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Edição n.º 1519
28/09 a 01/10/2018
 
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Devido a problemas alheios ao Núcleo de Astronomia do CCVAlg, não foi possível o envio da edição anterior do Astroboletim (n.º 1518), pelo que pedimos as mais sinceras desculpas. No entanto, poderá ser consultada no arquivo, assim como todas as restantes edições.
 

28/09/18 - OBSERVAÇÃO NOTURNA + PALESTRA
21:00 - Este evento inclui uma apresentação sobre um tema de astronomia, seguida de observação astronómica noturna com telescópio no nosso maravilhoso terraço (dependente de meteorologia favorável).
Local: CCVAlg
Preço: 2€
Pré-inscrição: siga este link
Telefone: 289 890 920
E-mail: info@ccvalg.pt

 
EFEMÉRIDES

Dia 28/09: 271.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1860, nascia Paul Ulrich Villard, físico e químico francês que descobriu os raios-gama em 1900 enquanto estudava a radiação emanada pelo elemento químico rádio.
Em 1999, o Observatório de Raios-X Chandra da NASA divulga uma espetacular imagem da Nebulosa do Caranguejo, os espetaculares remanescentes de uma explosão estelar, revelando algo ainda nunca visto.

O brilhante anel à volta do coração da nebulosa são ondas de partículas altamente energéticas que parecem ter sido expulsas a uma distância de 1 ano-luz da estrela central, e os jatos de partículas afastam-se da estrela de neutrões numa direção perpendicular à espiral.
Em 2008, a SpaceX lança sua a primeira nave espacial privada, a Falcon 1, para órbita.
Observações: Aviste, bem tarde, as Plêiades para cima e para a esquerda da Lua. Quando as Plêiades sobem o céu a este durante o outono, vemos o seu pequeno padrão apoiado na sua "pega".

Dia 29/09: 272.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1954 é assinada a convenção que estabelece o CERN.
Em 1962 era lançado o Alouette 1, o primeiro satélite canadiano.
Em 1988 era lançada a missão STS-26 do vaivém Discovery.

Marca o recomeço das missões depois do acidente 1986 51-L do vaivém Challenger. Duração da missão: 97 horas e 11 minutos.
Em 2004, o asteroide 4179 Toutatis passa a quatro distâncias lunares da Terra. No mesmo ano, a nave SpaceShipOne de Burt Rutan faz o seu primeiro voo espacial, dos dois necessários para ganhar o Ansari X Prize.
Observações: Há atualmente uma janela de escuridão com 2 horas entre o fim do dia e o nascer da Lua (para observadores a latitudes médias norte). A janela fica maior a cada noite esta semana. Aproveite para observar algumas das maravilhas do céu de outono.
Quando a Lua nascer, tem como companhia Aldebarã.

Dia 30/09: 273.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1550, nascia Michael Maestlin, astrónomo e matemático alemão, famoso por ter sido o mentor de Johannes Kepler.
Em 1880, Henry Draper tira a primeira fotografia da Nebulosa de Orionte.

A exploração de M42 é ainda feita a partir de fotos do Hubble.
Em 1977, devido a cortes e a reservas de energia cada vez menores, as experiências ALSEP das Apollo, deixadas na Lua, são desligadas.
Em 1994, lançamento da missão STS-68 do vaivém Endeavour.
Em 1995, última transmissão da Pioneer 11, 20 anos após o seu lançamento em 1972.
Observações: Antes do amanhecer, aviste a Lua e Aldebarã bem altas a sul.

Dia 01/09: 274.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1958, era criada a NASA para suceder à NACA

Em 1962, entra em operação o radiotelescópio de 91 metros do NRAO. Este telescópio, que colapsou subitamente no dia 15 de novembro de 1988, era o segundo maior do mundo.
Observações: Antes do amanhecer, observe novamente a Lua, alta a sul. Deslocou-se de perto de Aldebarã para ficar quase ao meio do Hexágono de Inverno, constituído por Rigel (Orionte), Aldebarã (Touro), Capella (Cocheiro), Castor e Pollux (Gémeos), Procyon (Cão Menor) e Sirius (Cão Maior).

 
CURIOSIDADES

A missão do Observatório de raios-X Chandra da NASA recebeu um prolongamento. Permanecerá ativo até, pelo menos, 30 de setembro de 2024.
 
LUA MARCIANA PODE TER SURGIDO DE UM IMPACTO COM O PLANETA

As estranhas formas e cores das pequenas luas marcianas, Fobos e Deimos, têm inspirado um longo debate sobre as suas origens.

As faces escuras das luas lembram os asteroides primitivos do Sistema Solar exterior, sugerindo que as luas podem ser asteroides capturados há muito tempo pela atração gravitacional de Marte. Mas as formas e ângulos das órbitas das luas não encaixam neste cenário de captura.

Um novo olhar sobre dados com 20 anos, da missão Mars Global Surveryor da NASA, dá suporte à ideia que as luas de Marte se formaram após um grande impacto no planeta que colocou muitas rochas em órbita. O estudo foi publicado na revista Journal of Geophysical Research: Planets, da União Geofísica Americana.

Fobos, a maior das duas luas de Marte, é a lua mais escura do Sistema Solar. Este aspeto escuro inspirou a hipótese de que a lua em íntima órbita pode ser um asteroide capturado, mas a sua dinâmica orbital parece discordar. Um novo estudo sugere que a composição de Fobos pode ser mais como a crosta vulcânica do Planeta Vermelho do que parece, consistente com uma origem para a lua baseada num antigo e violento impacto com Marte.
Crédito: G: Neukum (FU Berlin), et al./Mars Express/DLR/ESA; reconhecimento - Peter Masek
(clique na imagem para ver versão maior)
 

O conjunto de dados continha pistas não investigadas sobre a composição de Fobos, que pode ser mais semelhante à crosta do Planeta Vermelho do que parece, de acordo com os autores do estudo.

"A parte divertida, para mim, foi debruçar-me sobre algumas das ideias que circulam por aí, usando um conjunto antigo de dados que tem sido subutilizado," comenta Tim Glotch, geocientista da Universidade Stony Brook em Nova Iorque, autor principal do novo estudo.

Marc Fries, cientista planetário e curador de poeira cósmica do Centro Espacial Johnson da NASA, que não esteve envolvido no novo estudo, disse que a incapacidade de explicar a génese das duas luas em redor do planeta vizinho é uma lacuna gritante na compreensão dos cientistas sobre a formação lunar. O seu esclarecimento ajudará nas interpretações de como outras luas e planetas se formaram no nosso Sistema Solar e além. O novo estudo não resolve o mistério, mas é um passo na direção certa, realçou.

"A questão das origens de Fobos e Deimos é um puzzle divertido porque temos duas hipóteses concorrentes que não podem ser verdadeiras," disse Fries. "Eu não consideraria isso como uma solução final para o mistério da origem das luas, mas ajudará a manter a discussão em andamento."

Objetos escuros

O debate sobre a origem das luas de Marte divide os cientistas há décadas, desde os primórdios da ciência planetária. No visível, Fobos e Deimos parecem muito mais escuras do que Marte, dando peso à hipótese de adoção.

Os cientistas estudam a composição mineral de objetos quebrando a luz que refletem em cores componentes com um espectrómetro, criando "impressões digitais" distintas. Ao comparar as impressões digitais espectrais de superfícies planetárias com uma biblioteca de espectros para materiais conhecidos, podem inferir a composição destes objetos distantes. A maioria das investigações sobre a composição de asteroides examinou os seus espectros no visível e no infravermelho próximo, que está logo além da visão humana, no lado vermelho do espectro visível.

Fobos desce no horizonte para trás do Monte Sharp, num mosaico composto por três imagens captadas pelo rover Curiosity em 2014.
Crédito: NASA/JPL/MSSS/Justin Cowart
(clique na imagem para ver versão maior)
 

No visível e no infravermelho próximo, Fobos e os asteroides de classe-D parecem iguais - isto é, ambos os seus espectros são quase inexpressivos porque são muito escuros. Os asteroides de classe-D são quase escuros como carvão porque, como o carvão, contêm carbono. Este aspeto escuro de Fobos levou à hipótese de que a lua é um asteroide cativo que passou demasiado perto de Marte.

Mas os cientistas que observam as órbitas das luas de Marte argumentaram que não podem ter sido capturadas. Estes cientistas pensam que as luas devem ter sido formadas ao mesmo tempo que Marte, ou como resultado de um impacto massivo no planeta durante os seus milénios formativos.

"Se conversarmos com as pessoas peritas em dinâmica orbital e descobrirmos porque é que certos corpos orbitam da maneira que orbitam, dizem que tendo em conta a inclinação e os detalhes da órbita de Fobos, é quase impossível ter sido capturada. De modo que temos os espectroscopistas a dizer uma coisa, e os dinamistas a dizer outra," comenta Glotch.

Impressões digitais de calor

Glotch decidiu analisar o problema sob uma luz diferente: no infravermelho médio, que está na mesma faixa que a temperatura corporal. Olhou para a assinatura de calor de Fobos, captada em 1998 por um instrumento que descreve como um extravagante termómetro a bordo da sonda Mars Global Surveyor. O veículo robótico passou a maior parte da sua vida olhando para Marte, mas deu uma rápida olhadela a Fobos quando passou perto da lua antes de assentar numa órbita mais próxima do planeta.

A energia térmica, tal como a luz visível, pode ser dividida num espectro de 'cores'." Até mesmo objetos que parecem escuros no visível podem brilhar com um espectro infravermelho distinto. Embora Fobos seja muito fria, o seu espectro de calor tem uma assinatura discernível.

Glotch e os seus alunos compararam os espectros infravermelhos médios de Fobos obtidos pela Mars Global Surveyor com amostras de um meteorito que caiu na Terra perto do Lago Tagish, na Colúmbia Britânica, que alguns cientistas sugeriram ser um fragmento de um asteroide de classe-D e de outros tipos de rocha. No laboratório, sujeitaram as suas amostras a condições de gélido vácuo, aquecendo-as por cima e por baixo, para simular as mudanças extremas na temperatura do lado ensolarado para o lado sombrio de objetos no espaço.

"Descobrimos que, nessas gamas de comprimento de onda, o meteorito do Lago Tagish não se parece nada com Fobos e, na realidade, o que mais se assemelha com Fobos, pelo menos numa das características do espectro, é basalto triturado, que é uma rocha vulcânica comum e a composição principal da crosta marciana," explica Glotch. "Isso leva-nos a achar que talvez Fobos possa ser o remanescente de um impacto que ocorreu no início da história marciana."

O novo estudo comparou espetros infravermelhos de uma amostra do meteoróide do Lago Tagish (esquerda) e de uma amostra triturada (direita), com espectros de Fobos recolhidos pela sonda Mars Global Surveyor em 1998.
Crédito: União Geofísica Americana
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Cozida" com crosta planetária?

O novo estudo não argumenta que Fobos é composto totalmente por material de Marte, mas os novos resultados são consistentes com a lua contendo uma porção da crosta do planeta, talvez como uma mistura de detritos do planeta e dos remanescentes do objeto impactante.

Fries, o cientista que não esteve envolvido no novo estudo, disse que o meteorito do Lago Tagish é invulgar e talvez não seja o melhor exemplo disponível de um asteroide de classe-D para uma comparação convincente com Fobos. Fries acrescentou que o novo estudo provavelmente não seria capaz de produzir uma resposta definitiva porque Fobos está sujeito ao intemperismo espacial, o que afeta o seu espectro de refletância e é difícil de replicar no laboratório.

Mas Fries achou interessante que uma mistura de material basáltico e rico em carbono fizesse uma combinação apropriada para Fobos. Outra possibilidade é que poeira espacial rica em carbono, na vizinhança de Marte, tenha-se acumulado nas luas próximas, escurecendo as suas superfícies.

Os cientistas poderão obter a sua resposta da origem de Fobos nos próximos anos, caso a sonda MMX (Martian Moons Exploration), a OSIRIS-REx e a exploradora de asteroide Hayabusa2 completem as suas missões de recolher amostras e de as enviarem para a Terra para análise. A Hayabusa2 pousou dois pequenos robôs no asteroide conhecido como Ryugu no passado dia 21 de setembro.

"O mais espetacular disto, é que é uma hipótese testável, porque os japoneses estão a desenvolver a missão MMX, que tem destino Fobos, onde vai recolher uma amostra e trazê-la de volta à Terra para que possamos analisá-la," conclui Glotch.

Links:

Notícias relacionadas:
União Geofísica Americana (comunicado de imprensa)
Artigo científico (Journal of Geophysical Reseach: Planets)
Astronomy
SPACE.com
Astronomy Now
ScienceDaily
Discover
spaceref
PHYSORG
UPI

Marte:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia

Fobos:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia

Deimos:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia

Mars Global Surveyor: 
Página da NASA
Wikipedia

Meteorito do Lago Tagish:
Wikipedia

MMX (Martian Moons Exploration):
JAXA
Wikipedia

OSIRIS-REx:
Página oficial
NASA
Facebook
Twitter
YouTube
Instagram
Wikipedia

Hayabusa 2:
JAXA
Wikipedia

 
SEGUINDO 'OUMUAMUA ATÉ AO SEU LOCAL DE ORIGEM
Impressão de artista do objeto interestelar 'Oumuamua.
As observações, desde a sua descoberta em 2017, mostram que o objeto está a desviar-se ligeiramente da trajetória que estaria a seguir se estivesse apenas sob a influência do Sol e dos planetas. Os investigadores assumem que a libertação de material da sua superfície, devido ao aquecimento pelo Sol, é responsável por este comportamento. Esta libertação de gás pode ser vista na impressão de artista como uma nuvem subtil.
Anteriormente, 'Oumuamua tinha sido classificado como asteroide, mas esta libertação de gases é mais típica dos cometas.
Crédito: ESA/Hubble, NASA, ESO, M. Kornmesser
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Uma equipa de astrónomos liderada por Coryn Bailer-Jones do Instituto Max Planck para Astronomia rastreou o objeto interestelar 'Oumuamua até várias possíveis estrelas hospedeiras. O objeto foi descoberto no final de 2017 - a primeira vez que os astrónomos foram capazes de observar um objeto astronómico de outro sistema estelar que visitou o nosso próprio Sistema Solar. Bailer-Jones e colegas usaram dados do satélite de astrometria da ESA, Gaia, para encontrar quatro estrelas plausíveis onde 'Oumuamua pode ter começado a sua longa jornada, há mais de um milhão de anos atrás.

A descoberta do objeto interestelar agora conhecido como 'Oumuamua, em outubro de 2017, foi uma novidade: pela primeira vez, os astrónomos foram capazes de observar um objeto interestelar a visitar o nosso Sistema Solar. Infelizmente, o visitante só foi avistado quando já estava de saída, mas os astrónomos ainda assim foram capazes de usar telescópios espaciais e terrestres para medir o movimento do objeto.

Agora, um grupo de astrónomos liderado por Coryn Bailer-Jones conseguiu retroceder o movimento de 'Oumuamua e identificar quatro estrelas candidatadas onde o objeto interestelar pode ter tido origem. Estudos anteriores já tinham tentado reconstruções parecidas da origem de 'Oumuamua, mas não haviam proposto candidatos plausíveis.

Um novo ingrediente crucial

Estes estudos anteriores não continham um ingrediente crucial: em junho de 2018, um grupo liderado pelo astrónomo Marco Micheli, da ESA, mostrou que a órbita de 'Oumuamua dentro do Sistema Solar não era a de um objeto em queda livre, isto é, um objeto que se movia exclusivamente sob a influência da gravidade. Em vez disso, havia alguma aceleração adicional quando o objeto estava perto do Sol. A explicação provável que é 'Oumuamua tinha alguma parecença com um cometa - com gelo que, quando suficientemente aquecido pela luz solar, produz gás que, por sua vez, acelera o objeto de origem como um motor extremamente fraco de um foguetão. Apesar de fraca - a libertação de gás não era visível em imagens como as dos cometas quando perto do Sol - é grande demais para ser ignorada quando traçando a órbita.

O novo estudo por Bailer-Jones e colegas tem em conta o modo como a órbita de 'Oumuamua mudou quando o objeto passou perto do Sol, dando aos astrónomos uma estimativa precisa da direção original do objeto, bem como da velocidade com que entrou no nosso Sistema Solar.

Aproveitando o tesouro de dados do Gaia

Isto pode resolver o problema de como 'Oumuamua entrou no Sistema Solar, mas e as estrelas que encontrou pelo caminho, e a sua gravidade combinada que teria influenciado a trajetória do objeto? Para esta parte da reconstrução, Bailer-Jones usou um tesouro de dados que a missão Gaia da ESA divulgou no passado mês de abril, o DR2 (Data Release 2). Como líder de um dos grupos encarregados de preparar os dados do Gaia para uso pela comunidade científica, Bailer-Jones está muito familiarizado com este conjunto específico de dados. Em particular, DR2 inclui informações precisas sobre as posições, movimento no céu e paralaxe (como medida de distância) para 1,3 mil milhões de estrelas. Para sete milhões delas, também temos informações sobre a velocidade radial, isto é, o seu movimento na nossa direção ou na direção oposta. Usando a base de dados astronómica Simbad, os astrónomos incluíram mais 220.000 estrelas no seu estudo, para o qual a velocidade radial está apenas disponível na base de dados Simbad.

Em seguida, os astrónomos observaram um percurso aproximado: um cenário simplificado no qual tanto 'Oumuamua como todas as estrelas se movem em linhas retas, a velocidades constantes. A partir desse cenário, selecionaram cerca de 4500 estrelas que eram candidatos promissores para um encontro mais próximo com 'Oumuamua. Então surgiu o próximo passo: traçar os movimentos anteriores destes candidatos e, para 'Oumuamua, usar uma versão suavizada da influência gravitacional de toda a matéria na nossa Galáxia (o "potencial galáctico suavizado").

À procura de candidatos

Vários estudos já haviam sugerido que 'Oumuamua tinha sido expulso do sistema planetário da sua estrela-mãe durante a fase de formação planetária, onde existem muitos objetos de tamanho pequeno ("planetesimais"), os quais interagem com planetas gigantes no sistema. O lar do objeto tem provavelmente duas características fundamentais: o rastreamento da órbita de 'Oumuamua leva-nos diretamente ou, pelo menos, muito próximo da estrela de origem. Em adição, a velocidade relativa de 'Oumuamua e da sua estrela-mãe devem ser, provavelmente e comparativamente, lentas - os objetos normalmente não são ejetados dos seus sistemas natais a grandes velocidades.

Bailer-Jones e colegas descobriram quatro estrelas que são possíveis candidatas a estrela-mãe de 'Oumuamua. Todas as quatro são estrelas anãs. A que passou mais perto de 'Oumuamua, pelo menos há um milhão de anos, é a estrela anã avermelhada HIP 3757. Passou a cerca de 1,96 anos-luz. Dadas as incertezas não explicadas nesta reconstrução, este valor é suficientemente próximo para que 'Oumuamua tenha tido origem neste sistema planetário (caso a estrela tenha um). No entanto, a velocidade relativa comparativamente grande (cerca de 25 km/s) torna-a menos provável como lar de 'Oumuamua.

A próxima candidata, HD 292249, é parecida com o nosso Sol, estava um pouco mais afastada da trajetória do objeto há 3,8 milhões de anos, mas com uma velocidade relativa mais pequena de 10 km/s. As duas candidatas adicionais encontraram 'Oumuamua há 1,1 e 6,3 milhões de anos, respetivamente, com velocidades e distâncias intermédias. Estas estrelas já foram catalogadas anteriormente por outros levantamentos, mas pouco se sabe sobre elas.

Mais direções

Apesar destas quatro estrelas serem candidatas plausíveis, ainda falta a "arma fumegante". A fim de expelir 'Oumuamua às velocidades observadas, o sistema natal precisaria de apresentar um planeta gigante adequado que pudesse atirar 'Oumuamua para as profundezas do espaço. Até agora, não foram detetados planetas em torno destas estrelas - mas tendo em conta que nenhuma delas foi examinada intimamente em busca de planetas, isso poderá mudar no futuro.

O estudo também está limitado pelo número de velocidades radiais incluídas no segundo lançamento de dados do Gaia. O terceiro lançamento de dados, previsto para 2021, deverá fornecer este tipo de dados para uma amostra estelar dez vezes maior, o que poderá levar à identificação de candidatas adicionais. A procura pelo sistema original de 'Oumuamua continua. O estudo aqui divulgado apresenta candidatos interessantes, mas ainda não rastreámos o visitante interestelar até à sua casa.

Links:

Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
29/06/2018 - VLT vê 'Oumuamua a acelerar
20/03/2018 - 'Oumuamua veio provavelmente de um sistema binário
09/02/2018 - As três surpresas de 'Oumuamua
19/12/2017 - Mais informações sobre o objeto 'Oumuamua
21/11/2017 - Observações do ESO mostram que o primeiro asteroide interestelar não é como nenhum objeto observado até à data
31/10/2017 - Pequeno asteroide ou cometa está apenas de "visita" ao Sistema Solar

Notícias relacionadas:
Instituto Max Planck para Astronomia (comunicado de imprensa)
ESA (comunicado de imprensa)
Artigo científico (arXiv.org)
SPACE.com
Universe Today
PHYSORG
UPI
Forbes

'Oumuamua:
JPL/NASA
Wikipedia

Gaia:
ESA
ESA - 2
Arquivo de dados do Gaia
Como usar os dados do Gaia
Recursos VR
SPACEFLIGHT101
Wikipedia

 
TEMPESTADES DE POEIRA EM TITÃ DESCOBERTAS PELA PRIMEIRA VEZ PELA CASSINI
Impressão de artista de uma tempestade de poeira em Titã. Os investigadores pensam que podem ser levantadas grandes quantidades de poeira em Titã, a maior lua de Saturno, por fortes rajadas de vento que têm origem em poderosas tempestades de metano. Estas tempestades de metano, observadas anteriormente em imagens obtidas pela sonda Cassini, podem formar campos de dunas que cobrem as regiões equatoriais desta lua, especialmente perto do equinócio, a altura do ano em que o Sol atravessa o equador.
Crédito: IPGP/Labex UnivEarthS/Universidade de Paris Diderot - C. Epitalon & S. Rodriguez
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Dados da sonda internacional Cassini, que explorou Saturno e as suas luas entre 2004 e 2017, revelaram o que parecem ser tempestades de poeira gigantes nas regiões equatoriais de Titã.

A descoberta, descrita num artigo publicado na Nature Geoscience, faz de Titã o terceiro corpo do Sistema Solar onde foram observadas tempestades de poeira - os outros dois são Terra e Marte.

A observação está a ajudar os cientistas a entender melhor o ambiente fascinante e dinâmico da maior lua de Saturno.

"Titã é uma lua muito ativa," diz Sebastien Rodriguez, astrónomo da Universidade Paris Diderot, na França, e principal autor do estudo.

"Já sabemos disso sobre a sua geologia e o ciclo exótico de hidrocarbonetos. Agora podemos adicionar outra analogia com a Terra e Marte: o ciclo de poeira ativa."

Moléculas orgânicas complexas, que resultam da química atmosférica e que, uma vez grandes o suficiente acabam por cair na superfície, podem ser levantadas a partir de grandes campos de dunas ao redor do equador de Titã.

Titã é um mundo intrigante - de uma maneira bastante semelhante à Terra. Na verdade, é a única lua do Sistema Solar com uma atmosfera substancial e o único corpo celeste que não o nosso planeta, onde se sabe que ainda existem corpos estáveis de líquido superficial.

Há, no entanto, uma grande diferença: enquanto na Terra esses rios, lagos e mares estão cheios de água, em Titã é principalmente o metano e o etano que fluem através desses reservatórios líquidos. Neste ciclo único de metano, as moléculas de hidrocarbonetos evaporam, condensam-se em nuvens e chovem de volta ao solo.

Esta animação, baseada em imagens captadas pelo instrumento VIMS (Visual and Infrared Mapping Spectrometer) da missão Cassini durante vários "flybys" por Titã em 2009 e 2010, mostra manchas claras e brilhantes perto do equador por volta do equinócio, interpretadas como evidências de tempestades de poeira. Foram visíveis apenas por um período curto de tempo - entre 11 horas a cinco semanas terrestres - e não podem ser observadas em imagens anteriores ou subsequentes.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona/Universidade de Paris Diderot/IPGP/S. Rodriguez et al. 2018
(clique na imagem para ver versão maior)
 

O tempo em Titã varia de estação para estação, assim como na Terra. Em particular, em torno do equinócio, na altura em que o Sol cruza o equador de Titã, podem formar-se nuvens maciças em regiões tropicais e causar fortes tempestades de metano. A Cassini observou tais tempestades durante vários dos seus voos aproximados a Titã.

Quando Sebastien e a sua equipa viram pela primeira vez três clarões equatoriais incomuns em imagens de infravermelho obtidas pela Cassini, ao redor do equinócio do norte da lua em 2009, pensaram que poderiam ser exatamente essas nuvens de metano. Uma investigação completa revelou que, afinal, eram algo completamente diferente.

"Do que sabemos sobre a formação de nuvens em Titã, podemos dizer que essas nuvens de metano, nesta área e nesta época do ano, não são fisicamente possíveis," diz Sebastien. "As nuvens de metano convectivas que podem desenvolver-se nesta área e durante este período de tempo, conteriam gotículas enormes e deveriam estar em altitudes muito altas, muito maiores que os 10 km que a modelação nos diz sobre a localização destas particularidades."

Os investigadores também foram capazes de descartar que as características estavam na superfície sob a forma de chuva congelada de metano ou de gelo. Estes pontos de superfície teriam uma assinatura química diferente e permaneceriam visíveis durante muito mais tempo, enquanto as características brilhantes deste estudo foram apenas visíveis de 11 horas a cinco semanas.

A modelação também mostrou que as características devem ser atmosféricas, mas ainda próximas da superfície - muito provavelmente formando uma camada muito fina de minúsculas partículas orgânicas sólidas. Uma vez que estavam localizadas sobre os campos de dunas ao redor do equador de Titã, a única explicação restante era que os pontos eram, na realidade, nuvens de poeira levantadas a partir das dunas.

Esta compilação de imagens captadas pelo instrumento VIMS (Visual and Infrared Mapping Spectrometer) da missão Cassini durante vários "flybys" por Titã em 2009 e 2010, mostra manchas claras e brilhantes perto do equador por volta do equinócio, interpretadas como evidências de tempestades de poeira. Foram visíveis apenas por um período curto de tempo - entre 11 horas a cinco semanas terrestres - e não podem ser observadas em imagens anteriores ou subsequentes.
Ao analisarem os espectros infravermelhos destas imagens, os cientistas descobriram que estas manchas eram provavelmente grandes nuvens de poeira levantadas dos campos de dunas de Titã. É a primeira vez que foram observadas tempestades de poeira em Titã, tornando esta intrigante lua de Saturno apenas o terceiro corpo do Sistema Solar com um ciclo ativo de poeira, depois da Terra e de Marte.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona/Universidade de Paris Diderot/IPGP/S. Rodriguez et al. 2018
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Sebastien diz que embora esta seja a primeira observação de uma tempestade de poeira em Titã, a descoberta não é surpreendente.

"Pensamos que a sonda Huygens, que pousou na superfície de Titã em janeiro de 2005, levantou uma pequena quantidade de poeira orgânica na chegada, devido à sua poderosa esteira aerodinâmica," diz Sebastien. "Mas o que vimos aqui com a Cassini é numa escala muito maior. As velocidades de vento próximas da superfície necessárias para elevar uma quantidade tão grande de poeira, como vemos nestas tempestades de poeira, teriam de ser muito fortes - cerca de cinco vezes mais fortes que a velocidade média estimada pelas medições da Huygens perto da superfície e com modelos climáticos".

A Huygens fez apenas uma medição direta da velocidade do vento superficial pouco antes de aterrar em Titã e, naquela época, era muito baixa, menos de 1 metro por segundo.

"No momento, a única explicação satisfatória para estes fortes ventos da superfície é que estes podem estar relacionados às poderosas rajadas que podem surgir diante das imensas tempestades de metano que observamos naquela área e estação do ano," conclui Sébastien.

Este fenómeno, denominado de "haboob", também pode ser observado na Terra, com nuvens de poeira gigantes que precedem tempestades em áreas áridas.

A existência de ventos tão fortes que geram tempestades de poeira maciças também implica que a areia subjacente seja igualmente posta em movimento, e que as gigantes dunas que cobrem as regiões equatoriais de Titã ainda estão ativas e em mudança contínua.

Os ventos poderiam estar a transportar a poeira levantada das dunas através de grandes distâncias, contribuindo para o ciclo global de poeira orgânica em Titã, e causando efeitos similares àqueles que podem ser observados na Terra e em Marte.

Links:

Notícias relacionadas:
ESA (comunicado de imprensa)
NASA (comunicado de imprensa)
Artigo científico (Nature Geoscience)
SPACE.com
Astrobiology Magazine
spaceref
Astronomy Now
ZME Science
PHYSORG
Gizmodo

Cassini:
NASA
Wikipedia

Huygens:
ESA
Wikipedia

Saturno:
Solarviews
Wikipedia

Titã:
Solarviews
Wikipedia

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
  Como as estrelas giram (via Universidade NY de Abu Dhabi)
As estrelas parecidas com o Sol giram até duas vezes e meia mais depressa no equador do que a latitudes mais altas. Até agora, pouco se sabia sobre os precisos padrões rotacionais de estrelas tipo-Sol, apenas que o equador gira mais depressa do que latitudes mais altas, tal como o Sol. Cientistas usaram a missão Kepler para determinar com precisão a rotação destas estrelas. Ler fonte
     
  Um novo esquema de classificação para os tamanhos dos exoplanetas (via Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica)
Nos mais recentes catálogos, existem mais ou menos 4433 exoplanetas conhecidos. Os seus raios têm sido medidos conhecendo os raios das suas estrelas-mãe e ajustando as curvas de luz à medida que transitam em frente. O raio da estrela hospedeira é portanto um parâmetro chave e o catálogo mais recente da missão Gaia permitiu que os astrónomos melhorassem a precisão das propriedades estelares no seu catálogo - até cerca de 8% - para quase 108.000 estrelas nos campos de visão do Kepler. Ler fonte
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - M33: Galáxia do Triângulo
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Christoph KaltseisCEDIC
 
A pequena constelação do Triângulo contém esta espantosa galáxia espiral, M33. Entre os seus nomes populares destacam-se Galáxia do Catavento e Galáxia do Triângulo. M33 mede mais de 50.000 anos-luz em diâmetro e é a terceira maior galáxia do Grupo Local, a seguir à Galáxia de Andrómeda (M31) e à nossa Via Láctea. A cerca de 3 milhões de anos-luz da nossa Galáxia, pensa-se que a própria M33 seja uma galáxia satélite da Galáxia de Andrómeda e quaisquer astrónomos que se encontrem nestas duas galáxias muito provavelmente têm vistas espetaculares dos sistemas estelares espirais uma da outra. No que diz respeito à vista a partir do planeta Terra, esta imagem detalhada mostra os enxames azuis e as regiões de formação estelar cor-de-rosa de M33, que traçam os mais ou menos entrelaçados braços espirais da galáxia. De facto, a cavernosa NGC 604 é a região de formação estelar mais brilhante, vista aqui na posição das 7 horas a partir do centro da galáxia. Tal como M31, a população bem medida de estrelas variáveis em M33 tem ajudado a fazer deste nosso vizinho galáctico uma espécie de "régua cósmica" para estabelecer a escala de distâncias do Universo.
 

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