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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
 
  Astroboletim #2028  
  15/08 a 17/08/2023  
     
 
Astronomia no Verão pelo Centro Ciência Viva de Tavira
 

Observação noturna do céu na praia do Barril
Local: Ponte de acesso ao trilho para a praia do Barril
21/08/2023, 21:00 - Data esgotada - lista de espera

Observação noturna do céu em Tavira
Local: Forte do Rato
01/09/2023, 20:30 - Data esgotada - lista de espera

 
Astronomia no Verão pelo Centro Ciência Viva do Algarve
 

Astronomia nas Merendas do Arade de Messines
Local: Zona norte da ponte do Parque de Merendas de São Bartolomeu de Messines
17/08/2023, 20:15 - Data esgotada - Lista de espera

Astronomia no Alto da Ameixeira
Local: Miradouro do Alto da Ameixeira - São Brás de Alportel
18/08/2023, 20:30 - Data esgotada - Lista de espera

 

Programa em atualização
Consulte sempre a página das atividades para informações mais detalhadas como o itinerário, ponto de encontro, coordenadas GPS, etc., e para fazer a sua inscrição caso seja obrigatória.
Todas as atividades estão dependentes de condições meteorológicas favoráveis.
Não dispensa a consulta do FAQ no site da Ciência Viva no Verão

 
     
 
EFEMÉRIDES

DIA 15/08: 227.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1977, o The Big Ear, um radiotelescópio operado pela Universidade Estatal do Ohio, como parte do projeto SETI, recebe um sinal de rádio do espaço profundo; o evento é denominado de "sinal Wow!", a partir de uma anotação feita por um voluntário do projeto.

Em 2006, a sonda Voyager 1, o mais distante objeto feito pelo Homem, alcança as 100 UA do Sol. Isto significa que a sonda, lançada no dia 20 de agosto de 1977, estava 100 vezes mais distante do Sol que a Terra.
HOJE, NO COSMOS:
Com o avançar do verão, a Ursa Maior desce a noroeste durante a noite como se a apanhar água que irá despejar de bem alto na próxima primavera.
A brilhante estrela Arcturo move-se pelo céu a oeste, para a esquerda da Ursa Maior. Arcturo forma a ponta de baixo do "papagaio de papel" de Boieiro. O "papgaio de papel", estreito, estende-se para cima e para a direita 23º, cerca de dois punhos à distância do braço esticado. A parte de cima do "papagaio de papel" está ligeiramente entortada.

 

DIA 16/08: 228.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1744, nascia Pierre Méchain, astrónomo francês que, além de Charles Messier, foi um grande contribuidor para os primeiros estudos de objetos de céu profundo e cometas.
Em 1989, uma proeminência solar cria uma tempestade geomagnética que afeta microchips, fazendo parar a bolsa de Toronto.
Em 2000, depois de 18 meses de observações pelo Satélite Astronómico de Ondas Sub-milimétricas da NASA, ou SWAS, é anunciada a deteção de vapor de água no espaço interestelar.

"Podemos ver estes berçários estelares como gigantes fábricas químicas que produzem vapor de água a um ritmo tremendo. As grandes quantidades presentes nas regiões de formação estelar irão ajudar o gás interestelar a arrefecer, talvez eventualmente a despertar o nascimento de uma futura geração de estrelas." David Neufeld, professor de Física e Astronomia da Universidade Johns Hopkins.
HOJE, NO COSMOS:
Lua Nova, pelas 10:38.
Após o lusco-fusco, agora que chegámos à segunda metade do mês de agosto, o Grande Quadrado de Pégaso sobe a este, apoiado num canto. As suas estrelas têm apenas 2.ª e 3.ª magnitudes. Para a esquerda do canto esquerdo do Quadrado está a linha principal de Andrómeda, constituída por estrelas com aproximadamente o mesmo brilho.

 

DIA 17/08: 229.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1877, Asaph Hall descobria Fobos, a maior e mais interior lua de Marte.
Em 1958, é lançada a Pioneer 0, a primeira tentativa dos EUA em atingir órbita lunar, usando os primeiros foguetões Thor-Able. A missão falha. No entanto, é notável por ser uma das primeiras a ir para lá da Terra. 
Em 1966 era lançada a sonda Pioneer 7.
Em 1970 a sonda soviética Venera 7 é lançada a partir do cosmódromo de Baikonur. Chega a Vénus no dia 15 de dezembro de 1970. É a primeira nave a enviar dados para a Terra a partir da superfície de outro planeta. A Venera 7 teve também uma sonda gémea, lançada a 22 de agosto, mas que permaneceu em órbita da Terra.
Em 1980, depois de 1400 órbitas em torno de Marte, a sonda Viking 1 foi desligada. Lançada a 25 de agosto de 1975, a missão Viking revelou, na altura, as melhores imagens do planeta. Uma das suas fotografias mais famosas é a "Cara em Marte". 
Em 1999 a sonda Cassini passava pela Terra (1166 km), sobre o lado este do Pacífico Sul.

Este é um de 4 voos rasantes planetários (Vénus, Vénus novamente, Terra e Júpiter), para uma assistência gravitacional a fim da sonda chegar a Saturno em 2004. Este voo rasante deu à Cassini um aumento de velocidade de 20.000 quilómetros por hora. As vozes contra a Cassini e o seu plutónio respiraram de alívio.
HOJE, NO COSMOS:
A estrela mais brilhante alta a sudeste por estas noites é Altair, com a pequena e alaranjada Tarazed por cima a um dedo à distância do braço esticado. A um pouco mais de um punho à distância do braço esticado, para a esquerda de Altair, encontra-se a delicada constelação de Golfinho, saltando para a esquerda.
Por cima de Altair, embora menos distante, está a ainda mais pequena e ténue constelação de Flecha ou Seta. Também ela está a apontar para a esquerda.

 
 
   
"Impressões digitais" do Sistema Solar encontradas nas memórias da flotilha da ESA
 
Impressão de artista da missão Rosetta a mostrar a libertação do "lander" Philae no cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko.
Crédito: ESA/ATG medialab; imagem do cometa - ESA/Rosetta/Navcam
 

Todas as naves espaciais são lançadas com um objetivo e, no caso das missões científicas, os instrumentos a bordo são a chave para o cumprir. Quer se trate do telescópio extremamente sensível Gaia, que está a mapear mais de mil milhões de estrelas na Galáxia, ou da HRSC (High-Resolution Stereo Camera) da Mars Express, que está a revelar a topografia do Planeta Vermelho, as naves espaciais têm geralmente os seus "olhos" focados em coisas e fenómenos que os humanos querem compreender.

Mas, tal como nós, as naves espaciais também têm corpos que sentem o que lhes acontece e memórias que guardam a história das suas experiências ao longo de anos, por vezes décadas, no espaço.

Esta informação, designada por "dados de manutenção" e considerada sobretudo uma ferramenta de engenharia, tem sido talvez negligenciada em termos dos conhecimentos científicos que revela sobre os ambientes que as nossas missões habitam, e igualmente do Planeta Vermelho, onde um dia também esperamos chamar casa.

Foi concluído um primeiro estudo exaustivo de viabilidade que analisa anos de "registos diários" de arquivo de sete missões da ESA espalhadas pelo Sistema Solar, centrando-se num dos fenómenos meteorológicos mais perigosos no espaço para a exploração humana e robótica atual e futura - os eventos de partículas energéticas solares.

O "clima espacial" é completamente diferente do clima na Terra, mas as partículas energéticas solares podem ser vistas como "pedras de granizo" atómicas aceleradas a velocidades inimagináveis. São partículas emitidas pelo Sol, na sua maioria protões, mas também partículas maiores, como núcleos de hélio (com dois protões e dois neutrões) e "iões HZE".

Os iões HZE são criados quando os núcleos de elementos mais pesados do que o hidrogénio e o hélio, ou seja, com três ou mais protões, são destituídos dos seus eletrões, deixando de ser neutros e passando a ter carga elétrica.

 
O Sol visto pela Solar Orbiter no ultravioleta extremo a uma distância de cerca de 75 milhões de quilómetros. A imagem é um mosaico de 25 imagens individuais obtidas no dia 7 de março de 2022 pelo telescópio de alta resolução do instrumento EUI (Extreme Ultraviolet Imager). Obtida a um comprimento de onda de 17 nanómetros, na região do ultravioleta extremo do espetro eletromagnético, esta imagem revela a atmosfera superior do Sol, a coroa, que tem uma temperatura de cerca de um milhão de graus Celsius. No total, a imagem final contém mais de 83 milhões de píxeis numa grelha de 9148 x 9112 píxeis, o que a torna a imagem de maior resolução alguma vez obtida do disco completo do Sol e da sua atmosfera exterior, a coroa. Uma imagem da Terra é também incluída para efeitos de escala, na posição das 2 horas.
Crédito: ESA & NASA/Solar Orbiter/equipa do EUI; processamento de dados - E. Kraaikamp (ROB)
 

Estas partículas são constantemente emitidas pelo Sol em todas as direções - o vento solar - mas recebem frequentemente um enorme empurrão quando o Sol entra em erupção com enormes proeminências solares e ejeções de massa coronal.

O resultado são ondas massivas de partículas carregadas, varridas por estas erupções e aceleradas quase à velocidade da luz. Podem penetrar no campo magnético da Terra e constituir um perigo significativo de radiação para as naves espaciais e para os astronautas.

Compreender a distribuição e o movimento das partículas energéticas solares em todo o Sistema Solar é importante, mas difícil, pois requer instrumentos espalhados pelo espaço para as detetar e compreender como viajam.

Sete missões, sete ambientes espaciais em mudança

Dados dos sensores de engenharia a bordo da Rosetta, ExoMars TGO, Mars Express, Venus Express, Solar Orbiter, BepiColombo e Gaia foram recolhidos e analisados, revelando deteções simultâneas de eventos de partículas energéticas solares em diferentes locais do Sistema Solar. O estudo mostra que estas missões fornecem uma boa rede de deteções de partículas solares em locais onde não existem observações científicas.

As naves espaciais têm muitos detetores de manutenção em diferentes posições que monitorizam o seu estado geral e o das suas cargas úteis - instrumentos científicos. Os contadores EDAC ("Error Detection and Correction", deteção e correção de erros de memória) estão entre eles e o seu papel é proteger as memórias do computador de uma nave espacial de erros causados por partículas energéticas que atingem os chips do computador - "'bit-flips' provocados por perturbações de um único evento".

Os eventos de partículas solares podem ser inferidos a partir de um aumento súbito de erros contados, na ordem das dezenas por dia, registados pelos contadores EDAC. Por exemplo, um evento de partículas solares no dia 7 de março de 2012, foi indicado nos dados como um dos maiores a ser testemunhado em Marte e Vénus, "sentido" pela Mars Express e pela Venus Express. Os rastreadores de estrelas da Venus Express, que ajudam a orientar a nave espacial, ficaram até cegos durante cinco dias devido ao evento.

A deteção indireta destes acontecimentos poderá ser muito importante para os modeladores do vento solar e para os estudos sobre a forma como as partículas e os "transientes" se propagam através do Sistema Solar.

As missões do estudo são muito diferentes, com naves novinhas em folha, como a BepiColombo, e a mais antiga ainda em funcionamento, a Mars Express, concebida na década de 90. As suas posições no Sistema Solar, as suas diferentes tecnologias e materiais e as diferentes localizações dos seus sensores fornecem resultados interessantes.

A Mars Express é mais sensível a eventos de partículas energéticas solares do que qualquer uma das outras, sentindo quase todos, com a Venus Express e a Rosetta não muito atrás. A BepiColombo e a Solar Orbiter têm a bordo instrumentos científicos destinados a estudar estes eventos, pelo que foram utilizadas como comparações diretas.

 
Imagem final de uma animação que mostra a propagação de uma ejeção de massa coronal que deixou o Sol no dia 14 de outubro de 2014 e realçando a velocidade a que chegou a várias naves espaciais nos dias, semanas e meses seguintes (não à escala). Clique na imagem para ver a animação.
Crédito: ESA
 

"Os ambientes extremos em que as missões operam podem exercer uma enorme pressão sobre o hardware da nave espacial. Isto pode significar que, apesar de terem sido concebidas para estes cenários, nem sempre se comportam exatamente como gostaríamos, especialmente à medida que a nave envelhece", acrescenta Simon Wood, Engenheiro de Operações da Mars Express.

"Dados de engenharia como estes sempre foram vitais para as missões no espaço profundo, mas é excitante saber que décadas de informação podem também ser utilizadas para construir uma imagem científica do Sistema Solar. É por isso que nunca deitamos nada fora - não se sabe que segredos estão guardados nos dados transmitidos do espaço".

Há muito a aprender com estes resultados, tanto para a ciência como para a engenharia. Para a ciência, a distribuição e propagação dos eventos de partículas energéticas através do Sistema Solar pode ser compreendida a partir de locais distantes onde os instrumentos científicos não estão disponíveis.

Para a engenharia, estas memórias desenterradas devem ser úteis para aprender mais sobre a proteção das naves espaciais contra a radiação solar, sobre como e porquê são acionados avisos a bordo que levam a "modos de segurança" desnecessários e dispendiosos, e talvez estes dados possam mesmo ser úteis para avisos em tempo real da atividade solar.

Eventualmente, todos estes dados serão disponibilizados ao público no Arquivo de Ciências Planetárias da ESA, mas com milhares de parâmetros de manutenção e muitos milhares de terabytes de dados, terão de ser organizados de forma a serem acessíveis e a fazerem sentido para os cientistas que os queiram utilizar.

"As naves espaciais são lançadas com instrumentos, cargas úteis, e pensa-se 'ótimo - vai fazer ciência com isso', mas uma nave espacial é muito mais do que isso", diz Beatriz Sanchez-Cano, autora principal do artigo e parte da equipa científica da Mars Express na Universidade de Leicester.

"Os contadores de memória revelam muito, mas também os impactos da poeira nos painéis solares, que nos falam de micrometeoritos e detritos espaciais, e as grandes oscilações de temperatura também têm o seu efeito. Este tipo de experiência dos satélites também contribui para a ciência, e é tudo isto que, em conjunto, torna estas missões incríveis, fantásticas".

Com cuidado continuado e curiosidade, as naves espaciais podem revelar muito mais do que aquilo para que foram inicialmente concebidas, fazendo crescer "novos instrumentos" no espaço e aumentando o seu retorno científico. Se olharmos, descobrimos que o Sistema Solar está a deixar a sua impressão digital nos nossos exploradores espaciais, e precisamos de compreender estes efeitos antes de o podermos explorar em segurança por nós próprios.

// ESA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Space Weather)
// Um evento de partículas solares (ESA via YouTube)

 


Quer saber mais?

Clima espacial:
Wikipedia

Sol:
CCVAlg - Astronomia 
Wikipedia

Sonda Rosetta:
ESA
Blog da Rosetta - ESA
Arquivo de imagens
Dados da missão
Twitter
Facebook
Wikipedia

ExoMars TGO:
ESA
Wikipedia

Mars Express:
ESA 
Wikipedia

Venus Express:
ESA 
Wikipedia

Solar Orbiter:
ESA
NASA
Wikipedia

BepiColombo:
ESA
JAXA
Wikipedia

Gaia:
ESA
ESA - 2
Gaia/ESA
Programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia
Catálogo DR3 do Gaia
Wikipedia

 
   
Tempestades centenárias? É o tempo que duram em Saturno
 
Uma enorme tempestade domina a superfície descaracterizada de Saturno numa imagem obtida pela sonda Cassini a 25 de fevereiro de 2011, cerca de 12 semanas depois da poderosa tempestade ter sido detetada pela primeira vez no hemisfério norte do planeta. A megatempestade é vista a ultrapassar-se a si própria à medida que rodeia todo o planeta. Os astrónomos encontraram nas profundezas da atmosfera os efeitos posteriores de megatempestades que ocorreram há centenas de anos. As riscas escuras são as sombras dos anéis de Saturno.
Crédito: NASA/JPL/SSI
 

A maior tempestade do Sistema Solar, um anticiclone com mais de 16.000 quilómetros de diâmetro a que os astrónomos chamam Grande Mancha Vermelha, decora a superfície de Júpiter há já centenas de anos.

Um novo estudo mostra agora que Saturno - apesar de menos colorido e não tão interessante neste respeito quanto Júpiter - também tem megatempestades de longa duração com impactos nas profundezas da atmosfera que persistem durante séculos.

O estudo foi realizado por astrónomos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e da Universidade do Michigan, em Ann Arbor, que analisaram as emissões de rádio do planeta, que vêm de baixo da superfície, e encontraram perturbações a longo prazo na distribuição do gás amoníaco.

O estudo foi publicado na revista Science Advances.

As megatempestades ocorrem aproximadamente a cada 20 a 30 anos em Saturno e são semelhantes aos furacões na Terra, embora significativamente maiores. Mas, ao contrário dos furacões da Terra, ninguém sabe o que causa as megatempestades na atmosfera de Saturno, que é composta principalmente por hidrogénio e hélio, com vestígios de metano, água e amoníaco.

 
Imagem rádio de Saturno obtida com o VLA em maio de 2015, com as emissões de rádio mais brilhantes de Saturno e dos seus anéis subtraídas para realçar o contraste nas emissões de rádio mais fracas entre as várias bandas latitudinais da atmosfera. Dado que o amoníaco bloqueia as ondas de rádio, as características brilhantes indicam áreas onde o amoníaco está esgotado e o VLA pode ver mais fundo na atmosfera. A larga banda brilhante nas latitudes norte é o resultado da tempestade de 2010 em Saturno, que aparentemente esgotou o gás amoníaco logo abaixo da nuvem de gelo de amoníaco, que é o que vemos a olho nu.
Crédito: R. J. Sault e I. de Pater
 

"Compreender os mecanismos das maiores tempestades do Sistema Solar coloca a teoria dos furacões num contexto cósmico mais vasto, desafiando o nosso conhecimento atual e alargando os limites da meteorologia terrestre", disse o autor principal Cheng Li, antigo bolseiro na UC Berkeley que é agora professor assistente na Universidade de Michigan.

Imke de Pater, professora emérita de astronomia e de ciências da terra e planetárias da Universidade da Califórnia em Berkeley, estuda os gigantes gasosos há mais de quatro décadas para compreender melhor a sua composição e o que os torna únicos, utilizando o VLA (Karl G. Jansky Very Large Array), no estado norte-americano de Novo México, para sondar as emissões de rádio das profundezas do planeta.

"No rádio, sondamos abaixo das camadas de nuvens visíveis dos planetas gigantes. Uma vez que as reações químicas e a dinâmica alteram a composição da atmosfera de um planeta, as observações abaixo destas camadas de nuvens são necessárias para determinar a verdadeira composição atmosférica do planeta, um parâmetro chave para os modelos de formação de planetas", disse. "As observações de rádio ajudam a caracterizar os processos dinâmicos, físicos e químicos, incluindo o transporte de calor, a formação de nuvens e a convecção nas atmosferas dos planetas gigantes, tanto à escala global como local."

 
No ótico, a atmosfera de Saturno parece mudar suavemente de cor para cor. Mas vista aqui no rádio - os dados do VLA sobrepõem-se a uma imagem de Saturno da Cassini - a natureza distinta das faixas é evidente. Os cientistas utilizaram os dados do VLA para compreender melhor o amoníaco na atmosfera do gigante gasoso e descobriram que as megatempestades transportam o amoníaco da atmosfera superior para a inferior.
Crédito: S. Dagnello (NRAO/AUI/NSF), I. de Pater et al (UC Berkeley)
 

Como relatado no novo estudo, de Pater, Li e Chris Moeckel, estudante da UC Berkeley, encontraram algo surpreendente nas emissões de rádio do planeta: anomalias na concentração do gás amoníaco na atmosfera, que relacionaram com as ocorrências passadas de megatempestades no hemisfério norte do planeta.

De acordo com a equipa, a concentração de amoníaco é mais baixa a altitudes médias, logo abaixo da camada superior de nuvens de amoníaco gelado, mas enriqueceu-se a altitudes mais baixas, 100 a 200 quilómetros mais fundo na atmosfera. Pensam que o amoníaco está a ser transportado da atmosfera superior para a inferior através dos processos de precipitação e reevaporação. Além disso, esse efeito pode durar centenas de anos.

O estudo revelou ainda que, embora Saturno e Júpiter sejam compostos de hidrogénio gasoso, os dois gigantes gasosos são notavelmente diferentes. Apesar de Júpiter ter anomalias troposféricas, estas foram associadas às suas zonas (bandas esbranquiçadas) e cinturas (bandas escuras) e não são causadas por tempestades como acontece em Saturno. A diferença considerável entre estes gigantes gasosos vizinhos está a pôr em causa o que os cientistas sabem sobre a formação de megatempestades nos gigantes gasosos e noutros planetas, e pode informar o modo como serão encontradas e estudadas em exoplanetas no futuro.

// Universidade da Califórnia, Berkeley (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Science Advances)

 


Quer saber mais?

Saturno:
NASA
The Nine Planets
Solarviews
Wikipedia

VLA (Karl G. Jansky Very Large Array):
Página principal
NRAO
Wikipedia

 
   
Visitantes de estrelas distantes: Observatório Rubin irá detetar uma abundância de objetos interestelares atravessando o nosso Sistema Solar
 
Esta impressão de artista mostra um objeto interestelar que se aproxima rapidamente do nosso Sistema Solar. O objeto, ejetado do seu sistema planetário de origem há muito tempo, viajou pelo espaço interestelar durante milhares de milhões de anos antes de passar brevemente pela nossa vizinhança cósmica. O Observatório Rubin irá revelar muitos destes visitantes interestelares anteriormente desconhecidos.
Crédito: Observatório Rubin/NOIRLab/NSF/AURA/J. daSilva
 

Existem muitos objetos interestelares ainda por descobrir na nossa Galáxia, a Via Láctea: cometas e asteroides que foram ejetados dos seus sistemas estelares de origem. Alguns destes objetos passam pelo nosso Sistema Solar, trazendo informação valiosa sobre a forma como os sistemas planetários se formam e evoluem. Atualmente, apenas dois destes visitantes interestelares foram descobertos: 1I/'Oumuamua e o cometa 2I/Borisov. O LSST (Legacy Survey of Space and Time) do Observatório Vera Rubin mostrar-nos-á muitos mais.

Já aprendemos muito sobre os maiores e mais brilhantes objetos do nosso Sistema Solar usando os instrumentos e telescópios existentes. No entanto, cientistas como Michele Bannister, da Universidade de Canterbury, em Aotearoa, Nova Zelândia, membro da Colaboração Observatório Rubin/LSST para Ciência do Sistema Solar, querem procurar mais fundo, corpos pequenos e ténues que tiveram origem em sistemas planetários muito para além do nosso. Estes objetos interestelares - que foram atirados dos seus sistemas de origem para o espaço entre as estrelas - são tão ténues que têm permanecido praticamente indetetáveis. Mas com o próximo LSST (Legacy Survey of Space and Time), realizado pelo Observatório Vera C. Rubin, no Chile, os cientistas esperam um período explosivo de descobertas, à medida que estes objetos ténues são vistos pela primeira vez.

As origens do nosso Sistema Solar residem numa enorme nuvem rodopiante de gás e poeira que colapsou para formar novas estrelas, uma das quais era o nosso Sol. As estrelas absorveram a maior parte dos ingredientes cósmicos, mas à volta de cada estrela o que restou formou os pequenos blocos de construção dos planetas - chamados planetesimais - com tamanhos que variam entre dezenas de metros e alguns quilómetros. Alguns destes coalesceram em planetas e nas suas luas e anéis, mas biliões de planetesimais remanescentes continuaram a orbitar as suas estrelas hospedeiras.

Com a ajuda de observações do nosso Sistema Solar e de simulações de computador, os cientistas especulam que a gravidade dos planetas maiores e a passagem de estrelas próximas lançam frequentemente a maior parte destes planetesimais remanescentes para longe dos seus sistemas de origem e para as suas galáxias. Viajando pelo espaço e sem estarem ligados a nenhuma estrela, são agora conhecidos como objetos interestelares.

 
Esta ilustração mostra as trajetórias, através do nosso Sistema Solar, dos dois objetos interestelares confirmados, 'Oumuamua em 2017 (formalmente conhecido como 1I/2017 U1), descoberto em 2017, e o cometa 2I/Borisov, descoberto em 2019. As trajetórias destes objetos são marcadamente diferentes das órbitas dos objetos no nosso Sistema Solar, tornando-os fáceis de diferenciar como objetos interestelares. O Observatório Rubin e o LSST fornecerão dados que permitirão aos cientistas identificar muitos objetos interestelares no início do levantamento.
Crédito: Observatório Rubin/NSF/AURA/J. Pinto
 

"Os sistemas planetários são um lugar de mudança e crescimento, de criação e remodelação", disse Bannister. "E os planetas são como correspondentes ativos, na medida em que podem mover biliões de pequenos planetesimais para o espaço galáctico."

Se os planetas são os correspondentes, os objetos interestelares são os telegramas que contêm informação valiosa sobre sistemas planetários distantes e sobre a sua formação. E, durante um curto período de tempo, algumas destas mensagens vindas de longe estão mesmo no nosso quintal cósmico. "Uma rocha de outro sistema solar é uma sonda direta de como se deu a formação de planetesimais noutra estrela", disse Bannister, "por isso, tê-las a chegar até nós é muito interessante".

Embora os astrónomos pensem que existem muitos objetos interestelares, e que provavelmente passam pelo nosso Sistema Solar regularmente, apenas dois foram confirmados: 'Oumuamua em 2017 (também conhecido como 1I/2017 U1) e o cometa 2I/Borisov em 2019. Estes foram descobertos graças a um bom "timing", muito esforço e um pouco de sorte - estes pequenos e ténues viajantes interestelares só são visíveis quando estão suficientemente perto para serem vistos e quando os nossos telescópios estão apontados para o sítio certo na altura certa.

"Calculamos que existem muitos destes pequenos mundos no nosso Sistema Solar neste momento", disse Bannister. "Só não os conseguimos encontrar ainda porque não estamos a ver com poder de ampliação suficiente."

O Observatório Rubin vai mudar isso. Utilizando um telescópio de 8,4 metros equipado com a câmara digital de maior resolução do mundo, o Rubin irá detetar objetos interestelares mais ténues do que alguma vez vimos. "É como se, de repente, passássemos de um pequeno barco a navegar nos belos baixios junto à costa para um grande oceano profundo e pudéssemos ver toda aquela extensão pela primeira vez", disse Bannister.

 
O Observatório Vera C. Rubin sob a Via Láctea.
Crédito: Observatório Rubin/NOIRLab/NSF/AURA/B. Quint
 

Além disso, o rápido telescópio Rubin pode varrer todo o céu visível a cada poucas noites, capturando uma visão em "timelapse" de objetos interestelares nas suas rápidas viagens através do nosso Sistema Solar.

Embora chamemos a 'Omuamua e 2I/Borisov objetos interestelares, eles diferem em quase todos os aspetos que podemos medir. Como será o terceiro, ou o vigésimo, objeto interestelar? No primeiro ano dos 10 previstos para o LSST do Observatório Rubin, com início previsto para 2025, os cientistas esperam ter uma boa ideia. "Vamos passar de um estudo de dois objetos individuais para um estudo de uma população de pelo menos dúzias", disse Bannister. Dado que os objetos interestelares podem vir de estrelas de toda a Via Láctea, este aumento permitirá aos cientistas estudar diretamente a formação de sistemas planetários em estrelas distantes ao longo da história da nossa Galáxia - incluindo em estrelas antigas que já não existem.

Por agora, os cientistas só podem fazer previsões vagas sobre o número de objetos interestelares que o Rubin irá revelar. Bannister aposta, em jeito de brincadeira, em 21, mas diz que ainda não fazemos ideia. Seja qual for o resultado, o Rubin irá revolucionar os estudos do Sistema Solar - juntamente com muitas outras áreas da astronomia e da astrofísica. "Vai ser uma das dádivas do Observatório Rubin", disse ela, "uma nova história do Sistema Solar e uma maior compreensão da nossa origem".

// NOIRLab (comunicado de imprensa)
// O percurso confirmado dos objetos interestelares (NOIRLab via YouTube)

 


Quer saber mais?

CCVAlg - Astronomia ('Oumuamua):
24/03/2023 - Uma explicação surpreendentemente simples para a estranha órbita do cometa interestelar 'Oumuamua
19/03/2021 - Cientistas determinam origem de estranho objeto interestelar
17/04/2020 - Nova teoria de formação explica o misterioso objeto interestelar 'Oumuamua
20/11/2018 - NASA aprende mais sobre o visitante interestelar 'Oumuamua
28/09/2018 - Seguindo 'Oumuamua até ao seu local de origem
29/06/2018 - VLT vê 'Oumuamua a acelerar
20/03/2018 - 'Oumuamua veio provavelmente de um sistema binário
09/02/2018 - As três surpresas de 'Oumuamua
19/12/2017 - Mais informações sobre o objeto 'Oumuamua
21/11/2017 - Observações do ESO mostram que o primeiro asteroide interestelar não é como nenhum objeto observado até à data
31/10/2017 - Pequeno asteroide ou cometa está apenas de "visita" ao Sistema Solar

CCVAlg - Astronomia (Cometa 2I/Borisov):
24/04/2020 - ALMA revela composição invulgar do cometa interestelar 2I/Borisov
01/10/2019 - Astrónomos detetam moléculas de gás em 2I/Borisov
27/09/2019 - Novo visitante interestelar já tem nome: 2I/Borisov
17/09/2019 - Cometa recém-descoberto é provavelmente visitante interestelar

'Oumuamua:
NASA/JPL
Wikipedia

2I/Borisov:
NASA/JPL
Wikipedia

Objeto interestelar:
Wikipedia

Observatório Vera C. Rubin:
Página principal
Wikipedia
LSST (página principal)

 
   
Também em destaque
  Um "Júpiter" mais quente que o Sol (via Instituto Weizmann de Ciência)
A procura por exoplanetas - planetas que orbitam estrelas localizadas para lá do nosso Sistema Solar - é um tema quente na astrofísica. Dos vários tipos de exoplanetas, um é quente no sentido literal: os Júpiteres quentes, uma classe de exoplanetas que são fisicamente semelhantes ao planeta gigante gasoso Júpiter da nossa vizinhança. Num estudo publicado na revista Nature Astronomy, os cientistas relatam a descoberta de um sistema constituído por dois corpos celestes, situados a cerca de 1400 anos-luz de distância que, em conjunto, fornecem uma excelente oportunidade para estudar as atmosferas dos Júpiteres quentes, bem como para fazer avançar a nossa compreensão da evolução planetária e estelar. Ler fonte
 
   

Álbum de fotografias
Messier 51 em 255 horas

(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: The Deep Sky Collective - Carl Björk, Thomas Bähnck, Sebastian Donoso, Jake Gentillon, Antoine e Dalia Grelin, Stephen Guberski, Richard Hall,
Tino Heuberger, Jason Jacks, Paul Kent, Brian Meyers, William Ostling, Nicolas Puig, Tim Schaeffer, Felix Schöfbänker, Mikhail Vasilev
 
Um intrigante par de galáxias em interação, M51 é a 51.ª entrada no famoso catálogo de Charles Messier. Talvez "a" nebulosa espiral original, a grande galáxia com uma estrutura espiral semelhante a um remoinho, vista quase de face, é também catalogada como NGC 5194. Os seus braços espirais e faixas de poeira varrem a frente de uma galáxia companheira (à direita), NGC 5195. A cerca de 31 milhões de anos-luz de distância, dentro dos limites da bem treinada constelação de Cães de Caça, M51 parece ténue e difusa ao olho em observações telescópicas diretas. Mas esta imagem extraordinariamente profunda mostra pormenores espantosos das cores marcantes do par de galáxias e dos extensos detritos de maré. Uma colaboração de astrofotógrafos, usando telescópios no planeta Terra, combinou mais de 10 dias de tempo de exposição para criar este retrato definitivo da galáxia M51. A imagem inclui 118 horas de dados de banda estreita que também revelam uma vasta nuvem brilhante de gás hidrogénio ionizado avermelhado descoberta no sistema M51.
 
   
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