Problemas ao ver este e-mail?
Veja no browser

 
 
  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1765  
  05/02 a 08/02/2021  
     
 
Efemérides

Dia 05/02: 36.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1924, o Observatório Real de Greenwich começa a emissão dos sinais horários conhecidos como o Sinal de Greenwich.
Em 1937 nascia Alar Toomre, astrónomo estónio-americano cuja pesquisa se focou na dinâmica das galáxias. 
Em 1963, Maarten Schmidt descobre enormes desvios para o vermelho em quasares. Schmidt deu ao objeto 3C 273 o termo objeto "quasi-estelar" ou quasar; milhares foram descobertos desde então. 
Em 1967, a Lunar Orbiter 3 é lançada a partir de Cabo Canaveral, com o objetivo de descobrir locais de aterragem para as Surveyor e Apollo
Em 1971, o módulo lunar da missão Apollo 14 fazia a sua alunagem.
Alan Shepard em Fra Mauro (Crédito: NASA)
Em 1974, passagem da Mariner 10 por Vénus. A sonda mostra que as nuvens contornam o planeta em apenas 4 dias terrestres, embora o planeta propriamente dito demore 243 dias terrestres a completar uma rotação sobre o seu eixo.
Em 2002, o observatório solar RHESSI (Reuven Ramaty High Energy Solar Spectroscopic Imager) finalmente chega ao espaço, a bordo de um foguetão Pegasus. 
Observações: Assim que fique completamente de noite, aviste o equilátero Triângulo de Inverno a sudeste. Sirius é a estrela mais brilhante e também a mais baixa das três. Betelgeuse encontra-se alta bem acima de Sirius, a cerca de dois punhos à distância do braço esticado. Para a esquerda do seu ponto médio está Procyon.
Consegue discernir as suas cores? Sirius (tipo espectral A0) é branca, Betelgeuse (M2) tem um tom pálido laranja-amarelado e Procyon (F5) um tom mais pálido amarelo-esbranquiçado.

Dia 06/02: 37.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1582, nascia Mario Bettinus, astrónomo, matemático e filósofo italiano. A cratera Bettinus, na Lua, tem o seu nome.
Em 1927, nascia Gerard K. O'Neill, físico americano e ativista espacial que desenvolveu um plano para construir habitações humanas no espaço, incluindo um habitat conhecido como cilindro de O'Neill.
Em 1959, era lançado com sucesso de Cabo Canaveral o primeiro míssil balístico Titan.

Em 1971, Alan Shepard (Apollo 14) dá as primeiras tacadas de golfe na Lua.
Em 2018, o foguetão Falcon Heavy da SpaceX faz o seu voo inaugural.
Observações: Antes e durante o amanhecer, aviste a Lua a sul-sudeste com Antares a 4º ou 5º para baixo e para a sua esquerda.

Dia 07/02: 38.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1979, Plutão movia-se para dentro da órbita de Neptuno pela primeira vez desde a sua descoberta. Sai de dentro da órbita de Neptuno no dia 11 de fevereiro de 1999.
Em 1984, durante a missão STS-41-B do programa do vaivém espacial, os astronautas Bruce McCandless II e Robert L. Stewart fazem o pimeiro passeio espacial sem ligação ao vaivém usando a Unidade de Manobra Tripulada.
Em 1991, a nave Salyut 7 despenha-se na atmosfera sobre a Argentina.
Em 1999, lançamento da sonda Stardust da NASA. Foi a primeira missão a recolher amostras de poeira cometária (Wild 2) e poeira cósmica.
Em 2001, lançamento da missão STS-98, do vaivém Atlantis, com o módulo "Destiny" da Estação Espacial Internacional. O lançamento ao pôr-do-Sol é descrito por muitos observadores experientes como dos lançamentos mais bonitos que alguma vez viram.

Em 2016, a Coreia do Norte lança o satélite Kwangmyŏngsŏng-4 para o espaço.
Observações: O maior asterismo do céu (padrão informal de estrelas) - pelo menos o maior largamente reconhecido - é o Hexágono de Inverno. Preenche o céu a sudeste por estas noites. Comece com a brilhante Sirius em baixo. No sentido dos ponteiros do relógio, prossiga até Procyon, Pollux e Castor, Menkalinan e Capella bem alto, descendo por Aldebarã, Rigel no pé de Orionte e finalmente de volta a Sirius.
Betelgeuse brilha dentro do Hexágono, um pouco fora do centro.
O Hexágono é um pouco distendido. Mas se desenhar uma linha através da linha que passa por Capella até Sirius, o Hexágono é razoavelmente simétrico em relação a esse eixo.

Dia 08/02: 39.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1969, o meteorito Allende cai perto de Pueblito de Allende, Chihuahua, México.

Em 1974, após 84 dias no espaço, a última tripulação da primeira estação espacial americana, a Skylab, regressa à Terra.
Em 1992, a sonda espacial Ulysses usa a gravidade de Júpiter para poder explorar os polos do Sol.
Observações: Mercúrio em conjunção inferior, pelas 13:50.

 
 
   
Evidências de substância na fronteira líquido-gás no exoplaneta WASP-31b

Uma das propriedades que tornam um planeta adequado para a vida é a presença de um sistema meteorológico. Os exoplanetas estão demasiado longe para observar isto diretamente, mas os astrónomos podem procurar substâncias na atmosfera que tornam possível um sistema meteorológico. Investigadores do Instituto SRON para Pesquisas Espaciais dos Países Baixos e da Universidade de Groninga encontraram agora evidências no exoplaneta WASP-31b de hidreto de cromo, que à temperatura e pressão correspondentes, está na fronteira entre o líquido e o gás. O artigo científico foi publicado na edição de 3 de fevereiro da revista Astronomy & Astrophysics.

 
Um Júpiter quente transita em frente da sua estrela-mãe nesta impressão de artista.
Crédito: ESA/ATG medialab
 

Enquanto as sondas espaciais examinam os planetas e as luas que orbitam o nosso Sol em busca de vida extraterrestre, existem centenas de milhares de milhões de outras estrelas na nossa Galáxia, a maioria das quais provavelmente também rodeada por planetas. Estes exoplanetas estão demasiado distantes para se viajar até lá, mas podemos estudá-los com os nossos telescópios. Embora a resolução espacial seja geralmente insuficiente para tirar fotos de um exoplaneta, os astrónomos ainda podem obter muitas informações das "impressões digitais" que a atmosfera deixa nos raios de luz da estrela hospedeira.

A partir destas impressões digitais - os chamados espectros de transmissão - os astrónomos podem deduzir quais os elementos químicos na atmosfera de um exoplaneta. Esses poderão um dia dar indícios de vida extraterrestre. Ou poderão mostrar que há condições para vida, como um sistema meteorológico. No entanto, por enquanto este tipo de investigação está limitado a planetas gigantes próximos das suas estrelas, os chamados Júpiteres quentes. Estes planetas são quentes demais para suportar vida, mas já nos podem ensinar muito sobre como funcionam os possíveis sistemas meteorológicos. Uma equipa de investigação do Instituto SRON para Pesquisas Espaciais dos Países Baixos e da Universidade de Groninga encontrou evidências de uma substância na fronteira entre líquido e gás. Na Terra, isto é reminiscente de nuvens e chuva.

O autor principal Marrick Braam e colegas encontraram evidências, nos dados do Hubble, de hidreto de cromo (CrH) na atmosfera do exoplaneta WASP-31b. É um Júpiter quente com uma temperatura de aproximadamente 1200º C na zona crepuscular entre o dia e a noite - o local onde a luz estelar viaja pela atmosfera até à Terra. E ronda a temperatura a que o hidreto de cromo faz a transição de líquido para gás à pressão correspondente nas camadas externas do planeta, semelhante às condições da água na Terra. "O hidreto de cromo pode desempenhar um papel num possível sistema meteorológico neste planeta, com nuvens e chuva," diz Braam.

É a primeira vez que o hidreto de cromo é encontrado num Júpiter quente e, portanto, à pressão e temperatura certas. Braam: "Devemos acrescentar que só encontrámos hidreto de cromo usando o Telescópio Espacial Hubble. Não o vimos nos dados do telescópio terrestre VLT. Existem explicações lógicas para isto e portanto usamos o termo evidência em vez de prova."

Quando o sucessor do Hubble - o Telescópio Espacial James Webb - for lançado no final deste ano, a equipa planeia usá-lo para futuras investigações. "Os Júpiteres quentes, incluindo WASP-31b, têm sempre o mesmo lado voltado para a sua estrela hospedeira," diz o coautor e líder do programa SRON Exoplanets, Michiel Min. "Portanto, esperamos um lado diurno com hidreto de cromo na forma gasosa e um lado noturno com hidreto de cromo líquido. De acordo com os modelos teóricos, a grande diferença de temperatura cria ventos fortes. Queremos confirmar isto com observações."

Floris van der Tak (SRON/UG), também coautor: "Com o JWST, estaremos à procura de hidreto de cromo em dez planetas com temperaturas diferentes, para entender melhor como os sistemas meteorológicos nesses planetas dependem da temperatura."

// SRON (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

WASP-31b:
NASA
Exoplanet.eu
Wikipedia

Hidreto de cromo:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
STScI (website para o público)
ESA
Wikipedia
Facebook
Twitter
Instagram

 
   
Astrónomos avistam atividade bizarra, nunca antes vista de um dos ímanes mais fortes do Universo

Astrónomos do OzGrav (Centro ARC de Excelência para Descoberta de Ondas Gravitacionais) e da CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation) observaram um comportamento bizarro e nunca antes visto de um magnetar "barulhento no rádio" - um tipo raro de estrela de neutrões e um dos ímanes mais fortes do Universo.

As suas novas descobertas, publicadas na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, sugerem que os magnetares têm campos magnéticos mais complexos do que se pensava - o que pode desafiar as teorias de como nascem e evoluem ao longo do tempo.

 
Impressão de artista do magnetar ativo Swift J1818.0-1607.
Crédito: Carl Knox, OzGrav
 


Os magnetares são um tipo raro de estrelas de neutrões giratória com alguns dos campos magnéticos mais poderosos do Universo. Os astrónomos só detetaram trinta destes objetos dentro e ao redor da Via Láctea - a maioria deles descobertos por telescópios de raios-X após uma explosão altamente energética.

No entanto, um punhado destes magnetares também emitiu pulsos de rádio semelhantes aos pulsares - os primos menos magnéticos dos magnetares que produzem feixes de ondas de rádio a partir dos seus polos magnéticos. Rastrear como os pulsos destes magnetares "barulhentos no rádio" mudam ao longo do tempo fornece uma janela única para a sua evolução e geometria.

Em março de 2020, um novo magnetar chamado Swift J1818.0-1607 (J1818 para abreviar) foi descoberto depois de ter emitido uma brilhante explosão de raios-X. Observações rápidas de acompanhamento detetaram pulsos de rádio originários do magnetar. Curiosamente, a aparência dos pulsos de rádio de J1818 era bem diferente daqueles vistos noutros magnetares "barulhentos no rádio".

A maioria dos pulsos de rádio dos magnetares mantém um brilho consistente numa ampla faixa de frequências de observação. No entanto, os pulsos de J1818 eram muito mais brilhantes em frequências baixas do que em frequências altas - semelhante ao que é visto nos pulsares, outro tipo comum de estrela de neutrões emissora de rádio.

A fim de entender melhor como J1818 iria evoluir ao longo do tempo, uma equipa liderada por cientistas do OzGrav (Centro ARC de Excelência para Descoberta de Ondas Gravitacionais) observou-o oito vezes com o radiotelescópio Parkes da CSIRO (também conhecido como Murriyang) entre maio e outubro de 2020.

Durante este tempo, descobriram que o magnetar passou por uma breve crise de identidade: em maio, ainda estava a emitir os pulsos invulgares de pulsar que haviam sido detetados anteriormente; no entanto, em junho começou a piscar entre um estado brilhante e um estado fraco. Este comportamento oscilante atingiu um pico em julho, quando o viram a alternar entre pulsos de rádio semelhantes aos dos pulsares e pulsos de rádio semelhantes aos dos magnetares.

"Este comportamento bizarro nunca tinha sido visto antes em qualquer outro magnetar 'barulhento no rádio'," explica Marcus Lower, autor principal do artigo científico e estudante de doutoramento da Universidade Swinburne/CSIRO. "Parece ter sido um fenómeno de curta duração já que, na nossa observação seguinte, estabeleceu-se permanentemente neste novo estado semelhante a um magnetar."

Os cientistas também procuraram alterações na forma do pulso e no brilho em diferentes frequências de rádio e compararam as suas observações com um modelo teórico com 50 anos. Este modelo prevê a geometria esperada de um pulsar, com base na direção de torção da sua luz polarizada. "A partir das nossas observações, descobrimos que o eixo magnético de J1818 não está alinhado com o seu eixo de rotação," diz Lower.

"Em vez disso, o polo magnético emissor de rádio parece estar no seu hemisfério sul, localizado logo abaixo do equador. A maioria dos outros magnetares têm campos magnéticos que estão alinhados com os seus eixos de rotação ou são um pouco ambíguos."

"Esta é a primeira vez que vimos definitivamente um magnetar com um polo magnético desalinhado." Notavelmente, esta geometria magnética parece ser estável na maioria das observações. Isto sugere que quaisquer mudanças no perfil do pulso são simplesmente devido às variações na altura a que os pulsos de rádio são emitidos acima da superfície da estrela de neutrões. No entanto, a observação de 1 de agosto de 2020 destaca-se como uma curiosa exceção.

"O nosso melhor modelo geométrico para esta data sugere que o feixe de rádio mudou brevemente para um polo magnético completamente diferente localizado no hemisfério norte do magnetar," explica Lower. Uma falta distinta de quaisquer mudanças na forma do perfil de pulso do magnetar indica que as mesmas linhas de capo magnético que acionam os pulsos de rádio "normais" também devem ser responsáveis pelos pulsos vistos do outro polo magnético.

O estudo sugere que isto são evidências de que os pulsos de rádio de J1818 têm origem em "loops" de linhas de campo magnético que ligam dois polos próximos, como aqueles vistos a ligarem os dois polos de um ímane em "ferradura" ou em manchas solares no Sol. Isto é diferente da maioria das estrelas de neutrões comuns, que devem ter polos norte e sul em lados opostos da estrela, que são ligados por um campo magnético em forma de donut.

Esta configuração peculiar do campo magnético também é apoiada por um estudo independente dos pulsos de raios-X de J1818 que foram detetados pelo telescópio NICER a bordo da Estação Espacial Internacional. Os raios-X parecem vir de uma única região distorcida de linhas de campo magnético que emergem da superfície do magnetar ou de duas regiões mais pequenas, mas bem espaçadas.

Estas descobertas têm implicações potenciais para as simulações de computador de como os magnetares nascem e evoluem durante longos períodos de tempo, já que as geometrias de campo magnético mais complexas mudarão a rapidez com que os seus campos magnéticos se devem deteriorar com o tempo. Além disso, as teorias que sugerem que as FRBs (Fast Radio Bursts) podem ter origem nos magnetares terão que levar em conta os pulsos de rádio potencialmente originários de vários locais ativos dentro dos seus campos magnéticos.

Captar uma inversão dos polos magnéticos em ação também pode proporcionar a primeira oportunidade de mapear o campo magnético de um pulsar.

"O telescópio Parkes vai continuar a observar atentamente o magnetar durante o próximo ano," diz o cientista e coautor do estudo Simon Johnson, da CSIRO.

// OzGrav (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

CCVAlg - Astronomia:
12/01/2021 - J1818.0-1607: Chandra estuda magnetar extraordinário
19/06/2020 - XMM-Newton espia pulsar bebé mais jovem alguma vez descoberto

Magnetar:
Wikipedia
AstronomyOnline.org

Estrelas de neutrões:
Wikipedia
Universidade de Maryland

Pulsares:
Wikipedia
Catálogo ATNF de Pulsares

Radiotelescópio Parkes:
CSIRO
Wikipedia

 
   
Será que a superfície de Fobos pode revelar segredos sobre o passado de Marte?

Uma nova investigação mostra que a lua marciana Fobos orbita numa corrente de átomos e moléculas carregadas que fluem da atmosfera do Planeta Vermelho. Muitas destas partículas carregadas, ou iões, de oxigénio, carbono, azoto e árgon, escapam de Marte há milhares de milhões de anos, enquanto o planeta se desfaz da sua atmosfera. De acordo com um artigo científico publicado dia 1 de fevereiro na revista Nature Geoscience, alguns iões, preveem os cientistas, estão a colidir com a superfície de Fobos e podem ser preservados na sua camada superior.

Isto significa que, se o solo de Fobos fosse analisado em laboratórios na Terra, poderia revelar informações importantes sobre a evolução da atmosfera marciana, dizem os cientistas. Marte já teve uma atmosfera espessa o suficiente para suportar água líquida à sua superfície; hoje, é menos de 1% tão densa quanto a da Terra.

 
Imagem de Fobos obtida no dia 23 de março de 2008, pelo instrumento HiRISE (High Resolution Imaging Science Experiment) a bordo da sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) da NASA.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona
 

"Nós sabíamos que Marte perdeu a sua atmosfera para o espaço, e agora sabemos que parte dela acabou em Fobos," disse Quentin Nénon, investigador do SSL (Space Sciences Laboratory) na Universidade da Califórnia, Berkeley, autor principal do estudo.

Fobos é uma das duas luas de Marte (a outra chama-se Deimos). Orbita intimamente perto do Planeta Vermelho, cerca de 60 vezes mais perto do que a Lua orbita a Terra, como medido aproximadamente de superfície a superfície. Deformada, marcada por crateras e 100 vezes mais pequena em diâmetro do que a Lua da Terra, Fobos é fonte de grande controvérsia entre os cientistas. O mistério é saber a origem de Fobos e Deimos. São asteroides capturados pela gravidade marciana ou satélites naturais de Marte que foram formados pela mesma nuvem que produziu o planeta? É também possível que tenham sido formados a partir dos destroços expelidos por Marte quando colidiu com algo, semelhante à nossa Lua que se formou depois da Terra ter colidido com um objeto rochoso.

A fim de ajudar a resolver o debate, a JAXA (Japan Aerospace Exploration Agency) está a preparar-se para enviar a sonda MMX (Martian Moons Exploration) para Fobos em 2024 a fim de recolher as primeiras amostras da sua superfície e enviá-las para a Terra. Mas essas amostras, observou Nénon, poderão revelar muito mais do que a origem de Fobos caso a MMX pousasse no lado visível da lua, o lado que está sempre voltado para Marte.

Fobos tem bloqueio de marés com Marte, tal como a Lua mostra sempre a mesma face à Terra. Como resultado, as rochas no lado visível de Fobos há milénios que são banhadas por átomos e moléculas marcianas. A investigação de Nénon mostra que a camada superior da superfície do lado visível de Fobos foi submetida a 20-100 vezes mais iões marcianos "rebeldes" do que o seu lado oculto.

"Com uma amostra do lado visível," disse Nénon, "podíamos ver um arquivo da atmosfera passada de Marte nas camadas mais rasas de grãos, enquanto mais profundamente podíamos ver a composição primitiva de Fobos."

A equipa de Nénon analisou dados da MAVEN (Mars Atmosphere and Volatile EvolutioN) da NASA para chegar a esta conclusão. A MAVEN recolhe dados a partir de órbita marciana há mais de seis anos para ajudar os cientistas a descobrir como Marte perdeu a sua atmosfera e para fornecer outras informações científicas sobre a evolução climática do planeta. Dado que a espaçonave cruzou a órbita de Fobos cerca de cinco vezes por cada dia terrestre enquanto orbitava Marte durante a sua missão principal, Nénon e colegas descobriram que podiam usar as medições da MAVEN para aprender mais sobre Fobos, especialmente tendo em conta que é o alvo da próxima missão MMX.

Eles contaram com o instrumento STATIC (Suprathermal and Thermal Ion Composition) da MAVEN para medir os iões marcianos na órbita de Fobos. O STATIC mede a energia cinética e a velocidade das partículas. Isto permite que os cientistas calculem a sua massa. Com base nas diferentes massas dos iões medidos, o STATIC determinou quais as partículas que vieram de Marte em vez do Sol. O Sol também emite iões destruidores de atmosferas, embora predominantemente com massa muito mais baixa. Os cientistas então estimaram quantos iões podiam chegar à superfície de Fobos e quão profundamente seriam implantados (não mais do que várias centenas de nanómetros, cerca de 250 vezes menos espesso do que um cabelo humano).

"O que Quentin fez foi pegar nas investigações que fizemos na Lua e em outras luas do Sistema Solar e aplicou pela primeira vez os mesmos métodos a Fobos," disse Andrew Poppe, cientista associado do SSL e coautor do artigo sobre Fobos.

De facto, o estudo das luas para aprender mais sobre os seus planetas é uma prática comum. A Lua da Terra, por exemplo, sem atmosfera, sem vento ou água para "apagar" pistas antigas da sua superfície, é considerada pelos cientistas como o arquivo mais bem preservado que temos do início do Sistema Solar.

"O que vimos nas amostras das Apollo é que a Lua tem registado pacientemente átomos individuais vindos do Sol e da Terra," disse Poppe. "É um registo histórico muito importante."

Os cientistas esperam que mais amostras da superfície da Lua nos informem sobre a antiga atmosfera ou sobre o campo magnético primitivo da Terra. Poppe, cujos colegas de Berkeley projetaram e construíram o instrumento STATIC, disse que se perguntava se a superfície de Fobos seria capaz de revelar informações sobre o início de Marte, quando o planeta parece ter sido quente e húmido.

De modo que quando se viu, há vários anos, sem serviço de internet no laboratório, "fui forçado a conversar com os meus colegas durante uma pausa para café porque não tínhamos nada melhor para fazer," disse Poppe. Ele perguntou-lhes se Fobos podia ser submetido a iões marcianos como a Lua da Terra é frequentemente sujeita a partículas oriundas da Terra. "Vocês têm alguma evidência disto?", perguntou.

Nunca ninguém havia investigado isto, e assim sendo Poppe fez alguns modelos de computador que indicavam que estava no caminho certo. Quando Nénon se juntou em 2019 ao SSL, ofereceu-se para examinar os dados da MAVEN a fim de descobrir se o modelo de Poppe estava certo. E afinal estava. "Esperamos que esta descoberta tenha um impacto nas atividades científicas da missão MMX," disse Nénon.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Geoscience)
// MAVEN: órbita de ciência (NASA via YouTube)

 


Saiba mais

Cobertura da missão MAVEN pelo CCVAlg - Astronomia:
17/11/2020 - Calor e poeira ajudam a lançar água marciana para o espaço
07/02/2020 - MAVEN explora Marte a fim de compreender a interferência de rádio na Terra
10/09/2019 - Investigação da NaSA fornece novas informações sobre a perda atmosférica de Marte
15/02/2019 - Sonda MAVEN vai diminuir a sua órbita em preparação para o rover 2020 da NASA
25/01/2018 - Tempestades de poeira ligadas à fuga atmosférica de Marte
02/01/2018 - Missão marciana lança luz sobre habitabilidade de exoplanetas
24/10/2017 - MAVEN descobre que Marte tem uma "cauda torcida"
04/04/2017 - Sonda MAVEN revela que maior parte da atmosfera marciana foi perdida para o espaço
06/11/2015 - MAVEN revela velocidade a que o vento solar retira atmosfera de Marte
23/06/2015 - Marte é uma "estrela de rock"
20/03/2015 - MAVEN deteta auroras e misteriosa nuvem de poeira em torno de Marte
19/12/2014 - MAVEN identifica elos da cadeia que leva a perda atmosférica
23/09/2014 - MAVEN chega a Marte, amanhã é a vez da indiana Mangalyaan
19/09/2014 - MAVEN chega a Marte este fim-de-semana 
19/11/2013 - Lançamento da MAVEN 
15/11/2013 - MAVEN vai investigar o que aconteceu em Marte 
01/11/2013 - NASA prepara lançamento da 1.ª missão de exploração da atmosfera marciana

CCVAlg - Astronomia:
28/09/2018 - Lua marciana pode ter surgido de um impacto com o planeta

Marte:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia
Atmosfera de Marte (Wikipedia)

Fobos:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia

Deimos:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia

MAVEN:
NASA
NASA - 2
Wikipedia

MMX (Martian Moons eXploration):
JAXA
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  Inteligência artificial encontra mais de 1200 candidatos a lente gravitacional (via Berkeley Lab)
Uma equipa de investigação com participação de físicos do Berkeley Lab usaram inteligência artificial para identificar mais de 1200 possíveis lentes gravitacionais - objetos que podem ser marcadores poderosos da distribuição de matéria escura. Esta contagem, caso todos os candidatos forem de facto lentes, mais que duplicaria o número de lentes gravitacionais conhecidas. Ler fonte
     
  Astrónomos detetam halo estendido de matéria escura em torno de antiga galáxia anã (via MIT)
A Via Láctea está rodeada por dúzias de galáxias anãs que se pensa serem relíquias das primeiras galáxias do Universo. Entre os mais primitivos destes fósseis galácticos está Tucana II - uma galáxia anã ultraténue que fica a cerca de 50 kiloparsecs, ou 163.000 anos-luz da Terra. Agora, astrofísicos descobriram estrelas no limite de Tucana II, numa configuração surpreendentemente distante do seu centro mas que no entanto ainda são atraídas pela gravidade da galáxia. É a primeira evidência de que Tucana II contém um halo estendido de matéria escura - uma região que os cientistas calcularam ser três a cinco vezes mais massiva do que tinham previamente estimado. Ler fonte
 
   
Álbum de fotografias - Apollo 14: Vista do Módulo Antares
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Edgar Mitchell, Apollo 14NASA; Mosaico - Eric M. Jones
 
Há cinquenta anos atrás, nesta sexta-feira, o Módulo Lunar Antares da Apollo 14 pousava na Lua. Perto do final da estadia, o astronauta Ed Mitchell tirou uma série de fotos da superfície lunar enquanto olhava por uma janela, reunidas neste mosaico detalhado pelo editor do website Apollo Lunar Surface Journal, Eric Jones. A vista olha para as terras altas Fra Mauro, a noroeste do local de pouso, depois dos astronautas da Apollo 14 terem completado a sua segunda e última caminhada na Lua. Em primeiro plano está o MET (Modular Equipment Transporter), um dispositivo parecido a um riquexó de duas rodas usado para transportar ferramentas e amostras. Perto do horizonte, no centro superior, está uma rocha de 1,5 metros de largura denominada rocha da Tartaruga. Na cratera rasa por baixo da rocha da Tartaruga está o cabo longo e branco de um instrumento de amostragem, atirado para lá por Mitchell. O companheiro lunar de Mitchell, e também o primeiro americano no espaço, Alan Shepard, usou um ferro 6 improvisado para lançar duas bolas de golfe. Uma das bolas de golfe de Shepard é visível como um ponto branco abaixo do "dardo" de Mitchell.
 
   
Arquivo | Feed RSS | Contacte o Webmaster | Remover da lista
 
       
       
   
Centro Ciência Viva do Algarve
Rua Comandante Francisco Manuel
8000-250, Faro
Portugal
Telefone: 289 890 922
E-mail: info@ccvalg.pt
Centro Ciência Viva de Tavira
Convento do Carmo
8800-311, Tavira
Portugal
Telefone: 281 326 231 | Telemóvel: 924 452 528
E-mail: geral@cvtavira.pt
   

Os conteúdos das hiperligações encontram-se na sua esmagadora maioria em Inglês. Para o boletim chegar sempre à sua caixa de correio, adicione noreply@ccvalg.pt à sua lista de contactos. Este boletim tem apenas um caráter informativo. Por favor, não responda a este email. Contém propriedades HTML e classes CSS - para vê-lo na sua devida forma, certifique-se que o seu cliente de webmail suporta este tipo de mensagem, ou utilize software próprio, como o Outlook ou outras apps para leitura de mensagens eletrónicas.

Recebeu esta mensagem por estar inscrito na newsletter de Astronomia do Centro Ciência Viva do Algarve e do Centro Ciência Viva de Tavira. Se não a deseja receber ou se a recebe em duplicado, faça a devida alteração clicando aqui ou contactando o webmaster.

Esta mensagem destina-se unicamente a informar e está de acordo com as normas europeias de proteção de dados (ver RGDP), conforme Declaração de Privacidade e Tratamento de dados pessoais.

2021 - Centro Ciência Viva do Algarve | Centro Ciência Viva de Tavira

ccvalg.pt cvtavira.pt