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Edição n.º 1433
01/12 a 04/12/2017
 
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EFEMÉRIDES

Dia 01/12: 335.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1960, os cães espaciais Pchyolka (Pequena Abelha) e Mushka (Pequena Mosca) foram lançados a bordo do Korabl-Sputnik-3, também conhecido como Sputnik 6.

A nave passou um dia em órbita mas a re-entrada foi mal configurada e, ao descer num ângulo muito acentuado, foi destruída.
Em 2013, a China lança o Yutu, o seu primeiro rover lunar, como parte da missão de exploração Chang'e 3.
Observações: A Lua brilha a esta ao início da noite. Para cima e um pouco para a sua direita estão as duas estrelas mais brilhantes de Carneiro.
Para a esquerda encontra-se o enxame aberto das Plêiades. E para baixo das Plêiades está a alaranjada Aldebarã.

Dia 02/12: 336.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1988, lançamento da STS-27, missão do vaivém espacial Atlantis, sob a alçada do Departamento de Defesa dos EUA.
Em 1990, lançamento do vaivém Columbia, na sua missão STS-35
Em 1992, lançamento do vaivém Discovery, na sua missão STS-53, também para suporte do Departamento de Defesa dos EUA. 
Em 1993, lançamento da missão STS-61 do vaivém Endeavour, a primeira missão de manutenção do Hubble.

Observações: Ao início da noite, a este, a Lua forma um triângulo com M45 (Plêiades) para cima e para a esquerda e com Aldebarã para baixo e para a esquerda.

Dia 03/12: 337.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1886 nascia Manne Siegbahn, físico sueco que recebeu o Prémio Nobel da Física em 1924 pelas "suas descobertas e pesquisas no campo da espectroscopia de raios-X".
Em 1904, Charles Dillon Perrine descobre a lua joviana Himalia.
Em 1958, o JPL era transferido do controlo do exército americano para o controlo da NASA.
Em 1971, a sonda soviética Mars 3 torna-se na primeira a aterrar com sucesso em Marte.
Em 1973, a Pioneer 10 enviava para a Terra as primeiras imagens de Júpiter.

Em 1974, voo rasante da sonda Pioneer 11 por Júpiter
Em 1999, a NASA perdia o contato com a Mars Polar Lander, minutos antes da entrada na atmosfera de Marte.
Em 2014, a JAXA (agência espacial japonea) lança a sonda Hayabusa 2, numa missão com a duração de seis anos e com o objetivo de recolher amostras de um asteroide.
Em 2015, a ESA lança com sucesso a LISA Pathfinder, uma nave desenhada para demonstrar tecnologia para observar ondas gravitacionais no espaço.  
Observações: Mercúrio estacionário, pelas 08:00.
Neptuno na sua quadratura este, pelas 11:33.
Lua Cheia, pelas 15:47.

Dia 04/12: 338.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1639, Jeremiah Horrocks fazia a primeira observação, de que há registo, de um trânsito de Vénus.
Em 1965, lançamento da missão Gemini 7.

Frank Borman e James A. Lovell Jr. completam um voo de 14 dias, ao todo 220 órbitas. A missão tinha dois objetivos: estudar os efeitos a longo-prazo do voo espacial e fazer o "rendezvous" com a Gemini 6
Em 1978, a sonda americana Pioneer/Venus torna-se na primeira a orbitar Vénus.
Em 1996, é lançada a Mars Pathfinder.
Em 1998, é lançado o módulo Unity, o segundo módulo da Estação Espacial Internacional.
Observações: Esta noite a Lua, que já começou a minguar, encontra-se entre as Plêiades (para cima) e a constelação de Orionte (para baixo).

 
CURIOSIDADES


O rover Opportunity já percorreu mais de 45 km à superfície de Marte.

 
WASP-18B TEM SUFOCANTE ESTRATOSFERA SEM ÁGUA

Uma equipa liderada pela NASA encontrou evidências de que o planeta gigante WASP-18b está envolvido numa estratosfera sufocante carregada com monóxido de carbono e desprovida de água. Os resultados provêm de uma nova análise das observações feitas pelos telescópios espaciais Hubble e Spitzer.

A formação de uma camada estratosférica na atmosfera de um planeta é atribuída a moléculas parecidas com um "protetor solar", que absorvem os raios UV e a luz visível provenientes da estrela e, em seguida, libertam energia sob a forma de calor. O novo estudo sugere que o "Júpiter quente" WASP-18b, um planeta gigante que orbita muito perto da sua estrela hospedeira, tem uma composição invulgar, e a formação deste mundo pode ter sido bastante diferente da de Júpiter, bem como da dos gigantes gasosos noutros sistemas planetários.

"A composição de WASP-18b desafia todas as expetativas," comenta Kyle Sheppard do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland, autor principal do artigo científico publicado na revista The Astrophysical Journal Letters. "Nós não conhecemos nenhum outro exoplaneta onde o monóxido de carbono domina completamente a atmosfera superior."

Uma equipa de cientistas liderada pela NASA determinou que WASP-18b, um "Júpiter quente" localizado a 325 anos-luz da Terra, tem uma estratosfera carregada com monóxido de carbono, ou CO, mas não tem sinais de água.
Crédito: Centro de Voo Espacial Goddard da NASA
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Na Terra, o ozono absorve os raios UV na estratosfera, protegendo o nosso planeta de grande parte da radiação prejudicial do Sol. Para o punhado de exoplanetas com estratosferas, normalmente o composto absorvente é uma molécula como o óxido de titânio, um parente próximo do dióxido de titânio, usado na Terra como pigmento de tinta e ingrediente dos protetores solares.

Os cientistas analisaram os dados recolhidos para WASP-18b, localizado a 325 anos-luz da Terra, como parte de uma pesquisa para encontrar exoplanetas com estratosferas. O planeta gigante, com uma massa equivalente a 10 Júpiteres, já foi observado repetidamente, permitindo com que os astrónomos acumulassem uma quantidade relativamente grande de dados. Este estudo analisou cinco eclipses nos dados de arquivo do Hubble e dois nos do Spitzer.

A partir da luz emitida pela atmosfera do planeta em comprimentos de onda infravermelhos, além do visível, é possível identificar as impressões espectrais da água e de algumas outras moléculas importantes. A análise revelou a peculiar impressão digital de WASP-18b, que não se assemelha com nenhum exoplaneta estudado até agora. Para determinar quais as moléculas mais prováveis aí existentes, a equipa realizou uma extensa modelagem de computador.

"A única explicação consistente para os dados é uma superabundância de monóxido de carbono e muito pouco vapor de água na atmosfera de WASP-18b, além da presença de uma estratosfera," afirma Nikku Madhusudhan, coautor do artigo da Universidade de Cambridge. "Esta rara combinação de fatores abre uma nova janela para a nossa compreensão dos processos físico-químicos nas atmosferas exoplanetárias."

Os achados indicam que WASP-18b possui monóxido de carbono quente na estratosfera e monóxido de carbono mais frio na camada atmosférica logo abaixo, chamada troposfera. A equipa determinou isto detetando dois tipos de assinaturas para o monóxido de carbono, uma assinatura de absorção a um comprimento de onda de aproximadamente 1,6 micrómetros e uma assinatura de emissão a cerca de 4,5 micrómetros. Esta é a primeira vez que os investigadores detetaram os dois tipos de impressões digitais para um único tipo de molécula na atmosfera de um exoplaneta.

Em teoria, outro possível ajuste para as observações é o dióxido de carbono, que tem uma impressão digital similar. Mas os cientistas descartaram esta explicação porque se existisse oxigénio suficiente para formar dióxido de carbono, a atmosfera também deveria ter algum vapor de água.

Para produzir as assinaturas espectrais vistas pela equipa, a atmosfera superior de WASP-18b terá que estar a "abarrotar" com monóxido de carbono. Em comparação com outros Júpiteres quentes, a atmosfera deste planeta provavelmente contém 300 vezes mais "metais", elementos mais pesados do que o hidrogénio e hélio. Esta metalicidade extremamente elevada pode indicar que WASP-18b acumulou quantidades maiores de gelos sólidos durante a sua formação do que Júpiter, sugerindo que talvez não se tenha formado como outros Júpiteres quentes.

"O lançamento esperado do Telescópio Espacial James Webb e de outros futuros observatórios espaciais vão dar-nos a oportunidade de fazer observações de acompanhamento com instrumentos ainda mais poderosos e de continuar a explorar a incrível variedade de exoplanetas que existem por aí," conclui Avi Mandell, cientista exoplanetário de Goddard e segundo autor do artigo.

Links:

Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
28/08/2009 - Planeta recém-descoberto pode estar perto da sua morte

Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
The Astrophysical Journal Letters
Space Daily
PHYSORG

WASP-18b:
NASA Exoplanet Archive
Exoplanet.eu
Wikipedia

Planetas extrasolares:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

Telescópio Espacial Spitzer:
Página oficial 
NASA
Centro Espacial Spitzer 
Wikipedia

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
ESA
Wikipedia

 
ALMA DESCOBRE ESTRELAS JOVENS SURPREENDENTEMENTE PERTO DO BURACO NEGRO SUPERMASSIVO DA VIA LÁCTEA

No centro da nossa Galáxia, nas imediações do seu buraco negro supermassivo, está situada uma região arruinada por poderosas forças de maré e banhada por intensa radiação ultravioleta e raios-X. Estas difíceis condições, pensam os astrónomos, não favorecem a formação estelar, especialmente estrelas de baixa massa como o nosso Sol. Inesperadamente, novas observações pelo ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) sugerem o contrário.

O ALMA deu a conhecer os sinais reveladores de onze estrelas de baixa massa formando-se perigosamente perto - até 3 anos-luz - do buraco negro supermassivo da Via Láctea, conhecido pelos astrónomos como Sagittarius A* (Sgr A*). A esta distância, as forças de maré exercidas pelo buraco negro supermassivo devem ser energéticas o suficiente para rasgar nuvens de poeira e gás antes que possam formar estrelas.

A presença destas recém-descobertas protoestrelas (o estágio de formação entre a densa nuvem de gás e uma estrela jovem e brilhante) sugere que as condições necessárias para o nascimento de estrelas de baixa massa podem existir mesmo nas regiões mais turbulentas da nossa Galáxia e possivelmente em locais idênticos por todo o Universo.

Os resultados foram publicados na revista The Astrophysical Journal Letters.

Característica com lóbulos duplos produzida por jatos de uma estrela recém-nascida perto do Centro Galáctico. O ALMA descobriu 11 destes sinais reveladores de formação estelar surpreendentemente perto do buraco negro supermassivo no centro da nossa Galáxia.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), Yusef-Zadeh et al.; B. Saxton (NRAO/AUI/NSF)
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Apesar da sua improbabilidade, temos as melhores evidências até à data da formação de estrelas de baixa massa surpreendentemente perto do buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea," afirma Farhad Yusef-Zadeh, astrónomo da Universidade Northwestern em Evanston, no estado norte-americano do Illinois, autor principal do artigo científico. "Este é um resultado genuinamente imprevisto e que demonstra o quão robusta a formação estelar pode ser, mesmo nos lugares mais inverosímeis."

Os dados do ALMA também sugerem que estas protoestrelas têm cerca de 6000 anos. "Isto é importante porque é a fase mais precoce da formação estelar que encontrámos neste ambiente altamente hostil," acrescenta Yusef-Zadeh.

A equipa de investigadores identificou estas protoestrelas através da observação dos clássicos "lóbulos duplos" de material que rodeiam cada uma delas, esculpindo uma "ampulheta cósmica" de gás que assinala os estágios iniciais da formação estelar. Nestes lóbulos, moléculas como o monóxido de carbono (CO) resplandecem em comprimentos de onda milimétricos que o ALMA pode observar com uma notável precisão e sensibilidade.

Estrelas jovens, como aquelas identificadas recentemente perto do buraco negro supermassivo no centro da nossa Galáxia, estão rodeadas por um disco rodopiante de poeira e gás. Nesta impressão de artista de um sistema solar jovem, a nova estrela puxa material dos seus arredores para o disco em rotação (direita) e produz jatos de material (esquerda).
Crédito: Bill Saxton (NRAO/AUI/NSF)
(clique na imagem para ver versão maior)
 

As protoestrelas formam-se a partir de nuvens interestelares de poeira e gás. Nestas nuvens, regiões densas de material colapsam sob a sua própria gravidade e crescem através da acumulação de cada vez mais material formador de estrelas oriundo das suas nuvens natais. No entanto, uma porção deste material em queda nunca chega à superfície da estrela. Ao invés, é ejetado como um par de jatos de alta velocidade dos polos norte e sul da estrela. Ambientes extremamente turbulentos podem interromper a libertação normal do material de volta à protoestrela, enquanto a intensa radiação - de estrelas gigantes vizinhas e de buracos negros supermassivos - podem destruir a nuvem natal, impedindo a formação de praticamente todas as estrelas à exceção das mais massivas.

O Centro Galáctico da Via Láctea, com o seu buraco negro com 4 milhões de massas solares, está localizado a aproximadamente 25.000 anos-luz de distância da Terra na direção da constelação de Sagitário. Esta região é obscurecida por vastos reservatórios de poeira interestelar, escondendo-o dos telescópios óticos. As ondas de rádio, incluindo os comprimentos de onda milimétricos e submilimétricos que o ALMA observa, são capazes de penetrar esta poeira, dando aos radioastrónomos uma imagem mais clara da dinâmica do conteúdo deste ambiente hostil.

Observações anteriores, com o ALMA, da região em redor de Sgr A* por Yusef-Zadeh e sua equipa revelaram várias estrelas infantis com uma idade estimada em aproximadamente 6 milhões de anos. Esses objetos, conhecidos como "proplyds", são características comuns em regiões de formação estelar, como por exemplo a Nebulosa de Orionte. Embora o Centro Galáctico seja um ambiente desafiador para a formação estelar, é possível que núcleos particularmente densos de hidrogénio gasoso superem o limite necessário e fabriquem novas estrelas, apesar das condições extremas.

No entanto, as novas observações do ALMA revelaram algo ainda mais espetacular, sinais de onze protoestrelas de baixa massa formando-se até 1 parsec - uns meros 3 anos-luz - do buraco negro central da Galáxia. Yusef-Zadeh e a sua equipa usaram o ALMA para confirmar que as massas e transferências de momento - a capacidade dos jatos das protoestrelas para penetrar o material interestelar circundante - são consistentes com as protoestrelas jovens encontradas por todo o disco da nossa Galáxia.

Imagem do ALMA do centro da Via Láctea que revela 11 jovens protoestrelas até aproximadamente 3 anos-luz do buraco negro supermassivo da nossa Galáxia. As linhas indicam a direção dos lóbulos bipolares produzidos por jatos velozes oriundos das protoestrelas. A estrela indica a posição de Sagittarius A*, o buraco negro supermassivo com 4 milhões de massas solares no Centro Galáctico.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), Yusef-Zadeh et al.; B. Saxton (NRAO/AUI/NSF)
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Esta descoberta fornece evidências de que está a ocorrer formação estelar em nuvens surpreendentemente perto de Sagittarius A*," comenta Al Wooten do NRAO (National Radio Astronomy Observatory) em Charlottesville, Virginia, EUA, coautor do artigo. "Embora as condições estejam longe das ideais, podemos argumentar várias ideias para o nascimento destas estrelas."

Para que isso ocorra, as forças externas teriam que comprimir as nuvens de gás perto do centro da nossa Galáxia a fim de superar a natureza violenta da região e permitir com que a gravidade se encarregue de formar estrelas. Os astrónomos especulam que velozes nuvens de gás que se deslocam pela área podem auxiliar à formação estelar comprimindo outras nuvens à medida que forçam o caminho através do meio interestelar. É também possível que os jatos do próprio buraco negro possam "lavrar" as nuvens de gás circundantes, comprimindo o material e despoletando esta explosão de formação estelar.

"A presença de tantos 'grumos' densos sugere que a formação estelar pode ocorrer na vizinhança imediata dos buracos negros supermassivos nos centros de outras galáxias," acrescenta Yusef-Zadeh. "Observações futuras vão lançar mais luz sobre este processo e ajudar a entender como tal acontece e onde podemos procurar mais destas estrelas jovens."

"O próximo passo é olhar mais de perto para confirmar que estas estrelas recém-formadas são orbitadas por discos empoeirados de gás," conclui Mark Wardle, astrónomos da Universidade Macquarie em Sydney, Austrália, coinvestigador da equipa. "Se assim for, é provável que a partir deste material se formem, eventualmente, planetas, como é o caso nas estrelas jovens no disco galáctico."

Links:

Notícias relacionadas:
Observatório ALMA (comunicado de imprensa)
NRAO (comunicado de imprensa)
Artigo científico (arXiv.org)
The Astrophysical Journal Letters
EurekAlert!
PHYSORG

Formação estelar:
Wikipedia
Protoestrela (Wikipedia)

Sagitário A*:
Wikipedia

Buraco negro supermassivo:
Wikipedia

Via Láctea:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia
SEDS

ALMA:
Página principal
ALMA (NRAO)
ALMA (NAOJ)
ALMA (ESO)
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
INSTRUMENTO MUSE DO VLT COMPLETA O MAIS PROFUNDO RASTREIO ESPECTROSCÓPICO EXECUTADO ATÉ À DATA

Com o auxílio do instrumento MUSE montado no VLT (Very Large Telescope) do ESO no Chile, os astrónomos levaram a cabo o rastreio espectroscópico mais profundo realizado até à data. Os investigadores focaram-se no Campo Ultra Profundo do Hubble, medindo distâncias e propriedades de 1600 galáxias muito ténues, incluindo 72 galáxias que nunca tinham sido detetadas antes, nem mesmo com o próprio Hubble. Este conjunto de dados inovador deu já origem a dez artigos científicos, que estão a ser publicados numa edição especial da revista Astronomy & Astrophysics. Esta enorme quantidade de novos dados fornece aos astrónomos informações sobre a formação estelar no Universo primordial, permitindo o estudo dos movimentos e outras propriedades das galáxias primitivas — possível graças às capacidades espectroscópicas únicas do MUSE.

A equipa do Rastreio MUSE HUDF, liderada por Roland Bacon da Universidade de Lyon (CRAL, CNRS), França, utilizou o instrumento MUSE (Multi Unit Spectroscopic Explorer) para observar o Campo Ultra Profundo do Hubble (Hubble Ultra Deep Field — HUDF), uma região bastante estudada do céu na direção da constelação austral da Fornalha. Obtiveram-se assim as observações espectroscópicas mais profundas de sempre; foi medida informação espectroscópica precisa para 1600 galáxias, o que corresponde a dez vezes o número de galáxias que se tinham conseguido medir neste campo durante a última década, com telescópios colocados no solo.

Esta imagem a cores mostra a região do Campo Ultra Profundo do Hubble, uma região minúscula mas muito bem estudada na constelação da Fornalha, observada pelo instrumento MUSE montado no VLT do ESO. No entanto, esta imagem dá-nos apenas uma visão muito parcial da riqueza dos dados MUSE, os quais fornecem igualmente um espectro para cada pixel da imagem. Este conjunto de dados permitiu aos astrónomos não apenas medir distâncias para muitas mais destas galáxias do que antes — um total de 1600 — mas também descobrir muito mais sobre cada uma delas. Surpreendentemente, foram descobertas 72 novas galáxias que não tinham sido anteriormente descobertas pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA.
Crédito: Colaboração ESO/MUSE HUDF
(clique na imagem para ver versão maior)
 

As imagens HUDF originais, publicadas em 2004, tratavam-se de observações de campo profundo obtidas com o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA. Eram as mais profundas obtidas até à data e revelaram uma enorme quantidade de galáxias, observadas quando o Universo tinha menos de mil milhões de anos. A região foi subsequentemente observada muitas vezes, tanto com o Hubble como com outros telescópios, resultando na imagem mais profunda do Universo obtida até à data. Agora, e apesar da profundidade das observações Hubble, o MUSE conseguiu — entre muitos outros resultados — revelar 72 galáxias nunca antes observadas nesta minúscula área do céu.

Roland Bacon explica melhor: "O MUSE consegue fazer algo que o Hubble não é capaz — separa a luz vinda de cada ponto da imagem nas suas componentes de cor, criando um espectro. Este facto permite-nos medir distâncias, cores e outras propriedades de todas as galáxias que observamos — incluindo algumas invisíveis ao próprio Hubble!"

Os dados MUSE dão-nos uma nova visão de galáxias muitos distantes e ténues, observadas próximo do início do Universo, há cerca de 13 mil milhões de anos atrás. Este instrumento detetou galáxias 100 vezes mais ténues do que os rastreios anteriores, acrescentando assim a um campo observado já muito rico e aprofundando o nosso conhecimento das galáxias ao longo dos tempos.

Esta imagem mostra o Campo Ultra Profundo do Hubble de 2012, uma versão melhorada da imagem do Campo Ultra Profundo do Hubble através de tempo de observação adicional. Os novos dados revelaram pela primeira vez uma população de galáxias distantes a desvios para o vermelho entre 9 e 12, incluindo o objeto mais distante observado até à data. Estas galáxias precisam de confirmação através de espectroscopia levada a cabo pelo futuro Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA para serem consideradas completamente confirmadas.
Crédito: NASA, ESA, R. Ellis (Caltech) e equipa HUDF 2012
(clique na imagem para ver versão maior)
 

O rastreio descobriu 72 candidatas a galáxias do tipo Lyman-alfa, objetos que emitem apenas em radiação Lyman-alfa. A nossa compreensão atual da formação estelar não explica completamente este tipo de galáxias, que parecem apenas brilhar intensamente nesta cor. Uma vez que o MUSE dispersa a luz nas suas componentes de cor, estes objetos tornam-se aparentes, mas permanecem invisíveis em imagens diretas profundas, como é o caso das do Hubble.

"O MUSE tem a capacidade única de extrair informação sobre algumas das galáxias mais precoces do Universo — mesmo numa região do céu já tão bem estudada," explica Jarle Brinchmann, autor principal de um dos artigos científicos que descreve os resultados deste rastreio, da Universidade de Leiden, na Holanda, e do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, Porto, Portugal. "Usando espectroscopia podemos aprender mais sobre estas galáxias, tais como o seu conteúdo químico e movimentos internos — não para cada galáxia de sua vez, mas para todas as galáxias ao mesmo tempo!"

Esta imagem composta mostra a região do Campo Ultra Profundo do Hubble, destacando a azul os halos de gás brilhantes que circundam muitas galáxias distantes descobertas com o auxílio do instrumento MUSE, montado no VLT do ESO, no Chile. A descoberta de tantos halos enormes, que emitem radiação ultravioleta de Lyman-alfa, em torno de muitas galáxias distantes, é um dos muitos resultados obtidos por este rastreio espectroscópico muito profundo.
Crédito: Equipa ESO/MUSE HUDF
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Outro resultado importante deste estudo foi a deteção sistemática de halos de hidrogénio luminoso em torno de galáxias do Universo primordial, o que dá aos astrónomos uma nova maneira promissora de estudar como é que o material flui para dentro e para fora das galáxias primitivas.

Numa série de artigos científicos são exploradas muitas outras aplicações potenciais desta base de dados, incluindo o papel de galáxias ténues durante a reionização cósmica (que começou apenas 380.000 anos após o Big Bang), taxas de fusão de galáxias quando o Universo era jovem, ventos galácticos, formação estelar e mapeamento dos movimentos das estrelas no Universo primordial.

"Notavelmente, estes dados foram todos obtidos sem o uso do recente melhoramento do MUSE relativo à Infraestrutura de Óptica Adaptativa. A ativação desta infraestrutura, após uma década de trabalho intenso por parte dos astrónomos e engenheiros do ESO, promete dados ainda mais revolucionários no futuro," conclui Roland Bacon.

Links:

Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
23/09/2016 - ALMA explora o Campo Ultra Profundo do Hubble
14/12/2012 - Astrónomos descobrem galáxias perto de "madrugada cósmica"

Notícias relacionadas:
ESO (comunicado de imprensa)
Artigos científicos na Astronomy & Astrophysics
Artigo científico 1 - R. Bacon et al. (PDF)
Artigo científico 2 - H. Inami et al. (PDF)
Artigo científico 3 - J. Brinchmann et al. (PDF)
Artigo científico 4 - M. V. Maseda et al. (PDF)
Artigo científico 5 - A. Guérou et al. (PDF)
Artigo científico 6 - A. B. Drake et al. (PDF)
Artigo científico 7 - H. Finley et al. (PDF)
Artigo científico 8 - F. Leclercq et al. (PDF)
Artigo científico 9 - E. Ventou et al. (PDF)
Artigo científico 10 - T. Hashimoto et al. (PDF)
Sky & Telescope
SPACE.com
New Scientist
ScienceDaily
Popular Mechanics
PHYSORG
AstroPT

HUDF (Hubble Ultra Deep Field):
Hubblesite
Wikipedia

Galáxia Lyman-alpha:
Wikipedia

VLT:
Página oficial
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
ESA
Wikipedia

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
  Traços de vida nos exoplanetas mais próximos poderão estar escondidos em "armadilha" equatorial (via Sociedade Real Astronómica)
Novas simulações mostram que a procura por vida noutros planetas pode ser bem mais difícil do que se assumia anteriormente. O estudo indica que invulgares padrões de fluxo de ar podem ocultar componentes atmosféricos das observações telescópicas, com consequências diretas para a formulação da estratégia ideal para a busca por vida (que produz oxigénio), como bactérias ou planetas em exoplanetas. Ler fonte
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - M33: Galáxia do Triângulo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Peter Nagy
 
A pequena constelação do Triângulo contém esta espantosa galáxia espiral, M33. Entre os seus nomes populares destacam-se Galáxia do Catavento e Galáxia do Triângulo. M33 mede mais de 50.000 anos-luz em diâmetro e é a terceira maior galáxia do Grupo Local, a seguir à Galáxia de Andrómeda (M31) e à nossa Via Láctea. A cerca de 3 milhões de anos-luz da nossa Galáxia, pensa-se que a própria M33 seja uma galáxia satélite da Galáxia de Andrómeda e quaisquer astrónomos que se encontrem nestas duas galáxias muito provavelmente têm vistas espetaculares dos sistemas estelares espirais uma da outra. No que diz respeito à vista a partir do planeta Terra, esta imagem detalhada mostra os enxames azuis e as regiões de formação estelar cor-de-rosa de M33, que traçam os mais ou menos entrelaçados braços espirais da galáxia. De facto, a cavernosa NGC 604 é a região de formação estelar mais brilhante, vista aqui na posição das 7 horas a partir do centro da galáxia. Tal como M31, a população bem medida de estrelas variáveis em M33 tem ajudado a fazer deste nosso vizinho galáctico uma espécie de "régua cósmica" para estabelecer a escala de distâncias do Universo.
 

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