FLUXOS RECORRENTES MARCIANOS: AREIA, NÃO ÁGUA?
24 de novembro de 2017
Esta encosta interior de uma cratera marciana tem várias características escuras chamadas RSL ("recurrent slope linae") que um artigo de novembro de 2017 interpreta como fluxos granulares, em vez de escurecimento devido a fluxos de água. A imagem foi obtida pela HiRISE a bordo da sonda Mars Reconnaissance Orbiter da NASA.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UA/USGS
(clique na imagem para ver versão maior)
Características escuras em Marte, anteriormente consideradas evidências de fluxos subterrâneos de água, são interpretadas numa nova investigação como fluxos granulares, onde grãos de areia e poeira escorregam monte abaixo para fazer marcas escuras, em vez da infiltração da água escurecer o solo.
O estudo continuado destas ainda perplexas marcas escuras e sazonais com uma câmara poderosa a bordo da sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) da NASA mostra que existem apenas em declives íngremes o suficiente para os grãos secos descerem como o fazem nas dunas ativas.
Os resultados publicados esta semana na Nature Geoscience argumentam contra a presença de água líquida suficiente para a vida microbiana prosperar nesses locais. No entanto, ainda não foi explicado exatamente como é que estes numerosos fluxos começam e crescem gradualmente. Os autores do artigo propõem várias possibilidades que incluem o envolvimento de pequenas quantidades de água, indicadas pela deteção de sais hidratados observados em alguns dos locais de fluxo.
Estas características provocaram fascínio e controvérsia desde a sua descoberta em 2011, como possíveis marcas inesperadas de água líquida ou salmoura num planeta de outra forma seco. São marcas escuras que se estendem gradualmente monte abaixo nas estações quentes, que depois desaparecem no inverno e reaparecem no ano seguinte. Na Terra, só se conhecem estes comportamentos nas infiltrações de água, mas ainda não está claro como se formam no seco ambiente marciano.
Muitos milhares dessas características marcianas, chamadas coletivamente de RSL ("recurring slope lineae", ou "linhagens de declive recorrente"), foram identificadas em mais de 50 áreas de declive rochoso, desde o equador até cerca de meio caminho até aos polos.
"Pensámos nas RSL como possíveis fluxo de água líquida, mas as encostas são mais como o que esperamos da areia seca," afirma Colin Dundas do Centro Científico de Astrogeologia do USGS (United States Geological Survey), em Flagstaff, no estado norte-americano do Arizona. "Esta nova compreensão das RSL suporta outras evidências que mostram que Marte está hoje muito seco."
Dundas é o autor principal do artigo, que tem por base observações da câmara HiRISE (High Resolution Imaging Science Experiment) a bordo da MRO. Os dados incluem modelos tridimensionais da inclinação das encostas usando pares de imagens para informações estéreo. Dundas e coautores examinaram 151 RSL em 10 locais diferentes.
As RSL estão quase todas restritas a encostas mais íngremes que 27 graus. Cada fluxo termina numa inclinação que corresponde ao "ângulo de repouso" dinâmico visto nas areias secas de dunas em Marte e na Terra. Um fluxo devido a água líquida devia estender-se a encostas menos íngremes.
"As RSL não percorrem encostas menos inclinadas e os seus comprimentos estão tão intimamente correlacionados com o ângulo de repouso dinâmico, que não pode ser uma coincidência," afirma Alfred McEwen, investigador principal do instrumento HiRISE, na Universidade do Arizona em Tucson, coautor do novo artigo.
Pensou-se que as marcas escuras e sazonais pudessem ser evidências de água líquida biologicamente significativa - água suficiente para vida microbiana - embora fosse um desafio explicar como tanta água líquida podia existir à superfície do ambiente moderno de Marte. Uma explicação de fluxo granular para as RSL encaixa no entendimento anterior de que a superfície do Marte moderno, exposta a uma fria e fina atmosfera, não possui água corrente. Um artigo de 2016 também lançou dúvidas sobre possíveis fontes de água subterrânea nos locais das RSL. A água líquida no planeta Marte de hoje pode estar limitada a vestígios de humidade dissolvida da atmosfera e a camadas finas, que são ambientes desafiadores para a vida como a conhecemos.
No entanto, as RSL permanecem intrigantes. As propriedades que têm explicações incertas incluem o crescimento gradual, o reaparecimento sazonal, o seu rápido desvanecimento quando inativas e a presença de sais hidratados, que possuem moléculas de água ligadas à sua estrutura cristalina.
O novo artigo descreve possíveis ligações entre essas propriedades e a formação das RSL. Por exemplo, os sais podem tornar-se hidratados puxando vapor de água da atmosfera e este processo pode formar gotas de água salgada. As mudanças sazonais na hidratação de grãos salgados podem resultar em algum mecanismo de "gatilho" para fluxos granulares das RSL, como a expansão, contração ou libertação de alguma água. O escurecimento e o desvanecimento podem resultar de mudanças na hidratação. Se o vapor de água atmosférico é um gatilho, então podemos perguntar porque é que as RSL aparecem em algumas encostas, mas não noutras.
"As RSL provavelmente formam-se por algum mecanismo que é exclusivo do ambiente de Marte," comenta McEwen, "de modo que representam uma oportunidade para aprender mais sobre o comportamento de Marte, que é importante para a futura exploração da superfície."
"A compreensão completa das RSL provavelmente dependerá da investigação 'in situ' destas características," afirma Rich Zurek, cientista do projeto MRO no JPL da NASA em Pasadena, Califórnia. "Embora o novo estudo sugira que as RSL não sejam suficientemente molhadas para favorecer a vida microbiana, é provável que a investigação direta nesses locais ainda exija procedimentos especiais para proteger contra a introdução de micróbios da Terra, pelo menos até serem definitivamente caracterizados. Em particular, ainda nos escapa uma explicação completa de como estas características enigmáticas escurecem e desaparecem. A deteção remota em diferentes momentos do dia poderá fornecer pistas importantes."