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  Astroboletim #1727  
  25/09 a 28/09/2020  
     
 
Efemérides

Dia 25/09: 269.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1644, nascia Ole Romer, astrónomo dinamarquês que foi responsável pela demonstração de que a velocidade da luz era finita contrariamente ao que se pensava à data.

Em 1992, a NASA lança a Mars Observer, uma sonda de 511 milhões de dólares com destino Marte, a primeira ao planeta em 17 anos. Onze meses mais tarde, a sonda falha. 
Em 2008, a China lança a nave Shenzhou 7.
Observações: Eclipse de Io, entre as 19:17 e as 21:39.
A Lua forma um triângulo com Saturno (para cima) e com Júpiter (para a direita).

Dia 26/09: 270.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1580, Sir Francis Drake completa a sua circumnavegação da Terra.
Em 1997, lançamento da missão STS-86 do vaivém espacial Atlantis.

Observações: Esta noite, a Lua brilha a sul a meio da noite, na direção da constelação de Capricórnio. Saturno e Júpiter encontram-se para a direita.
Trânsito de Ganimedes, entre as 22:17 e as 01:51 (já de dia 27).

Dia 27/09: 271.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1905, a revista de Física, Annalen der Physik, recebe o artigo de Einstein, "A inércia de um corpo depende de seu conteúdo de energia?", introduzindo a equação E=mc^2
Em 2003 era lançada a sonda da ESASmart-1, a primeira tentativa de lançar naves espaciais de baixo custo.
Em 2007, a NASA lança a sonda Dawn, com destino Vesta e Ceres, os dois maiores membros da cintura de asteroides.

Em 1997, último contato com a Mars Pathfinder. Embora os controladores tentassem restaurar as comunicações durante os cinco meses seguintes, a missão foi formalmente terminada no dia 10 de março de 1998. 
Em 2008, o astronauta da agência espacial chinesa CNSA, Zhai Zhigang, torna-se no primeiro chinês a fazer um passeio espacial enquanto voava na Shenzhou 7.
Observações: Ocultação de Europa, entre as 22:12 e as 01:06.
Esta é a altura do ano em que, durante a noite, a ténue Ursa Menor "deita" água para a maior "frigideira" da Ursa Maior por baixo. A Ursa Maior vai retornar o favor nas noites de primavera.

Dia 28/09: 272.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1860, nascia Paul Ulrich Villard, físico e químico francês que descobriu os raios-gama em 1900 enquanto estudava a radiação emanada pelo elemento químico rádio.
Em 1999, o Observatório de Raios-X Chandra da NASA divulga uma espetacular imagem da Nebulosa do Caranguejo, os espetaculares remanescentes de uma explosão estelar, revelando algo ainda nunca visto.

O brilhante anel à volta do coração da nebulosa são ondas de partículas altamente energéticas que parecem ter sido expulsas a uma distância de 1 ano-luz da estrela central, e os jatos de partículas afastam-se da estrela de neutrões numa direção perpendicular à espiral.
Em 2008, a SpaceX lança sua a primeira nave espacial privada, a Falcon 1, para órbita.
Observações: Eclipse de Europa, entre as 00:46 e as 03:43.
Assim que as estrelas começam a ficar visíveis, Cassiopeia já está mais alta a nordeste do que a Ursa Maior a noroeste. Encontre o padrão em forma de "W" da constelação, quase que apoiando num lado.

 
 
   
O anel em torno do buraco negro cintila

No centro da galáxia gigante Messier 87 esconde-se um buraco negro gigante. A imagem deste monstro, publicada o ano passado e obtida com o EHT (Event Horizon Telescope), deu a volta ao mundo. Agora, a equipa EHT analisou os dados de arquivo de 2009 a 2013, alguns dos quais ainda não publicados. Os investigadores descobriram que a sombra em forma de anel em torno do buraco negro está sempre presente, mas muda de orientação e distribuição de brilho - o anel parece estar a cintilar. A participação do telescópio europeu APEX, no Chile, e do telescópio IRAM de 30 metros cofinanciado pela Sociedade Max Planck em Pico Veleta, Sierra Nevada, tiveram um papel importante nesta descoberta.

"Os resultados anunciados em abril de 2019 mostram uma imagem da sombra de um buraco negro, consistindo num anel brilhante formado por plasma quente girando em torno do buraco negro em M87, e uma parte central escura, onde esperamos que esteja o horizonte de eventos," lembra Maciek Wielgus, astrónomo da Universidade de Harvard e autor principal do novo artigo científico.

 
Instantâneos do buraco negro M87* obtidos através de métodos fotográficos/modelos geométricos, e o complexo telescópico EHT em 2009-2017. O diâmetro de todos os anéis é idêntico, mas a posição do lado brilhante varia. A variação da espessura do anel é muito provavelmente não real e resulta do número limitado de observatórios participantes nas experiências anteriores.
Crédito: M. Wielgus, D. Pesce & Colaboração EHT
 

No entanto, esses resultados foram baseados apenas em observações realizadas ao longo de uma janela de tempo de uma semana em abril de 2017, que é demasiado pequena para ver se o anel está a evoluir em escalas de tempo mais longas. Mesmo após uma análise cuidadosa dos dados, permaneceram algumas questões em aberto no que toca a estacionariedade das características do anel ao longo do tempo. Por esse motivo, foi considerada uma investigação de dados arquivados anteriores.

As observações de 2009-2013 consistem de muito menos dados do que as realizadas em 2017, tornando difícil obter uma imagem de M87 sem premissas "a priori". Para os dados de arquivo disponíveis, a equipa do EHT usou modelagem estatística baseada em suposições geométricas para observar as mudanças na aparência do buraco negro em M87 (M87*) ao longo do tempo.

Expandindo a análise às observações de 2009-2017, os cientistas mostraram que M87* atende às expetativas teóricas. O diâmetro da sombra do buraco negro permaneceu consistente com a previsão da teoria da relatividade geral de Einstein para um buraco negro com 6,5 mil milhões de massas solares. A morfologia de um anel assimétrico persiste em escalas de tempo de vários anos, de uma maneira consistente que fornece confiança adicional sobre a natureza de M87* e sobre a origem da sua sombra.

Mas embora o diâmetro do anel permaneça constante ao longo do tempo, a equipa EHT descobriu que os dados escondiam uma surpresa. Thomas Krichbaum, astrónomo do Instituto Max Planck para Radioastronomia e um dos autores principais da publicação, afirma: "A análise de dados sugere que a orientação e a estrutura final do anel variam com o tempo. Isto dá a primeira impressão da estrutura dinâmica do fluxo de acreção, que rodeia o horizonte de eventos". Ele acrescenta: "O estudo desta região será crucial para um melhor entendimento de como os buracos negros acretam matéria e lançam jatos relativísticos."

 
Animação que representa um ano de evolução de M87* de acordo com simulações numéricas. É mostrada a posição angular medida do lado brilhante do crescente, juntamente um anel com 42 microssegundos de arco. Para parte da animação, é vista a imagem obtida pelo EHT.
Crédito: G. Wong, B. Prather, Ch. Gammie, M. Wielgus & Colaboração EHT
 

O gás que cai num buraco negro aquece até milhares de milhões de graus, ioniza-se e torna-se turbulento na presença de campos magnéticos. Dado que o fluxo de matéria é turbulento, o brilho do anel parece cintilar com o tempo, o que desafia alguns modelos teóricos de acreção.

"A monitorização da estrutura variável de tempo de M87 com o EHT é um desafio que nos manterá ocupados nos próximos anos," afirma Anton Zensus, Diretor do Instituto Max Planck para Radioastronomia e Presidente Fundador do Conselho da Colaboração EHT. "Estamos a trabalhar na análise dos dados de 2018, e a preparar novas observações em 2021, com a adição de novos locais como o Observatório NOEMA na França, o radiotelescópio mais poderoso do seu tipo no hemisfério norte e também cofinanciado pelo Instituto Max Planck, bem como com o Telescópio da Gronelândia e com o Kitt Peak no estado norte-americano do Arizona," acrescenta Zensus. Os recursos aprimorados de imagem, fornecidos por este grupo maior, fornecerão uma visão mais detalhada da sombra do buraco negro M87* e do jato mais interno da galáxia rádio M87.

// Instituto Max Planck (comunicado de imprensa)
// EHT (comunicado de imprensa)
// MIT News (comunicado de imprensa)
// Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astrophysical Journal)

 


Saiba mais

CCVAlg - Astronomia:
23/04/2019 - Como os cientistas capturaram a primeira imagem de um buraco negro
12/04/2019 - Astrónomos obtêm primeira imagem de um buraco negro
25/01/2019 - Levantando o véu do buraco negro no coração da nossa Galáxia
16/10/2018 - Qual é o aspeto de um buraco negro? 
31/03/2017 - Os astrónomos vão tentar fotografar a região mais próxima do buraco negro da Via Láctea

Notícias relacionadas:
Nature
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Astronomy Now
ScienceDaily
ScienceNews
BBC News

M87*:
Wikipedia

Buraco negro supermassivo:
Wikipedia

EHT (Event Horizon Telescope):
Página principal
Wikipedia

APEX:
ESO
Wikipedia

IRAM:
Página principal
Wikipedia
Radiotelescópio de 30 metros (Wikipedia)

 
   
O primeiro "Neptuno Ultra-Quente", LTT 9779b, é um dos planetas mais improváveis da natureza
 
Impressão de artista do Neptuno Ultra-Quente.
Crédito: Ricardo Ramirez
 

Uma equipa internacional de astrónomos, incluindo um grupo da Universidade de Warwick, descobriu o primeiro planeta "Neptuno Ultra-Quente" em órbita da estrela próxima LTT 9779.

O exoplaneta orbita tão perto da sua estrela que o seu ano dura apenas 19 horas, o que significa que a radiação estelar aquece o planeta a mais de 1700 graus Celsius.

A estas temperaturas, os elementos pesados como o ferro podem ser ionizados na atmosfera e as moléculas desassociadas, fornecendo um laboratório único para estudar a química de planetas para lá do nosso Sistema Solar.

Embora o mundo tenha o dobro da massa de Neptuno, é também ligeiramente maior e tem uma densidade semelhante. Portanto, LTT 9779b deve ter um núcleo enorme com cerca de 28 massas terrestres e uma atmosfera que representa cerca de 9% da massa planetária total.

O sistema propriamente dito tem aproximadamente metade da idade do Sol, com 2 mil milhões de anos, e dada a intensa radiação, não seria de esperar que um planeta parecido com Neptuno mantivesse a sua atmosfera por tanto tempo, fornecendo um quebra-cabeças intrigante para resolver; como é que surgiu um sistema tão improvável.

LTT 9779 é uma estrela parecida com o Sol localizada a uma distância de 260 anos-luz, perto em termos astronómicos. É super-rica em metais, tendo na sua atmosfera o dobro do ferro do que o Sol. Este pode ser um indicador chave de que o planeta era originalmente um gigante gasoso muito maior, já que estes corpos se formam preferencialmente perto de estrelas com as maiores abundâncias de ferro.

As indicações iniciais da existência do planeta foram feitas usando o TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), como parte da sua missão para descobrir pequenos planetas em trânsito orbitando estrelas brilhantes e nas proximidades por todo o céu. Estes trânsitos são encontrados quando um planeta passa diretamente em frente da sua estrela hospedeira, bloqueando parte da luz estelar, e a quantidade de luz bloqueada revela o tamanho do companheiro. Mundos como estes, uma vez totalmente confirmados, podem permitir que os astrónomos investiguem as suas atmosferas, proporcionando uma compreensão mais profunda dos processos de formação e evolução planetária.

O sinal de trânsito foi rapidamente confirmado no início de novembro de 2018 como proveniente de um corpo de massa planetária, usando observações obtidas com o instrumento HARPS (High Accuracy Radial-velocity Planet Searcher), acoplado ao telescópio de 3,6 metros no Observatório de la Silla do ESO no norte do Chile. O HARPS usa o efeito Doppler para medir as massas de planetas e características orbitais como o período. Quando são encontrados objetos em trânsito, as medições Doppler podem ser organizadas para confirmar a natureza planetária de uma maneira eficiente. No caso de LTT 9779b, a equipa conseguiu confirmar a existência do planeta após apenas uma semana de observações.

A Universidade de Warwick é uma instituição líder do consórcio NGTS (Next-Generation Transit Survey), cujos telescópios no Paranal, Chile, fizeram observações de acompanhamento para ajudar a confirmar a descoberta do planeta. O Dr. George King, do Departamento de Física, trabalhou na análise dos resultados.

Ele disse: "Ficámos muito satisfeitos quando os nossos telescópios NGTS confirmaram o sinal de trânsito deste novo planeta emocionante. A queda no brilho é de apenas dois décimos de um por cento, e muito poucos telescópios são capazes de fazer medições tão precisas."

O professor James Jenkins do Departamento de Astronomia da Universidade do Chile, que liderou a equipa, acrescentou: "A descoberta de LTT 9779b, tão cedo na missão do TESS, foi uma surpresa completa: uma aposta que valeu a pena. A maioria dos eventos de trânsito com períodos inferiores a um dia tendem a ser falsos positivos, normalmente estrelas binárias eclipsantes de fundo."

LTT 9779b é de facto raro, existindo numa região esparsamente povoada do espaço paramétrico planetário. "O planeta existe no que é conhecido como o 'Deserto de Neptuno', uma região desprovida de planetas quando olhamos para a população de massas e tamanhos planetários. Embora os gigantes gelados pareçam ser um subproduto bastante comum do processo de formação de planetas, este não é o caso muito perto das suas estrelas. Nós pensamos que estes planetas perdem a sua atmosfera ao longo do tempo cósmico, transformando-se no que chamamos de Planetas de Período Ultracurto," explicou Jenkins.

Os cálculos do Dr. King confirmaram que LTT 9779b deveria ter despojado a sua atmosfera através de um processo chamado fotoevaporação. Ele salientou: "os intensos raios-X e raios ultravioleta da jovem estrela-mãe terão aquecido a atmosfera superior do planeta e devem ter levado os gases atmosféricos para o espaço". Por outro lado, os cálculos do Dr. King mostraram que não havia aquecimento de raios-X suficiente para LTT 9779b ter começado como um gigante gasoso muito mais massivo. "A fotoevaporação deveria ter resultado numa rocha nua ou num gigante gasoso," explicou. "O que significa que deve haver algo novo e invulgar que temos de tentar explicar no que toca à história deste planeta."

O professor Jenkins observou: "Os modelos de estrutura planetária dizem-nos que o planeta é um mundo dominado por um núcleo gigante mas, crucialmente, deve haver duas a três massas terrestres de gás atmosférico. Mas se a estrela é tão velha, porque é que existe uma atmosfera sequer? Bem, se LTT 9779b começou a vida como um gigante gasoso, então um processo chamado Fluxo do Lóbulo de Roche poderia ter transferido quantidades significativas de gás atmosférico para a estrela."

O Fluxo do Lóbulo de Roche é um processo pelo qual um planeta chega tão perto da sua estrela que a gravidade mais forte da estrela pode capturar as camadas externas do planeta, fazendo com que sejam transferidas para a estrela e, assim, diminuindo significativamente a massa do planeta. Os modelos preveem resultados semelhantes aos do sistema LTT 9779, mas também requerem alguns ajustes.

"Também pode ser que LTT 9779b tenha chegado à sua órbita atual bastante tarde e, portanto, não tenha tido tempo para ficar sem atmosfera. As colisões com outros planetas no sistema podem tê-lo jogado na direção da estrela. Na verdade, por ser um mundo tão único e raro, podem ser plausíveis cenários mais exóticos," acrescentou Jenkins.

Uma vez que o planeta parece ter uma atmosfera significativa e dado que orbita uma estrela relativamente brilhante, estudos futuros da atmosfera planetária podem desvendar alguns dos mistérios relacionados com a formação deste género de exoplanetas, como evoluem e os detalhes da sua composição. Jenkins concluiu: "O planeta é muito quente, o que motiva a busca por elementos mais pesados do que o hidrogénio e hélio, juntamente com núcleos atómicos ionizados. É preocupante pensar que este 'planeta improvável' é provavelmente tão raro que não encontraremos outro laboratório igual para estudar em detalhe a natureza dos Neptunos Ultra-Quentes. Portanto, devemos extrair cada grama de conhecimento que pudermos deste diamante em bruto, observando-o com instrumentos espaciais e no solo ao longo dos próximos anos."

// Universidade de Warwick (comunicado de imprensa)
// Universidade do Chile (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)

 


Saiba mais

Notícias relacionadas:
SPACE.com
science alert
PHYSORG
ZAP.aeiou

LTT 9779b:
Exoplanet.eu

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares

TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite):
NASA
NASA/Goddard
Programa de Investigadores do TESS (HEASARC da NASA)
MAST (Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais)
Exoplanetas descobertos pelo TESS (NASA Exoplanet Archive)
Wikipedia

Observatório La Silla:
ESO
Wikipedia

NGTS (Next-Generation Transit Survey):
Página principal
ESO
Wikipedia

 
   
Asteroide Bennu tem pedaços de Vesta à sua superfície

Incrivelmente, de acordo com a sonda OSIRIS-REx da NASA, parece que alguns pedaços do asteroide Vesta acabaram no asteroide Bennu. O novo resultado lança luz sobre a intrincada dança orbital dos asteroides e sobre a origem violenta de Bennu, que é um asteroide "pilha de entulho" que coalesceu a partir dos fragmentos de uma colisão massiva.

"Encontrámos seis rochas que variam entre 1,5 e 4,3 metros espalhadas pelo hemisfério sul de Bennu e perto do equador," disse Daniella DellGiustina do Laboratório Lunar e Planetário da Universidade do Arizona, Tucson, EUA. "Estes pedregulhos são muito mais brilhantes do que o resto de Bennu e combinam com o material de Vesta."

 
Durante a primavera de 2019, a sonda OSIRIS-REx da NASA capturou estas imagens, que mostram fragmentos do asteroide Vesta presentes à superfície do asteroide Bennu. Os pedregulhos brilhantes (com o círculo à volta) têm material rico em piroxenas de Vesta. Parte deste material brilhante parece ser rochas individuais (esquerda), enquanto outros parecem ser partes de rochas maiores (direita).
Crédito: NASA/Goddard/Universidade do Arizona
 

"A nossa hipótese principal é que Bennu herdou este material do seu asteroide parental depois de um 'vestoide' (um fragmento de Vesta) o ter atingido," disse Hannah Kaplan do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland. "Então, quando o asteroide parental foi catastroficamente perturbado, uma parte dos seus detritos acumularam-se sob a sua própria gravidade para formar Bennu, incluindo parte das piroxenas de Vesta."

DellaGiustina e Kaplan são os autores principais de um artigo sobre esta investigação, publicado na edição de 21 de setembro da revista Nature Astronomy.

Os pedregulhos invulgares em Bennu chamaram a atenção da equipa pela primeira vez em imagens da OCAMS (OSIRIS-REx Camera Suite) da nave espacial OSIRIS-REx (Origins, Spectral Interpretation, Resource Identification, Security-Regolith Explorer). Pareciam extremamente brilhantes, alguns quase dez vezes mais brilhantes do que outras rochas nas proximidades. Analisaram a luz dos pedregulhos usando o instrumento OVIRS (OSIRIS-REx Visible and Infrared Spectrometer) para obter pistas sobre a sua composição. Um espectrómetro separa a luz nas suas cores componentes. Dado que os elementos e os compostos têm padrões distintos de assinaturas claras e escuras ao longo de uma gama de cores, estes podem ser identificados usando este tipo de instrumento. A assinatura dos pedregulhos era característica do mineral piroxena, semelhante ao que é visto em Vesta e nos vestoides, asteroides mais pequenos que são fragmentos expelidos de Vesta quando sofreu impactos significativos de asteroides.

Claro, é possível que as rochas se tenham formado no asteroide parental de Bennu, mas a equipa pensa que isto é improvável com base no modo como as piroxenas se formam normalmente. Este mineral normalmente forma-se quando o material rochoso derrete a altas temperaturas. No entanto, a maior parte de Bennu é composta por rochas contendo minerais com água, de modo Bennu (e o seu parente) não deve ter passado por fases de altas temperaturas. Em seguida, a equipa considerou o aquecimento localizado, talvez devido a um impacto. Um impacto necessário para derreter material suficiente e criar grandes rochas de piroxenas seria tão significativo que teria destruído o corpo parental de Bennu. Portanto, a equipa descartou estes cenários e, ao invés, considerou outros asteroides ricos em piroxenas que podem ter implantado este material em Bennu ou no seu corpo parente.

As observações revelam que não é invulgar um asteroide ter material de outro asteroide "espirrado" à sua superfície. Os exemplos incluem material escuro nas paredes de crateras vistas pela sonda Dawn em Vesta, uma rocha negra vista pela nave Hayabusa no asteroide Itokawa e, mais recentemente, material de asteroides do tipo S observados pela Hayabusa2 no asteroide Ryugu. Isto indica que muitos asteroides estão a participar numa dança orbital complexa que às vezes resulta em misturas cósmicas.

À medida que os asteroides se movem pelo Sistema Solar, as suas órbitas podem ser alteradas de várias maneiras, incluindo a atração gravitacional de planetas e de outros objetos, impactos de meteoroides e até mesmo a leve pressão da luz solar. O novo resultado ajuda a definir a complexa jornada que Bennu e outros asteroides traçaram pelo Sistema Solar.

Com base na sua órbita, vários estudos indicam que Bennu foi entregue da região interior da cintura de asteroides por meio de uma via gravitacional bem conhecida que pode levar objetos da cintura principal interior até órbitas próximas da Terra. Existem duas famílias de asteroides da cintura principal interna (Polana e Eulalia) que se parecem com Bennu: escuros e ricos em carbono, o que as torna prováveis candidatas ao parente de Bennu. Da mesma forma, a formação dos vestoides está ligada à formação das bacias de impacto Veneneia e Rheasilvia em Vesta, há cerca de 2 mil milhões e mil milhões de anos atrás, respetivamente.

"Estudos futuros de famílias de asteroides, bem como da origem de Bennu, deverão reconciliar a presença de material semelhante ao de Vesta, bem como a aparente falta de outros tipos pertencentes a outros asteroides. Estamos ansiosos pela entrega da amostra, que esperançosamente contém pedaços destes tipos de rochas intrigantes," disse Dante Lauretta, investigador principal da OSIRIS-REx da Universidade Estatal do Arizona em Tucson. "Esta restrição é ainda mais convincente dada a descoberta de material do tipo S no asteroide Ryugu. Esta diferença mostra o valor de estudar vários asteroides por todo o Sistema Solar."

A sonda fará a sua primeira tentativa de recolher amostras de Bennu em outubro e entregá-las-á à Terra em 2023 para uma análise detalhada. A equipa da missão examinou de perto quatro potenciais locais de recolha de amostras em Bennu para determinar o seu valor científico e de segurança antes de fazer uma seleção final em dezembro de 2019. A equipa de DellaGiustina e de Kaplan pensa que podem encontrar pedaços mais pequenos de Vesta em imagens destes estudos mais íntimos.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Nature Astronomy)
// Meteoritos de Vesta encontrados no asteroide Bennu (NASA Goddard via YouTube)

 


Saiba mais

Cobertura da missão OSIRIS-REx pelo CCVAlg - Astronomia:
11/09/2020 - Porque é que o asteroide Bennu está a expelir partículas para o espaço?
27/03/2020 - Os pedregulhos de Bennu brilham como faróis para a OSIRIS-REx da NASA
10/03/2020 - Primeiros nomes oficiais dados a características da superfície de Bennu
17/12/2019 - "X" marca o local: NASA seleciona zona para recolha de amostras em Bennu
10/12/2019 - Missão OSIRIS-REx explica misteriosos eventos de partículas de Bennu
10/12/2019 - OSIRIS-REx prestes a selecionar local de recolha de amostras
16/08/2019 - Selecionados os quatro candidatos finais a local de recolha de amostras de Bennu
28/05/2019 - NASA convida público a ajudar a escolher o local de recolha de amostras da OSIRIS-REx
22/03/2019 - OSIRIS-REx revela grandes surpresas em Bennu
15/03/2019 - Bennu, o alvo da missão OSIRIS-REx, gira mais depressa ao longo do tempo
14/12/2018 - Recém-chegada OSIRIS-REx já descobriu água no asteroide Bennu
28/08/2018 - OSIRIS-REx da NASA começa campanha de observações do asteroide
27/12/2016 - OSIRIS-REx vai procurar asteroides raros
06/09/2016 - NASA prepara-se para lançar a sua primeira missão de recolha e envio de amostras de um asteroide

Asteroide Bennu:
NASA
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Vesta:
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Rheasilvia (Wikipedia)
Veneneia (Wikipedia)
Vestoide (Wikipedia)

Asteroides da família Polana e Eulalia:
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142 Polana (Wikipedia)
495 Eulalia (Wikipedia)

Piroxenas:
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Sonda Dawn:
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  Cometa da Rosetta tem as suas próprias auroras (via NASA)
Dados de instrumentos da NASA a bordo da sonda Rosetta da ESA ajudaram a revelar que o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko tem a sua própria aurora no ultravioleta distante. É a primeira vez que tais emissões eletromagnéticas no ultravioleta distante foram documentadas num objeto celeste que não um planeta ou uma lua. Ler fonte
     
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Álbum de fotografias - ISS Transita Marte
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Tom Glenn
 
Já alguma vez viu a Estação Espacial Internacional fazer isto? Se souber para onde olhar, e quando olhar, a observação da ISS a deslizar pelo céu noturno é fascinante - mas não muito invulgar. Existem imagens da ISS a cruzar a Lua ou o Sol, mas são algo raras pois necessitam planeamento, tempo e paciência para capturar. Fotografar a travessia da ISS em frente do minúsculo Marte, porém, está a outro nível. Usando um software online, o fotógrafo em destaque aprendeu que o trânsito invulgar seria visível apenas momentaneamente ao longo de um trecho muito estreito de solo medindo apenas 90 metros. Dentro deste trecho, a velocidade do solo equivalente à passagem da ISS seria uns velozes 7,4 km por segundo. No entanto, com uma câmara comum, um pequeno telescópio, uma localização exata para montar o seu equipamento, uma direção exata para apontar o telescópio e um tempo inferior a um milissegundo - ele criou um vídeo do qual a exposição de 0,00035 segundos foi extraída. Na resultante captura de imagem, os detalhes de Marte e da ISS são visíveis simultaneamente. A imagem em destaque foi obtida na passada segunda-feira às 05:15:47, hora local, no nordeste de San Diego, Califórnia, EUA. Embora praticamente muito mais pequeno, angularmente, do que a ISS, Marte está a aproximar-se do seu tamanho angular máximo nas próximas semanas, porque o Planeta Azul (Terra) irá passar à distância mínima do Planeta Vermelho (Marte) nas suas respetivas órbitas em torno do Sol.
 
   
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