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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1730  
  06/10 a 08/10/2020  
     
 

09/10/20 - Noites Astronómicas no Sotavento
Sessão astronómica com telescópio. Esta sessão será uma breve despedida de alguns asterismos de verão assim como de planetas que deixarão de ser visíveis à noite até ao próximo verão. Esta noite astronómica em Tavira está inserida na Semana Mundial do Espaço que decorre de 4-10 de outubro. Participe!
Data: 9 de outubro, 21:00
Local: Santa Rita - Vila Nova de Cacela
Coordenadas GPS: 37.179357 N, -7.571818 O
Público-alvo: Público em geral.
Inscrição gratuita mas OBRIGATÓRIA.
O número de participantes é limitado. É necessário o uso de equipamento de proteção individual (Máscara ou viseira) durante o decorrer da atividade.
A realização desta atividade está dependente das condições atmosféricas e está sujeita a um número mínimo e máximo de participantes
Informações e inscrições:
281 326 231; 924 452 528
E-mail: geral@cvtavira.pt

 
     
 
Efemérides

Dia 06/10: 280.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1903, nascia Ernest Walton, físico irlandês que ganhou o prémio Nobel por ter sido a primeira pessoa na história a dividir artificialmente o átomo, dando início à era nuclear.
Em 1990 é lançado o observatório solar da ESA e da NASAUlysses, a partir do vaivém Discovery. Em fevereiro de 1992, levou um puxão gravitacional de Júpiter, forçando-o a sair do plano da eclíptica.

Completou a sua missão principal de vigiar os dois pólos do Sol, enviando resultados inesperados. Sabe-se que o pólo magnético sul é muito mais dinâmico e sem localização fixa. A missão duraria até 2007.
Em 1995, é descoberto em 51 Pegasi o primeiro planeta a orbitar outra estrela que não o Sol.
Observações: Maior aproximação de Marte à Terra, cerca de 0,415 UA (62,1 milhões de quilómetros, 3,5 minutos-luz). Só passará tão perto da Terra novamente em setembro de 2035.
Trânsito de Europa, entre as 18:54 e as 21:49.
Vega é a estrela mais brilhante muito alta a oeste ao cair da noite, quase no zénite. Arcturo, de brilho idêntico, está cada vez mais baixa a oeste-noroeste. A estrela mais brilhante na vasta área que separa as duas estrelas, a aproximadamente um-terço do caminho de Arcturo a Vega, é Alphecca, de magnitude 2,2 - a jóia da Coroa Boreal. Alphecca é um binário eclipsante de 17 dias, mas as suas quedas de brilho são demaisado fracas para serem observadas confiavelmente a olho nu.
Trânsito da sombra de Europa, entre as 21:34 e as 00:31 (já de dia 7).

Dia 07/10: 281.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1885, nascia Niels Bohr, físico que fez contribuições fundamentais na compreensão da estrutura atómica e da mecânica quântica, pela qual ganhou o prémio Nobel da Física.

Em 1958, o programa de voo espacial tripulado dos EUA muda de nome, para Projeto Mercury
Em 1959 o sistema televisivo a bordo da Luna 3 obtém uma série de 29 fotografias ao longo de 40 minutos, cobrindo 70% da superfície da Lua.
Em 2008, o asteroide 2008 TC3 colide com a Terra, por cima do Sudão. É a primeira vez que se determina, antecipadamente, a colisão de um asteroide com o nosso planeta.
Observações: Ocultação de Ganimedes, entre as 16:13 e as 19:47.
Eclipse de Ganimedes, entre as 21:29 e as 01:13 (ja de dia 8).
O "W" de Cassiopeia encontra-se alto a nordeste por estas noites.
Observe o segundo segmento do "W" contando da parte de cima. Note as ténues estrelas a olho nu desse segmento (sem contar com as estrelas das pontas). A mais brilhante, à direita, é Eta Cassiopeiae, de magnitude 3,4. É uma estrela parecida com o Sol a apenas 19 anos-luz de distância e tem uma companheira laranja mais pequena, um bonito binário telescópico.
A "estrela" à esquerda, mais ténue, é um par visível a olho nu sob um céu escuro: Upsilon1 e Upsilon2 Cassiopeiae, separadas por 0,3º. São gigantes laranjas sem relação uma com a outra, a 200 e 400 anos-luz de distância. Upsilon1, ligeiramente mais fraca, é a mais distante.

Dia 08/10: 282.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1873, nascia Ejnar Hertzsprung, astrónomo e químico dinamarquês que, na primeira década do século XX, provou pela primeira vez a existência de estrelas gigantes e estrelas anãs.

Juntamente com Henry Norris Russell, desenvolveu o diagrama Hertzsprung-Russell.
Observações: Eclipse de Europa, entre as 16:43 e as 19:40.
Vega é a estrela mais brilhante muito alta a oeste por estas noites. Cerca de 14º (punho e meio à distância do braço esticado) para baixo e para a direita de Vega está Eltanin, o nariz laranja da constelação de Dragão. O resto da cabeça de Dragão está um pouco para trás. Dragão aponta sempre o seu nariz para Vega enquanto viajam pelo céu.
As estrelas da constelação de Vega, Lira - bastante ténues em comparação - estendem-se agora para a esquerda (por 7º).

 
     
 
Curiosidades


A altitude que define o fim da atmosfera da Terra e o começo do espaço, a 100 km, tem o nome de linha de Kármán.

 
 
   
Retrato de um exoplaneta
 
Estas imagens esquemáticas mostram a geometria do sistema Beta Pictoris: a imagem à esquerda mostra a estrela e os dois planetas embebidos no disco poeirento na orientação do ponto de vista do Sistema Solar. Foi construída usando informações de observações reais. O painel do meio contém uma impressão de artista do sistema e do disco. A imagem à direita mostra as dimensões do sistema quando visto de cima e observações anteriores de Beta Pictoris b (diamantes laranjas e círculos vermelhos) e as novas observações diretas de Beta Pictoris c (círculos verdes). A órbita exata do planeta c é ainda um pouco incerta (área esbranquiçada).
Crédito: Axel Quetz/Departamento Gráfico do Instituto Max Planck para Astrofísica
 

Combinando a luz dos quatro grandes telescópios do VLT, os astrónomos da colaboração GRAVITY conseguiram observar diretamente o brilho da luz proveniente de um exoplaneta perto da sua estrela-mãe. O planeta, de nome Beta Pictoris c, é o segundo planeta encontrado a orbitar a estrela hospedeira. Foi detetado originalmente através do método de velocidade radial, que mede a oscilação da estrela devido à atração do planeta em órbita. Beta Pictoris c está tão perto da sua estrela hospedeira que até mesmo os melhores telescópios não foram capazes de obter imagens diretas do planeta, até agora.

"Esta é a primeira confirmação direta de um planeta detetado através do método de velocidade radial," diz Sylvestre Lacour, líder do programa de observação ExoGRAVITY. As medições de velocidade radial têm sido usadas há muitas décadas pelos astrónomos, e permitiram a deteção de centenas de exoplanetas. Mas nunca antes os astrónomos foram capazes de obter uma observação direta de um desses planetas. Isto só foi possível porque o instrumento GRAVITY, situado num laboratório sob os quatro telescópios que utiliza, é um instrumento muito preciso. Observa a luz da estrela-mãe com todos os quatro telescópios do VLT ao mesmo tempo e combina-os num telescópio virtual com os detalhes necessários para revelar Beta Pictoris c.

"É incrível o nível de detalhe e sensibilidade que podemos alcançar com o GRAVITY," maravilha-se Frank Eisenhauer, o cientista líder do projeto GRAVITY no Instituto Max Planck para Física Extraterrestre. "Estamos apenas a começar a explorar impressionantes novos mundos, desde o buraco negro supermassivo no centro da nossa Galáxia a planetas para lá do nosso Sistema Solar."

A deteção direta com o GRAVITY, no entanto, só foi possível devido aos novos dados de velocidade radial que estabelecem com precisão o movimento orbital de Beta Pictoris c, apresentados num segundo artigo também publicado a semana passada. Isto permitiu à equipa localizar e prever com precisão a posição esperada do planeta para que o GRAVITY pudesse encontrá-lo.

Beta Pictoris c é, portanto, o primeiro planeta que foi detetado e confirmado com ambos os métodos, medições de velocidade radial e imagem direta. Além da confirmação independente do exoplaneta, os astrónomos podem agora combinar o conhecimento destas duas técnicas anteriormente separadas. "Isto significa que podemos agora obter tanto o brilho como a massa deste exoplaneta," explica Mathis Nowak, o autor principal do artigo de descoberta do GRAVITY. "Como regra geral, quanto maior a massa do planeta, mais brilhante é."

No entanto, neste caso os dados sobre os dois planetas são um tanto ou quanto intrigantes: a luz que vem de Beta Pictoris c é seis vezes mais fraca do que a do seu irmão maior, Beta Pictoris b. Beta Pictoris c tem 8 vezes a massa de Júpiter. Assim sendo, qual é a massa de Beta Pictoris b? Os dados de velocidade radial vão acabar por responder a esta pergunta, mas levará muito tempo para obter dados suficientes: uma órbita completa para o planeta b, em torno da sua estrela, leva 28 anos terrestres!

"Nós usámos o GRAVITY antes para obter espectros de outros exoplanetas fotografados diretamente, os quais já continham dicas do seu processo de formação," acrescenta Paul Molliere que, como pós-doutorado no Instituto Max Planck para Astronomia, está a modelar espectros de exoplanetas. "Esta medição do brilho de Beta Pictoris c, combinada com a sua massa, é uma etapa particularmente importante para restringir os nossos modelos de formação planetária." Dados adicionais também podem ser fornecidos pelo GRAVITY+, o instrumento de próxima geração, que já está em desenvolvimento.

// Instituto Max Planck (comunicado de imprensa)
// Artigo científico #1 (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico #2 (Astronomy & Astrophysics)

 


Saiba mais

CCVAlg - Astronomia:
24/08/2018 - Hipparcos e Gaia ajudam a determinar a massa de Beta Pictoris b
02/05/2014 - Medida pela primeira vez a duração de um dia num exoplaneta
11/06/2010 - Exoplaneta apanhado em movimento

Notícias relacionadas:
Universe Today
science alert
PHYSORG
EarthSky
SpaceRef

Beta Pictoris c:
NASA
Exoplanet.eu
Wikipedia

Beta Pictoris b:
NASA
Exoplanet.eu
Wikipedia

Beta Pictoris:
Solstation 
Wikipedia

Velocidade radial:
Wikipedia

VLT:
Página oficial
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
   
Espetacular animação de supernova, pelo Hubble
 
Esta imagem mostra parte da cativante galáxia NGC 2525. Localizada a 70 milhões de anos-luz da Terra, esta galáxia faz parte da constelação de Popa, no hemisfério sul. Juntamente com as constelações de Quilha e Vela, formam a imagem do navio Argo, da mitologia grega.
À esquerda, uma supernova brilhante é facilmente visível. A supernova é formalmente conhecida como SN2018gv e foi avistada pela primeira vez em meados de janeiro de 2018. O Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA capturou a supernova em NGC 2525 como parte de uma das suas grandes investigações; a medição do ritmo de expansão do Universo, que pode ajudar a responder a questões fundamentais sobre a própria natureza do Universo. Supernovas como esta podem ser usadas como "fitas métricas" cósmicas, permitindo que os astrónomos calculem a distância até às suas galáxias.
Crédito: ESA/Hubble e NASA, A. Riess e equipa SH0ES; Reconhecimento: Mahdi Zamani
 

O Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA rastreou a luz desvanecente de uma supernova na galáxia espiral NGC 2525, localizada a 70 milhões de anos-luz de distância. Supernovas como esta podem ser usadas como "fitas métricas" cósmicas, permitindo que os astrónomos calculem a distância às suas galáxias. O Hubble capturou estas imagens como parte de uma das suas principais investigações, medindo o ritmo de expansão do Universo, o que pode ajudar a responder a questões fundamentais sobre a própria natureza do Universo.

A supernova, formalmente conhecida como SN2018gv, foi detetada pela primeira vez em meados de janeiro de 2018. O Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA começou a observar o grande brilho da supernova em fevereiro de 2018 como parte do programa de pesquisa liderado pelo investigador e laureado com o Prémio Nobel, Adam Riess do STScI (Space Telescope Science Institute) e da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, EUA. As imagens do Hubble estão centradas na galáxia espiral barrada NGC 2525, que está localizada na constelação de Popa, no hemisfério sul.

A supernova foi capturada pelo Hubble, em detalhes requintados, dentro desta galáxia na parte esquerda da imagem. Aparece como uma estrela muito brilhante localizada na orla externa de um dos seus belos braços espirais. Esta nova e única animação das imagens do Hubble, criada pela equipa do telescópio espacial, mostra a brilhante supernova, inicialmente a ofuscar as estrelas mais brilhantes da galáxia, antes de desaparecer na obscuridade durante o ano de observações. Esta animação consiste de observações feitas ao longo de um ano, de fevereiro de 2018 a fevereiro de 2019.

 
Animação que mostra o desvanecimento da supernova SN2018gv, situada na galáxia NGC 2525, imagens estas obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA.
Crédito: ESA/Hubble e NASA, M. Kornmesser, M. Zamani, A. Riess e equipa SH0ES
 

"Nenhum fogo-de-artifício terrestre consegue competir com esta supernova, capturada na sua glória desvanecente pelo Telescópio Espacial Hubble," partilhou Reiss acerca da nova animação da explosão de supernova em NGC 2525.

As supernovas são explosões poderosas que assinalam o fim da vida de uma estrela. O tipo de supernova visto nestas imagens, conhecido como supernova do Tipo Ia, origina de uma anã branca num sistema binário íntimo que acreta material da sua estrela companheira. Se a anã branca atinge uma massa crítica (1,44 vezes a massa do nosso Sol), o seu núcleo torna-se quente o suficiente para iniciar a fusão do carbono, desencadeando um processo termonuclear descontrolado que funde grandes quantidades de oxigénio e carbono em questão de segundos. A energia libertada dilacera a estrela numa explosão violenta, ejetando matéria a velocidades de até 6% da velocidade da luz e emitindo grandes quantidades de radiação. As supernovas do Tipo Ia atingem consistentemente um brilho máximo 5 mil milhões de vezes superior ao do Sol, antes de desaparecerem com o tempo.

Tendo em conta que as supernovas deste tipo produzem este brilho fixo, são ferramentas úteis para os astrónomos, conhecidas como "velas padrão", que atuam como "fitas métricas" cósmicas. Conhecendo o brilho real da supernova e observando o seu brilho aparente no céu, os astrónomos podem calcular a distância até estes grandes espetáculos e, portanto, a distância até às suas galáxias. Riess e a sua equipa combinaram as medições de distância das supernovas com distâncias calculadas usando estrelas variáveis conhecidas como variáveis cefeidas. As variáveis cefeidas pulsam em tamanho, provocando mudanças periódicas no brilho. Dado que este período está diretamente relacionado com o brilho da estrela, os astrónomos podem calcular a sua distância; permitindo que atuem como outra vela padrão na escada de distâncias cósmicas.

 
Imagem da galáxia NGC 2525. Localizada a 70 milhões de anos-luz da Terra, esta galáxia faz parte da constelação de Popa, no hemisfério sul. Juntamente com as constelações de Quilha e Vela, formam a imagem do navio Argo, da mitologia grega.
Sabe-se que no seu centro está um buraco negro supermassivo. Quase todas as galáxias contêm um buraco negro supermassivo, que pode variar em massa de centenas de milhares a milhares de milhões de vezes a massa do Sol.
O Hubble capturou uma série de imagens de NGC 2525 como parte de uma das suas grandes investigações: a medição do ritmo de expansão do Universo, que pode ajudar a responder a questões fundamentais sobre a própria natureza do Universo.
Crédito: ESA/Hubble e NASA, A. Riess e equipa SH0ES; Reconhecimento: Mahdi Zamani
 

Riess e a sua equipa estão interessados em medir com precisão a distância até estas galáxias, pois isso ajuda-nos a melhor restringir o ritmo de expansão do Universo, conhecido como constante de Hubble. Este valor explica o quão depressa o Universo está a crescer, dependendo da sua distância até nós, com galáxias mais distantes movendo-se mais rapidamente para longe de nós. Desde o seu lançamento, o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA ajudou a melhorar drasticamente a precisão da constante de Hubble. Os resultados do mesmo programa de observação liderado por Riess reduziram agora a incerteza da sua medição da constante de Hubble para uns sem precedentes 1,9%. Medições adicionais de NGC 2525 vão contribuir para o seu objetivo de reduzir a incerteza até 1%, identificando a velocidade com que o Universo está a expandir-se. Uma constante de Hubble mais precisa pode revelar pistas sobre a matéria escura invisível e sobre a misteriosa energia escura, responsável pela aceleração da expansão do Universo. Juntas, estas informações podem ajudar-nos a entender a história e o destino futuro do nosso Universo.

Também se sabe que um buraco negro supermassivo está à espreita no centro de NGC 2525. Quase todas as galáxias contêm um buraco negro supermassivo, que pode variar em massa de centenas de milhares a milhares de milhões de vezes a massa do Sol.

// ESA/Hubble (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// HubbleSite (comunicado de imprensa)

 


Saiba mais

Notícias relacionadas:
SPACE.com
science alert
PHYSORG
Notícias ao Minuto

NGC 2525:
Wikipedia
Simbad

Universo:
A expansão acelerada do Universo (Wikipedia)
Universo (Wikipedia)
Idade do Universo (Wikipedia)
Estrutura a grande-escala do Universo (Wikipedia)
Big Bang (Wikipedia)
Cronologia do Big Bang (Wikipedia)

"Escada" cósmica de distâncias:
Wikipedia

Anãs brancas:
Wikipedia
NASA

Supernovas:
Wikipedia 
Tipo Ia (Wikipedia)

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

 
   
Astrofísico examina "detetor de matéria escura"
 
Impressão de artista de um magnetar.
Crédito: ESO/L. Calçada
 

Um astrofísico da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, está a procurar, na luz que vem de um objeto celeste distante e extremamente poderoso, o que pode ser a substância mais elusiva do Universo: a matéria escura.

Em dois estudos recentes, Jeremy Darling, professor do Departamento de Ciências Astrofísicas e Planetárias, examinou atentamente PSR J1745-2900. Este corpo é um magnetar, um tipo de estrela colapsada que gera um campo magnético incrivelmente forte.

"É o melhor detetor natural de matéria escura que conhecemos," disse Darling, também do CASA (Center for Astrophysics and Space Astronomy) da Universidade do Colorado em Boulder.

Ele explicou que a matéria escura é uma espécie de cola cósmica - uma partícula ainda não identificada que constitui cerca de 27% da massa do Universo e que ajuda a unir galáxias como a nossa Via Láctea. Até ao momento, os cientistas lideraram a caça a esta matéria invisível usando equipamento de laboratório.

Darling adotou uma abordagem diferente na sua última investigação: com base em dados de telescópio, está a examinar PSR J1745-2900 para ver se consegue detetar os sinais fracos de um candidato a matéria escura - uma partícula chamada axião - transformando-se em luz. Até agora, a investigação não deu frutos. Mas os seus resultados podem ajudar os físicos que trabalham em laboratórios de todo o mundo a restringir as suas próprias caças ao axião.

Os novos estudos também são lembrança de que os investigadores ainda podem olhar para o céu para resolver algumas das questões mais difíceis da ciência, disse Darling. Ele publicou a sua primeira ronda de resultados este mês na revista The Astrophysical Journal Letters e na revista Physical Review Letters.

"Na astrofísica, encontramos todos estes problemas interessantes como a matéria escura e a energia escura, depois recuamos e deixamos os físicos resolvê-los," disse em tom jocoso. "É uma vergonha".

 
Imagem do Centro Galáctico que mostra a posição do buraco negro supermassivo Sgr A* e do magnetar vizinho PSR J1745-2900.
Crédito: raios-X - NASA/CXC/FIT/E. Perlman; ilustração - CXC/M. Weiss
 

Darling quer mudar isto - neste caso, com uma pequena ajuda de PSR J1745-2900.

Este magnetar orbita o buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea a uma distância de menos de um ano-luz. E é uma força da natureza: PSR J1745-2900 gera um campo magnético que é cerca de mil milhões de vezes mais poderoso do que o imã mais poderoso da Terra.

"Os magnetares têm todo o campo magnético de uma estrela, mas estão reduzidos a um volume com aproximadamente 20 km de diâmetro," explicou Darling.

E é onde Darling foi "pescar" matéria escura.

Ele explicou que os cientistas ainda não localizaram um único axião, uma partícula teórica proposta pela primeira vez na década de 1970. No entanto, os físicos preveem que estes fragmentos efémeros de matéria podem ter sido criados em números monumentais durante o início do Universo - e em quantidades grandes o suficiente para explicar a massa extra do cosmos da matéria escura. De acordo com a teoria, os axiões são milhares de milhões ou até biliões de vezes mais leves do que os eletrões e raramente interagem com o seu ambiente.

Isso torna-os quase impossíveis de observar, com uma grande exceção: se um axião passa por um campo magnético forte, pode transformar-se em luz que os investigadores poderiam teoricamente detetar.

Os cientistas, incluindo uma equipa do JILA (Joint Institute for Laboratory Astrophysics), no campus da Universidade do Colorado em Boulder, usaram campos magnéticos gerados em laboratório para tentar capturar esta transição em ação. Darling e outros cientistas tiveram uma ideia diferente: porque não tentar a mesma pesquisa, mas numa escala muito maior?

"Os magnetares são os objetos mais magnéticos que conhecemos no Universo," disse. "Não há como chegar sequer perto dessa força em laboratório."

Para fazer uso deste campo magnético natural, Darling baseou-se em observações de PSR J1745-2900 obtidas pelo VLA (Karl G. Jansky Very Large Array), um observatório no estado norte-americano do Novo México. Se o magnetar estivesse, de facto, a transformar axiões em luz, essa metamorfose poderia aparecer na radiação que emerge da estrela colapsada.

 
Algumas das 28 antenas que constituem o VLA.
Crédito: Wikimedia Commons
 

O esforço é um pouco como procurar uma única agulha num palheiro muito, muito grande. Darling disse que, embora os teóricos tenham colocado limites sobre o quão massivos os axiões podem ser, estas partículas ainda podem ter uma ampla gama de massas possíveis. Cada dessas massas, por sua vez, produziria luz com um comprimento de onda específico, quase como uma impressão digital deixada pela matéria escura.

Darling ainda não localizou nenhum destes comprimentos de onda distintos na luz que vem do magnetar. Mas ele foi capaz de usar as observações para examinar a possível existência de axiões na mais ampla gama de massas até agora - nada mal para a sua primeira tentativa. Ele acrescentou que estes levantamentos podem complementar o trabalho que decorre em experiências laboratoriais.

Konrad Lehnert concordou. Ele faz parte de uma experiência liderada pela Universidade de Yale - chamada, não surpreendentemente de HAYSTAC ("palheiro" em português) - que está a procurar axiões usando campos magnéticos criados em laboratórios nos EUA.

Lehnert explicou que estudos astrofísicos como o de Darling podem atuar como uma espécie de batedor na caça aos axiões - identificando sinais interessantes na luz dos magnetares, que os investigadores laboratoriais poderiam então explorar com muito maior precisão.

"Estas experiências bem controladas seriam capazes de separar quais os sinais astrofísicos que podem ter origem na matéria escura," realçou Lehnert, membro do JILA.

Darling planeia continuar a sua própria busca, o que significa olhar ainda mais de perto o magnetar no centro da nossa Galáxia. "Precisamos de preencher estas lacunas e ir ainda mais ao fundo da questão."

// Universidade do Colorado em Boulder (comunicado de imprensa)
// Artigo científico #1 (The Astrophysical Journal Letters)
// Artigo científico #2 (Physical Review Letters)
// Artigo cientíifco #2 (arXiv.org)

 


Saiba mais

PSR J1745-2900:
Wikipedia
Simbad

Matéria escura:
Wikipedia
Axião (Wikipedia)

Magnetar:
Wikipedia
AstronomyOnline.org

VLA:
Página oficial
NRAO
Wikipedia

 
   
Estrelas de rápida rotação no centro da Via Láctea podem ter migrado da periferia da Galáxia

Num artigo científico publicado na revista The Astrophysical Journal Letters, uma equipa internacional de astrofísicos, incluindo cientistas da Universidade de Surrey, relata como descobriram um grupo de estrelas com características diferentes das suas vizinhas encontradas no Enxame Estelar Nuclear da Via Láctea.

Um enxame estelar nuclear é um aglomerado de estrelas muito denso e de alta luminosidade perto do centro de massa de uma galáxia. Geralmente encontram-se em galáxias de baixa massa onde os buracos negros supermassivos não estão presentes. E geralmente não existem em galáxias com buracos negros supermassivos. No entanto, algumas galáxias podem conter as duas categorias de objetos no núcleo galáctico, e a Via Láctea é um desses exemplos.

A equipa usou simulações de computador de alta resolução e de última geração para explicar como este grupo de estrelas pobres em metais e de rápida rotação veio a estar localizado no centro da nossa Galáxia.

 
Perscrutando o coração profundo da Via Láctea, o Hubble revela uma tapeçaria rica de mais de meio milhão de estrelas. À excepção de algumas estrelas azuis, no plano da frente, as estrelas fazem parte do Enxame Nuclear Estelar da Via Láctea, o enxame de estrelas mais massivo e mais denso da nossa Galáxia. Tão cheio de estrelas, é equivalente a ter um milhão de sóis amontoados no volume de espaço entre nós e a nossa vizinha estelar mais próxima, Alpha Centauri, a 4,3 anos-luz de distância. Bem no centro da nossa Galáxia, este enxame estelar rodeia o buraco negro supermassivo da Via Láctea, que tem cerca de 4 milhões de vezes a massa do nosso Sol.
Esta imagem, que abrange 50 anos-luz, é um mosaico composto por nove imagens separadas obtidas pelo instrumento WFC3 (Wide Field Camera 3) do Hubble. O centro de Via Láctea está localizado a 27.000 anos-luz de distância. Esta "tempestade" de estrelas é apenas a ponta do iceberg: os astrónomos estimam que cerca de 10 milhões de estrelas neste enxame sejam demasiado ténues para ser capturadas na imagem.
Crédito: NASA, ESA, e Equipa do Legado Hubble (STScI/AURA); Reconhecimento: T. Do e A. Ghez (UCLA), e V. Bajaj (STScI)
 

Os seus cálculos descobriram que é provável que este grupo de estrelas seja um remanescente da migração de um enorme enxame estelar que se formou a alguns anos-luz de distância do centro da Via Láctea. Alternativamente, embora não seja tão provável quanto o cenário do enxame, a equipa também observou que o grupo de estrelas pode ter tido origem numa galáxia anã localizada a 320.000 anos-luz do Centro Galáctico.

Todas as evidências apontam para um evento de acreção que aconteceu há 3-5 mil milhões de anos, durante o qual um grande enxame migrou em direção ao centro da Via Láctea e foi perturbado pelas fortes forças de maré do Enxame Estelar Nuclear, região esta com uma densidade estelar alta. As estrelas do enxame foram depositadas na região e foram descobertas com base nas suas velocidades peculiares e baixo teor de metal.

A Dra. Alessia Gualandris, professora de física da Universidade de Surrey, acrescentou: "Esta descoberta pode ser a 'arma fumegante' de que a Via Láctea tem vindo a acumular enxames estelares de galáxias anãs ao longo da sua vida. O seu passado foi muito mais ativo do que pensávamos anteriormente."

O Dr. Tuan Do, professor assistente da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), disse: "É notável como estas novas observações do Enxame Estelar Nuclear podem revelar tanto sobre a história de toda a Galáxia."

O Dr. Manuel Arca-Sedda, do Instituto de Cálculo Astronómico, em Heidelberg, Alemanha, concluiu: "Uma estreita colaboração entre observadores e teóricos foi fundamental neste estudo. A combinação de novas observações requintadas com modelos de computador de última geração permitiu-nos descobrir o local de nascimento destas estrelas peculiares."

// Universidade de Surrey (comunicado de imprensa)
// Artigo científico #1 (The Astrophysical Journal Letters)
// Artigo científico #1 (arXiv.org)
// Artigo científico #2 (The Astrophysical Journal Letters)
// Artigo científico #2 (arXiv.org)

 


Saiba mais

Via Láctea:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
SEDS
População estelar do Centro Galáctico (Wikipedia)

Enxame Nuclear Estelar:
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  Estudo descreve descoberta de íntimo objeto binário trans-neptuniano (via SwRI)
Um novo estudo revela a natureza binária de um objeto trans-neptuniano. Os dados foram obtidos pelo RECON, uma rede de cientistas cidadão dedicada à observação do nosso Sistema Solar. Ler fonte
     
  Revelando a solitária origem de Cassiopeia A: um dos mais famosos remanescentes de supernova (via OzGrav)
As estrelas massivas terminam as suas vidas com explosões energéticas conhecidas como explosões de supernova. As supernovas de "invólucro despojado" mostram ou traços fracos ou nenhuns traços de hidrogénio no seu material expelido, o que significa que a estrela perdeu quase todo o seu hidrogénio das camadas exteriores antes de ter explodido. Ler fonte
 
   
Álbum de fotografias - NGC 5643: Galáxia Espiral pelo Hubble
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: ESA/Hubble e NASAA. Riess et al.; Reconhecimento: Mahdi Zamani
 
O que é que está a acontecer no centro da galáxia espiral NGC 5463? Um disco giratório de estrelas e gás, o aspeto de NGC 5643 é dominado por braços espirais azuis e poeira castanha, como visto na imagem em destaque obtida pelo Telescópio Espacial Hubble. O núcleo desta galáxia ativa brilha intensamente no rádio e em raios-X, onde jatos gémeos foram encontrados. NGC 5643 está a aproximadamente 55 milhões de anos-luz, tem mais ou menos 100.000 anos-luz de diâmetro e pode ser vista com um pequeno telescópio na direção da constelação de Lobo.
 
   
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