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  Astroboletim #2039  
  22/09 a 25/09/2023  
     
 
EFEMÉRIDES

DIA 22/09: 265.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1959, nascia Saul Perlmutter, astrofísico americano que ganhou em 2011 o Prémio Nobel da Física (juntamente com Brian P. Schmidt e Adam Riess) por fornecer evidências da aceleração da expansão do Universo.
Em 2001, numa passagem arriscada, a sonda da NASA Deep Space 1 navega com êxito pelo Cometa Borrelly, dando aos cientistas o melhor olhar de dentro do núcleo denso e gelado de pó e gás (à data).

Em 1993, termina a missão STS-51 do vaivém espacial Discovery.
Em 2011, cientistas do CERN anunciam a sua descoberta de neutrinos quebrando a velocidade da luz (que se sabe agora ter sido um erro devido a falhas nos seus equipamentos).
HOJE, NO COSMOS:
Mercúrio na sua maior elongação oeste, 18º, pelas 14:00.
Lua em Quarto Crescente, pelas 20:32. Esta noite encontra-se em frente do "bule de chá" de Sagitário.

 

DIA 23/09: 266.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...
Em 1791, nascia Johann Franz Encke, astrónomo alemão que trabalhou no cálculo de períodos de cometas e asteroides, mediu a distância da Terra ao Sol e fez observações do planeta Saturno.
Em 1819, nascia Hippolyte Fizeau, físico francês conhecido por medir a velocidade da luz numa experiência com o seu nome
Em 1846, Neptuno é descoberto pelo astrónomo francês Urbain Jean Joseph Le Verrier e pelo astrónomo inglês John Couch Adams; a descoberta é verificada pelo astrónomo alemão Johann Galle.
Em 1999, a NASA anunciava ter perdido o contato com a Mars Climate Orbiter.

HOJE, NO COSMOS:
Equinócio de outono - a nova estação tem início pelas 07:50. É quando o Sol atravessa o equador, dirigindo-se para sul. Os dias estão a ficar mais curtos.
Por coincidência, quando o verão passa a outono, é quando Deneb toma o lugar de Vega como a estrela do zénite após o anoitecer (para observadores a latitudes médias norte).
Observe novamente a Lua. Repare que se deslocou, estando desta vez em frente da pega do "bule de chá" de Sagitário.

 

DIA 24/09: 267.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1970, a primeira sonda não-tripulada, a soviética Luna 16, regressa da Lua com mais de um quilograma de material lunar.
Em 1990, é observada a periódica Grande Mancha Branca em Saturno.
Em 2014, a sonda indiana MOM (Mars Orbiter Mission) alcança órbita marciana. É a primeira nação mundial a fazê-lo na primeira tentativa.

HOJE, NO COSMOS:
O "W" de Cassiopeia está alto a nordeste depois do anoitecer. O lado direito do "W" (o mais brilhante) está inclinado para cima. Olhe para o segundo segmento do "W" a contar do topo. Note as fracas estrelas visíveis a olho nu ao longo desse segmento (não contando com as duas pontas). A mais brilhante delas, à direita, é Eta Cassiopeiae, de magnitude 3,4. É uma estrela semelhante ao Sol a apenas 19 anos-luz de distância, mas tem uma companheira laranja anã, de magnitude 7,3 e separação de 7,3 segundos de arco - um bonito binário através de um telescópio.
Para a esquerda de Eta, mais fraca, está uma estrela dupla ainda visível a olho nu: Upsilon1 e Upsilon2 Cassiopeiae, separadas por 0,3º. São gigantes amarelo-alaranjadas sem relação uma com a outra, a 200 e 400 anos-luz. Upsilon2 é ligeiramente mais brilhante do que a outra. É também a mais próxima.

 

DIA 25/09: 268.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1644, nascia Ole Romer, astrónomo dinamarquês que foi responsável pela demonstração de que a velocidade da luz era finita contrariamente ao que se pensava à data.

Em 1992, a NASA lança a Mars Observer, uma sonda de 511 milhões de dólares com destino Marte, a primeira ao planeta em 17 anos. Onze meses mais tarde, a sonda falha. 
Em 2008, a China lança a nave Shenzhou 7.
HOJE, NO COSMOS:
Depois do anoitecer, observe a Lua a sul ou sul-sudeste. O ponto brilhante para a sua esquerda é o planeta Saturno.
Observação difícil - se tiver acesso a um horizonte desimpedido nesta mesma direção, a estrela muito baixa, para baixo de Saturno, é Fomalhaut, a mais brilhante de Peixe Austral.

 
 
   
ALMA e James Webb observam o mais distante proto-enxame galáctico
 
Esquerda: impressão de artista da área "metropolitana" do proto-enxame A2744ODz7p9 revelada pelo Telescópio Espacial James Webb e pelo ALMA. Direita: impressão de artista do que a área "metropolitana" se irá tornar daqui a dezenas de milhões de anos, após o tempo observado.
Crédito: NAOJ
 

Uma colaboração internacional liderada pelo professor assistente Takuya Hashimoto (Universidade de Tsukuba, Japão) e pelo investigador Javier Álvarez-Márquez (Centro de Astrobiologia, Espanha) utilizou o Telescópio Espacial James Webb (JWST) e o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) para observar o proto-enxame de galáxias mais distante até à data, a 13,14 mil milhões de anos-luz de distância. Esta observação profunda revelou o núcleo denso e "metropolitano" deste proto-enxame, indicando um crescimento galáctico acelerado. As simulações sugerem que esta região irá fundir-se numa galáxia singular e massiva nas dezenas de milhões de anos seguintes, fornecendo informações sobre o nascimento e evolução das primeiras galáxias.

O estudo da forma como as estrelas individuais nascem e morrem nas galáxias, de como novas estrelas nascem a partir de remanescentes de estrelas antigas e de como as galáxias crescem são temas importantes na astronomia, uma vez que permitem conhecer as nossas raízes no Universo. Os enxames de galáxias, uma das estruturas mais significativas do Universo, reúnem mais de 100 galáxias ligadas entre si pela força gravitacional mútua. Observações de galáxias próximas mostraram que o crescimento de uma galáxia depende do seu ambiente, no sentido em que populações estelares maduras são normalmente vistas em regiões onde as galáxias estão densamente agrupadas. Este facto é referido como o "efeito ambiente".

Embora o efeito ambiente tenha sido considerado uma peça essencial para compreender a formação e evolução das galáxias, não se sabe muito bem quando é que ele teve início na história do Universo. Uma das chaves para compreender este facto é observar os antepassados dos enxames de galáxias pouco depois do nascimento do Universo, conhecidos como proto-enxames de galáxias; estes são conjuntos de cerca de dez galáxias distantes. Felizmente, a astronomia permite-nos observar o Universo distante tal como ele era no passado. Por exemplo, a luz de uma galáxia a 13 mil milhões de anos-luz de distância demora 13 mil milhões de anos a chegar à Terra, pelo que o que observamos agora é o aspeto dessa galáxia há 13 mil milhões de anos. No entanto, a luz que viaja 13 mil milhões de anos-luz torna-se mais ténue, pelo que os telescópios que a observam têm de ter uma elevada sensibilidade e resolução espacial.

 
A imagem colorida de fundo mostra um mapa da intensidade da luz (a cor mais vermelha mostra uma emissão mais forte) na região do núcleo do proto-enxame A2744ODz7p9, adquirida com o instrumento NIRCam a bordo do JWST. O tamanho da imagem corresponde a cerca de metade do raio da Via Láctea.
Esquerda: os contornos mostram a distribuição da luz emitida pelo oxigénio ionizado, obtida com o instrumento NIRSpec a bordo do JWST. Foram identificadas 4 galáxias a 13,14 mil milhões de anos-luz de distância.
Direita: os contornos mostram a distribuição da emissão de poeira de três das quatro galáxias. O círculo branco no canto inferior esquerdo da figura indica o tamanho do feixe de dados do ALMA.
Crédito: JWST (NASA, ESA, CSA), ALMA (ESO/NOAJ/NRAO), T. Hashimoto et al.
 

A equipa de investigação começou por observar a região central deste proto-enxame usando o JWST. Recorrendo ao NIRSpec, um instrumento que observa espectros em comprimentos de onda que vão do visível ao infravermelho próximo, a equipa fez observações de espetroscopia de campo integral que podem obter simultaneamente espectros de todos os locais dentro do campo de visão. A equipa detetou com sucesso luz ionizada de iões de oxigénio ([OIII] 5008 Å) de quatro galáxias numa região quadrangular com 36.000 anos-luz de lado, o que equivale a metade do raio da Via Láctea. Com base no desvio para o vermelho desta luz (o alongamento do comprimento de onda devido à expansão cósmica), a distância das quatro galáxias à Terra foi identificada como sendo de 13,14 mil milhões de anos-luz. "Fiquei surpreendido quando identificámos quatro galáxias através da deteção da emissão de iões de oxigénio quase à mesma distância. As 'galáxias candidatas' na região do núcleo eram de facto membros do proto-enxame mais distante," diz Yuma Sugahara (Waseda/NAOJ), que liderou a análise dos dados do JWST.

Além disso, a equipa de investigação prestou atenção aos dados de arquivo do ALMA, que já tinham sido adquiridos para esta região. Estes dados captam as emissões rádio da poeira cósmica nestas galáxias distantes. Como resultado das análises, detetaram emissões de poeira de três das quatro galáxias. Esta é a primeira deteção de emissões de poeira em galáxias membros de um proto-enxame tão distante no tempo. Pensa-se que a poeira cósmica nas galáxias seja fornecida por explosões de supernova no final da evolução de estrelas massivas nas galáxias, que fornecem o material para novas estrelas. Por conseguinte, grandes quantidades de poeira numa galáxia indicam que muitas das estrelas de primeira geração da galáxia já completaram as suas vidas e que a galáxia está a crescer. O professor Luis Colina (Centro de Astrobiologia, Espanha) descreve o significado dos resultados: "A emissão de poeira cósmica não foi detetada em galáxias membros do proto-enxame fora da região do núcleo. Os resultados indicam que muitas galáxias estão agrupadas numa pequena região e que o crescimento das galáxias é acelerado, sugerindo que os efeitos ambientais existiam apenas ~700 milhões de anos após o Big Bang."

 
Simulações da formação e do futuro do núcleo galáctico do proto-enxame A2744z7p9OD. (a) Densidade do gás numa região semelhante ao proto-enxame A2744z7p9OD com uma idade cosmológica de 689 milhões de anos. (b) Uma vista ampliada da região do núcleo em (a) correspondente à região observada pelo JWST. O mapa de cores indica a distribuição da luz dos iões de oxigénio. (b) a (d) mostram a evolução do objeto simulado: as quatro galáxias fundem-se gradualmente e evoluem para uma entidade maior.
Crédito: T. Hashimoto et al.
 

Além disso, a equipa de investigação realizou uma simulação de formação galáctica para testar teoricamente como se formaram e evoluíram as quatro galáxias na região do núcleo. Os resultados mostraram que existia uma região de partículas densas de gás cerca de 680 milhões de anos após o Big Bang, e que se formaram quatro galáxias, semelhantes à região observada do núcleo. Para acompanhar a evolução destas quatro galáxias, a simulação calculou processos físicos como a cinemática das estrelas e do gás, reações químicas, formação estelar e supernovas. As simulações mostraram que as quatro galáxias se fundem e evoluem para uma única galáxia maior em algumas dezenas de milhões de anos, o que é uma escala de tempo curta na evolução do Universo. "Reproduzimos com sucesso as propriedades das galáxias na região do núcleo devido à elevada resolução espacial das nossas simulações e ao grande número de amostras de galáxias de que dispomos. No futuro, gostaríamos de explorar o mecanismo de formação da região do núcleo e as suas propriedades dinâmicas com mais pormenor", diz Yurina Nakazato, uma estudante licenciada da Universidade de Tóquio, que analisou os dados da simulação.

Javier Álvarez-Márquez (Centro de Astrobiologia, Espanha) diz: "Vamos efetuar observações mais sensíveis do proto-enxame A2744z7p9OD com o ALMA para ver se existem galáxias que não eram visíveis com a sensibilidade anterior. Vamos também aplicar as observações do JWST e do ALMA, que provaram ser muito poderosas, a mais proto-enxames para elucidar o mecanismo de crescimento das galáxias e para explorar as nossas raízes no Universo".

// Observatório ALMA (comunicado de imprensa)
// Universidade de Tsukuba (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal Letters)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


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Notícias relacionadas:
ScienceDaily
PHYSORG

Enxame de galáxias:
Wikipedia

ALMA:
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ALMA (ESO)
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JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
STScI (website para o público)
ESA
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Blog do JWST (NASA)
Programas DD-ERS do Webb (STScI)
Ciclo 2 GO do Webb (STScI)
NIRISS (NASA)
NIRCam (NASA)
MIRI (NASA)
NIRSpec (NASA)

 
   
Novas "receitas" para a origem da vida podem apontar o caminho para planetas distantes e habitados
 
A vida requer a repetição de reações químicas. A descrição dos tipos de reações e das condições necessárias para a repetição auto-sustentada - a chamada autocatálise - pode orientar a procura de vida noutros planetas.
Crédito: Betül Kaçar
 

A vida num planeta distante - a existir - pode não se parecer nada com a vida na Terra. Mas há um número finito de ingredientes químicos na "despensa" do Universo e formas finitas de os misturar. Uma equipa liderada por cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison explorou essas limitações para escrever um "livro de receitas" com centenas de receitas químicas com potencial para dar origem a vida.

A sua lista de ingredientes poderá orientar a procura de vida noutros locais do Universo, indicando as condições mais prováveis - versões planetárias de técnicas de mistura, temperaturas de "forno" e tempos de "cozedura" - para que as receitas se concretizem.

O processo de progressão de ingredientes químicos básicos para os complexos ciclos de metabolismo e reprodução celular que definem a vida, dizem os investigadores, requer não só um início simples, mas também repetição.

"A origem da vida é, de facto, um processo de algo a partir do nada", diz Betül Kaçar, astrobióloga financiada pela NASA e professora de bacteriologia na UW-Madison. "Mas esse algo não pode acontecer apenas uma vez. A vida resume-se à química e às condições que podem gerar um padrão de reações auto-reprodutoras".

As reações químicas que produzem moléculas que estimulam a repetição da mesma reação são designadas por reações autocatalíticas. Num novo estudo publicado a 18 de setembro na revista Journal of the American Chemical Society, Zhen Peng, investigador pós-doutorado do laboratório de Kaçar, e colaboradores compilaram 270 combinações de moléculas - envolvendo átomos de todos os grupos e séries da tabela periódica - com potencial para autocatálise sustentada.

"Pensava-se que este tipo de reações era muito raro", diz Kaçar. "Estamos a mostrar que, na verdade, estão longe de ser raras. Só é preciso procurar no sítio certo".

Os investigadores centraram a sua pesquisa nas chamadas reações de comproporção. Nestas reações, dois compostos que incluem o mesmo elemento com diferentes números de eletrões, ou estados reativos, combinam-se para criar um novo composto em que o elemento se encontra no meio dos estados reativos iniciais.

Para ser autocatalítico, o resultado da reação também precisa de fornecer materiais iniciais para que a reação ocorra novamente, de modo que o output se torne um novo input, diz Zach Adam, coautor do estudo e um geocientista da UW-Madison que estuda as origens da vida na Terra. As reações de comproporção resultam em cópias múltiplas de algumas das moléculas envolvidas, fornecendo materiais para as etapas seguintes da autocatálise.

"Se as condições forem as corretas, é possível começar com relativamente poucos desses outputs", diz Adam. "Cada vez que damos uma volta ao ciclo, produzimos pelo menos um output extra que acelera a reação e a torna ainda mais rápida."

A autocatálise é como uma população crescente de coelhos. Pares de coelhos juntam-se, produzem ninhadas de novos coelhos e depois os novos coelhos crescem para se juntarem e fazerem ainda mais coelhos. Não são precisos muitos coelhos para que em breve haja muitos mais coelhos.

No entanto, procurar orelhas descaídas e caudas felpudas pelo Universo não é provavelmente uma estratégia vencedora. Em vez disso, Kaçar espera que os químicos retirem ideias da lista de receitas do novo estudo e as testem em "tachos" e "panelas" que simulem "cozinhas" extraterrestres.

"Nunca saberemos definitivamente o que aconteceu exatamente neste planeta para gerar vida. Não temos uma máquina do tempo", diz Kaçar. "Mas, num tubo de ensaio, podemos criar várias condições planetárias para compreender como é que a dinâmica para sustentar a vida pode evoluir em primeiro lugar".

Kaçar lidera um consórcio apoiado pela NASA chamado MUSE (Metal Utilization & Selection Across Eons). O seu laboratório centrar-se-á em reações que incluam os elementos molibdénio e ferro, e ela está entusiasmada por ver o que os outros vão "cozinhar" a partir das partes mais exóticas e invulgares do novo "livro de receitas".

"Carl Sagan disse que se quisermos fazer uma tarte do zero, primeiro temos de criar o Universo", afirma Kaçar. "Penso que se queremos compreender o Universo, primeiro temos de fazer algumas tartes".

// Universidade de Wisconsin-Madison (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Journal of the American Chemical Society)

 


Quer saber mais?

Vida no Universo:
Astrobiologia (Wikipedia)
Abiogénese (Wikipedia)

 
   
JUICE: porque está a demorar taaanto tempo
 
Uma imagem de Júpiter, obtida pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA no dia 25 de agosto de 2020, captada quando o planeta se encontrava a 653 milhões de quilómetros da Terra. A imagem também inclui a lua gelada de Júpiter, Europa.
Crédito: NASA, ESA, A. Simon (Centro de Voo Espacial Goddard) e M. H. Wong (Universidade da Califórnia, Berkeley) e equipa OPAL
 

No ponto mais próximo das suas órbitas, a Terra e Júpiter estão separados por quase 600 milhões de quilómetros. Mais de cinco meses após o lançamento, a JUICE já percorreu mais de 380 milhões de quilómetros, mas em termos de tempo só está a 5% do caminho. Porque é que está a demorar tanto tempo?

A resposta depende de uma série de fatores que os especialistas em dinâmica de voo do Controlo da Missão da ESA conhecem bem, desde a quantidade de combustível utilizada à potência do foguetão, à massa da nave espacial e à geometria dos planetas.

Com base nisto, os peritos em dinâmica de voo da ESA concebem uma rota. O mundo da mecânica orbital é um lugar contraintuitivo, mas com um pouco de paciência e muito planeamento permite-nos fazer muita ciência com pouco combustível.

Linhas retas no espaço? Um enorme desperdício de energia

Acompanhe o movimento de planetas, luas, estrelas e galáxias, e verá que estão sempre em movimento em torno de outro objeto. Quando uma missão é lançada, não salta de uma Terra imóvel, mas de um planeta que se move a cerca de 30 km/s em torno do Sol.

Como tal, uma nave espacial lançada da Terra já tem uma grande quantidade de "energia orbital" - a única unidade que importa para determinar o tamanho de uma órbita em torno de um corpo central. Logo após o lançamento, uma nave espacial está mais ou menos na mesma órbita que o nosso planeta está em torno do Sol.

Para se libertar desta órbita e voar em linha reta, o mais curto possível, da Terra a Júpiter, seria necessário um grande foguetão e muito combustível. Mas pode ser feito. O problema seguinte é que precisaríamos de ainda mais combustível para travar e entrar em órbita à volta de Júpiter, para não passar apenas por ele.

Visando espaço vazio

Júpiter e a Terra estão sempre a mover-se um em relação ao outro. No seu ponto mais distante, em lados opostos do Sol, estão separados por 968 milhões de quilómetros. A distância mais curta entre os dois planetas é quando a Terra e Júpiter estão do mesmo lado do Sol, com pouco menos de 600 milhões de quilómetros entre eles. Mas estão nesta posição apenas por um momento antes da distância aumentar novamente, nunca permanecendo a uma distância constante.

Os planetas estão todos a mover-se a ritmos diferentes nas suas órbitas à volta do Sol. Imagine atirar uma bola a um alvo em movimento a partir de um veículo em movimento. Os engenheiros têm de calcular o momento ideal para dar o salto numa trajetória circular desde a órbita da Terra até onde Júpiter estará quando a nave espacial chegar, e não onde está quando a nave espacial deixar a Terra.

Então, partindo do princípio que temos o foguetão mais potente disponível e que lançamos na trajetória mais curta no momento certo, quando os planetas estão alinhados corretamente, quanto tempo demoraria?

As primeiras missões espaciais, como as sondas Voyager e Pioneer, fizeram a viagem em menos de dois anos, e a mais rápida viagem de um objeto até Júpiter foi a da missão New Horizons. Lançada no dia 19 de janeiro de 2006, a New Horizons fez a sua maior aproximação a Júpiter no dia 28 de fevereiro de 2007, demorando pouco mais de um ano a chegar ao planeta. Todas estas missões continuaram o seu caminho, sendo excelentes exemplos para determinar o tempo necessário para um "flyby" por Júpiter a caminho de outro lugar.

Quanto mais longa a estadia, mais lenta a aproximação

Para entrar em órbita do enorme planeta, para o estudar de todos os lados e, com o tempo, talvez até entrar em órbita à volta de uma das suas luas - uma "estreia" da JUICE - é preciso perder alguma energia. Esta "desaceleração" exigirá muito combustível para uma grande manobra de inserção em órbita. Se não quisermos lançar com grandes quantidades de combustível, optamos pela rota panorâmica, com uma duração de transferência de 2,5 anos.

É aqui que vemos a massa da nave espacial como um fator crucial para determinar o tempo necessário para chegar a qualquer lugar. Os engenheiros precisam de controlar a massa da nave espacial, equilibrando a quantidade de combustível com os instrumentos que precisa de transportar para completar a sua missão. Quanto mais massa tiver a nave espacial, mais combustível terá de transportar, o que aumenta o seu peso e dificulta o seu lançamento.

E é aqui que entra o desempenho do foguetão de lançamento. A nave espacial precisa de ser lançada com velocidade suficiente para escapar à gravidade da Terra e para ser atirada para o Sistema Solar exterior. Quanto melhor for o empurrão, mais fácil será a viagem.

A JUICE é uma das sondas interplanetárias mais pesadas alguma vez lançadas, com pouco mais de 6000 kg, e possui o maior conjunto de instrumentos científicos alguma vez levado a Júpiter. Mesmo o enorme impulso do foguetão de carga pesada Ariane 5 não foi suficiente para enviar a JUICE diretamente para lá em poucos anos.

Por isso, missões como a JUICE e a Europa Clipper, ou como a Galileo e a Juno no passado, têm de recorrer a manobras de "assistência gravitacional" ou de "flyby" para ganhar velocidade extra. Quanto mais potente for o foguetão, mais curta será a transferência.

 
A linha temporal da viagem da JUICE até Júpiter e dentro do sistema joviano.
Crédito: ESA
 

Troca de energia com o Sistema Solar

Plutão, no limite do Sistema Solar, viaja numa órbita muito maior do que Mercúrio, o planeta mais interior. Embora Plutão se mova mais lentamente em relação ao Sol, a sua energia orbital é muito, muito maior do que a de Mercúrio.

Para colocar uma nave espacial em órbita de outro planeta, temos de igualar a sua energia orbital. Quando a BepiColombo foi lançada, a sua energia orbital era a mesma que a da Terra. Teve de perder energia para se aproximar do centro do Sistema Solar e fê-lo perdendo o excesso de energia orbital ao aproximar-se dos planetas vizinhos.

O mesmo funciona em sentido inverso para viajar para o Sistema Solar exterior. Para entrar numa órbita maior, mais afastada do Sol, a JUICE segue uma trajetória que lhe permite roubar energia orbital à Terra, a Vénus e a Marte.

Dependendo da direção relativa do movimento do planeta e da nave espacial, uma assistência gravitacional pode acelerar, abrandar ou mudar a direção da missão (a nave espacial também desvia o planeta, mas por uma quantidade tão minúscula que é insignificante. No entanto, a terceira lei do movimento de Newton foi preservada: "A toda a ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade").

A JUICE utilizará uma série de passagens pela Terra, pelo sistema Terra-Lua e por Vénus para definir a rota para o seu encontro em julho de 2031 com o sistema joviano.

Órbita no fio da navalha

A parte mais desafiante para a equipa de controlo de voo da ESA acontece quando a JUICE chegar finalmente a Júpiter, em 2031, e durante a sua viagem pelo sistema de Júpiter.

A desafiante trajetória da JUICE envolve múltiplas assistências gravitacionais a caminho de Júpiter - incluindo o primeiro "flyby" Lua-Terra de sempre - e, uma vez lá, um impressionante número de 35 "flybys" pelas suas luas galileanas Europa, Ganimedes e Calisto. O foco final será Ganimedes, tornando a JUICE a primeira nave espacial a orbitar uma lua que não a nossa.

A manobra mais importante que as equipas de controlo da missão da ESA na Alemanha irão supervisionar será a desaceleração da JUICE em cerca de 1 km/s, apenas 13 horas após uma assistência gravitacional por Ganimedes, e a "saída" para entrar no sistema de Júpiter, colocando a nave espacial em órbita à volta do gigante gasoso.

Entrar em órbita de outro corpo celeste é difícil. Uma nave espacial tem de se aproximar com a velocidade perfeita, a partir de um ângulo preciso, e depois executar uma grande e vital manobra no momento certo, numa direção específica e com a dimensão correta.

Se nos aproximarmos demasiado depressa ou devagar, demasiado raso ou íngreme, ou se manobrarmos no momento errado, com a quantidade ou a direção erradas, perdemo-nos no espaço. Ou ficamos suficientemente longe da trajetória para que seja necessário muito - talvez demasiado - combustível para corrigir o seu caminho.

A JUICE vai aproximar-se das luas de Júpiter, trocando com elas a energia que conservaram durante milhares de milhões de anos, para obter uma visão destes ambientes como nunca antes. Poderá haver vida sob os oceanos gelados de Ganimedes, Calisto ou Europa? O que podemos aprender sobre a formação de planetas e luas em todo o Universo? Através da maravilha da dinâmica de voo, trocando energia com o Universo, descobriremos em breve.

// ESA (comunicado de imprensa)
// A viagem da JUICE e tour pelo sistema de Júpiter (ESA via YouTube)
// JUICE entra em órbita de Júpiter (ESA via YouTube)

 


Quer saber mais?

Cobertura da missão JUICE pelo CCVAlg - Astronomia:
14/04/2023 - Ganimedes em destaque, o alvo principal da JUICE
11/04/2023 - JUICE - uma viagem sem precedentes a Júpiter

JUICE (Jupiter Icy Moons Explorer):
ESA
Wikipedia

Júpiter:
NASA
CCVAlg - Astronomia
Nine Planets
Wikipedia

Europa:
CCVAlg - Astronomia
NASA
Wikipedia

Ganimedes:
CCVAlg - Astronomia
NASA
Wikipedia

Calisto:
CCVAlg - Astronomia
NASA
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  Os buracos negros comem mais depressa do que se pensava (via Universidade Northwestern)
Um novo estudo está a mudar a forma como os astrofísicos compreendem os hábitos alimentares dos buracos negros supermassivos. Embora investigadores anteriores tenham levantado a hipótese dos buracos negros comerem lentamente, novas simulações indicam que os buracos negros comem muito mais depressa do que o conhecimento convencional sugere. O estudo foi publicado no dia 20 de setembro na revista The Astrophysical Journal. Ler fonte
 
   

Álbum de fotografias
Tocando em Bennu

(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: OSIRIS-RExUniversidade do ArizonaNASAEstudo de Visualização Científica de Goddard
 
O braço da nave espacial OSIRIS-REx estendeu-se e tocou no asteroide 101955 Bennu no dia 20 de outubro de 2020, após uma aproximação cuidadosa à superfície repleta de pedras do pequeno asteroide próximo da Terra. Chamado de evento de amostragem TAG (Touch-And-Go), a cabeça de amostragem (TAGSAM) com 30 centímetros de largura parece esmagar algumas das rochas nesta ampliação registada pela SamCam da nave espacial. A imagem foi captada logo após o contacto com a superfície, a cerca de 321 milhões de quilómetros do planeta Terra. Um segundo depois, a nave espacial disparou gás azoto de uma garrafa destinada a soprar uma quantidade substancial do rególito de Bennu para a cabeça de amostragem, recolhendo o material solto da superfície. E agora, quase três anos depois, no domingo, 24 de setembro, essa amostra do asteroide Bennu deverá chegar ao planeta Terra. A cápsula com as amostras será largada pela nave espacial OSIRIS-Rex quando esta passar perto da Terra. Vinte minutos após a largada, a nave espacial disparará os seus propulsores para se desviar da Terra e viajar para orbitar o asteroide próximo da Terra, 99942 Apophis.
 
   
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