As Nuvens de Magalhães são peculiares. As suas velocidades relativas estão muito perto da velocidade de escape da Via Láctea, o que torna improvável um cenário de formação como parte do nosso sistema galáctico. Em adição, a direcção dos seus movimentos é quase perpendicular ao disco da Galáxia e sistemas, especialmente tão grandes como as Nuvens de Magalhães, deveriam mostrar uma maior orientação com o plano se tivessem sido formadas cá perto. Os seus conteúdos gasosos são também notavelmente diferentes dos de outras galáxias-satélite da Via Láctea. A combinação destas características sugere a alguns que as Nuvens de Magalhães não são nativas à Via Láctea, tendo por isso sido interceptadas.
Mas de onde vieram? Embora esta sugestão não seja nova, um artigo recente, aceite para publicação na revista Astrophysical Journal Letters, indica que podem ter sido capturadas após uma fusão passada na Galáxia de Andrómeda (M31).
Para analisar esta proposta, os investigadores, Y. Yang da Academia de Ciências da China, em Pequim, e F. Hammer da Universidade de Paris, fizeram simulações retrocedendo as posições das Nuvens de Magalhães. Embora tudo isto pareça muito simples, o processo não o é. Dado que as galáxias são grandes objectos, as suas formas tridimensionais e perfis de massa devem ser muito bem trabalhadas para estimar com veracidade os seus percursos. Mais: a Galáxia de Andrómeda está a mover-se e terá estado noutra posição da que é observada actualmente. Mas quando terá ocorrido esta expulsão galáctica? É uma questão importante, mas não é fácil de responder tendo em conta a dificuldade em observar os movimentos próprios de objectos tão longínquos.
Mas ainda não acabou. Há mais. Como sempre, há uma grande quantidade de massa que não pode ser observada! A presença e distribuição da matéria escura afecta seriamente a trajectória das galáxias expelidas. Felizmente, a nossa Galáxia parece estar numa fase bem quiescente e outros estudos sugeriram que os halos de matéria escura são maioritariamente esféricos a não ser que sejam perturbados. Além do mais, os distantes enxames galácticos como o superenxame de Virgem também poderiam afectar as suas trajectórias.
Estas incertezas pegam no que seria um simples problema e transformam-no num caso no qual os investigadores foram ao invés forçados a explorar o parâmetro espacial com muitas variáveis para verificar se os valores batiam certo. Ao fazê-lo, o par de astrónomos concluiu que "poderia ser este o caso, dentro de um conjunto razoável de parâmetros, tanto para a Via Láctea como para M31." Assim sendo, as Nuvens passaram 4-8 mil milhões de anos a viajar pelo espaço intergaláctico antes de serem capturadas pela nossa Galáxia.
Mas será que podem existir mais provas para suportar esta teoria? Os autores salientam que se Andrómeda tivesse passado por um evento de fusão àquela escala, provavelmente teria induzido grandes quantidades de formação estelar. Como tal, deveríamos ver um aumento do número de estrelas com esta idade. Os autores não afirmam se isto é ou não o caso. Mesmo assim, esta hipótese é interessante e lembra-nos quão dinâmico pode ser o nosso Universo.
Links:
Artigo científico :
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Nuvens de Magalhães:
Wikipedia
Via Láctea:
Núcleo de Astronomia do Centro Ciência Viva do Algarve
SEDS.org
Wikipedia
Galáxia de Andrómeda (M31):
SEDS.org
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