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  Astroboletim #2099  
  19/04 a 22/04/2024  
     
 
EFEMÉRIDES

DIA 19/04: 110.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1971, lançamento da Salyut 1, a primeira estação espacial.
Em 1975, lançamento do primeiro satélite da Índia, o Aryabhata.

Em 1966 nascia Brett J. Gladman, astrónomo canadiano, conhecido pelo seu trabalho na astronomia dinâmica do Sistema Solar. Estudou o transporte de meteoritos entre planetas, a entrega de meteoróides desde a cintura principal de asteroides e a possibilidade do transporte da vida via o mecanismo conhecido como panspérmia. Descobridor e codescobridor de muitos corpos astronómicos do Sistema Solar, asteroides, cometas da cintura de Kuiper e muitas luas dos planetas gigantes.
Em 2021, o helicóptero Ingenuity torna-se no primeiro veículo aéreo a voar noutro planeta.
HOJE, NO COSMOS:
Arcturo brilha alta a este por estas noites. A igualmente brilhante Capella está a descer, também alta, mas a noroeste. Arcturo e Capella estão praticamente à mesma altura acima do horizonte algures entre as 21:30 e as 22:00, dependendo de quão para este oeste se encontra no fuso horário.
Com que precisão consegue determinar a hora deste acontecimento? Tal como tudo relacionado com as constelações, ocorre 4 minutos mais cedo a cada noite.

 

DIA 20/04: 111.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1535, o fenómeno de parélio é observado por cima de Estocolmo e representado no quadro Vädersolstavlan.
Em 1865, o astrónomo Pietro Angelo Secchi demonstra o disco de Sechi, que mede a claridade da água, a bordo do iate do Papa Pio IX, o L'Imaculata Concezione.
Em 1972, a Apollo 16 aterra na Lua, uma das seis missões tripuladas à Lua com sucesso.

John W. Young e Thomas K. Mattingly III alunaram numa área de nome Descartes. Este foi o primeiro estudo das terras altas, feito com várias câmaras e experiências. O "rover" lunar foi usado pela segunda vez. Os astronautas permaneceram 71 horas na superfície. Recolheram 95,8 kg de rochas lunares.
Em 2023, o foguetão Starship da SpaceX, o maior e mais poderoso foguetão alguma vez construído, é lançado pela primeira vez. Explode 4 minutos depois.
HOJE, NO COSMOS:
Arcturo, de pálido tom amarelo-alaranjado, é a estrela mais brilhante alta a este por estas noites. Espiga, azul-esbranquiçada, brilha mais para baixo e para a direita, a cerca de três punhos à distância do braço esticado. Para a direita de Espiga, a metade dessa distância, está a constelação de Corvo, composta por quatro estrelas.

 

DIA 21/04: 112.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1964, um satélite Transit-5bn falha a atingir órbita da Terra após lançamento. À medida que reentra na atmosfera, 0,95 kg de plutónio radioativo da sua fonte de alimentação SNAP RTG é largamente dispersado.
Em 1994, são anunciadas as primeiras descobertas de planetas extrassolares pelos astrónomos Alexander Wolszczan e Dale Frail. Descobiram dois planetas em órbita do pulsar PSR 1257+12
Em 2002, uma erupção no Sol providencia uma excelente oportunidade para uma panóplia de instrumentos nas sondas SOHO,
TRACE e RHESSI recolherem dados para comparação com o modelo Lin & Forbes de EMCs (ejeção de massa coronal).

HOJE, NO COSMOS:
Assim que as estrelas comecem a aparecer, olhe alto a oeste em busca das estrelas Pollux e Castor, alinhadas quase na horizontal (dependendo da latitude do observador). Estas duas estrelas, as cabeças dos Gémeos, formam o topo do enorme Arco da Primavera. Para baixo e para a sua esquerda está Procyon, a extremidade esquerda do Arco. Para baixo e para a sua direita está a outra extremidade, formada por Menkalinan (Beta Aurigae) e depois a brilhante Capella. Todo o Arco "afunda-se" a oeste com o passar da noite.

 

DIA 22/04: 113.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1500, Pedro Álvares Cabral chegava pela primeira vez ao Brasil, numa viagem épica em que o Oceano era o equivalente atual do Espaço.
Em 1891, nascia Harold Jeffreys, astrogeofísico e o primeiro a teorizar o núcleo líquido da Terra. Jeffreys também fez contribuições para o nosso conhecimento da fricção de marés, nutação, estrutura planetária geral e da origem do Sistema Solar. 
Em 1904, nascia Robert Oppenheimer, físico americano mais conhecido pelo seu papel como diretor científico do Projeto Manhattan.

É por isso lembrado como o "Pai da Bomba Atómica". 
Em 1970 comemorava-se pela primeira vez o Dia da Terra.
HOJE, NO COSMOS:
Pico da chuva de meteoros das Líridas.

 
 
   
Fermi da NASA não deteta raios gama de supernova próxima
 
O telescópio de 48 polegadas do Observatório Fred Lawrence Whipple captou esta imagem, no visível, da galáxia Messier 101 em junho de 2023. A localização da supernova 2023ixf está assinalada com um círculo. O observatório, situado no Monte Hopkins, no estado norte-americano do Arizona, é operado pelo Centro de Astrofísica | Harvard & Smithsonian.
Crédito: Hiramatsu et al. 2023/Sebastian Gomez (STSCI)
 

Uma supernova próxima, em 2023, forneceu aos astrofísicos uma excelente oportunidade para testar ideias sobre a forma como este tipo de explosões impulsiona partículas, designadas por raios cósmicos, até perto da velocidade da luz. Mas, surpreendentemente, o Telescópio Espacial de Raios Gama Fermi da NASA não detetou os raios gama altamente energéticos que essas partículas deveriam produzir.

No dia 18 de maio de 2023 apareceu uma supernova na vizinha galáxia do Cata-vento (Messier 101), situada a cerca de 22 milhões de anos-luz de distância na direção da constelação da Ursa Maior. Designada SN 2023ixf, é a supernova mais luminosa descoberta nas proximidades da Via Láctea desde o lançamento do Fermi em 2008.

"Os astrofísicos estimaram anteriormente que as supernovas convertem cerca de 10% da sua energia total na aceleração de raios cósmicos", disse Guillem Martí-Devesa, investigador da Universidade de Trieste, em Itália. "Mas nunca observámos este processo diretamente. Com as novas observações de SN 2023ixf, os nossos cálculos resultam numa conversão de energia tão baixa quanto 1% poucos dias após a explosão. Isto não exclui a possibilidade de as supernovas serem fábricas de raios cósmicos, mas significa que temos mais a aprender sobre a sua produção".

O estudo, liderado por Martí-Devesa na Universidade de Innsbruck, Áustria, será publicado numa futura edição da revista Astronomy and Astrophysics.

Todos os dias, biliões de raios cósmicos colidem com a atmosfera da Terra. Cerca de 90% são núcleos de hidrogénio - ou protões - e os restantes são eletrões ou núcleos de elementos mais pesados.

Os cientistas têm vindo a investigar as origens dos raios cósmicos desde o início do século XX, mas não é possível identificar as suas fontes. Como são eletricamente carregados, os raios cósmicos mudam de rumo quando chegam à Terra, graças aos campos magnéticos que encontram.

"Os raios gama, no entanto, viajam diretamente para nós", disse Elizabeth Hays, cientista do projeto Fermi no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland. "Os raios cósmicos produzem raios gama quando interagem com a matéria no seu ambiente. O Fermi é o telescópio de raios gama mais sensível em órbita, por isso, quando não deteta um sinal esperado, os cientistas têm de explicar a sua ausência. A resolução deste mistério permitirá construir uma imagem mais exata das origens dos raios cósmicos".

Os astrofísicos há muito que suspeitam que as supernovas são as principais contribuintes dos raios cósmicos.

Estas explosões ocorrem quando uma estrela com pelo menos oito vezes a massa do Sol fica sem combustível. O núcleo colapsa e depois recupera, impulsionando uma onda de choque para o exterior através da estrela. A onda de choque acelera as partículas, criando os raios cósmicos. Quando os raios cósmicos colidem com outra matéria e com a luz que rodeia a estrela, geram raios gama.

As supernovas têm um grande impacto no ambiente interestelar de uma galáxia. As suas ondas de explosão e a nuvem de detritos em expansão podem persistir durante mais de 50.000 anos. Em 2013, as medições do Fermi mostraram que os remanescentes de supernova na nossa Galáxia, a Via Láctea, estavam a acelerar os raios cósmicos, que geravam raios gama quando atingiam a matéria interestelar. Mas os astrónomos dizem que os remanescentes não estão a produzir partículas altamente energéticas suficientes para corresponder às medições dos cientistas na Terra.

Uma teoria propõe que as supernovas podem acelerar os raios cósmicos mais energéticos da nossa Galáxia nos primeiros dias e semanas após a explosão inicial.

Mas as supernovas são raras, ocorrendo apenas algumas vezes por século numa galáxia como a Via Láctea. Até distâncias de cerca de 32 milhões de anos-luz, uma supernova ocorre, em média, apenas uma vez por ano.

Após um mês de observações, a partir do momento em que os telescópios óticos viram pela primeira vez SN 2023ixf, o Fermi não tinha detetado raios gama.

"Infelizmente, não ver raios gama não significa que não existam raios cósmicos", disse o coautor Matthieu Renaud, astrofísico do Laboratório do Universo e Partículas de Montpellier, parte do CNRS (Centre national de la recherche scientifique) em França. "Temos de analisar todas as hipóteses subjacentes aos mecanismos de aceleração e às condições ambientais para converter a ausência de raios gama num limite superior para a produção de raios cósmicos".

Os investigadores propõem alguns cenários que podem ter afetado a capacidade do Fermi para ver raios gama do evento, como por exemplo a forma como a explosão distribuiu os detritos e a densidade do material em torno da estrela.

As observações do Fermi constituem a primeira oportunidade para estudar as condições imediatamente após a explosão de supernova. Observações adicionais de SN 2023ixf noutros comprimentos de onda, novas simulações e modelos baseados neste acontecimento e estudos futuros de outras supernovas jovens ajudarão os astrónomos a descobrir as misteriosas fontes dos raios cósmicos do Universo.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Fermi da NASA não deteta raios gama de supernova próxima (NASA Goddard via YouTube)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
02/04/2024 - O mais completo retrato, de sempre, de uma supernova
01/09/2023 - A supernova mais próxima numa década revela como as explosões estelares evoluem

Raios cósmicos:
Wikipedia
Universidade de Chicago

SN 2023ixf:
Wikipedia
Transient Name Server

Supernova:
Wikipedia 
Supernova do Tipo II (Wikipedia)

Galáxia do Cata-vento (Messier 101):
Wikipedia
SEDS
Constellation Guide

Telescópio Espacial Fermi:
NASA
Wikipedia

 
   
Identificado o buraco negro estelar mais massivo da nossa Galáxia descoberto até à data
 
A localização dos três primeiros buracos negros descobertos pela missão Gaia da ESA na Via Láctea. Este mapa da nossa Galáxia também foi feito pela missão Gaia. Gaia BH1 está localizado a apenas 1560 anos-luz de nós, na direção da constelação de Ofiúco; Gaia BH2 está a 3800 anos-luz de distância, na direção da constelação de Centauro; Gaia BH3 está na direção da constelação de Águia, a uma distância de 1926 anos-luz da Terra. Em termos galácticos, estes buracos negros residem no nosso quintal cósmico.
Com uma massa cerca de 33 vezes superior à do Sol, BH3 é o buraco negro mais pesado de origem estelar descoberto na nossa Galáxia.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC
 

Os astrónomos identificaram o buraco negro estelar mais massivo descoberto até à data na Via Láctea. Este buraco negro foi detetado em dados da missão Gaia da ESA através de um movimento de "oscilação" estranho que este objeto impõe à estrela companheira que o orbita. Foram utilizados dados do VLT (Very Large Telescope) do ESO e doutros observatórios terrestres para calcular que a massa deste buraco negro é 33 vezes superior à do Sol.

Os buracos negros estelares formam-se a partir do colapso de estrelas de grande massa e os anteriormente identificados na Via Láctea são, em média, cerca de 10 vezes mais massivos que o Sol. O buraco negro estelar mais massivo que conhecíamos na nossa Galáxia, Cygnus X-1, atinge apenas 21 massas solares, o que torna esta nova observação de 33 massas solares algo verdadeiramente excecional.

Curiosamente, este buraco negro encontra-se também extremamente próximo de nós — a apenas 2000 anos-luz de distância, na direção da constelação da Águia, sendo o segundo buraco negro mais próximo da Terra que conhecemos. Denominado Gaia BH3, ou BH3, foi encontrado quando a equipa analisava as observações do Gaia em preparação para uma próxima publicação de dados. "Ninguém estava à espera de encontrar um buraco negro de grande massa nas proximidades do Sol, que não tivesse sido ainda detetado", disse Pasquale Panuzzo, membro da colaboração Gaia, astrónomo do Observatório de Paris, do Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS) francês. "Este é o tipo de descoberta que se faz uma vez na vida”.

Para confirmar a descoberta, a colaboração Gaia utilizou dados de observatórios terrestres, incluindo o instrumento UVES (Ultraviolet and Visual Echelle Spectrograph) montado no VLT do ESO, no deserto chileno do Atacama. Estas observações revelaram propriedades chave da estrela companheira, que, juntamente com os dados do Gaia, permitiram aos astrónomos medir com precisão a massa de BH3.

 
Esta imagem artística compara três buracos negros estelares da nossa Galáxia: Gaia BH1, Cygnus X-1 e Gaia BH3, cujas massas são 10, 21 e 33 vezes superiores à do Sol, respetivamente. Gaia BH3 é o buraco negro estelar mais massivo encontrado até à data na Via Láctea. Os raios dos buracos negros são diretamente proporcionais às suas massas, mas note-se que os buracos negros propriamente ditos não foram diretamente fotografados.
Crédito: ESO/M. Kornmesser
 

Os astrónomos tinham já encontrado buracos negros igualmente massivos fora da nossa Galáxia (utilizando um método de deteção diferente), tendo teorizado que estes objetos poderão ser formados a partir do colapso de estrelas cuja composição química apresente pouquíssimos elementos mais pesados que o hidrogénio e o hélio. Pensa-se que estas estrelas, pobres em metais, perdem menos massa ao longo da sua vida e, portanto, possuem mais matéria, o que dará origem, após a sua morte, a buracos negros de elevada massa. No entanto, e até agora, não existiam evidências que ligassem diretamente estrelas pobres em metais a buracos negros de elevada massa.

As estrelas em pares tendem a ter composições químicas semelhantes, o que significa que a companheira de BH3 contém pistas importantes sobre a estrela que colapsou e formou este buraco negro excecional. Os dados do UVES mostraram que a companheira é uma estrela muito pobre em metais, o que sugere que a estrela que colapsou para formar BH3 seria também pobre em metais — tal como previsto pela teoria.

Este trabalho de investigação, liderado por Panuzzo, foi publicado na revista da especialidade Astronomy & Astrophysics. "Resolvemos publicar este artigo com base em dados preliminares a título excecional antes da divulgação completa dos dados Gaia, devido à natureza única desta descoberta", explica a coautora Elisabetta Caffau, também membro da colaboração Gaia do CNRS Observatoire de Paris. A disponibilização antecipada dos dados permitirá que outros astrónomos comecem a estudar este buraco negro desde já, sem esperar pela publicação dos dados completos, prevista para finais de 2025, na melhor das hipóteses.

Outras observações deste sistema poderão revelar mais sobre a sua história e sobre o próprio buraco negro. O instrumento GRAVITY montado no VLTI (Very Large Telescope Interferometer) do ESO poderá ajudar os astrónomos a compreender melhor este objeto, investigando, por exemplo, se este buraco negro está a atrair matéria da sua vizinhança.

// ESO (comunicado de imprensa)
// ESA (comunicado de imprensa)
// Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (comunicado de imprensa)
// Universidade de Cambridge (comunicado de imprensa)
// UCL (comunicado de imprensa)
// Universidade de Barcelona (comunicado de imprensa)
// Universidade de Genebra (comunicado de imprensa)
// Universidade de Varsóvia (comunicado de imprensa)
// Observatório Real da Bélgica (comunicado de imprensa)
// Universidade de Tel Aviv (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Encontrado um buraco negro recorde nas proximidades (ESO via YouTube)

 


Quer saber mais?

Notícias relacionadas:
SPACE.com
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New Scientist
Popular Science
ScienceDaily
CNN
Ars Technica
Engadget
Diário de Notícias
RTP Notícias
SIC Notícias
SAPO
Observador
ZAP.aeiou

Buraco negro de massa estelar:
Wikipedia

Cygnus X-1:
Wikipedia

Via Láctea:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
SEDS

Gaia:
ESA
ESA - 2
Gaia/ESA
Programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia
Catálogo DR3 do Gaia
Wikipedia

VLT:
ESO
Wikipedia
UVES (ESO)
VLTI (ESO)
GRAVITY (ESO)

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
   
A equipa do helicóptero Ingenuity diz adeus... por agora
 
O helicóptero marciano Ingenuity da NASA, à direita, está perto do cume de uma ondulação de areia numa imagem tirada pelo Perseverance no dia 24 de fevereiro, cerca de cinco semanas após o último voo da aeronave. Parte de uma das pás do rotor do Ingenuity encontra-se na superfície, cerca de 15 metros para oeste do helicóptero (para a esquerda do centro da imagem).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/LANL/CNES/CNRS
 

Os engenheiros que trabalham no helicóptero marciano Ingenuity da NASA reuniram-se pela última vez numa sala de controlo no JPL da agência espacial, no sul da Califórnia, na passada terça-feira, 16 de abril, para monitorizar uma transmissão do histórico veículo aéreo. Embora a missão tenha terminado a 25 de janeiro, o helicóptero manteve-se em comunicação com o rover Perseverance, que serve de estação base para o Ingenuity. Esta transmissão, recebida através das antenas da DSN (Deep Space Network) da NASA, marcou a última vez que a equipa da missão trabalharia em conjunto nas operações do Ingenuity.

Agora, o helicóptero está pronto para o seu ato final: servir de banco de ensaio estacionário, recolhendo dados que poderão beneficiar os futuros exploradores do Planeta Vermelho.

"Com as devidas desculpas a Dylan Thomas, o Ingenuity não irá entrar suavemente na boa noite marciana", disse Josh Anderson, chefe da equipa Ingenuity no JPL. "É quase inacreditável que, após mais de 1000 dias marcianos à superfície, 72 voos e uma aterragem difícil, ele ainda tenha algo para dar. E graças à dedicação desta equipa fantástica, o Ingenuity não só ultrapassou os nossos sonhos mais loucos, como também nos pode ensinar novas lições nos próximos anos."

Originalmente concebida como uma missão de demonstração tecnológica de curta duração, que realizaria até cinco voos experimentais de teste ao longo de 30 dias, a primeira aeronave noutro mundo operou a partir da superfície marciana durante quase três anos, voou mais de 14 vezes mais longe do que a distância prevista e registou mais de duas horas de tempo total de voo.

A missão do Ingenuity terminou depois do helicóptero ter sofrido uma aterragem complicada no seu último voo, danificando significativamente as pás do rotor. Incapaz de voar, o helicóptero permanecerá em "Valinor Hills" enquanto o rover Perseverance sai do alcance das comunicações e continua a explorar o limbo ocidental da cratera Jezero.

Bytes e Bolo

A equipa saboreou um pouco de bolo de chocolate "Final Comms" enquanto analisava os dados mais recentes a partir de 304 milhões de quilómetros de distância. A telemetria confirmou que uma atualização de software previamente enviada para o Ingenuity estava a funcionar como esperado. O novo software contém comandos que fazem com que o helicóptero continue a recolher dados muito depois das comunicações com o rover terem cessado.

 
Os engenheiros que trabalham no Ingenuity da NASA monitorizaram em conjunto uma transmissão do histórico helicóptero numa sala de controlo do JPL no passado dia 16 de abril. Confirmaram o funcionamento de uma atualização de software que permitirá ao helicóptero atuar como um banco de ensaio estacionário e recolher dados que poderão beneficiar os futuros exploradores de Marte.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
 

Com o software atualizado, o Ingenuity acordará agora diariamente, ativa os seus computadores de voo e testa o desempenho do seu painel solar, baterias e equipamento eletrónico. Além disso, o helicóptero vai tirar uma fotografia da superfície com a sua câmara a cores e recolher dados de temperatura a partir de sensores colocados em toda a aeronave. Os engenheiros do Ingenuity e os cientistas acreditam que esta recolha de dados a longo prazo pode não só beneficiar os futuros designers de aeronaves e outros veículos para o Planeta Vermelho, mas também fornecer uma perspetiva a longo prazo sobre os padrões meteorológicos marcianos e o movimento das poeiras.

Durante este encontro final, a equipa recebeu uma mensagem de despedida do Ingenuity com os nomes das pessoas que trabalharam na missão. Os controladores da missão no JPL enviaram a mensagem ao Perseverance no dia anterior, que a entregou ao Ingenuity para que este pudesse transmitir a despedida para a Terra.

Armazenamento para décadas

Se um componente elétrico crítico do Ingenuity falhar no futuro, provocando a paragem da recolha de dados, ou se o helicóptero acabar por perder energia devido à acumulação de poeira no painel solar, qualquer informação que o Ingenuity tenha recolhido permanecerá armazenada a bordo. A equipa calculou que a memória do Ingenuity pode conter cerca de 20 anos de dados diários.

"Sempre que a humanidade revisitar Valinor Hills - seja com um rover, um novo veículo aéreo ou futuros astronautas - o Ingenuity estará à espera com o seu último presente de dados, um testemunho final da razão pela qual ousamos coisas poderosas", disse o gestor do projeto Ingenuity, Teddy Tzanetos do JPL. "Obrigado, Ingenuity, por inspirares um pequeno grupo de pessoas a ultrapassar probabilidades aparentemente intransponíveis nas fronteiras do espaço".

Tzanetos e outros antigos colaboradores do Ingenuity estão atualmente a investigar a forma como os futuros helicópteros marcianos - incluindo o conceito de MSH (Mars Science Helicopter) - poderão beneficiar as explorações do Planeta Vermelho e mais além.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Postais da Terra para o Helicóptero Ingenuity da NASA (NASA JPL via YouTube)

 


Quer saber mais?

Cobertura da missão do Ingenuity pelo CCVAlg - Astronomia:
30/01/2024 - Após três anos em Marte, termina a missão do helicóptero Ingenuity da NASA
07/02/2023 - Investigadores completam primeiro estudo, no mundo real, da dinâmica da poeira levantada pelo Ingenuity
29/04/2022 - Helicóptero Ingenuity avista equipamentos que ajudaram ao pouso do rover Perseverance
04/05/2021 - Helicóptero marciano Ingenuity começa nova fase de demonstração

Helicóptero Ingenuity:
NASA
Wikipedia

Rover Perseverance:
NASA
NASA - 2
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Wikipedia

Marte:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia

 
   
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Álbum de fotografias
Eclipse Total e Cometas

(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Lin Zixuan (Universidade de Tsinghua)
 
Não um, mas dois cometas apareceram perto do Sol durante o eclipse solar total da semana passada (não visível de Portugal Continental). O cometa mais esperado era o Cometa 12P/Pons-Brooks, mas foi decepcionantemente mais fraco do que muitos esperavam. No entanto, o relativamente desconhecido cometa SOHO-5008 também apareceu em exposições de longa duração. Este cometa foi o 5008.º cometa identificado em imagens captadas pela sonda SOHO, da ESA e da NASA, em órbita do Sol. Provavelmente muito mais pequeno, o cometa SOHO-5008 era um rasante que se desintegrou em poucas horas quando passou demasiado perto do Sol. A imagem em destaque não só é invulgar por captar dois cometas durante um eclipse, como também é uma das raras vezes em que um cometa rasante foi fotografado a partir da superfície da Terra. Também visíveis na imagem, a coroa do Sol e os planetas Mercúrio (esquerda) e Vénus (direita). Destes planetas e cometas, apenas Vénus era facilmente visível para milhões de pessoas na sombra escura da Lua que atravessou a América do Norte a 8 de abril.
 
   
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