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  Astroboletim #2226  
  08/07 a 10/07/2025  
     
 
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EFEMÉRIDES

DIA 08/07: 189.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1994, lançamento da missão STS-65 do vaivém espacial Columbia.
Em 2011, o vaivém espacial Atlantis é lançado na sua missão final.
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HOJE, NO COSMOS:
Depois do anoitecer, Altair brilha a este-sudeste. É a segunda estrela mais brilhante do lado este do céu, depois de Vega mais para cima e para a esquerda.
Por cima de Altair, a um dedo à distância do braço esticado, está a pequena e alaranjada Tarazed (Gamma Aquilae), a sua companheira eterna. Tem uma modesta magnitude de 2,8 em comparação com a magnitude de 0,8 de Altair. Mas as aparências enganam. Altair parece tão brilhante porque é uma das nossas vizinhas estelares mais próximas, a apenas 17 anos-luz de distância. Tarazed é uma gigante laranja a cerca de 380 anos-luz - e 170 vezes mais luminosa do que Altair.

 

DIA 09/07: 190.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1911, nascia John Archibald Wheeler, físico teórico americano que popularizou o termo "buraco negro" e "buraco de minhoca".
Em 1979, a sonda Voyager 2 efetuava o seu "flyby" por Júpiter.
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A descoberta de atividade vulcânica no satélite Io foi provavelmente a maior descoberta desta passagem.
HOJE, NO COSMOS:
Olhe para sul até encontrar a alaranjada Antares quase no meridiano.
A cabeça da constelação de Escorpião é a fila quase vertical de três estrelas para cima e para a direita de Antares. A estrela de cima é Beta Scorpii ou Graffias, uma boa estrela dupla para telescópios (separação de 13 segundos de arco, magnitudes 2,8 e 5,0).
Apenas 1º para baixo ou para baixo e para a esquerda (uma ponta de um dedo à distância do braço esticado) está o par largo Omega^1 e Omega^2 Scorpii, visível a olho nu, quase na vertical. Têm ambas magnitude 4 e separação de 0,25º. Os binóculos mostram a sua ligeira diferença de cor; são do tipo espectral B9 e G2.
Para cima e para a esquerda de Beta, a cerca de 1,6º, está Nu Scorpii (Jabbah), outro bom duplo telescópico (separação de 41 segundos de arco, magnitudes 3,8 e 6,5). Ou melhor, triplo. Um alto poder de ampliação e um céu limpo e escuro revelam que o componente mais brilhante de Nu é ele próprio uma estrela dupla, com uma separação de 2 segundos de arco.
E mais: no mesmo campo binocular de Antares, ou quase lá, estão dois enxames globulares muito diferentes. M4 é grande e difuso e relativamente próximo. M80 é mais ténue e muito mais compacto, embora minúsculo; de facto, pode ser difícil distingui-lo com binóculos de uma estrela de magnitude 8. É um enxame maior e mais denso do que M4 mas está mais de quatro vezes mais longe.

 

DIA 10/07: 191.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1962 era lançado o Telstar, o primeiro satélite de comunicações a ser colocado em órbita.
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HOJE, NO COSMOS:
Lua Cheia, pelas 21:37.
Mais Escorpião - para a direita de Antares, três estrelas formam uma linha mais ou menos vertical: assinalam a cabeça de Escorpião. De cima para baixo, são Beta, Delta e a mais ténue Pi Scorpii. Delta Sco, a do meio, é a mais brilhante das três. É uma variável irregular, uma subgigante azul com rápida rotação que liberta gás luminoso do seu equador. Também tem uma companheira mais pequena em órbita que parece desencadear atividade em intervalos de 10,5 anos. Assumida estável durante séculos, Delta duplicou inesperadamente de brilho em julho de 2000 e tem permanecido quase tão brilhante, com flutuações, durante os anos seguintes. Os astrónomos preveram que o sistema pudesse aumentar de atividade em 2022, quando a estrela companheira fizesse a sua terceira passagem pela primária desde 2000. Mas nada aconteceu. Ninguém sabe o que pode acontecer a seguir, nem quando.

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Descoberto o terceiro cometa interestelar
 
Este diagrama mostra a trajetória do cometa interestelar 3I/ATLAS durante a sua passagem pelo Sistema Solar. A sua maior aproximação ao Sol ocorrerá em outubro.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
 

Os astrónomos confirmaram a descoberta de um raro visitante celeste: um cometa proveniente de fora do nosso Sistema Solar. Oficialmente designado 3I/ATLAS, este objeto interestelar recém-identificado é apenas o terceiro do seu género alguma vez observado, depois dos famosos 1I/'Oumuamua em 2017 e 2I/Borisov em 2019.

Um visitante oriundo da escuridão

O cometa foi detetado pela primeira vez a 1 de julho de 2025 pelo telescópio ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System), em Río Hurtado, no Chile. A sua trajetória invulgar levantou imediatamente suspeitas de que era originário do espaço interestelar. Esta hipótese foi mais tarde confirmada por astrónomos de todo o mundo e o objeto recebeu a sua designação formal: 3I/ATLAS, indicando o seu estatuto de terceiro objeto interestelar conhecido.

3I/ATLAS está a cerca de 670 milhões de quilómetros do Sol e fará a sua maior aproximação no final de outubro de 2025, passando um pouco mais perto do que a órbita de Marte. Pensa-se que pode ter até 20 quilómetros de diâmetro e está a viajar a cerca de 60 km/s em relação ao Sol. Não representa qualquer perigo para a Terra, passando a não menos do que 240 milhões de quilómetros - mais de 1,5 vezes a distância entre a Terra e o Sol.

ESA segue o rasto do intruso interestelar

O Gabinete de Defesa Planetária da ESA reagiu prontamente à descoberta. Os sistemas automáticos de deteção alertaram os astrónomos da ESA, que estão a contribuir para os esforços globais de rastreamento da trajetória do cometa e para encontrar evidências da sua existência em dados mais antigos - um processo conhecido como reconstituição pré-descoberta.

Os astrónomos da ESA estão a utilizar telescópios no Hawaii, no Chile e na Austrália para monitorizar o progresso do cometa. Alguns destes telescópios são propriedade da ESA, outros são fornecidos no âmbito de parcerias de longa data.

 
Imagens do objeto 3I/ATLAS obtidas na noite de 2 de julho com o telescópio ATLAS-Teide.
Crédito: Observatório de Teide
 

Estes esforços fazem parte da missão mais vasta da ESA de detetar, seguir e caracterizar objetos próximos da Terra - embora 3I/ATLAS não seja considerado um, devido à sua distância do nosso planeta.

Os cientistas estarão agora interessados em saber mais sobre a composição e o comportamento deste visitante interestelar.

3I/ATLAS é um cometa ativo. Se aquecer o suficiente à medida que se aproxima da nossa estrela, pode começar a sublimar - um processo em que os gases congelados se transformam diretamente em vapor, transportando partículas de poeira e gelo para o espaço, formando uma cabeleira e uma cauda brilhantes.

No entanto, na altura em que o cometa atingir o ponto mais próximo da Terra, estará escondido atrás do Sol. Espera-se que reapareça no início de dezembro, oferecendo aos astrónomos outra janela para estudo.

Remanescente de um mundo distante

O que torna os objetos interestelares como 3I/ATLAS tão extraordinários é a sua natureza absolutamente desconhecida. Ao passo que todos os planetas, luas, asteroides, cometas e formas de vida existentes no nosso Sistema Solar partilham uma origem comum, uma herança comum, os visitantes interestelares são verdadeiros forasteiros. São remanescentes de outros sistemas planetários, transportando consigo pistas sobre a formação de mundos muito para além do nosso.

Poderão passar-se milhares de anos até que os humanos visitem um planeta de outro sistema solar e os cometas interestelares fornecem-nos a oportunidade tentadora de tocar em algo verdadeiramente de outro mundo.

Estes errantes gelados oferecem uma ligação rara e tangível à Galáxia mais alargada - a materiais formados em ambientes completamente diferentes do nosso. Visitar um deles seria ligar a humanidade ao Universo a uma escala muito maior.

Uma missão da ESA para intercetar o desconhecido

 
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A Comet Interceptor da ESA será a primeira missão a visitar um cometa vindo diretamente dos confins do reino do Sol, que transporta material intocado desde os primórdios do Sistema Solar.
Após o lançamento, a nave espacial ficará "estacionada" no espaço antes de se deslocar para intercetar um cometa imaculado adequado. Quando o cometa estiver próximo, a nave principal libertará duas sondas para observar o cometa de várias direções ao mesmo tempo.
A Comet Interceptor é uma missão liderada pela ESA em colaboração com a JAXA.
Crédito: ESA
 

Com este objetivo, a ESA está a preparar a missão Comet Interceptor. A nave espacial será lançada em 2029 para uma órbita de estacionamento no Ponto de Lagrange 2 (L2) do sistema Sol-Terra, à espera de um alvo adequado - um cometa imaculado da distante Nuvem de Oort que rodeia o nosso Sistema Solar ou, o que é improvável, mas altamente apelativo, um objeto interestelar.

Embora seja improvável que venhamos a descobrir um objeto interestelar que possa ser alcançado pelo Comet Intercetor, como primeira demonstração de uma missão de resposta rápida que espera no espaço pelo seu alvo, será um precursor de possíveis missões futuras para intercetar estes visitantes misteriosos.

Quer se trate de 1I/'Oumuamua, de 2I/Borisov, de 3I/ATLAS ou do futuro alvo de uma missão de interceção, cada novo visitante interestelar recorda-nos que fazemos parte de uma Galáxia vasta e dinâmica - e que, por vezes, o Universo vem até nós.

// ESA (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// IAC (comunicado de imprensa)

 


Quer saber mais?

Cometa interestelar 3I/Atlas:
NASA
Wikipedia

1I/'Oumuamua:
NASA
Wikipedia

2I/Borisov:
NASA
Wikipedia

Objeto interestelar:
Wikipedia

Cometas:
Wikipedia

Sistema de alertas ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System):
Página principal
Wikipedia

Comet Interceptor:
ESA
Wikipedia

 
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Cientistas detetam um "carrossel" planetário
 
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Ilustração que mostra o sistema KOI-134 que, em 2025, um artigo científico revelou ter dois exoplanetas: KOI-134 b e KOI-134 c.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/K. Miller (Caltech/IPAC)
 

Uma nova investigação de dados antigos do Kepler revelou que um sistema planetário que se pensava não ter planetas tem, na verdade, dois planetas que orbitam a sua estrela num estilo único, como um carrossel à moda antiga.

O sistema KOI-134 contém dois exoplanetas que orbitam a sua estrela de uma forma peculiar em dois planos orbitais diferentes, com um planeta a exibir uma variação significativa nos tempos de trânsito. Este é o primeiro sistema do género a ser descoberto.

Há mais de uma década, os cientistas usaram o Telescópio Espacial Kepler da NASA para observar o sistema KOI-134 e pensaram que poderia ter um planeta em órbita, mas consideraram este candidato a planeta como um falso positivo, porque os seus trânsitos (ou passagens em frente da sua estrela) não estavam alinhados como esperado. Estes trânsitos eram tão anormais que o planeta foi de facto eliminado através de um sistema automatizado como um falso positivo antes de poder ser analisado mais profundamente.

No entanto, o empenho da NASA em partilhar abertamente os dados científicos significa que os investigadores podem constantemente rever observações antigas para fazer novas descobertas. Neste novo estudo, os investigadores reanalisaram os dados de KOI-134 obtidos pelo Kepler e confirmaram que não só o "falso positivo" é um planeta real, como o sistema tem dois planetas e uma dinâmica orbital muito interessante!

Primeiro, o planeta "falso positivo", chamado KOI-134 b, foi confirmado como sendo um Júpiter ameno (ou um planeta ameno de tamanho semelhante a Júpiter). Através desta análise, os investigadores descobriram que a razão pela qual este planeta escapou à confirmação anterior se deve ao facto de sofrer as chamadas variações de tempo de trânsito (VTTs), ou seja, pequenas diferenças de um planeta em torno da sua estrela que podem "adiantar" ou "atrasar" o seu trânsito porque este está a ser empurrado ou puxado pela gravidade de outro planeta, o que também foi revelado neste estudo. Os investigadores estimam que KOI-134 b transita pela sua estrela até 20 horas mais "tarde" ou mais "cedo", o que é uma variação significativa. De facto, é tão significativa que é a razão pela qual o planeta não foi confirmado nas observações iniciais.

 
Animação que mostra a dinâmica orbital do sistema KOI-134, com os planetas KOI-134 b e KOI-134 c.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/K. Miller (Caltech/IPAC)
 

Como estas VTTs são causadas pela interação gravitacional com outro planeta, esta descoberta também revelou um irmão planetário: KOI-134 c. Ao estudar este sistema em simulações que incluem estas VTTs, a equipa descobriu que KOI-134 c é um planeta ligeiramente mais pequeno do que Saturno e mais próximo da sua estrela do que KOI-134 b.

KOI-134 c escapou anteriormente à observação porque orbita num plano orbital inclinado, um plano diferente de KOI-134 b, e esta órbita inclinada impede o planeta de transitar pela sua estrela. Os dois planos orbitais destes planetas diferem em cerca de 15 graus, também conhecido como uma inclinação mútua de 15 graus, o que é significativa. Devido à interação gravitacional entre estes dois planetas, os seus planos orbitais também se inclinam para a frente e para trás.

Outra característica interessante deste sistema planetário é algo chamado ressonância. Estes dois planetas têm uma ressonância de 2 para 1, o que significa que no mesmo tempo que um planeta completa uma órbita, o outro completa duas órbitas. Neste caso, KOI-134 b tem um período orbital (o tempo que um planeta leva para completar uma órbita) de cerca de 67 dias, o que é o dobro do período orbital de KOI-134 c, que orbita a cada 33-34 dias.

Entre os planos orbitais separados que se inclinam para trás e para a frente, as VTTs e a ressonância, os dois planetas orbitam a sua estrela num padrão que se assemelha a dois póneis de madeira a andar para cima e para baixo num carrossel tradicional.

Embora este sistema tenha começado como um falso positivo com o Kepler, esta reanálise dos dados revela um sistema vibrante com dois planetas. De facto, este é o primeiro sistema multiplanetário compacto descoberto que não é plano, tem uma VTT muito significativa e contém planos orbitais que se inclinam para a frente e para trás.

Além disso, a maioria dos sistemas planetários não tem inclinações mútuas elevadas entre pares de planetas próximos. Para além de ser uma raridade, inclinações mútuas como esta também não são medidas com frequência devido a desafios no processo de observação. Assim, ter medições como esta de uma inclinação mútua significativa num sistema, bem como medições de ressonância e VTTs, fornece uma imagem clara da dinâmica dentro de um sistema planetário que nem sempre conseguimos ver.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Universidade do Sul de Queensland (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Artigo científico (arXiv)

 


Quer saber mais?

Sistema KOI-134:
ipac
KOI-134 b (Exoplanet.eu)
KOI-134 c (Exoplanet.eu)

Variação de tempo de trânsito:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de exoplanetas mais próximos (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Lista de exoplanetas candidatos a albergar água líquida (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Exoplanet.eu

Telescópio Espacial Kepler:
NASA
NASA - 2
Wikipedia

 
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Estaria Marte condenado a ser um deserto? Estudo propõe uma nova explicação
 
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O rover Curiosity da NASA capturou esta fotografia enquanto subia o Monte Sharp. Um estudo propõe uma nova explicação para o facto de Marte ser atualmente um deserto estéril, apesar de ter muitas semelhanças com a Terra.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS
 

Um dos grandes problemas por resolver na ciência planetária moderna está escrito na superfície de Marte.

Marte tem desfiladeiros que foram esculpidos por rios, por isso já foi suficientemente quente para ter água líquida. Como - e porque é que - se tornou num deserto estéril?

Um estudo liderado pelo cientista planetário Edwin Kite, da Universidade de Chicago, apresenta uma nova explicação para o facto de Marte nunca parecer manter-se ameno durante muito tempo. Publicado a 2 de julho na revista Nature, o seu modelo sugere que os períodos de água líquida que observamos no passado foram iniciados pelo aumento de brilho do Sol e que as condições em Marte fazem com que este tenda a tornar-se deserto ao longo do tempo - ao contrário da Terra, que se manteve habitável ao longo do tempo.

O estudo baseia-se nas descobertas do rover Curiosity da NASA, anunciadas no passado mês de abril: o rover encontrou finalmente rochas ricas em minerais de carbonato, o que poderá explicar para onde foi a atmosfera de Marte.

"Durante anos, tivemos esta enorme questão sem resposta no que toca à razão pela qual a Terra conseguiu manter a sua habitabilidade enquanto Marte a perdeu", disse Kite, professor associado de ciências geofísicas que é também cientista participante na missão do Curiosity. "Os nossos modelos sugerem que os períodos de habitabilidade em Marte têm sido a exceção, e não a regra, e que Marte geralmente se autorregula como um planeta desértico".

Uma "idade de ouro" de ciência em Marte

Marte tem quase a mesma constituição que a Terra - é um planeta rochoso, com muito carbono e muita água, suficientemente perto do Sol para ser aquecido, mas não cozinhado por ele - e, no entanto, atualmente é um deserto gelado, enquanto a Terra está repleta de vida. Durante anos, os cientistas procuraram uma resposta para o facto de estarmos a ler isto na Terra e não em Marte.

O mistério aprofundou-se quando conseguimos ver vales esculpidos por rios e antigos leitos de lagos na superfície de Marte, mostrando que o planeta teve, a dada altura, um clima suficientemente quente para a existência de água líquida.

"Felizmente, Marte preserva um vestígio dessa catástrofe ambiental nas rochas da sua superfície", disse Kite. "E hoje estamos numa idade de ouro da ciência em Marte, com dois rovers movidos a plutónio na superfície e uma frota internacional de naves espaciais em órbita que nos permitem explorar profundamente o planeta em busca desses vestígios".

 
Os dados foram fornecidos pelo rover Curiosity da NASA, que aqui aparece a tirar uma "selfie" em 2019.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS
 

Quando se trata de manter um planeta ameno e temperado, não basta começar assim - é preciso haver mecanismos de estabilidade ao longo do tempo que possam responder às mudanças no planeta e à sua volta.

Os cientistas pensam que a Terra faz isto através de um sistema finamente equilibrado que move o carbono do céu para a rocha e vice-versa. O dióxido de carbono na atmosfera aquece o planeta, mas as temperaturas mais quentes também aceleram as reações que fixam o dióxido de carbono nas rochas, o que acaba por contrariar o aumento da temperatura. Eventualmente, o carbono volta a ser libertado para a atmosfera através de erupções vulcânicas. Ao longo de milhões de anos, este ciclo parece ter mantido a Terra relativamente estável e hospitaleira para a vida.

Em Marte, sugerem os investigadores, também pode ocorrer um ciclo semelhante - mas um ciclo autolimitado.

Este ciclo depende do facto de a luminosidade do nosso Sol aumentar muito, muito lentamente ao longo do tempo - cerca de 8% por cada mil milhões de anos. À medida que o Sol se tornou mais brilhante, os cientistas teorizam que a água líquida começou a correr em Marte. Mas depois essa água começou a fazer com que o dióxido de carbono ficasse preso nas rochas, como acontece na Terra, o que fez com que o planeta voltasse a ser um deserto frio e estéril.

"Em contraste com a Terra, onde há sempre alguns vulcões em erupção, Marte neste momento está adormecido do ponto de vista vulcânico, e a taxa média de libertação de gases vulcânicos em Marte é baixa", explicou Kite. "Assim, nessa situação, não existe um equilíbrio entre o dióxido de carbono que entra e o que sai, porque se houver um pouco de água líquida, o dióxido de carbono será absorvido através da formação de carbonatos".

O grupo construiu modelos extensos que mostram como estas oscilações podem acontecer. Sugerem que Marte passa por curtos períodos de água líquida, seguidos de períodos de 100 milhões de anos de deserto. Escusado será dizer que uma lacuna de 100 milhões de anos na habitabilidade é mau para a vida.

Um mistério marciano

A explicação foi possível graças à descoberta do Curiosity, anunciada no início deste ano, de rochas ricas em carbonato na superfície de Marte. Esta era uma peça do puzzle que faltava há anos, explicaram os cientistas.

Para ter tido água líquida, Marte tinha de ter uma atmosfera mais densa, composta por um gás com efeito de estufa como o dióxido de carbono. Mas atualmente há muito pouca atmosfera, deixando um enigma sobre para onde foi o carbono.

"As pessoas procuram há anos o 'túmulo' da atmosfera", disse Kite.

A explicação mais simples seria a de que foi arrastada para as rochas, como acontece na Terra, mas os primeiros testes do rover não revelaram quaisquer indícios de rochas ricas em carbonato.

Foi necessária a viagem do Curiosity a uma montanha marciana chamada Monte Sharp para finalmente encontrar estas rochas carbonatadas. À medida que a viagem continua, outros testes mostrarão se o carbonato está tão espalhado como os investigadores suspeitam.

"É realmente algo que não se pode saber até se ter um rover à superfície", disse o coautor do estudo Benjamin Tutolo, professor na Universidade de Calgary. "As medições de química e mineralogia que fornecem são realmente essenciais na nossa busca contínua para compreender como e porque é que os planetas se mantêm habitáveis, a fim de procurar outros mundos hospitaleiros no Universo".

// Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia:
22/04/2025 - Rover Curiosity pode ter resolvido o mistério do carbonato em falta de Marte

Marte:
NASA
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
The Nine Planets
Monte Sharp (Wikipedia)
Atmosfera de Marte (Wikipedia)

Rover Curiosity:
NASA
Facebook
X/Twitter
Wikipedia

 
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Álbum de fotografias
Ou4: A Nebulosa da Lula

exemplo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Massimo Di Fusco
 
Difícil de fotografar, esta misteriosa nuvem interestelar em forma de lula estende-se por quase três Luas Cheias no céu do planeta Terra. Descoberta em 2011 pelo astrofotógrafo francês Nicolas Outters, a forma bipolar da Nebulosa da Lula distingue-se aqui pela reveladora emissão azul de átomos de oxigénio duplamente ionizados. Embora aparentemente rodeada pela região avermelhada de emissão Sh2-129, a verdadeira distância e natureza da Nebulosa da Lula têm sido difíceis de determinar. No entanto, uma investigação sugere que Ou4 se encontra de facto dentro de Sh2-129, a cerca de 2300 anos-luz de distância. Consistente com esse cenário, a lula cósmica representaria um espetacular fluxo de material impulsionado por um sistema triplo de estrelas quentes e massivas, catalogado como HR8119, visto perto do centro da nebulosa. Se assim for, esta nebulosa teria fisicamente mais de 50 anos-luz de diâmetro.
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