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Edição n.º 1430
21/11 a 23/11/2017
 
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EFEMÉRIDES

Dia 21/11: 325.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1905, é publicado o artigo de Einstein que revela a relação entre a energia e a massa. Isto leva à fórmula da equivalência massa-energia, E=mc^2.

Em 1998, estudantes do Liceu Northfield Mount Hermon descobrem Kuiper 72.
Observações: A Lua Crescente, baixa a sudoeste ao anoitecer, aponta diretamente para baixo e para a direita em direção a Saturno. Mercúrio brilha ainda mais para baixo e para a direita de Saturno antes de se pôr. É necessário um horizonte desimpedido.

Dia 22/11: 326.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1973 nasce Chad Trujillo, codescobridor do planeta anão Éris.

Observações: A Galáxia de Andrómeda (M31) e o Duplo Enxame de Perseu são dois dos mais famosos objetos de céu profundo. Ambos estão catalogados como tendo magnitude 4 e num céu razoavelmente escuro consegue vê-los à vista desarmada. Estão separados por apenas 22º, muito alto a este ao início destas noites - para a direita de Cassiopeia e para baixo de Cassiopeia, respetivamente. Mas têm um aspeto muito diferente.

Dia 23/11: 327.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1885, é tirada a primeira fotografia de uma chuva de meteoros
Em 1924, é publicada num jornal a descoberta, por Edwin Hubble, de que Andrómeda, que se pensava ser uma nebulosa dentro da nossa Galáxia, é na realidade outra galáxia, e que a Via Láctea apenas uma de muitas galáxias no Universo.
Em 1972, a União Soviética faz a sua tentativa final de lançar com sucesso o foguetão N1
Em 1977, o Meteosat 1 torna-se no primeiro satélite a ser posto em órbita pela Agência Espacial Europeia (ESA).
Em 2015, o veículo espacial New Shepard da Blue Origin torna-se no primeiro foguetão a ser lançado com sucesso para o espaço e a regressar à Terra, numa aterragem controlada e vertical.

Observações: Não parece que o Sol já se põe o mais cedo possível? Poderá ter razão! Ainda estamos a um mês do solstício de inverno - mas o Sol põe-se o mais cedo possível por volta do dia 6 de dezembro à latitude de Faro, Portugal. Hoje estamos a uns meros 3 minutos dessa hora.

 
CURIOSIDADES


Plutão é mais pequeno que sete luas dos planetas do Sistema Solar (Tritão, Europa, Lua, Io, Callisto, Titã e Ganimedes).

 
OBSERVAÇÕES DO ESO MOSTRAM QUE O PRIMEIRO ASTEROIDE INTERESTELAR NÃO É COMO NENHUM OBJETO OBSERVADO ATÉ À DATA

Os astrónomos estudaram pela primeira vez um asteroide que entrou no Sistema Solar vindo do espaço interestelar. Observações feitas com o VLT (Very Large Telescope) do ESO no Chile e noutros observatórios do mundo, mostram que este objeto único viajava no espaço há milhões de anos antes do seu encontro casual com o nosso Sistema Solar. O objeto parece ser vermelho escuro e extremamente alongado, rochoso ou com elevado conteúdo em metais, nada parecido ao que encontramos normalmente no Sistema Solar. Estes novos resultados foram publicados na revista Nature a 20 de novembro de 2017.

A 19 de outubro de 2017, o telescópio Pan-STARRS no Hawaii capturou um ténue ponto de luz a deslocar-se no céu. Inicialmente parecia ser um pequeno asteroide rápido típico, no entanto observações adicionais nos dias seguintes permitiram calcular a sua órbita de modo bastante preciso, o que revelou, sem sombra de dúvidas, que se tratava de um objeto que não vinha do interior do Sistema Solar, como todos os outros asteroides ou cometas observados até à data, mas sim do espaço interestelar. Embora classificado originalmente como cometa, observações obtidas pelo ESO e por outros observatórios não revelaram sinais de atividade cometária após a sua passagem próximo do Sol em setembro de 2017. O objeto foi por isso reclassificado como sendo um asteroide interestelar e chamado 1I/2017 U1 (‘Oumuamua).

Esta imagem artística mostra o primeiro asteroide interestelar descoberto: ‘Oumuamua. Este objeto único foi descoberto a 19 de outubro de 2017 pelo telescópio Pan-STARRS 1 no Hawaii. Observações subsequentes obtidas pelo VLT do ESO no Chile e por outros observatórios, mostram que este objeto viajava no espaço há milhões de anos antes do seu encontro casual com o nosso Sistema Solar. ‘Oumuamua parece ser vermelho escuro, metálico ou rochoso e extremamente alongado, com cerca de 400 metros de comprimento, nada parecido ao que encontramos normalmente no Sistema Solar.
Crédito: ESO/M. Kornmesser
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Tivemos que atuar muito rapidamente," explica o membro da equipa Olivier Hainaut do ESO, em Garching, Alemanha. "‘Oumuamua já tinha passado o ponto da sua órbita mais próximo do Sol e dirigia-se para o espaço interestelar."

O VLT do ESO foi imediatamente chamado à ação para medir a órbita do objeto, a sua cor e o seu brilho com mais precisão do que a obtida por telescópios mais pequenos. A rapidez nesta ação era crucial, uma vez que ‘Oumuamua desvanecia rapidamente no céu, afastando-se do Sol e da Terra, no seu percurso para fora do Sistema Solar. O objeto reservava-nos ainda mais surpresas.

Combinando as imagens do instrumento FORS montado no VLT — com 4 filtros diferentes — com as imagens obtidas por outros grandes telescópios, a equipa de astrónomos liderada por Karen Meech (Institute for Astronomy, Hawai, EUA) descobriu que ‘Oumuamua varia em brilho por um fator de 10, à medida que roda em torno do seu eixo a cada 7,3 horas.

Karen Meech explica o significado deste resultado: "Esta variação em brilho invulgarmente elevada revela-nos que o objeto é extremamente alongado: cerca de 10 vezes mais comprido do que largo, com uma forma complexa. Descobrimos também que apresenta uma cor vermelha escura, semelhante aos objetos no Sistema Solar externo, e confirmámos que é completamente inerte, sem o mais pequeno traço de poeira em seu redor."

Esta imagem combinada muito profunda mostra o asteroide interestelar ‘Oumuamua no centro, marcado com um círculo azul. O objeto encontra-se rodeado por rastros de estrelas ténues, que aparecem devido aos telescópios seguirem o movimento do asteroide. Esta imagem foi criada ao combinar imagens múltiplas do VLT do ESO e do Telescópio Gemini South. O objeto parece ser uma fonte pontual, sem poeira em seu redor.
Crédito: ESO/K. Meech et al.
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Estas propriedades sugerem que ‘Oumuamua é denso, possivelmente rochoso ou com um conteúdo metálico elevado, sem quantidades significativas de água ou gelo, e que a sua superfície é escura e vermelha devido aos efeitos de irradiação por parte de raios cósmicos ao longo de muitos milhões de anos. Estima-se que tenha pelo menos 400 metros de comprimento.

Cálculos preliminares da sua órbita sugerem que o objeto tenha vindo da direção aproximada da estrela brilhante Vega, na constelação boreal de Lira. No entanto, mesmo viajando à tremenda velocidade de cerca de 95.000 km/hora, demorou tanto tempo a chegar ao nosso Sistema Solar, que Vega não se encontra já na posição que ocupava quando o asteroide partiu de lá, há cerca de 300.000 anos atrás. ‘Oumuamua deve ter vagueado pela Via Láctea, sem ligação a nenhum sistema estelar, durante centenas de milhões de anos até ao seu encontro casual com o Sistema Solar.

Este diagrama mostra a órbita do asteroide interestelar ‘Oumuamua a passar pelo nosso Sistema Solar. Contrariamente a todos os outros asteroides e cometas observados anteriormente, este corpo não se encontra ligado ao Sol pelo gravidade. Veio do espaço interestelar e aí retornará após um breve encontro com o nosso sistema estelar. A sua órbita hiperbólica é altamente inclinada e parece não se ter aproximado de nenhum outro corpo do Sistema Solar durante a sua viagem até nós.
Créditos: ESO/K. Meech et al.
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Os astrónomos estimam que, por ano, um asteroide interestelar semelhante a ‘Oumuamua passe através do Sistema Solar interior, no entanto como estes objetos são ténues e difíceis de detetar nunca foram observados até agora. Apenas recentemente é que os telescópios de rastreio, como o Pan-STARRS, se tornaram suficientemente poderosos para conseguirem detetar tais objetos.

"Continuamos a observar este objeto único," conclui Olivier Hainaut, "E esperamos determinar com mais exatidão donde é que veio e para onde é que vai na sua próxima volta à Galáxia. E agora que descobrimos a primeira rocha interestelar, estamos prontos para as seguintes!"

Links:

Notícias relacionadas:
ESO (comunicado de imprensa)
Artigo científico (PDF)
Nature
EurekAlert!
Science
PHYSORG
spaceref

1I/2017 U1 (‘Oumuamua):
JPL/NASA
Wikipedia

Objeto interestelar:
Wikipedia

VLT:
Página oficial
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
LAVA OU NÃO, O EXOPLANETA 55 CANCRI E TEM PROVAVELMENTE UMA ATMOSFERA
Impressão de artista da superterra 55 Cancri e e da sua estrela hospedeira. O exoplaneta tem provavelmente uma atmosfera mais espessa que a da Terra mas com ingredientes parecidos.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Com o dobro do tamanho da Terra, pensa-se que a superterra 55 Cancri e tenha fluxos de lava à superfície. O planeta está tão perto da sua estrela, que o mesmo lado está sempre orientado para a estrela, de modo que tem um lado permanentemente diurno e um lado permanentemente noturno. Com base num estudo de 2016 usando dados do Telescópio Espacial Spitzer da NASA, os cientistas especularam que a lava flui livremente em lagos no lado iluminado e torna-se dura na face em escuridão perpétua. A lava na face diurna refletiria a radiação da estrela, contribuindo para a temperatura geral observada do planeta.

Agora, uma análise mais profunda dos mesmos dados do Spitzer descobriu que este planeta provavelmente tem uma atmosfera cujos ingredientes podem ser semelhantes aos da atmosfera da Terra, mas mais espessa. De acordo com os cientistas, os lagos de lava diretamente expostos ao espaço sem uma atmosfera criariam pontos quentes de altas temperaturas, portanto não são a melhor explicação para as observações do Spitzer.

"Se houver lava neste planeta, precisará de cobrir toda a superfície," explica Renyu Hu, astrónomos do JPL da NASA em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia, coautor do estudo publicado na revista The Astronomical Journal. "Mas a lava ficaria escondida da nossa vista pela atmosfera espessa."

Usando um modelo melhorado de como a energia podia fluir em todo o planeta e irradiar de volta para o espaço, os investigadores acham que o lado noturno do planeta não é tão frio como se pensava anteriormente. O lado "frio" é ainda bastante quente segundo padrões terrestres, com uma média que ronda os 1300-1400 graus Celsius, e o lado quente tem em média 2300º C. A diferença entre os lados quente e frio precisaria ser mais extrema caso não houvesse atmosfera.

"Os cientistas têm debatido se este planeta tem uma atmosfera como a da Terra e Vénus, ou apenas um núcleo rochoso sem atmosfera, como Mercúrio. O caso para uma atmosfera agora é mais forte do que nunca," comenta Hu.

Os investigadores dizem que a atmosfera deste misterioso planeta pode conter azoto, água e até oxigénio - moléculas também encontradas na nossa atmosfera - mas com temperaturas muito mais elevadas. A densidade do planeta é também semelhante à da Terra, sugerindo que é igualmente rochoso. No entanto, o calor intenso da estrela-mãe será demasiado para suportar vida e não consegue manter a água no estado líquido.

Hu desenvolveu um método para estudar as atmosferas e superfícies dos exoplanetas, e anteriormente apenas o tinha aplicado aos planetas borbulhantes e gigantes chamados Júpiteres quentes. Isabel Angelo, autora principal do estudo, da Universidade da Califórnia, Berkeley, trabalhou no estudo como parte do seu estágio no JPL e adaptou o modelo de Hu a 55 Cancri e.

Num seminário, ouviu falar de 55 Cancri e como um planeta potencialmente rico em carbono, com temperaturas e pressões tão altas que o seu interior podia conter um diamante gigante.

"É um exoplaneta cuja natureza é bastante contestada, o que achava excitante," comenta Angelo.

O Spitzer observou 55 Cancri e entre 15 e junho e 15 de julho de 2013, usando uma câmara especialmente construída para observar radiação infravermelha, que é invisível aos olhos humanos. A radiação infravermelha é um indicador de energia térmica. Ao comparar as mudanças no brilho observado pelo Spitzer com os modelos de fluxo energético, os cientistas perceberam que uma atmosfera com materiais voláteis podia melhor explicar as temperaturas.

Existem muitas perguntas em aberto sobre 55 Cancri e, especialmente: porque é que a atmosfera não foi removida do planeta, tendo em conta o perigoso ambiente de radiação da estrela?

"A compreensão deste planeta ajudar-nos-á a resolver questões maiores sobre a evolução dos planetas rochosos," conclui Hu.

Links:

Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
01/04/2016 - Spitzer mapeia padrões climáticos numa super-Terra
19/02/2016 - Primeira análise da atmosfera de uma super-Terra
08/05/2015 - Astrónomos encontram primeiras evidências de alterações numa super-Terra
25/04/2014 - Resolvidos mistérios de sistema planetário próximo
03/05/2011 - Super-Terra descoberta em estrela visível a olho nu

Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
The Astronomical Journal
Artigo científico (arXiv.org)
Universe Today
Space Daily
PHYSORG

55 Cancri e:
Exoplanet.eu 
Wikipedia

Planetas extrasolares:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

Telescópio Espacial Spitzer:
Página oficial 
NASA
Centro Espacial Spitzer 
Wikipedia

 
COMO É QUE ENCONTRAMOS UM ENXAME DE ESTRELAS? SIMPLES, BASTA CONTÁ-LAS

É a reunião perfeita entre o "velho" e o "novo". Os astrónomos combinaram os dados mais recentes da missão Gaia da ESA com uma simples técnica de análise do século XVIII para descobrir um enorme enxame estelar que tinha até agora escapado à deteção. Agora, as investigações subsequentes estão a ajudar a revelar a história de formação estelar da nossa Galáxia, a Via Láctea.

No final do século XVIII, os astrónomos William e Caroline Herschel começaram a contar estrelas. O objetivo era determinar a forma da nossa Galáxia.

Desde 1609, quando Galileu apontou o seu telescópio para a região do céu noturno conhecida como a Via Láctea e viu que era composta por miríades de estrelas ténues, que sabemos que existem diferentes números de estrelas em diferentes direções do espaço. Isto significa que a nossa coleção local de estrelas, a Galáxia, deve ter uma forma. Herschel decidiu descobrir qual seria.

Ele usou um telescópio grande, com 610 cm de comprimento, montado entre armações altas de madeira para "varrer" um círculo largo do céu que passava pela Via Láctea em ângulos retos. Dividiu então esse círculo em mais de 600 regiões e contou ou estimou o número de estrelas em cada uma.

Com esta técnica simples, os irmãos produziram a primeira estimativa da forma da Via Láctea. Avançando rapidamente para o século XXI, atualmente os investigadores usam contagens estelares para procurar enxames escondidos e galáxias satélite. Eles procuram regiões onde a densidade estelar aumenta mais do que o esperado.

Uma vista de todo o céu de estrelas na nossa Galáxia - a Via Láctea - e galáxias vizinhas, com base no primeiro ano de observações do satélite Gaia da ESA, desde julho de 2014 até setembro de 2015. Este mapa mostra a densidade de estrelas observadas pelo Gaia em cada porção do céu. Regiões mais brilhantes indicam concentrações mais densas de estrelas, enquanto regiões mais escuras correspondem a zonas do céu onde são observadas menos estrelas.
A Via Láctea é uma galáxia espiral, com a maioria das suas estrelas a residir num disco com aproximadamente 100.000 anos-luz de diâmetro e cerca de 1000 anos-luz de espessura. Esta estrutura é visível no céu como o Plano Galáctico - a porção mais brilhante desta imagem - que está posicionada horizontalmente e é especialmente brilhante no centro.
As regiões mais escuras do Plano Galáctico correspondem a nuvens densas de gás e poeira interestelar que absorvem a luz estelar ao longo da linha de visão.
Muitos enxames abertos e globulares - agrupamentos de estrelas mantidas juntas pela sua gravidade mútua - estão também espalhados pela imagem.
Os enxames globulares, grandes conjuntos de centenas de milhares até milhões de estrelas velhas, são principalmente encontrados no halo da Via Láctea, uma estrutura aproximadamente esférica com um raio de mais ou menos 100.000 anos-luz e por isso são visíveis na imagem.
Os enxames abertos são aglomerados mais pequenos com centenas até milhares de estrelas e encontram-se principalmente no Plano Galáctico.
Os dois objetos brilhantes perto do canto inferior direito da imagem são as Grande e Pequena Nuvem de Magalhães, duas galáxias anãs que orbitam a Via Láctea. Também são visíveis outras galáxias próximas, principalmente Andrómeda (também conhecida como M31), a maior vizinha galáctica da Via Láctea, em baixo e à esquerda da imagem. Por baixo de Andrómeda está a sua galáxia satélite, M33 ou Galáxia do Triângulo.
Na imagem estão presentes vários artefactos. Estas características curvas e listas mais escuras não são de origem astronómica mas, ao invés, refletem o processo de digitalização do Gaia. Tendo em conta que este mapa é baseado em observações recolhidas durante o primeiro ano da missão, o estudo ainda não é uniforme em todo o céu.
Estes artefactos irão gradualmente desaparecer à medida que mais dados são recolhidos durante os cinco anos da missão.
Crédito: ESA/Gaia/DPAC; reconhecimento - A. Moitinho & M. Barros (CENTRA - Universidade de Lisboa), em nome do DPAC
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Em 1785, o rastreamento circular de Herschel passou perto da estrela mais brilhante do céu noturno, Sirius. Agora, os cientistas que analisam os primeiros dados divulgados pela nave Gaia da ESA revisitaram essa área particular do céu e fizeram uma descoberta incrível.

Eles revelaram um grande enxame estelar que podia ter sido descoberto há mais de século e meio atrás, caso não estivesse tão perto de Sirius.

O enxame foi avistado por Sergey E. Koposov, na altura na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e agora na Universidade Carnegie Mellon, Pensilvânia, EUA, e seus colegas. Há uma década que procuram enxames estelares e galáxias satélite em vários levantamentos do céu. Naturalmente, utilizaram também o primeiro lançamento de dados da missão Gaia.

Gaia é a missão astrométrica da ESA. Recolhe posições, brilhos e informações adicionais para mais de mil milhões de fontes de luz. Os seus dados permitem nada menos do que a contagem estelar mais precisa de sempre.

Hoje em dia, a laboriosa tarefa de contar estrelas é feita por computadores, mas os resultados ainda precisam ser examinados por humanos. Koposov vasculhava a lista de densidades estelares mais altas quando reparou num enorme enxame. Ao início, parecia bom demais para ser verdade.

"Eu pensei que devia ser um artefacto relacionado com Sirius," afirma. As estrelas brilhantes podem produzir sinais falsos, chamados artefactos, que os astrónomos têm que ter cuidado para não confundirem com estrelas. Um artigo anterior pela equipa do Gaia já havia discutido artefactos em torno de Sirius usando uma zona próxima do céu da que Koposov estava a estudar.

Embora ele tivesse continuado em frente e encontrado outra grande densidade estelar que parecia promissora, a sua mente continuava a querer voltar para a primeira. "Pensei: 'Que estranho, não devíamos ter tantos artefactos de Sirius.' Então voltei atrás e olhei novamente. E percebi que era um objeto genuíno," comenta.

Estes dois objetos foram chamados Gaia 1 (objeto localizado perto de Sirius) e Gaia 2, que está perto do plano da nossa Galáxia, e ambos foram devidamente publicados. Gaia 1, em particular, contém massa suficiente para fabricar alguns milhares de estrelas como o Sol, está localizado a 15 mil anos-luz de distância e abrange 30 anos-luz. Isto significa que é um enxame estelar enorme.

A estrela proeminente na imagem, obtida pelo WISE (Wide-Field Infrared Survey Explorer), é Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno.
Para a esquerda de Sirius, e centrado na imagem, está Gaia 1, um enorme enxame aberto descoberto por astrónomos que "minavam" os primeiros dados da missão Gaia.
Gaia podia ter sido descoberto há mais de século e meio, quando os irmãos William e Caroline Herschel mapeavam estrelas para estimar a forma da Via Láctea, caso não estivesse tão perto de Sirius.
Crédito: Sergey Koposov; NASA/JPL; D. Lang, 2014; A. M. Meisner et al. 2017
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Conjuntos de estrelas como Gaia 1 têm o nome de enxames abertos. São famílias de estrelas que se formaram juntas e que depois se dispersaram gradualmente pela Galáxia. O nosso próprio Sol provavelmente formou-se num enxame aberto. Estas reuniões podem dizer-nos mais sobre a história de formação estelar da nossa Galáxia. Encontrar um novo que pode ser facilmente estudado já está a dar frutos.

"A idade é de grande interesse," comenta Jeffrey Simpson, do Observatório Astronómico Australiano, que realizou observações de acompanhamento com colegas usando o telescópio Anglo-Australiano de 4 metros do Observatório Siding Springs, Austrália.

Ao identificarem 41 membros do enxame, Simpson e colegas descobriram que Gaia 1 é invulgar, pelo menos, de duas maneiras. Em primeiro lugar, tem aproximadamente 3 mil milhões de anos. Isto é estranho porque não existem muitos enxames com esta idade na Via Láctea.

Normalmente, os enxames têm apenas algumas centenas de milhões de anos - estes são os enxames abertos - ou então têm mais de 10 mil milhões de anos - esta é outra classe distinta chamada enxames globulares, situados para lá do disco da Via Láctea, formando um halo à sua volta. Sendo de idade intermédia, Gaia 1 pode representar uma ponte importante na nossa compreensão entre as duas populações.

 
Esquerda: o enxame aberto Westerlund 2. Crédito: NASA, ESA, Arquivo Hubble (STScI/AURA), A. Nota (ESA/STScI) e Equipa Científica Westerlund
Direita: o enxame globular 47 Tucanae. Crédito: NASA, ESA, Arquivo Hubble (STScI/AURA) - Colaboração ESA/Hubble. Reconhecimento: J. Mack (STScI) e G. Piotto (Universidade de Pádova, Itália)
(clique nas imagens para ver versão maior)
 

Em segundo lugar, a sua órbita pela Galáxia é invulgar. A maioria dos enxames abertos fica perto do plano da Galáxia, mas Simpson descobriu que Gaia 1 orbita bem acima antes de descer e passar por baixo. "Tanto pode subir um kiloparsec (mais de 3000 anos-luz) como descer um kiloparsec [em relação ao plano da Galáxia]," comenta. Cerca de 90% dos enxames nunca ultrapassam um-terço dessa distância.

As simulações de enxames com órbitas como a de Gaia 1 mostram que são despojados de estrelas e dispersados por estas passagens pelo plano a alta velocidade. Isto contradiz a estimativa da idade.

"A nossa descoberta de que Gaia 1 tem 3 mil milhões de anos é curiosa, pois os modelos nunca teriam sobrevivido tanto tempo. São necessários mais estudos para tentar conciliar isto," explica Simpson.

Para testar uma possível explicação Alessio Mucciarelli, da Universidade de Bolonha, Itália, e colegas investigaram a composição química de Gaia 1. Este estudo tem a capacidade de ver se o enxame se formou fora da Galáxia e se foi apanhado no ato de "queda".

"A composição química das estrelas pode ser considerada uma assinatura 'genérica' da sua origem. Se um enxame estelar foi formado noutra galáxia, a sua composição química será diferente em relação à da nossa Galáxia," comenta Mucciarelli.

Os investigadores descobriram que as composições são praticamente idênticas àquelas esperadas no cenário em que Gaia 1 se tenha formado na Via Láctea - de modo que o enigma permanece.

Agora, Mucciarelli espera que a discrepância possa desaparecer quando o Gaia divulgar mais dados. "Mesmo que os parâmetros orbitais pareçam sugerir uma órbita peculiar, as suas incertezas são suficientemente grandes para impedir qualquer conclusão firme. O segundo lançamento de dados do Gaia vai obter parâmetros orbitais mais precisos e entenderemos melhor se a órbita de Gaia 1 é peculiar ou não," acrescenta.

Além de encontrar novos enxames, os dados do Gaia são úteis para verificar a realidade de associações estelares previamente relatadas. "Usando o 1.º lançamento de dados do Gaia, posso ver estrelas que partilham o mesmo movimento. De modo que posso confirmar quais as que formam verdadeiros enxames abertos," explica Andrés E. Piatti, do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina.

Ele publicou recentemente um estudo que mostra que dez dos quinze enxames abertos anteriormente publicados não eram realmente enxames, apenas acasos estatísticos onde muitas estrelas não relacionadas passavam em direções diferentes através da mesma região do espaço.

É um trabalho laborioso, mas vital. "Ninguém quer passar a vida a fazer isto," comenta Piatti, "mas é necessário. Se pudermos determinar o tamanho real da população do enxame, conseguimos aprender muito sobre os processos que a Galáxia sofreu ao longo da sua vida."

Na astronomia, a lista mais famosa de enxames estelares, nebulosas e galáxias foi compilada pelo astrónomo e caçador de cometas, Charles Messier, no século XVIII. Ignorando a importância destes objetos, designou o seu catálogo para impedir a frustração por si sentida, e por outros astrónomos, quando confundia estes "objetos de céu profundo" com cometas.

Esse catálogo original tem 110 objetos. Se não fosse o brilho obscurante de Sirius, a tapar a visão, Gaia 1 teria sido brilhante e óbvio o suficiente para também ter lugar nessa lista. E há muitas razões para pensar que há mais por vir, graças ao Gaia.

O próximo lançamento de dados vai fornecer detalhados movimentos próprios e distâncias para um número sem precedentes de estrelas, dados estes que podem ser usados para encontrar mais eficientemente grupos de estrelas "enterradas" no campo estelar ou grupos demasiado difusos ou distantes para terem sido vistos antes.

Também existe sempre a possibilidade de encontrar algo totalmente novo. "Espero que com o próximo lançamento de dados possamos também encontrar algumas novas classes de objetos," realça Simpson.

Para os astrónomos prontos a explorar os dados do Gaia, a aventura só agora começou. O segundo lançamento de dados do Gaia está agendado para abril de 2018. Os lançamentos de dados subsequentes estão agendados para 2020 e 2022.

Links:

Cobertura da missão Gaia pelo Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
01/09/2017 - Encontros próximos do tipo estelar
27/06/2017 - Cérebro artificial ajuda Gaia a encontrar estrelas velozes
17/02/2017 - Estrelas desaparecidas da vizinhança solar revelam velocidade do Sol e distância do Centro da Via Láctea
10/02/2017 - Nuvens de Magalhães estão ligadas por uma "ponte" de estrelas
16/09/2016 - O mapa de mil milhões de estrelas do Gaia sugere um tesouro vindouro
28/08/2015 - O primeiro ano de observações científicas do Gaia
07/07/2015 - Contando estrelas com o Gaia
21/01/2014 - Dados do Gaia-ESO mostram que Via Láctea pode ter sido formada de dentro para fora
20/12/2013 - Lançamento do Observatório Gaia

Notícias relacionadas:
ESA (comunicado de imprensa)
Artigo científico - Koposov et al. (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
Artigo científico - Koposov et al. (arXiv.org)
Artigo científico - Simpson et al. (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
Artigo científico - Simpson et al. (arXiv.org)
Artigo científico - Mucciarelli et al. (Astronomy & Astrophysics)
Artigo científico - Mucciarelli et al. (arXiv.org)
Artigo científico - Piatti et al. (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
Gaia: como encontrar um enxame de estrelas (ESA via YouTube)
Gaia "varrendo" o céu (ESA via YouTube)
Artigo científico - Piatti et al. (arXiv.org)
PHYSORG

Enxames estelares:
Enxame aberto (Wikipedia)
Enxame globular (Wikipedia)

Sirius:
Wikipedia

Via Láctea:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia

Gaia:
ESA
ESA - 2
Arquivo de dados do Gaia
SPACEFLIGHT101
Wikipedia

Irmãos Herschel:
William Herschel (Wikipedia)
Caroline Herschel (Wikipedia)

Galileu Galilei:
Biografia (Wikipedia)
Núcleo de Astronomia do CCVAlg

Charles Messier:
Wikipedia
Catálogo de Messier (Wikipedia)

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
  Enxame de fraturas em Marte (via ESA)
As fraturas na região de Sirenum Fossae, no hemisfério sul, foram fotografadas pela sonda Mars Express da ESA, em março. Estendem-se por milhares de quilómetros de comprimento, muito além dos limites desta imagem. Ler fonte
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - NGC 7822: Estrelas e Pilares de Poeira no Infravermelho
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: WISE, IRSA, NASA; Processamento e Direitos de Autor: Francesco Antonucci
 
Em NGC 7822, as próprias estrelas estão a limpar o seu berçário. Dentro da nebulosa, limites brilhantes e esculturas complexas de poeira dominam esta paisagem celeste detalhada obtida no infravermelho pelo satélite WISE (Wide Field Infrared Survey Explorer) da NASA. NGC 7822 situa-se na orla de uma nuvem molecular gigante na direção da constelação de Cefeu, uma região de formação estelar a cerca de 3000 anos-luz de distância. A emissão atómica da luz, graças ao gás da nebulosa, é alimentada pela radiação energética das estrelas quentes, cujos poderosos ventos e luz também esculpem as formas mais densas dos pilares. Dentro dos pilares ainda podem estar a formar-se estrelas, através de colapso gravitacional, mas à medida que são erodidos, quaisquer estrelas em formação serão finalmente cortadas do reservatório de material estelar. Este campo abrange cerca de 40 anos-luz à distância estimada de NGC 7822.
 

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