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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1906  
  14/06 a 16/06/2022  
     
 
Efemérides

Dia 14/06: 165.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1627, nascia Johann Abraham Ihle, astrónomo amador alemão que descobriu o primeiro enxame globular, M22, no dia 26 de agosto de 1665, enquanto observava Saturno em Sagitário.
Em 1949, Albert II, um macaco-rhesus, viaja a bordo de um foguetão V2, até uma altitude de 134 km, tornando-se por isso no primeiro macaco no espaço.
Em 1962, a ESRO (European Space Research Organisation) é fundada em Paris - mais tarde tornando-se na ESA (European Space Agency). 
Em 1967 era lançada a Mariner 5 (EUA): missão de voo rasante por Vénus (3.900 km a 19 de outubro de 1967).
Em 1975, lançamento da Venera 10, uma sonda soviética com destino Vénus.

Chegou ao planeta no dia 25 de outubro de 1975. O módulo de aterragem transmitiu imagens a preto e branco da superfície venusiana. 
Em 2002, o asteroide 2002 MN falha a Terra por 121.000 km, aproximadamente um-terço da distância entre a Terra e a Lua.
Em 2015, a supernova ASASSN-15lh é vista por dois telescópios operados pelo ASASSN (All Sky Automated Survey for SuperNovae) e torna-se o caso mais extremo, até agora, de uma supernova superluminosa.
Observações: Lua Cheia, pelas 12:52.
A Lua brilha em frente do "bule de chá" de Sagitário, pouco antes da meia-noite. Use binóculos para discernir as estrelas de segunda e terceira magnitudes através do luar. O "bule de chá" está nivelado, tem cerca de um punho à distância do braço esticado de tamanho, com o seu bico triangular para a direita.
Tenha em atenção que é o dobro de um típico campo de visão dos binóculos. Terá que olhar para os lados para ver todas as estrelas.

Dia 15/06: 166.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 763 AC, os assírios registam um eclipse solar que é mais tarde usado para corrigir a cronologia da história da Mesopotâmia.
Em 2000, cientistas descobrem açúcar no espaço.

A descoberta da molécula de açúcar, glicoaldeído, numa nuvem gigante de gás e poeira perto do centro da nossa Via Láctea, foi feita por cientistas usando o telescópio de 12 metros de Kitt Peak, no Arizona.
Observações: Enquanto contamos os últimos dias de primavera (o solstício é já dia 21), o Triângulo de verão está alto a este após o cair da noite. A sua estrela de topo é a brilhante Vega. Deneb é a estrela mais brilhante para baixo e para a esquerda de Vega, a 2 ou 3 punhos à distância do braço esticado. Procure Altair a uma distância maior, mas para baixo e para a direita de Vega. Em termos de brilho, Altair fica entre Vega e Deneb.

Dia 16/06: 167.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1888, nascia Alexander Friedmann, físico e matemático soviético, conhecido pela sua teoria da expansão do Universo, regida por um conjunto de equações por ele desenvolvidas, agora conhecidas como as equações de Friedmann.
Em 1911, um meteorito rochoso com 772 g atinge a Terra perto de Kilbourn, no estado norte-americano do Wisconsin, danificando um celeiro.
Em 1963, Valentina Tereshkova torna-se na primeira mulher a ir ao espaço, a bordo da nave soviética Vostok 6.

O seu voo solitário é ainda único. Vinte anos mais tarde, no dia 18, Sally Ride torna-se na primeira americana em órbita, a bordo do vaivém espacial.
Em 1999, maior aproximação do asteroide 1685 Toro pela Terra (0,757 UA).
Em 2012, a China lança com sucesso a nave Shenzhou 9, que transporta três astronautas - incluindo a primeira astronauta chinesa, Liu Yang - até ao módulo orbital Tiangong-1. No mesmo dia, o avião robótico espacial dos EUA, Boeing X-37B, regressa à Terra após uma missão orbital secreta de 469 dias.
Observações:
Ao anoitecer, procure, muito baixa a norte-noroeste, a estrela Capella, já muito fora de estação. Utilize binóculos. Quanto mais para sul estiver o observador, mais baixa estará.

 
 
   
Gaia vê estrelas estranhas no levantamento mais detalhado da Via Láctea até à data

Ontem, a missão Gaia da ESA divulgou o seu novo tesouro de dados da nossa Galáxia natal. Os astrónomos descrevem estranhos "sismos estelares", ADN estelar, movimentos assimétricos e outras informações fascinantes neste levantamento mais detalhado da Via Láctea até à data.

A missão do observatório Gaia da ESA é criar o mapa multidimensional mais preciso e completo da Via Láctea. Isto permite aos astrónomos reconstruir a estrutura da nossa Galáxia e a evolução passada ao longo de milhares de milhões de anos, e compreender melhor o ciclo de vida das estrelas e o nosso lugar no Universo.

 
Esta imagem mostra quatro mapas do céu feitos com os novos dados do Gaia da ESA divulgados a 13 de junho de 2022.
1. Velocidade radial (canto superior esquerdo)
O DR3 do Gaia da ESA mostra-nos a velocidade a que mais de 30 milhões de objetos na Via Láctea (na sua maioria estrelas) se movem em direção a nós ou para longe de nós. A isto chama-se 'velocidade radial'. Podemos agora ver como os objectos se movem sobre uma grande porção do disco da Via Láctea.
A rotação do disco, projetada ao longo da linha de visão, é visível a partir da alternância de áreas claras (afastando-se de nós) e escuras (aproximando-se de nós). Vários objetos, cuja velocidade radial difere da do seu ambiente próximo, são visíveis por contraste.
As Grande e Pequena Nuvens de Magalhães (GNM e PNM) aparecem como pontos brilhantes no canto inferior direito da imagem. A galáxia anã de Sagitário é visível como uma ligeira faixa quase-vertical abaixo do Centro Galáctico. Vários enxames globulares aparecem como pequenos pontos na imagem, tais como 47 Tucanae, o ponto escuro à esquerda imediata da PNM.
2. Velocidade radial e movimento próprio (canto inferior esquerdo)
Este mapa do céu mostra o campo de velocidade da Via Láctea para ~26 milhões de estrelas. As cores mostram as velocidades radiais das estrelas ao longo da linha de visão. O azul mostra as partes do céu onde o movimento médio das estrelas está na nossa direção e o vermelho mostra as regiões onde o movimento médio está para longe de nós. As linhas visíveis na figura traçam o movimento das estrelas projetadas no céu (movimento próprio). Estas linhas mostram como a direção da velocidade das estrelas varia em função da latitude e longitude galácticas. As Grande e Pequena Nuvens de Magalhães (GNM e PNM) não são visíveis, uma vez que apenas estrelas com distâncias bem definidas foram selecionadas para fazer esta imagem.
3. Poeira interestelar (canto superior direito)
O Gaia não só mapeia as estrelas na nossa Galáxia, como também nos diz o que há entre as estrelas. O espaço entre as estrelas não está vazio, mas sim cheio de poeira e nuvens de gás, das quais nascem as estrelas.
Através das medições precisas das posições das estrelas e da sua luz dispersa, o Gaia permite-nos mapear a absorção da luz das estrelas pelo meio interestelar. Estes mapas fornecem-nos pistas essenciais para os mecanismos físicos da formação de estrelas, galáxias, e a história da nossa Galáxia natal.
Este mapa mostra a poeira interestelar que preenche a Via Láctea. As regiões escuras no centro do Plano Galáctico a preto são as regiões com muita poeira interestelar a desaparecer para o amarelo à medida que a quantidade de poeira diminui. As regiões azuis escuras acima e abaixo do Plano Galáctico são regiões onde há pouca poeira.
4. Mapa químico (canto inferior direito)
A composição das estrelas pode dizer-nos mais sobre o seu local de nascimento e a sua viagem posterior e, portanto, sobre a história da Via Láctea. Com a divulgação dos dados de ontem, o Gaia traz-nos um mapa químico da galáxia.
Com o Gaia, vemos que algumas estrelas da nossa Galáxia são feitas de material primordial, enquanto outras como o nosso Sol são feitas de matéria enriquecida por gerações anteriores de estrelas. Estrelas que estão mais próximas do Centro e do Plano da nossa Galáxia são mais ricas em metais do que estrelas a distâncias maiores.
Esta visão de todo o céu mostra uma amostra das estrelas da Via Láctea na publicação de dados de Gaia 3. A cor indica a metalicidade estelar. As estrelas mais vermelhas são mais ricas em metais.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC
 

O que há de novo na terceira divulgação de dados?

O DR3 (Data Release 3) do Gaia contém detalhes novos e melhorados para quase dois mil milhões de estrelas na nossa Galáxia. O catálogo inclui novas informações incluindo composições químicas, temperaturas estelares, cores, massas, idades e a velocidade a que as estrelas se movem na nossa direção ou para longe de nós (velocidade radial). Grande parte desta informação foi revelada por dados espectroscópicos recentemente divulgados, uma técnica em que a luz das estrelas é dividida nas suas cores constituintes (como um arco-íris). Os dados também incluem subconjuntos especiais de estrelas, como aquelas que mudam de brilho ao longo do tempo.

Também novo neste conjunto de dados, o maior catálogo até agora de estrelas binárias, milhares de objetos no Sistema Solar, tais como asteroides e luas de planetas, e milhões de galáxias e quasares para lá da Via Láctea.

Sismos estelares

Uma das descobertas mais surpreendentes resultantes dos novos dados é que o Gaia é capaz de detetar sismos estelares - pequenos movimentos na superfície de uma estrela - que mudam as formas das estrelas, algo para o qual o observatório não foi originalmente construído.

Anteriormente, o Gaia já tinha encontrado oscilações radiais que provocam inchaços e contrações periódicas nas estrelas, mantendo ao mesmo tempo a sua forma esférica. Mas o Gaia detetou agora outras vibrações que são mais parecidas com tsunamis em grande escala. Estas oscilações não radiais mudam a forma global de uma estrela e são, portanto, mais difíceis de detetar.

O Gaia descobriu fortes sismos estelares não radiais em milhares de estrelas. O Gaia também revelou tais vibrações em estrelas que raramente foram vistas antes. Estas estrelas não deveriam ter quaisquer sismos estelares, de acordo com a teoria atual, apesar do Gaia os ter detetado à superfície.

"Os sismos estelares ensinam-nos muito sobre as estrelas, nomeadamente sobre o seu funcionamento interno. O Gaia está a abrir uma mina de ouro para a 'asterosismologia' das estrelas massivas," diz Conny Aerts da KU Leuven na Bélgica, membro da colaboração Gaia.

 

Esta imagem mostra uma impressão artística da Via Láctea e por cima uma sobreposição mostrando a localização e densidades de uma amostra estelar jovem da publicação de dados 3 de Gaia (em verde-amarelo). O sinal "você está aqui" aponta em direção ao Sol.
A densidade da amostra até 5 kpc (~16.300 anos-luz) do Sol é fornecida nesta imagem sob a forma de superfícies de isodensidade. As superfícies de isodensidade fornecem uma visão da estrutura da nossa Galáxia. Quanto maior for a densidade, mais estrelas jovens se encontram nesta área. Ver mais versões e ler mais sobre este mapa aqui.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC

 

O ADN das estrelas

A composição das estrelas pode dizer-nos mais sobre o seu local de nascimento e sobre a sua viagem posterior e, portanto, sobre a história da Via Láctea. Com a divulgação de dados de ontem, o Gaia está a revelar o maior mapa químico da Galáxia associado a movimentos 3D, desde a nossa vizinhança solar até às galáxias mais pequenas que rodeiam a nossa.

Algumas estrelas contêm mais "metais pesados" do que outras. Durante o Big Bang, apenas foram formados elementos leves (hidrogénio e hélio). Todos os outros elementos pesados - chamados metais pelos astrónomos - são fabricados dentro das estrelas. Quando as estrelas morrem, libertam estes metais para o gás e poeira entre as estrelas, chamado meio interestelar, a partir do qual se formam novas estrelas. A formação das estrelas e a sua morte levam a um ambiente mais rico em metais. Portanto, a composição química de uma estrela é um pouco como o seu ADN, dando-nos informações cruciais sobre a sua origem.

Com o Gaia, vemos que algumas estrelas na nossa Galáxia são feitas de material primordial, enquanto outras como o nosso Sol são feitas de matéria enriquecida por gerações anteriores de estrelas. Estrelas que estão mais próximas do centro e do plano da nossa Galáxia são mais ricas em metais do que estrelas a distâncias maiores. O Gaia também identificou estrelas que vieram originalmente de galáxias diferentes da nossa, com base na sua composição química.

"A nossa Galáxia é uma miscelânea incrível de estrelas," diz Alejandra Recio-Blanco do Observatoire de la Côte d’Azur na França, membro da colaboração Gaia.

"Esta diversidade é extremamente importante, porque conta-nos a história da formação da nossa Galáxia. Revela os processos de migração dentro da nossa Galáxia e a acreção de galáxias exteriores. Mostra também claramente que o nosso Sol, e todos nós, pertencemos a um sistema em constante mudança, formado graças à produção de estrelas e gás de origens diferentes."

Estrelas binárias, asteroides, quasares e mais

Outros artigos científicos publicados ontem refletem a amplitude e profundidade do potencial de descoberta do Gaia. Um novo catálogo de estrelas binárias apresenta a massa e a evolução de mais de 800 mil sistemas binários, enquanto um novo levantamento de asteroides, compreendendo 156 mil corpos rochosos, está a analisar mais profundamente a origem do nosso Sistema Solar. O Gaia está também a revelar informações sobre 10 milhões de estrelas variáveis, misteriosas macromoléculas entre estrelas, bem como quasares e galáxias para lá da nossa própria vizinhança cósmica.

"Ao contrário de outras missões que visam objetos específicos, o Gaia é uma missão de levantamento. Isto significa que, ao mesmo tempo que examina todo o céu de milhares de milhões de estrelas várias vezes, o Gaia consegue fazer descobertas que outras missões mais dedicadas não conseguem fazer. Este é um dos seus pontos fortes e estamos ansiosos que a comunidade astronómica mergulhe nos nossos novos dados para descobrir ainda mais sobre a nossa Galáxia e arredores do que poderíamos ter imaginado," diz Timo Prusti, cientista do projeto Gaia na ESA.

// ESA (comunicado de imprensa)
// Instituto Max Planck (comunicado de imprensa)
// Sociedade Astronómica Real (comunicado de imprensa)
// Universidade de Cambridge (comunicado de imprensa)
// Fundação Simons (comunicado de imprensa)
// Catálogo DR3 do Gaia (ESA)
// Histórias do DR3 do Gaia (ESA)
// Artigos científicos baseados no DR3 do Gaia (ESA)
// Conferência de imprensa (ESA via YouTube)
// DR3 do Gaia: explorando a nossa Via Láctea multidimensionalmente (ESA via YouTube)
// Gaia vê sismos estelares (ESA via YouTube)
// A química da nossa Via Láctea (ESA via YouTube)
// Estrelas sociais (ESA via YouTube)
// Como o Gaia deteta estrelas binárias (ESA via YouTube)
// Populações de asteroides no DR3 do Gaia (ESA via YouTube)
// A química dos asteroides vistos pelo Gaia (ESA via YouTube)
// A assimétrica Via Láctea em movimento (ESA via YouTube)

 


Saiba mais

Gaia:
ESA
ESA - 2
Gaia/ESA
Programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia
Catálogo DR3 do Gaia
Wikipedia

Asterosismologia:
Wikipedia 
asteroseismology.org

Via Láctea:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
SEDS

 
   
Hubble determina massa de buraco negro isolado que vagueia pela Via Láctea

Os astrónomos estimam que 100 milhões de buracos negros vagueiam entre as estrelas da nossa Galáxia, a Via Láctea, mas nunca identificaram de forma conclusiva um buraco negro isolado. Após seis anos de meticulosas observações, o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA forneceu, pela primeira vez, evidências diretas de um buraco negro isolado a vaguear pelo espaço interestelar através de uma medição precisa da massa do objeto fantasmagórico. Até agora, todas as massas de buracos negros têm sido inferidas estatisticamente ou através de interações em sistemas binários ou nos núcleos de galáxias. Os buracos negros de massa estelar são normalmente encontrados com estrelas companheiras, o que torna este invulgar.

 

Impressão de artista de um buraco negro à deriva pela nossa Galáxia, a Via Láctea. O buraco negro é o remanescente esmagado de uma enorme estrela que explodiu como uma supernova. O núcleo sobrevivente tem várias vezes a massa do nosso Sol. O buraco negro "prende" a luz devido ao seu intenso campo gravitacional. O buraco negro distorce o espaço à sua volta, o qual distorce imagens de estrelas de fundo alinhadas quase diretamente atrás dele. Este efeito de "lente" gravitacional fornece a única evidência indicadora da existência de buracos negros solitários que vagueiam pela nossa Galáxia, dos quais pode haver uma população de 100 milhões de habitantes. O Telescópio Espacial Hubble vai à caça destes buracos negros, procurando a distorção na luz estelar à medida que os buracos negros se deslocam em frente das estrelas de fundo.
Crédito: ESA/Hubble, DSS, Nick Risinger (skysurvey.org), N. Bartmann

 

O buraco negro errante recentemente detetado encontra-se a cerca de 5000 anos-luz de distância, no braço espiral Carina-Sagitário da nossa Galáxia. No entanto, a sua descoberta permite aos astrónomos estimar que o buraco negro de massa estelar isolado mais próximo da Terra possa estar a cerca de 80 anos-luz de distância. A estrela mais próxima do nosso Sistema Solar, Proxima Centauri, está a pouco mais de 4 anos-luz de distância.

Os buracos negros que vagueiam a nossa Galáxia nascem a partir de estrelas raras e monstruosas (que correspondem a menos de um-milésimo da população estelar da Galáxia) que são pelo menos 20 vezes mais massivas do que o nosso Sol. Estas estrelas explodem como supernovas e o núcleo remanescente é esmagado pela gravidade num buraco negro. Dado que a detonação não é perfeitamente simétrica, o buraco negro pode "levar um pontapé" e ser impelido para a Galáxia como uma bola de canhão.

Os telescópios não conseguem fotografar um buraco negro errático porque não emite qualquer luz. No entanto, um buraco negro distorce o espaço, que depois desvia e amplifica a luz estelar de qualquer coisa que momentaneamente se alinhe exatamente atrás dele.

Os telescópios terrestres, que monitorizam o brilho de milhões de estrelas nos ricos campos estelares em direção ao bojo central da nossa Via Láctea, procuram um súbito aumento de brilho de uma delas quando um objeto massivo passa entre nós e a estrela. Depois o Hubble acompanha os acontecimentos mais interessantes.

Duas equipas utilizaram dados do Hubble nas suas investigações - uma liderada por Kailash Sahu do STScI (Space Telescope Science Institute) em Baltimore, no estado norte-americano de Maryland; e a outra por Casey Lam da Universidade da Califórnia, Berkeley. Os resultados das equipas diferem ligeiramente, mas ambos sugerem a presença de um objeto compacto.

A deformação do espaço devido à gravidade de um objeto em primeiro plano que passa em frente de uma estrela localizada muito atrás dele irá momentaneamente curvar e ampliar a luz da estrela de fundo à medida que este passa em frente dela. Os astrónomos usam o fenómeno, chamado microlente gravitacional, para estudar estrelas e exoplanetas nos cerca de 30.000 eventos vistos até agora na nossa Galáxia.

 

Esta ilustração revela como a gravidade de um buraco negro distorce o espaço e "curva" a luz de uma estrela distante atrás dele. Um buraco negro é o remanescente esmagado de uma estrela massiva que explodiu como uma supernova. O buraco negro "prende" a luz devido ao seu intenso campo gravitacional, pelo que não pode ser visto diretamente. O buraco negro distorce o espaço à sua volta, o qual desvia imagens de estrelas alinhadas quase diretamente atrás dele. Isto fornece evidências da existência de buracos negros solitários que vagueiam pela nossa Galáxia. A luz de uma estrela de fundo é desviada e iluminada pelo intenso campo gravitacional do buraco negro. O Telescópio Espacial Hubble vai à caça destes buracos negros, procurando desvios na luz das estrelas à medida que o buraco negro se desloca em frente das estrelas de fundo.
Crédito: NASA, ESA, STScI, Joseph Olmsted

 

A assinatura de um buraco negro em primeiro plano destaca-se como única entre outros eventos de microlente. A gravidade muito intensa do buraco negro prolonga a duração do evento de lente gravitacional por mais de 200 dias. Além disso, se o objeto interveniente fosse ao invés uma estrela em primeiro plano, isso provocaria uma mudança transitória de cor na luz estelar medida, porque a luz da estrela em primeiro plano e da estrela de fundo ficariam momentaneamente misturadas. Mas não foi vista nenhuma mudança de cor no evento do buraco negro.

De seguida, o Hubble foi utilizado para medir a quantidade de desvio da imagem da estrela de fundo pelo buraco negro. O Hubble é capaz da extraordinária precisão necessária para tais medições. A imagem da estrela foi desviada da sua posição normal por cerca de um milésimo de segundo de arco. Isto equivale a medir a altura de um humano adulto deitado na superfície da Lua a partir da Terra.

Esta técnica de microlente forneceu informações sobre a massa, distância e velocidade do buraco negro. A quantidade de deflexão pela intensa distorção do espaço do buraco negro permitiu à equipa de Sahu estimar que tem cerca de sete vezes a massa do Sol.

A equipa de Lam relata um intervalo de massa ligeiramente inferior, o que significa que o objeto pode ser ou uma estrela de neutrões ou um buraco negro. Eles estimam que a massa do objeto compacto e invisível tem entre 1,6 e 4,4 vezes a massa do Sol. No limite superior deste intervalo, o objeto seria um buraco negro; no limite inferior, seria uma estrela de neutrões.

"Por muito que gostássemos de dizer que se trata definitivamente de um buraco negro, devemos reportar todas as soluções permitidas. Isto inclui tanto buracos negros de massa baixa como possivelmente até uma estrela de neutrões", disse Jessica Lu da equipa de Berkeley.

"O que quer que seja, o objeto é o primeiro remanescente estelar escuro descoberto a vaguear pela Galáxia, sem estar acompanhado por outra estrela", acrescentou Lam.

Esta foi uma medição particularmente difícil para a equipa porque existe outra estrela brilhante que está extremamente próxima em termos de separação angular da estrela de origem. "Portanto, é como tentar medir o pequeno movimento de um pirilampo ao lado de uma lâmpada brilhante," disse Sahu. "Tivemos de subtrair meticulosamente a luz da estrela brilhante próxima para medir precisamente a deflexão da fonte fraca."

A equipa de Sahi estima que o buraco negro isolado está a viajar através da Galáxia a 160.000 km/h (depressa o suficiente para viajar da Terra à Lua em menos de três horas). É mais rápido do que a maioria das outras estrelas vizinhas naquela região da nossa Galáxia.

 

O céu estrelado nesta foto do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA situa-se na direção do Centro Galáctico. A luz das estrelas é monitorizada para ver se alguma alteração no seu brilho aparente é causada por um objecto em primeiro plano à deriva à sua frente. A deformação do espaço pelo intruso aumentaria momentaneamente o brilho de uma estrela de fundo, um efeito chamado de lente gravitacional. Um desses eventos é mostrado nas quatro inserções de grande plano na parte inferior. A seta aponta para uma estrela que momentaneamente aumentou de brilho, como capturado pela primeira vez pelo Hubble a agosto de 2011. Isto foi causado por um buraco negro em primeiro plano à deriva em frente da estrela, ao longo da nossa linha de visão. A estrela brilhou e depois desvaneceu-se de volta ao seu brilho normal, à medida que o buraco negro passava. Como um buraco negro não emite ou reflete luz, não pode ser diretamente observado. Mas a sua impressão digital única no tecido do espaço pode ser medida através destes chamados eventos de microlente. Embora se estime que 100 milhões de buracos negros isolados percorram a nossa Galáxia, encontrar a assinatura telescópica de um deles é como procurar uma agulha num palheiro.
Crédito: NASA, ESA, K. Sahu (STScI), J. DePasquale (STScI)

 

"A microlente astrométrica é conceptualmente simples, mas observacionalmente muito complexa," disse Sahu. "A técnica de microlente é a única disponível para identificar buracos negros isolados". Quando o buraco negro passou em frente de uma estrela de fundo localizada a 19.000 anos-luz de distância no bojo da Via Láctea, a luz estelar que vinha em direção à Terra foi ampliada durante 270 dias à medida que o buraco negro passava. No entanto, foram necessários vários anos de observações do Hubble para seguir como a posição da estrela de fundo parecia ser defletida pela curvatura da luz pelo buraco negro em primeiro plano.

A existência de buracos negros de massa estelar é conhecida desde o início da década de 1970, mas todas as suas medições de massa - até agora - têm sido feitas em sistemas estelares binários. O gás da estrela companheira cai no buraco negro e é aquecido a temperaturas tão elevadas que emite raios-X. Cerca de duas dúzias de buracos negros tiveram as suas massas medidas em binários de raios-X através do efeito gravitacional que exercem nas companheiras. As estimativas de massa variam de 5 a 20 massas solares. Os buracos negros detetados noutras galáxias graças às ondas gravitacionais libertadas a partir de fusões entre buracos negros e objetos companheiros chegaram a atingir 90 massas solares.

"As deteções de buracos negros isolados proporcionarão novos conhecimentos sobre a população destes objetos na Via Láctea," disse Sahu. Ele espera que o seu programa venha a revelar mais buracos negros isolados dentro da nossa Galáxia. Mas é como procurar uma agulha num palheiro. A previsão é que apenas um em poucas centenas de eventos de microlente sejam provocados por buracos negros isolados.

No seu artigo de 1916 sobre a relatividade geral, Albert Einstein previu que a sua teoria poderia ser testada observando o desvio na posição aparente de uma estrela de fundo provocado pela gravidade do Sol. Isto foi testado por uma colaboração liderada pelos astrónomos Arthur Eddington e Frank Dyson durante um eclipse solar no dia 29 de maio de 1919. Eddington e colegas mediram um desvio da posição de uma estrela de fundo de 2 segundos de arco, validando as teorias de Einstein. Estes cientistas dificilmente poderiam imaginar que, mais de um século depois, esta mesma técnica seria utilizada - com um melhoramento então inimaginável de mil vezes em termos de precisão - para procurar buracos negros espalhados pela nossa Galáxia.

// ESA/Hubble (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// Hubblesite (comunicado de imprensa)
// Universidade da Califórnia, Berkeley (comunicado de imprensa)
// Universidade de St. Andrews (comunicado de imprensa)
// Artigo científico de Sahu et al. (arXiv.org)
// Artigo científico de Lam et al. (arXiv.org)
// Space Sparks ep. 16: Hubble determina massa de buraco negro isolado que vagueia a Via Láctea (HubbleESA via YouTube)
// Hubbe mede potencial buraco negro isolado que vagueia pela Via Láctea (NASA Goddard via YouTube)
// Cientistas de Berkeley encontram uma maneira de "ver" buracos negros invisíveis (UC Berkeley via YouTube)

 


Saiba mais

Notícias relacionadas:
Universe Today
ScienceDaily
PHYSORG
Forbes

Buracos negros:
Wikipedia
Buraco negro de massa estelar (Wikipedia)

Microlentes gravitacionais:
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

 
   
Descoberto um número inédito de anãs castanhas

As anãs castanhas, objetos misteriosos situados na linha entre estrelas e planetas, são essenciais para a nossa compreensão tanto das populações estelares como das populações planetárias. Contudo, em quase três décadas de buscas, apenas 40 anãs castanhas puderam ser observadas. Uma equipa internacional liderada por investigadoras da The Open University e da Universidade de Berna observou diretamente quatro novas anãs castanhas graças a um novo e inovador método de busca.

 
Impressão de artista de uma anã castanha.
Crédito: The Open University
 

As anãs castanhas são objetos situados, em termos de massa, entre as estrelas mais leves e os planetas mais massivos, com uma mistura de características estelares e planetárias. Devido a esta natureza híbrida, estes objetos enigmáticos são cruciais para melhorar a nossa compreensão tanto das estrelas como dos planetas gigantes. As anãs castanhas que orbitam uma estrela mãe suficientemente longe são particularmente valiosas, pois podem ser fotografadas diretamente - ao contrário das que estão demasiado próximas da sua estrela e que, por isso, se escondem no seu brilho. Isto proporciona aos cientistas uma oportunidade única de estudar os detalhes das atmosferas frias e semelhantes a planetas das anãs castanhas.

No entanto, apesar dos esforços notáveis no desenvolvimento de novas tecnologias de observação e técnicas de processamento de imagem, as deteções diretas destas anãs castanhas, companheiras de estrelas, têm permanecido bastante esparsas, com apenas cerca de 40 sistemas observados em quase três décadas de investigações. Investigadores liderados por Mariangela Bonavita da Open University e Clémence Fontanive do Centro para o Espaço e Habitabilidade do NCCR PlanetS da Universidade de Berna observaram diretamente quatro novas anãs castanhas que divulgam num novo estudo publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. Esta é a primeira vez que múltiplos novos sistemas com anãs castanhas como companheiras, em separações amplas, são anunciados ao mesmo tempo.

Método inovador de pesquisa

"As anãs castanhas companheiras, com órbitas largas, são já de si raras, e a sua deteção coloca diretamente enormes desafios técnicos, uma vez que as estrelas anfitriãs cegam completamente os nossos telescópios", diz Mariangela Bonavita. A maioria dos levantamentos realizados até agora têm visado indeliberadamente estrelas aleatórias em jovens enxames. "Uma abordagem alternativa para aumentar o número de deteções é apenas observar estrelas que mostram indícios de um objeto adicional no sistema," explica Clémence Fontanive. "Por exemplo, a forma como uma estrela se move sob a atração gravitacional de uma companheira pode ser um indicador da existência dessa companheira, quer seja uma estrela, um planeta ou algo no meio.

"Nós desenvolvemos a ferramenta COPAINS que prevê os tipos de companheiras que podem ser responsáveis pelas anomalias observadas em movimentos estelares," continua Clémence Fontanive. Aplicando a ferramenta COPAINS, a equipa de investigação selecionou cuidadosamente 25 estrelas próximas que pareciam promissoras para a deteção direta de companheiras escondidas, de baixa massa, com base em dados do observatório espacial Gaia da ESA. Usando o instrumento SPHERE no VLT (Very Large Telescope) no Chile para observar estas estrelas, detetaram com sucesso dez novas companheiras com órbitas que vão desde a de Júpiter até para lá da de Plutão, incluindo cinco estrelas de baixa massa, uma anã branca (um denso remanescente estelar) e as quatro novas anãs castanhas.

Grande impulso no ritmo de deteção

"Estas descobertas avançam significativamente o número de anãs castanhas conhecidas que orbitam estrelas a grandes distâncias, com um grande impulso no ritmo de deteção em comparação com qualquer levantamento anterior," explica Mariangela Bonavita. Embora por agora esta abordagem se limite principalmente a assinaturas de anãs castanhas e companheiras estelares, as fases futuras da missão Gaia vão empurrar estes métodos para massas inferiores e permitir a descoberta de novos exoplanetas gigantes. Clémence Fontanive acrescenta: "Para além de termos tantas descobertas de uma só vez, o nosso programa também demonstra o poder destas estratégias de busca."

"Este resultado só foi possível porque pensámos que, ao combinarmos instalações espaciais e terrestres para a imagem direta de exoplanetas, o todo é maior que a soma das suas partes. Esperamos que este seja o início de uma nova era de sinergia entre diferentes instrumentos e métodos de deteção", conclui Mariangela Bonavita.

// Universidade de Berna (comunicado de imprensa)
// The Open University (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

Anãs castanhas:
Wikipedia
NASA
Andy Lloyd's Dark Star Theory

Gaia:
ESA
ESA - 2
Gaia/ESA
Programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia
EDR3 do Gaia
SPACEFLIGHT101
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Álbum de fotografias - Arp 286: Trio em Virgem
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Nicolas RollandTelescope.Live
 
Este colorido campo de visão telescópico mostra um trio de galáxias em interação a quase 90 milhões de anos-luz de distância, na direção da constelação de Virgem. À direita, duas estrelas "pontiagudas" da Via Láctea em primeiro plano ecoam os tons extragaláticos, uma lembrança de que as estrelas da nossa própria Galáxia são como aquelas em distantes universos insulares. Com braços em espiral e faixas de poeira obscurante, o membro dominante do trio, NGC 5566, é enorme, com cerca de 150.000 anos-luz de diâmetro. Mesmo acima encontra-se NGC 5569, mais pequena e azulada. Perto do centro, uma terceira galáxia, NGC 5560, é aparentemente esticada e distorcida pela sua interação com a enorme NGC 5566. O trio está também incluído no Atlas de Galáxias Peculiares de Halton Arp feito em 1966. Claro, tais interações cósmicas são agora apreciadas como parte da evolução das galáxias.
 
   
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