provocada pelo puxo gravitacional de Andrómeda.

Mas também existe uma probabilidade de 2.7%, acrescentam, que o nosso Sistema Solar nem permaneça na Galáxia. Com a sua gravidade, Andrómeda pode roubar a totalidade do nosso Sistema Solar: pode ficar mais ligado pela gravidade a Andrómeda que à Via Láctea. Claro, depois da fusão, voltaríamos à nossa velha casa galáctica, agora irreconhecível e em estado de calamidade. Encontrar-nos-íamos nos limites da nova fundida galáxia.

As colisões galácticas não são de grande risco para os seus habitantes. "Os sistemas planetários ultrapassam relativamente bem estas colisões", disse o astrónomo Joshua Barnes. "As suas estrelas centrais podem ser expelidas em caudas de marés ou espalhadas em direcções ao acaso, mas a gravidade actua tão gradualmente que as órbitas planetárias não são afectadas."

Cox e Loeb também não indicam a possibilidade de qualquer grande aumento de formação estelar, que alguns esperavam que resultasse das colisões de nuvens gasosas das duas galáxias. As estrelas formam-se em tais regiões onde o gás se torna mais compacto, e começa a ceder sobre a sua própria gravidade. Embora tais explosões de formação estelar sejam comuns nas colisões galácticas, tanto a Via Láctea como Andrómeda são demasiado "pobres em gás" para muito disto acontecer, escrevem Cox e Loeb.

No entanto, ainda existe gás suficiente, acrescentam, para provavelmente fazer o buraco ou buracos negros no centro da nova galáxia brilhar ainda com mais intensidade. Os buracos negros são objectos extraordinariamente compactos cuja intensa gravidade "suga" tudo na sua vizinhança. O novo gás que se possa mover para essa área seria por isso absorvido. Aqueceria no processo e começaria a emitir poderosas radiações, que poderiam afectar as formas de vida, dependendo da sua distância. O trabalho de Cox e Loeb não examina estas possibilidades com detalhe.

As incertezas de onde o Sol acabará por ficar, acrescentam, nascem sobretudo das incertezas de onde estará quando Andrómeda chegar. A distância entre o Sol e o centro da Via Láctea é previsível - é quase sempre a mesma - mas o resto é difícil de prever. Por isso Cox e Loeb estudaram estrelas à mesma direcção do Centro Galáctico para medir a probabilidade do que poderá acontecerá à nossa. A direcção de Andrómeda é também muito pouco conhecida.


Poderá ser este o nosso céu será num futuro bem distante?
Crédito: T. & D. Hallas
(clique na imagem para ver versão maior)

Onde quer que o Sistema Solar acabe, afirmam Cox e Loeb, as galáxias fora do Grupo Local poderão até afastar-se, devido à cada vez mais rápida expansão do Universo. Por isso, dentro de 100 mil milhões de anos - se restar alguém para observar - a nova galáxia e o Grupo Local poderão bem ser os únicos objectos que conseguiremos observar no Universo.

Links:

Notícias relacionadas:
Artigo científico de Cox e Loeb (em formato PDF)
CfA (comunicado de imprensa)
SPACE.com
New Scientist
MSNBC
Scientific American.com

Via Láctea:
Núcleo de Astronomia do Centro Ciência Viva do Algarve
SEDS.org
Wikipedia

Galáxia de Andrómeda (M31):
SEDS.org
Wikipedia
Animação da colisão de M31 com a Via Láctea (formato DIVX)

 
  ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
       
  Foto  
M81 no ultravioleta - Crédito: NASA, JPL-Caltech, Galex Team, J. Huchra et al. (Harvard CfA)
Onde estão as estrelas quentes de M81, uma das galáxias espirais mais próximas? Para responder a esta questão, os astrónomos tiraram uma imagem em ultravioleta da bonita galáxia com o telescópio espacial Galex. As estrelas quentes emitem mais radiação ultravioleta que as estrelas mais frias, e são frequentemente associadas com jovens enxames abertos e regiões de formação estelar. A magnífica espiral M81, semelhante em tamanho à nossa própria Via Láctea, mostra as suas jovens estrelas com os seus braços espirais na imagem do lado. Com menos de 100 milhões de anos, as jovens estrelas estão a azul na imagem em cores falsas do Galex e nota-se que estão bem separadas das estrelas mais velhas, as amareladas, visíveis no núcleo galáctico. Visível por cima de M81 está uma galáxia satélite de nome Holmberg IX. O estudo do brilho ultravioleta inesperado desta pequena galáxia irregular poderá ajudar os astrónomos a melhor compreender como muitos dos satélites da nossa Galáxia se desenvolveram. M81, visível através de um pequeno telescópio, cobre uma área de aproximadamente 70,000 anos-luz e situa-se a 12 milhões de anos-luz, na direcção da constelação da Ursa Maior.
Ver imagem em alta-resolução
 
 
  ESPAÇO ABERTO 2007:  
 
Observação astronómica, dia 19 de Maio de 2007, na açoteia do CCVAlg, entre as 21:30 e as 23:30. Acesso pelo portão do jardim. Entrada gratuita.
Observação dependente das condições atmosféricas
 
 
  EFEMÉRIDES:  
 

Dia 16/05: 136º dia do  calendário gregoriano.
História: Em 1997, a STS-84 atraca com a MIR para a sexta missão STS-MIR. É o 122.º dia de Jerry Linenger como membro da tripulação da MIR.
No mesmo ano, imagens de todo o mundo do Cometa Halle-Bopp são postas online.
Observações: Lua Nova, por volta das 20:37.

Dia 17/05: 137º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1836 nascia J. Norman Lockyer, descobridor do elemento hélio em 1868. J. N. L. estava fazendo estudos espectrais do Sol quando atribuiu linhas desconhecidas de absorção ao novo elemento, só "descoberto" na Terra em 1891. Sir Lockyer também é conhecido como o Pai da Arqueoastronomia: foi um dos primeiros a propôr cientificamente que Stonehenge foi um observatório astronómico e que as pirâmides do Egipto e as grandes catedrais Cristãs medievais foram construídas ao longo de orientações astronómicas importantes.
Em 1882 foi descoberto um cometa em fotografias da coroa solar tiradas durante um eclipse total; o cometa nunca mais foi visto. Provavelmente era um "suicida", em rota de colisão com o Sol.

Dia 18/05: 138º dia do  calendário gregoriano.
História: Em 1910, a Terra passa pela cauda do cometa Halley.
Em 1969 era lançada a Apollo 10, a quarta missão tripulada do programa Apollo, que foi a segunda a orbitar a Lua. Segundo o Livro dos Recordes do Guinness, a Apollo 10 detém o recorde da maior velocidade já atingida por um veículo tripulado: 39,897 km/h. Este foi atingido durante o regresso da Lua a 26 de Maio de 1969.
Observações: Depois do pôr-do-Sol, uma finíssima Lua brilha para baixo e para a direita de Vénus. Consegue observar Mercúrio, por baixo da Lua?

 
 
  CURIOSIDADES:  
 
Vénus é a maior prova da existência de efeito de estufa que alguns contestam como sendo um produto da imaginação dos ambientalistas.
Embora situado a uma distância média ao Sol que é dupla da de Mercúrio, Vénus, devido à enorme concentração de dióxido de carbono na atmosfera (ca. 96%) apresenta uma temperatura média (quase igual do lado iluminado e do lado escuro) que é maior que a da face iluminada de Mercúrio.
 
 
  PERGUNTE AO ASTRÓNOMO:  
 
Tem alguma dúvida sobre Astronomia no geral que gostaria de ver esclarecida? Pergunte-nos! Tentaremos responder à sua questão da melhor maneira possível.
 
 
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