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  Astroboletim #1856  
  21/12 a 23/12/2021  
     
 
Efemérides

Dia 21/12: 355.º dia do calendário gregoriano.
História:
Em 1968, lançamento da Apollo 8William A. AndersJames A. Lovell Jr. e Frank Borman tornaram-se nos primeiros seres humanos a sair da órbita da Terra.

Esta missão teve como objetivo alcançar a órbita da Lua, observar a sua superfície e o seu lado escuro. Duração da missão: 6 dias, 3 horas, 0 minutos e 42 segundos. 
Em 1984 era lançada a sonda soviética Vega 2.
Em 2015, a SpaceX faz história, tornando-se na primeira companhia a fazer regressar, com sucesso, o estágio de um veículo de lançamento orbital à Terra para uma aterragem propulsiva numa plataforma de aterragem terrestre.
Em 2020, ocorre uma grande conjunção entre Júpiter e Saturno, estando os dois planetas, da perspetiva do céu da Terra, separados por 0,1 graus. É a conjunção mais íntima destes dois objetos desde 1623.
Observações: O solstício assinala o início do inverno, às 15:59. O Sol está na sua declinação mais a sul e começa o seu regresso de seis meses para norte.

Dia 22/12: 356.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1891, o asteroide 323 Brucia torna-se no primeiro asteroide descoberto usando astrofotografia.
Em 2015, a SpaceX aterra o primeiro estágio de um foguetão Falcon 9 no solo, depois de alcançar baixa órbita terrestre às 01:40 UTC pela primeira vez na história.

Observações: Gémeos está para a esquerda de Orionte após a hora de jantar. Castor e Pollux, a estrelas que representam as cabeças dos gémeos, assinalam o lado esquerdo da constelação; os gémeos estão deitados de lado. Castor é o gémeo mais alto.

Dia 23/12: 357.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1672, Giovanni Cassini descobre a lua de SaturnoReia

Observações: Esta é a altura do ano em que M31, a Galáxia de Andrómeda, passa perto do zénite pouco depois do anoitecer (se viver a latitudes médias norte). A hora exata depende da sua longitude. Uns binóculos mostram M31 logo ao lado do joelho da figura da constelação de Andrómeda.

 
 
   
Será que os buracos negros formaram-se imediatamente após o Big Bang?

Como é que os buracos negros se formaram? O que é a matéria escura? Num modelo alternativo da formação do Universo, em comparação com a história presente nos livros escolares, uma equipa de astrónomos propõe que ambos estes mistérios cósmicos podem ser explicados pelos chamados "buracos negros primordiais".

Nico Cappelluti (Universidade de Miami), Günther Hasinger (Diretor Científico da ESA) e Priyamvada Natarajan (Universidade de Yale), sugerem que os buracos negros existem desde o início do Universo - e que estes buracos negros primordiais podem, eles próprios, ser a ainda não explicada matéria escura. O novo estudo foi aceite para publicação na revista The Astrophysical Journal.

 
Neste gráfico, o foco está em comparar o tempo do aparecimento dos primeiros buracos negros e estrelas, e não pretende implicar que não existem buracos negros considerados no modelo padrão.
Crédito: ESA
 

"Os buracos negros de diferentes tamanhos continuam a ser um mistério. Não compreendemos como é que os buracos negros supermassivos podem ter crescido tanto no relativamente curto espaço de tempo disponível desde a existência do Universo," explica Günther Hasinger.

No outro extremo da escala, podem haver também buracos negros muito pequenos, como sugerido por observações do Gaia da ESA, por exemplo. Se existirem, são demasiado pequenos para se terem formado a partir de estrelas moribundas.

"O nosso estudo mostra que sem introduzir novas partículas ou nova física, podemos resolver mistérios da cosmologia moderna desde a própria natureza da matéria escura até à origem dos buracos negros supermassivos," diz Nico Cappelluti.

Se a maioria dos buracos negros se formasse imediatamente após o Big Bang, poderiam ter começado a fundir-se no Universo inicial, formando cada vez mais buracos negros massivos ao longo do tempo. O LISA, o futuro observatório de ondas gravitacionais da ESA, poderá captar os sinais dessas fusões caso existam buracos negros primordiais. Os pequenos buracos negros podem ser simplesmente os buracos negros primordiais que ainda não se fundiram em buracos negros maiores.

De acordo com este modelo, o Universo estaria repleto de buracos negros. As estrelas começariam a formar-se à volta destes aglomerados de "matéria escura", criando sistemas solares e galáxias ao longo de milhares de milhões de anos. Se as primeiras estrelas, de facto, se formaram em torno de buracos negros primordiais, existiram mais cedo no Universo do que é esperado pelo modelo "padrão".

"Os buracos negros primordiais, se é que existem, podem muito bem ser as sementes a partir das quais todos os buracos negros se formam, incluindo o que se encontra no centro da Via Láctea," diz Priyamvada Natarajan.

A missão Euclid da ESA, que vai examinar o Universo escuro com mais detalhe do que nunca, poderá desempenhar um papel na busca por identificar buracos negros primordiais como candidatos à matéria escura.

 
Impressão de artista do Telescópio Espacial James Webb.
Crédito: ESA/ATG medialab
 

O Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA, uma "máquina do tempo" cósmica que observa mais de 13 mil milhões de anos, irá lançar mais luz sobre este mistério.

"Se as primeiras estrelas e galáxias já se formavam na chamada 'idade das trevas', o Webb deverá ser capaz de evidências disso," acrescenta Günther.

// ESA (comunicado de imprensa)
// Universidade de Miami (comunicado de imprensa)
// Universidade de Yale (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Saiba mais

Buracos negros:
Wikipedia
Buraco negro primordial (Wikipedia)

Matéria escura:
Wikipedia

Universo:
A expansão acelerada do Universo (Wikipedia)
Universo (Wikipedia)
Idade do Universo (Wikipedia)
Estrutura a grande-escala do Universo (Wikipedia)
Big Bang (Wikipedia)
Cronologia do Big Bang (Wikipedia)
Modelo Lambda-CDM (Wikipedia)
Indicadores de distâncias cósmicas (Wikipedia)
"Escada" de distâncias cósmicas (Wikipedia)

LISA:
Página oficial
ESA
NASA
Wikipedia

Euclid:
ESA
Wikipedia

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
STScI (website para o público)
ESA
Wikipedia
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Rover Perseverance faz descobertas surpreendentes

Os cientistas da missão do rover Perseverance da NASA descobriram que a superfície rochosa que o veículo de seis rodas tem vindo a estudar desde que pousou em fevereiro provavelmente formou-se a partir de magma escaldante. A descoberta tem implicações para a compreensão e para a datação precisa de eventos críticos na história da Cratera Jezero - bem como para o resto do planeta.

A equipa concluiu também que as rochas na cratera interagiram com a água várias vezes ao longo dos éones e que algumas contêm moléculas orgânicas.

Estas e outras descobertas foram apresentadas num "briefing" noticioso da reunião de outono da União Geofísica Americana em Nova Orleães.

 
Este gráfico ilustra a entrada do Perseverance em "Séítah", tanto do ponto de vista orbital como subsuperficial. A imagem de baixo é um "radargrama" subsuperficial do instrumento RIMFAX do rover; as linhas vermelhas indicam a ligação das características subsuperficiais aos afloramentos rochosos resistentes à erosão visíveis acima da superfície. Crédito: NASA/JPL-Caltech/Universidade do Arizona/USGS/FFI
 

Mesmo antes do Perseverance aterrar em Marte, a equipa científica da missão já se tinha interrogado sobre a origem das rochas na região. Será que eram sedimentares - a acumulação comprimida de partículas minerais, possivelmente transportadas para o local por um antigo sistema fluvial? Ou será que eram ígneas, possivelmente formadas em fluxos de lava que subiram para a superfície a partir de um vulcão marciano agora extinto?

"Estava a começar a desesperar que nunca iríamos encontrar a resposta," disse Ken Farley, cientista do projeto Perseverance do Caltech em Pasadena. "Mas então o nosso instrumento PIXL conseguiu ver bem o local "raspado" numa rocha da área apelidada "South Séitah" e tudo se tornou claro: os cristais no seu interior forneceram a 'arma fumegante'".

A broca na extremidade do braço robótico do Perseverance pode raspar ou triturar superfícies rochosas para permitir que outros instrumentos, como o PIXL, as estudem. O PIXL (Planetary Instrument for X-ray Lithochemistry) usa fluorescência de raios-X para mapear a composição elementar das rochas. No dia 12 de novembro, o PIXL analisou uma rocha em South Séitah que a equipa científica tinha escolhido para recolher uma amostra com a broca do rover. Os dados do PIXL mostraram que a rocha, apelidada de "Brac", era composta por uma abundância invulgar de grandes cristais de olivina rodeados por cristais de piroxena.

"Um bom estudante de geologia dir-lhe-á que tal textura indica que a rocha se formou quando os cristais cresceram e se estabeleceram num magma de arrefecimento lento - por exemplo, num fluxo de lava espessa, lago de lava, ou câmara magmática," disse Farley. "A rocha foi então alterada pela água várias vezes, tornando-a num tesouro que permitirá aos cientistas futuros datar acontecimentos em Jezero, compreender melhor o período em que a água era mais comum à sua superfície e revelar a história inicial do planeta. A MSL (Mars Sample Return) vai ter grandes coisas para escolher!"

A campanha multimissão MSR começou com o Perseverance, que está a recolher amostras de rochas marcianas em busca de vida microscópica antiga. Dos 43 tubos de amostragem do Perseverance, seis já foram selados até ao momento - quatro com núcleos rochosos, um com atmosfera marciana e um que contém material "testemunhal" para observar qualquer contaminação que o rover pudesse ter trazido da Terra. A MSL vai tentar trazer tubos selecionados de volta à Terra, onde gerações de cientistas serão capazes de os estudar com poderosos equipamentos laboratoriais demasiado grandes para enviar para Marte.

 
Nesta imagem tirada nos escritórios da missão Perseverance da NASA estão seis tubos fac-símile de amostragem pendurados numa placa, representativos das amostras já recolhidas em Marte.
Crédito: NASA/JPL-Caltech
 

Ainda está por determinar se a rocha rica em olivina se formou num lago de lava espessa que arrefeceu à superfície ou se numa câmara subterrânea que mais tarde foi exposta pela erosão.

Moléculas orgânicas

Também boa notícia para a MSL é a descoberta de substâncias orgânicas pelo instrumento SHERLOC (Scanning Habitable Environments with Raman & Luminescence for Organics & Chemicals). As moléculas contendo carbono não estão apenas no interior de rochas perfuradas ou raspadas que o SHERLOC analisou, mas também no pó de rochas não alteradas pelo rover.

A confirmação de material orgânico não é uma confirmação de que a vida já existiu na Cratera Jezero e que deixou sinais indicadores (bioassinaturas). Existem tanto mecanismos biológicos como não biológicos que criam substâncias orgânicas.

"O Curiosity também descobriu compostos orgânicos no seu local de aterragem dentro da Cratera Gale," disse Luther Beegle, investigador principal do SHERLOC no JPL da NASA no sul da Califórnia. "O que o SHERLOC acrescenta à história é a sua capacidade de mapear a distribuição espacial do material orgânico dentro das rochas e de relacionar esse material com os minerais aí encontrados. Isto ajuda-nos a compreender o ambiente em que as substâncias orgânicas se formaram. É necessário fazer mais análises para determinar o método de produção das substâncias orgânicas identificadas."

A preservação de material orgânico no interior de rochas antigas - independentemente da sua origem -, tanto na Cratera Gale como na Cratera Jezero, significa que as potenciais bioassinaturas (sinais de vida, passada ou presente) também poderiam estar preservadas. "Esta é uma questão que provavelmente só será resolvida quando as amostras estiverem no planeta Terra, mas a preservação de material orgânico é muito excitante. Quando estas amostras forem enviadas para a Terra, serão uma fonte de investigação e descoberta científica durante muitos anos," disse Beegle.

"Radargrama"

Juntamente com as suas capacidades de amostragem rochosa, o Perseverance trouxe o primeiro radar de penetração no solo para a superfície de Marte. O RIMFAX (Radar Imager for Mars' Subsurface Experiment) cria um "radargrama" de características subsuperficiais até cerca de 10 metros de profundidade. Os dados deste primeiro radargrama foram recolhidos enquanto o veículo atravessava uma linha de cumeada desde a unidade geológica chamada "Crater Floor Fractured Rough" até à unidade geológica Séitah.

Esta linha de cumeada tem múltiplas formações rochosas com uma visível inclinação para baixo. Com os dados do RIMFAX, os cientistas sabem agora que estas camadas rochosas angulares continuam no mesmo ângulo bem abaixo da superfície. O radargrama também mostra que as camadas de rocha de Séitah projetam-se abaixo das da unidade geológica "Crater Floor Fractured Rough". Os resultados confirmam ainda a previsão da equipa científica de que a criação de Séitah precedeu a da outra unidade geológica. A capacidade de observar características geológicas mesmo abaixo da superfície acrescenta uma nova dimensão às capacidades cartográficas geológicas, em Marte, da equipa.

Mais sobre a missão Perseverance

Um objetivo principal da missão do Perseverance em Marte é a investigação astrobiológica, incluindo a busca por sinais de vida microbiana antiga. O rover vai caracterizar a geologia do planeta e o clima passado e será a primeira missão a recolher e a armazenar rochas e rególito marciano, abrindo caminho para a exploração humana do Planeta Vermelho.

As missões subsequentes da NASA, em cooperação com a ESA, vão enviar naves a Marte para recolher estas amostras armazenadas à superfície e trazê-las para a Terra para uma análise mais profunda.

A missão Mars 2020 do rover Perseverance faz parte da abordagem da exploração da Lua e de Marte da NASA, que inclui as missões Artemis à Lua que vão ajudar a preparar a exploração humana do Planeta Vermelho.

// NASA (comunicado de imprensa)
// "Briefing" da União Geofísica Americana sobre o Perseverance (AGU via YouTube)
// Observando o delta da Cratera Jezero em Marte (JPL via YouTube)

 


Saiba mais

Cobertura da missão do rover Perseverance pelo CCVAlg - Astronomia:
12/10/2021 - Perseverance obtém mais informações sobre o passado da Cratera Jezero
14/09/2021 - Rover Perseverance recolhe peças do puzle da história de Marte
07/09/2021 - Rover Perseverance da NASA obtém primeira amostra marciana
29/05/2021 - O detetive a bordo do rover Perseverance
14/05/2021 - Braço robótico do Perseverance começa a realizar ciência
04/05/2021 - Helicóptero marciano Ingenuity começa nova fase de demonstração
12/03/2021 - SuperCam do Perseverance transmite os primeiros dados
09/03/2021 - Rover Perseverance move-se pela primeira vez
26/02/2021 - À procura de vida nas amostras do rover Perseverance
19/02/2021 - Rover Perseverance da NASA pousa em segurança no Planeta Vermelho
09/02/2021 - Rover Perseverance a poucos dias de pousar em Marte
10/11/2020 - Estudo mostra a dificuldade em encontrar evidências de vida em Marte
31/07/2020 - Missão do rover Perseverance a caminho do Planeta Vermelho
30/06/2020 - Aproxima-se o lançamento do rover Perseverance
27/11/2018 - Os locais de aterragem dos próximos rovers marcianos da NASA e da ESA

Notícias relacionadas:
SPACE.com
science alert
New Scientist
PHYSORG
CNN
BBC News

Marte:
CCVAlg - Astronomia
Wikipedia

Cratera Jezero:
Wikipedia

Rover Perseverance:
NASA
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Solar Orbiter publica um "tesouro" de resultados científicos da sua fase de cruzeiro

Para uma missão que ainda não tinha entrado na sua fase científica principal, a Solar Orbiter gerou muita ciência espetacular. Na semana passada foram publicados vários artigos científicos da fase de cruzeiro da missão.

Observações forenses da superfície solar, medições de uma explosão gigantesca de partículas energéticas e um encontro com a cauda de um cometa são apenas alguns dos destaques dos mais de cinquenta artigos que perfazem uma edição especial da revista Astronomy & Astrophysics e apresentados no passado dia 14 de dezembro na reunião anual da União Geofísica Americana.

"Os resultados publicados hoje demonstram a variedade da ciência solar que a missão está a tornar possível e sinalizam a riqueza de dados que agora é transmitida para a Terra," diz Yannis Zouganelis, cientista adjunto do projeto Solar Orbiter na ESA.

A fase de cruzeiro da Solar Orbiter começou no dia 15 de junho de 2020 e durou até 27 de novembro de 2021. Durante esse período, a sonda obteve dados científicos com os seus instrumentos in-situ, que estão concebidos para medir o ambiente em torno da nave espacial. Também utilizou o seu equipamento de sensoriamento remoto para observar o Sol a fim de caracterizar e calibrar esses instrumentos. Alguns destes dados revelaram-se de tão boa qualidade que permitiram a realização dos primeiros estudos científicos antes da fase científica principal, que começou no final de novembro de 2021.

 
Imagem da atmosfera exterior do Sol, a corona, tirada com o instrumento EUI (Extreme Ultraviolet Imager) a bordo da Solar Orbiter.
Esta imagem particular foi tirada pelo HRIEUV (High Resolution Imager Extreme Ultraviolet Imager) a trabalhar no comprimento de onda ultravioleta extremo de 17,4 nm. Obtida no dia 23 de fevereiro de 2021, esta imagem mostra 384x384 mil quilómetros da superfície solar. Para comparação, o diâmetro da Terra é de 12,7 mil quilómetros.
A 23 de fevereiro de 2021, a actividade do Sol era silenciosa mas o HRIEUV ainda captava uma actividade de jato a relativamente pequena escala no Sol. Esta atividade dinâmica está associada às chamadas fogueiras solares em miniatura, que os cientistas descobriram no Sol com o instrumento EUI pouco depois do lançamento da Solar Orbiter.
Crédito: Solar Orbiter/Equipa EUI/ESA & NASA
 

Vendo "fogueiras" solares em mais detalhe

Quando a Solar Orbiter abriu os olhos pela primeira vez, após o seu lançamento em fevereiro de 2020, o seu EUI (Extreme Ultraviolet Imager) descobriu uma série de erupções solares em miniatura que os cientistas apelidaram de "fogueiras". Estas podem desempenhar um papel fundamental na explicação da temperatura de mais ou menos 1 milhão de graus da atmosfera exterior do Sol, a coroa, que tem desafiado a explicação durante muitas décadas.

Nos últimos resultados, o instrumento EUI tem vindo a adquirir algumas observações em modo de "alta cadência", transmitindo uma imagem da coroa solar a cada dois segundos. Estas sequências de imagem estão entre as observações com cadência mais alta da coroa solar já registadas no ultravioleta extremo. Os dados revelam uma classe dinâmica de fogueiras que disparam jatos de gás eletrificado conhecido como plasma a velocidades de cem quilómetros por segundo. Observa-se que estes jatos existem apenas durante 10 a 20 segundos.

"Estamos agora a chegar à essência deste processo," diz Pradeep Chitta, do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, em Gotinga, Alemanha, que liderou este estudo. Ele compara o passado como tendo vista fraca, sendo apenas capaz de ver imagens desfocadas. No entanto, agora o EUI está a trazer para foco as fogueiras e com cada vez mais nitidez.

E a visão só vai continuar a melhorar à medida que a Solar Orbiter se aproxima do Sol. E, graças a uma atualização nas estações terrestres da ESA, a nave espacial pode devolver mais dados de alta cadência do que o previsto antes do lançamento.

O primeiro evento de partículas altamente energéticas da Solar Orbiter

Para além das fogueiras a "pequena escala", a Solar Orbiter também testemunhou o seu primeiro evento de grande escala. No dia 29 de novembro de 2020, o Sol expeliu o primeiro evento generalizado de partículas energéticas em vários anos.

O Sol passa por um ciclo de atividade magnética que dura aproximadamente 11 anos e este evento em particular foi o primeiro evento generalizado de partículas energéticas do ciclo 25. Como o nome indica, o evento espalhou partículas ao longo de uma grande faixa do Sistema Solar interior. Quando a erupção atingiu a distância da Terra, as partículas ejetadas estavam espalhadas por mais de 230 graus de longitude solar.

Foram detetadas não só pela Solar Orbiter, mas também pela Parker Solar Probe e pela STEREO-A da NASA, e pela SOHO da ESA/NASA, todas as quais estavam perto da órbita da Terra mas com longitudes solares diferentes. Portanto, a questão é qual foi a dimensão da região de origem do evento no Sol, e quanto é que a erupção cresceu depois de ter sido lançada? É aqui que o objetivo da Solar Orbiter de "ciência de ligação" se torna importante.

"Venho das observações in-situ," diz Alexander Kolhoff, do Instituto para Física Experimental e Aplicada da Universidade de Quiel, Alemanha, que liderou a análise do evento de novembro. "Vemos um evento de partículas em torno da nave espacial e depois vamos às observações de sensoriamento remoto e tentamos localizar a fonte no Sol."

Neste caso em particular, os dados são inconclusivos sobre se a dimensão da região da fonte, por si só, era suficientemente grande para explicar a grande difusão de partículas. Mas as pistas nos dados são suficientes para prometer bastante à medida que os cientistas continuam a refinar esta técnica.

Rastreando as ejeções "furtivas" de massa coronal

Também fazendo observações minuciosamente detalhadas da superfície solar, Jennifer O'Kane, do Laboratório de Ciência Espacial Mullard do Colégio Universitário de Londres, no Reino Unido. Juntamente com colegas, ela foi em busca das chamadas ejeções "furtivas" de massa coronal.

As ejeções de massa coronal (EMCs) são erupções gigantescas de plasma solar e campos magnéticos que normalmente ocorrem lado a lado com as proeminências solares - um evento magnético explosivo na atmosfera inferior do Sol que expele as partículas para o espaço. No entanto, no caso de uma EMC "furtiva", não parece haver uma proeminência associada.

Utilizando as mais sofisticadas ferramentas disponíveis de processamento de imagem, Jennifer analisou as imagens solares para ver se conseguia encontrar evidências de um evento desencadeante que lançou uma EMC em abril de 2020.

A força do seu campo magnético, medida pela Solar Orbiter, era também particularmente grande, cerca do dobro de uma EMC normal, mas o quebra-cabeças era que a superfície visível do Sol estava completamente "em branco" nessa altura. Não existiam manchas solares ou quaisquer outras regiões ativas. Foi apenas a força elevada do campo magnético do plasma, que envolveu a Solar Orbiter, que alertou a equipa para a EMC em primeiro lugar.

Após uma investigação cuidadosa dos dados, Jennifer encontrou uma região escura nas imagens no ultravioleta extremo que indicavam uma cavidade de baixa densidade na coroa solar, que se elevou muito lentamente do Sol.

Lento, neste contexto, é outro termo relativo. Ao passo que as EMCs viajam a centenas ou até milhares de quilómetros por segundo, esta deslocava-se para fora a dezenas de quilómetros por segundo.

"Foi o evento mais difícil que alguma vez estudei," diz Jennifer, referindo-se ao esforço que foi necessário para encontrar sequer uma pista da sua origem.

De uma perspetiva de previsão do clima espacial, as EMCs furtivas são um desafio particular porque os meteorologistas dependem da observação de um evento no Sol para que possam reconhecer, em tempo real, que algo vai chegar e que isso pode mudar o ambiente espacial perto da Terra.

 
A missão Solar Orbiter da ESA vai observar o Sol dentro da órbita de Mercúrio aquando da sua maior aproximação.
Crédito: ESA/ATG medialab
 

"Rendez-vous" com a cauda de um cometa

Lorenzo Matteini, do Colégio Imperial de Londres, Reino Unido, liderou outra meticulosa investigação para determinar se a Solar Orbiter havia atravessado a cauda do Cometa ATLAS durante junho de 2020.

A possível travessia foi prevista pouco depois do lançamento da Solar Orbiter e, por isso, a equipa "mexeu-se" para garantir que pelo menos alguns instrumentos estivessem prontos a tempo de obter dados. Contudo, por uma reviravolta mais ou menos cruel do destino, apenas dez dias antes da travessia, o cometa desintegrou-se sob o calor do Sol e a bela cauda desvaneceu.

No entanto, Lorenzo e colegas encontraram evidências consistentes com uma travessia do remanescente da cauda do cometa em dados obtidos dia 4 de junho. Especificamente, viram o campo magnético à volta da Solar Orbiter mudar subitamente a sua polaridade, o que seria de esperar se o campo magnético do Sol fosse arrastado à volta de um pedaço do núcleo do cometa quebrado.

"Esta é a primeira vez que nos encontramos com uma cauda cometária dentro da órbita da Terra," diz Lorenzo.

E pode não ser a última. Os cometas estão sempre a cair em direção ao Sol. A forma como interagem com o campo magnético do Sol proporciona mais outro método da Solar Orbiter investigar esta fascinante região do Sistema Solar.

Após o seu "flyby" pela Terra de novembro de 2021, a Solar Orbiter encontra-se agora na sua fase científica principal. Todos os envolvidos estão a preparar-se para a próxima passagem pelo Sol, em março de 2022.

"Não podia estar mais satisfeito com a missão. Estes resultados demonstram a incrível ciência que já foi feita, e a que ainda está por vir," diz Daniel Muller, cientista do projeto Solar Orbiter na ESA.

// ESA (comunicado de imprensa)
// Edição especial da revista Astronomy & Astrophysics (52 artigos científicos)
// Artigo científico #1 (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico #1 (arXiv.org)
// Artigo científico #2 (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico #3 (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico #3 (arXiv.org)
// Artigo científico #4 (Astronomy & Astrophysics)
// Ampliando os jatos solares (ESA via YouTube)
// Coroa solar em detalhe (ESA via YouTube)
// Evento solar de partículas, pela SOHO (ESA via YouTube)
// O Sol magnético (ESA via YouTube)

 


Saiba mais

CCVAlg - Astronomia:
22/12/2020 - Solar Orbiter prepara-se para sobrevoo festivo a Vénus
18/12/2020 - Solar Orbiter: transformar imagens em física
17/07/2020 - As primeiras imagens da Solar Orbiter revelam "fogueiras" no Sol
02/06/2020 - Solar Orbiter atravessa as caudas do Cometa Atlas
11/02/2020 - Descolagem da Solar Orbiter, a missão da ESA que olhará o Sol de frente
04/02/2020 - Nova missão da ESA para estudar o Sol
22/05/2018 - Duas novas sondas serão as mais próximas do Sol

Sol:
CCVAlg - Astronomia 
Wikipedia

Solar Orbiter:
ESA
NASA
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  Sonda Juno "ouve" lua de Júpiter (via NASA)
Sons de uma passagem rasante por Ganimedes, campos magnéticos, e comparações notáveis entre Júpiter e os oceanos e atmosferas da Terra foram discutidos durante um "briefing" sobre a missão de Juno da NASA a Júpiter. O investigador principal da, Juno Scott Bolton, do SwRI (Southwest Research Institute) em San Antonio divulgou uma faixa áudio de 50 segundos gerada a partir de dados recolhidos durante o "flyby" por Ganimedes de 7 de junho de 2021. O instrumento Waves da Juno, que sintoniza as ondas de rádio eléctricas e magnéticas produzidas na magnetosfera de Júpiter, recolheu os dados das emissões. Ler fonte
     
  Astrónomos confirmam a existência de um supervazio cósmico que desafia a nossa compreensão da energia escura (via IAC)
Uma investigação pela colaboração DES (Dark Energy Survey), na qual o Instituto de Astrofísica de Canarias (IAC) participa, confirmou a presença, na direção da constelação de Erídano, de uma região supervazia, uma região extremamente grande com uma densidade de matéria inferior à média. O seu estudo poderá fornecer novas pistas para a compreensão da natureza da energia negra. O resultado foi publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. Ler fonte
 
   
Álbum de fotografias - Alinhamento Planetário
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Antonio Finazzi
 
Não é coincidência que os planetas se alinhem. Isto porque todos os planetas orbitam o Sol num plano (quase) único chamado eclíptica. Quando vistos de dentro desse plano - como os habitantes da Terra fazem - todos os planetas parecem confinados a uma única banda no céu. No entanto, é uma coincidência quando três dos planetas mais brilhantes aparecem todos quase na mesma direção. Tal coincidência foi capturada no início deste mês. Em destaque acima (da direita para a esquerda), Vénus, Saturno, e Júpiter foram todos fotografados juntos, em linha, logo após o pôr-do-sol, a partir das Colinas de San Fermo, Bergamo, Itália. Juntando-se ao alinhamento estão a Lua da Terra, e a posição do mais distante Úrano. Bandas de nuvens estendem-se através do céu em direção ao Sol poente. À medida que o Cometa Leonard desvanece, este alinhamento planetário - sem a Lua - deverá persistir durante o resto do mês.
 
   
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