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BOLETIM ASTRONÓMICO - EDIÇÃO N.º 369
De 01/12 a 04/12/2007
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  VÉNUS: IRMÃO GÉMEO DA TERRA?
   

A sonda da ESA, Venus Express, revelou Vénus como nunca antes tinha sido feito. Pela primeira vez, os cientistas são capazes de investigar desde o topo da sua atmosfera, até quase à sua superfície. Os dados recolhidos mostram que o planeta está cheio de surpresas e que pode um dia ter sido mais como a Terra, e até um certo ponto, ainda é.

Os resultados mais recentes da missão foram apresentados numa conferência de imprensa que teve lugar na sede da ESA em Paris no passado dia 28 de Novembro, e que foram publicados na edição de dia 29 da revista científica Nature.

O hemisfério Sul de Vénus no ultravioleta. O pólo sul é rodeado por uma característica oval escura. Para a direita, para longe do pólo e mais para o equador, vemos nuvens esticadas, uma banda brilhante a média-latitude.
Crédito: ESA, MPS/DLR-FF/IDA
(clique na imagem para ver versão maior)

Permanentemente coberto por nuvens, Vénus há séculos que permanece um mistério. Embora seja o planeta mais próximo da Terra, tem-se provado extremamente difícil de estudar devido à sua cortina de nuvens que obscurece a nossa visão da superfície.

"É realmente surpreendente como Vénus NÃO é como a Terra agora," diz Fred Taylor, cientista interdisciplinário da Venus Express, da Universidade de Oxford no Reino Unido. Vénus tem aproximadamente a mesma massa que a Terra e no entanto é um lugar infernal onde as temperaturas à superfície ultrapassam os 400ºC e a pressão à superfície é cem vezes a da Terra.

A chave para compreender Venus está na sua atmosfera. É muito mais espessa que a da Terra e intercepta a maioria da energia do Sol antes de alcançar a superfície. É aí que entra a Venus Express.

"Os resultados de hoje focam os diferentes temas científicos que a Venus Express abrange," diz Dmitri Titov, coordenador científico da Venus Express, do Instituto Max Planck para a Pesquisa do Sistema Solar, Alemanha. "Um primeiro e importante conjunto de resultados diz respeito à dinâmica complexa e à estrutura da atmosfera de Vénus, estudada com um grande número de instrumentos."

Titov acrescentou, "a sonda revelou a estrutura e movimentos da atmosfera, desde as suas camadas mais altas até quase acima da superfície, e obteve o melhor mapa global das temperaturas atmosféricas até agora. Está já a melhorar o nosso conhecimento da dinâmica global e da meteorologia de Vénus."

Conjunto de imagens infravermelhas do vórtice do pólo Sul de Vénus, tiradas durante quatro observações diferentes ao longo de três órbitas em Agosto de 2007, que mostram variações na forma do vórtice e também providenciam pistas sobre a variação de temperatura nas nuvens. Foram obtidas a uma distância de 66.000 km do planeta.
Crédito: ESA/VIRTIS-VenusX/INAF-IASF/Observatório de Paris-LESIA (A. Cardesin Moinelo, IASF-INAF)
(clique na imagem para ver versão maior)

"É importante mencionar as espectaculares imagens a 3D do vórtice do pólo sul, os bons detalhes das nuvens, algumas parecidas com as da Terra, das neblinas, as medições precisas do vento, e as melhores visões jamais feitas dos fenómenos que fazem Vénus brilhar no espaço a radiações infravermelhas," afirma Håkan Svedhem, cientista do projecto Venus Express da ESA.

Um segundo conjunto de resultados diz respeito à composição da atmosfera e à sua química. A Venus Express registou perfis composicionais da atmosfera em torno do planeta, e inequivocamente confirmou a presença de relâmpagos que podem ter um forte efeito na composição da própria atmosfera.

O magnetómetro a bordo da Venus Express detectou sinais que mostram a existência de relâmpagos na atmosfera.
Crédito: ESA (animação por C. Carreau)
(clique na imagem para ver animação em formato Quicktime)

O desafio para os cientistas agora é relacionar estas medições da atmosfera de Vénus com os gases conhecidos, porque se comportam de maneira diferente no ambiente altamente pressurizado de Vénus do que na Terra ou em Marte. "Estamos apenas no início deste trabalho," diz Titov, "mas sabemos que à nossa espera estão novas surpresas."

Um terceiro conjunto de resultados menciona os processos pelos quais a atmosfera de Vénus está escapando para o espaço. Isto é devido ao vento solar - uma corrente de partículas electricamente carregadas libertada pelo Sol. À medida que as partículas solares colidem com as partículas carregadas perto de Vénus, estimulam os gases, libertando-os para sempre do planeta.

A Venus Express deu aqui passos de gigante na melhor compreensão de todos estes fenómenos, e descobriu como Vénus perde água devido à sua interacção com o vento solar. As novas medições de água pesada na atmosfera estão também a providenciar novas pistas sobre a história da água no planeta e a sua evolução climática geral.

Os magnetómetros podem detectar pequenas quantidades de hidrogénio oriundas de Vénus no vento solar ao sentir pequenas variações no campo magnético provocado pela presença destas partículas no vento solar não perturbado. Ao analisar estas variações, ou ondas de plasma, pode calcular-se quanto do hidrogénio no vento solar vem de Vénus. Dado que todas estas partículas escapam do planeta, também se pode calcular quanto deste hidrogénio é libertado fora deste plasma. Este número é bem maior que o que é perdido no vento solar, conclusão: Vénus está a perder hidrogénio!
Crédito: ESA/ASPERA-4 e equipa do MAG (impressão de artista por C. Carreau)
(clique na imagem para ver versão maior)

 

Medições do instrumento ASPERA-4 a bordo da Venus Express mostram que Vénus perde dois iões de hidrogénio por cada ião de oxigénio. Por outras palavras, Vénus perde água. A atmosfera perde os seus gases muito lentamente, mas a quantidade relativa de hidrogénio e de oxigénio na atmosfera não muda.
Crédito: ESA/ASPERA-4 e equipa do MAG (impressão de artista por C. Carreau)

No entanto, nem todos os mistérios foram ainda resolvidos. Uma resposta fulcral que os cientistas esperam ainda descobrir é quão activos estão os vulcões em Vénus. "A contribuição dos vulcões para a atmosfera pode ser enorme. O não saber deixa um grande buraco no nosso conhecimento do clima," diz Taylor.

Para um planeta que se pensava ser parecido com a Terra, até um que se pensava ser completamente diferente, os papéis foram novamente invertidos. Graças à Venus Express, Taylor descreve agora Vénus como um "gémeo da Terra, mas separado à nascença."

Links:

Notícias relacionadas:
Comunicado de imprensa (ESA)
Perfil inesperado da temperatura da atmosfera de Vénus (ESA)
A irrequieta atmosfera da Vénus (ESA)
Apanhado no vento do Sol (ESA)
Clima e evolução (ESA)
Nature
NASA
SPACE.com
Universe Today
New York Times
National Geographic
Reuters
BBC News
Correio da Manhã
Público
Expresso

Venus Express:
Página da ESA
NSSDC (NASA)
Wikipedia

Vénus:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia

 
  OBSERVE A GALÁXIA DE ANDRÓMEDA
   

Agora que a brilhante Lua deixou os céus nocturnos, é boa altura para virar a nossa atenção para um dos mais espectaculares objectos do céu, passando directamente sobre as nossas cabeças nestes dias por volta das 20 horas.

Este objecto era conhecido como "pequena nuvem" pelo astrónomo persa Abd-al-Rahman Al-Sufi, que a descreveu e ilustrou no seu Livro de Estrelas Fixas no ano 964. Mas para os astrónomos persas em Isfahan podia ter sido conhecida já em 905, ou até mais cedo. Um perito em nomenclatura estelar, Richard Hinckley Allen, também disse uma vez que apareceu num mapa estelar holandês datado do ano 1500.

Para observar esta "pequena nuvem" é necessário uma boa visão e uma noite escura e limpa, sem luzes da rua, de casa, ou da cidade para interferir. À vista desarmada parece nada mais que um brilho misterioso e indefinido: um borrão difuso e elongado, talvez com duas ou três vezes o tamanho aparente da Lua.

Para a encontrar, localize o Grande Quadrado de Pégaso. A seguir, foque os seus binóculos na brilhante estrela Alpheratz, que se encontra no canto superior esquerdo do Quadrado. Siga para Este (esquerda) até à estrela Mirach em Andrómeda no seu campo de visão. Depois, para cima até uma estrela razoavelmente brilhante acima de Mirach e siga subindo na mesma direcção até que encontra a "pequena nuvem". Este é o nosso alvo.

A constelação de Andrómeda esta à esquerda do Quadrado de Pégaso.
Crédito: Observatório Jodrell Bank

Hoje conhecemo-la simplesmente como a grande Galáxia de Andrómeda.

O rival de Galileu, Simon Marius, detém normalmente o crédito como o primeiro a observar telescopicamente este objecto em Dezembro de 1612. Descreveu a nebulosa tendo um brilho indefinido, "como uma vela brilhando pela janela de uma lanterna."

Mesmo hoje, os binóculos e telescópios revelam esta "nuvem" como pouco mais que algo enevoado e oval, que gradualmente aumenta de brilho para o centro até um núcleo tipo-estrela. Embora certamente pareça maior e mais brilhante do que a apenas olho nu, não há muito para sugerir a grandiosidade deste objecto, pois é bem melhor observada em astrofotografias de longa exposição. É oval porque da nossa perspectiva, estamos a observá-la não muito longe do seu perfil, mas de facto, é um conjunto estelar espiral, quase circular.

A luz desta "pequena nuvem" é na realidade a acumulação total de luz de mais de 400 mil milhões de estrelas. Também é apelidada de Messier ("M") 31, no famoso catálogo de Charles Messier: objectos difusos que se parecem com cometas, mas que mais tarde se vieram a revelar como galáxias, nebulosas e enxames estelares.

Este é o objecto mais distante observável à vista desarmada.

Imagem amadora de M31, registada com uma câmara CCD através de um telescópio.
Crédito: Ed Carlos
(clique na imagem para ver versão maior)

Estima-se que M31 tenha quase 200.000 anos-luz de diâmetro ou uma vez e meia o tamanho da nossa Via Láctea. O seu núcleo brilhante é a nuvem difusa visível a olho nu. Tal como a nossa Galáxia, M31 tem algumas galáxias satélites. Duas destas: M32 e M110 podem ser observadas com baixa ampliação num telescópio pequeno ou médio, no mesmo campo que M31. Existem ainda outras duas companheiras (NGC 147 e 185) que são bastante mais ténues e mais afastadas, perto da fronteira com a vizinha Cassiopeia.

À medida que observar esta noite a Galáxia de Andrómeda, estará a fazer algo que ninguém no mundo, à excepção de um observador dos céus, consegue fazer: estará na realidade a olhar para o passado.

Existe uma muito boa razão para este borrão de luz aparecer tão ténue à vista desarmada. Quando o observar esta noite, considere que esta luz viajou durante aproximadamente 2,5 milhões de anos para chegar até si, viajando sempre à tremenda velocidade de 1080 milhões de quilómetros por hora.

A luz que observa tem cerca de 25.000 séculos de idade e começou a sua viagem por volta da mesma altura do nascimento do Homem. Esta luz é pelo menos 480 vezes mais velha que as Pirâmides; a distância que já percorreu é tão inconcebível que só o facto de tentar escrever o número em quilómetros é completamente insignificante.

Quando começou a sua viagem de quase 24 exaquilómetros (24, seguido de dezoito zeros!) na direcção da Terra, os mastodontes e os tigres-dente-de-sabre vagueavam pelo continente americano antes da Idade do Gelo e o homem pré-histórico lutava pela sua existência no que é agora a Garganta de Olduvai a norte da Tanzânia, na planície do Serengeti oriental.

A Galáxia de Andrómeda no seu melhor.
Crédito: Robert Gendler
(clique na imagem para ver versão maior)

Durante muito tempo, M31 foi popularmente referida como a "Nebulosa" de Andrómeda. Mas embora os grandes telescópios reflectores como o de 72 polegadas Lord Rosse no Castelo de Birr na Irlanda estivessem em operação já durante meados do século XIX, só em 1923 é que Edwin P. Hubble finalmente observou estrelas individuais em M31 com o seu telescópio de 100 polegadas do Observatório do Monte Wilson.

Mesmo assim, muitas décadas antes já havia quem suspeitasse que M31 era mais que uma nuvem luminosa. Leia este comentário profético de W.H. Smyth, no seu livro "A Cycle of Celestial Objects", escrito em 1844:

"Sir John Herschel... conclui que é um anel liso, de enormes dimensões, visto muito obliquamente. Consiste, provavelmente, de miríades de sistemas solares a uma espantosa distância de nós, e carrega com ela uma lição: a que não devemos limitar as fronteiras do Universo aos limites dos nossos sentidos."

Links:

Notícias relacionadas:
Núcleo de Astronomia do Centro Ciência Viva do Algarve

Galáxia de Andrómeda (M31):
SEDS.org
Wikipedia

 
  ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS
       
  Foto  
O Planalto Aristarco - Crédito: Alan Friedman
Ancorado nas vastas correntes de lava do Oceano das Tempestades, encontra-se o planalto Aristarco. A brilhante cratera de impacto no canto do planalto é Aristarco, uma jovem cratera com 42 km de diâmetro e 3 de profundidade. Apenas um pouco mais pequena, para cima e para a esquerda, encontra-se a cratera Heródoto, preenchida por lava. Vallis Schroteri é um vale provavelmente esculpido por lava ou um túnel subterrânedo de lava colapsado, mesmo para a direita de Heródoto e que se prolonga pelo planalto durante 160 km, eventualmente seguindo para cima. O próprio planalto de Aristarco é uma ilha rectangular com uns 200 km de comprimento, 2 km acima da lisa superfície do Oceano das Tempestades. Registada a partir de um simples observatório de quintal em Buffalo, Nova Iorque, o constraste do material claro em torno de Aristarco e das superfície lisas e escuras de lava, sugerem cenas mais familiares de queda de neve aqui no planeta Terra.
Ver imagem em alta-resolução
 
  EFEMÉRIDES:  
 

Dia 01/12: 335.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1960, os cães espaciais Pchelka (Pequena Abelha) e Mushka (Pequena Mosca) foram lançados a bordo do Korabl-Sputnik-3, também conhecido como Sputnik 6. A nave passou um dia em órbita mas a re-entrada foi mal configurada e a nave, ao descer num ângulo muito acentuado, foi destruída.
Observações: Lua em Quarto Minguante, por volta das 12:44.

Dia 02/12: 336.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1993, lançamento da missão STS-61 do vaivém Endeavour, a primeira missão de manutenção do Hubble.

Observações: Aproveite estas noites para observar Marte, está bem brilhante. Encontra-se na constelação de Gémeos.

Dia 03/12: 337.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1958, o JPL era transferido do controlo do exército americano para o controlo da NASA.
Em 1971, a sonda soviética Mars 3 torna-se na primeira a aterrar com sucesso em Marte
Em 1973, a Pioneer 10 enviava para a Terra as primeiras imagens de Júpiter.
Em 1974, voo rasante da sonda Pioneer 11 por Júpiter.
Em 1999, a NASA perdia o contacto com a Mars Polar Lander, minutos antes da entrada na atmosfera de Marte.

Dia 04/12: 338.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1965, lançamento da missão Gemini 7. Frank Borman e James A. Lovell Jr. completam um voo de 14 dias, ao todo 220 órbitas. A missão tinha dois objectivos: estudar os efeitos a longo-prazo do voo espacial e fazer o "rendezvous" com a Gemini 6.

Em 1978, a sonda americana Pioneer/Venus torna-se na primeira a orbitar Vénus.
Em 1996, é lançada a Mars Pathfinder.
Observações: Aproveite a noite para observar de binóculos a Galáxia de Andrómeda (M31).

 
 
  CURIOSIDADES:  
 

De acordo com os cientistas, a sonda Voyager 2 está prestes a alcançar outro grande ponto da sua viagem. Irá passar o choque de terminação, o ponto onde o vento solar trava até velocidades subsónicas, no final deste ano ou no começo de 2008.
 
 
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