Edifício

A 31 de Março de 1910, a Câmara de Faro assinou com Francisco Sousa Magalhães um contrato para a electrificação da cidade. Era o fim de um longo processo que visava a instalação de energia eléctrica na cidade de Faro, processo que começou em 1896 com as negociações com uma empresa inglesa passando, posteriormente, por vários concursos falhados.

No jornal “O Algarve” de 28 de Janeiro de 1912 foi publicada a escritura do contrato provisório. Este contrato era composto por 34 artigos. A titulo de curiosidade veja-se a introdução feita ao mesmo :

« Escriptura de contracto provisório para o fornecimento de luz eléctrica da cidade de Faro, a que se refere o decreto de 31 de Março de 1910

Saibam quantos esta escriptura de contracto provisório virem, que no anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1910, aos 14 dias do mez de março do dito anno, n’esta cidade de Faro, Paços do Concelho e Sala das Sessões da Camara Municipal, compareceram de uma parte como primeiro outorgante o Ex.mo e Rev.mo Sr. Padre João Ignacio Tavares, na qualidade de vereador mais velho, representando a Camara Municipal d’esta cidade, e por ella devidamente auctorisado, em sessão de 14 d’este mez, a outorgar n’este contracto, e de outra parte o Ex.mo Sr. Francisco de Sousa Magalhães, com domicilio na rua de Pedrouços, n.º 16, da cidade de Lisboa.
E logo pelo primeiro outorgante foi dito que a Camara Municipal que representa, em sessão extraordinária d’esta data, deliberou adjudicar, em hasta publica, cujo concurso aberto por espaço de trinta dias, devidamente annunciado no Diario do Governo e n’outros jornaes do paiz, terminou no dia 12 d’este mez, a arrematação do fornecimento da luz electrica para a iluminação publica e particular d’esta cidade de Faro ao segundo outorgante Ex.mo Sr. Francisco de Sousa Magalhães, sob as seguintes condições :
(...) »

Este contrato celebrado com Francisco Sousa Magalhães foi extremamente importante para a cidade de Faro, capital do Algarve. Não podemos esquecer que na década de 50 do século XIX, Faro era uma cidade sem iluminação, todas as ruas, praças, largos permaneciam na mais completa escuridão nas noites sem luar.

Somente na década de 60 a Câmara começou a manifestar interesse na instalação de candeeiros a petróleo nas esquinas mais concorridas da cidade tendo mesmo encetado contactos com outras Câmaras para ver como estava a correr a sua instalação noutras cidades.

Em 1872 já eram cerca de centena e meia os candeeiros a petróleo existentes na cidade, o que obrigou à nomeação de um fiscal de iluminação pública. Era sua função controlar os períodos de funcionamento dos lampiões, o estado de conservação dos mesmos e as necessidades de combustível. Como curiosidade pode-se referir que nas noites de luar os candeeiros não eram acesos.

Com o passar do tempo a iluminação pública vai evoluindo assim como a área iluminada. Em termos sociais e económicos cada vez mais são as vozes que se levantam para reclamar da urgência do fornecimento de energia eléctrica na cidade de Faro, como é possível verificar pela leitura dos jornais da época.

Finalmente em 1909 decide-se que Faro deveria usufruir de iluminação eléctrica, adjudicando-se a instalação da rede e a produção de energia à Companhia de Electricidade de Faro, que constrói a sua Central num edifício junto ao apeadeiro das Portas do Mar, defronte das muralhas da cidade.

Os grupos geradores são accionados por máquinas a vapor e entram em funcionamento a 1 de Abril de 1910. Na casa anexa reside o responsável e administrador da Central Eléctrica. Conta-se que quando as luzes de Faro acendiam dizia-se “Lá vem o Magalhães !!!”

A fábrica, ou estação geradora, tinha uma sala grande onde estavam as máquinas e possuía o que de mais moderno havia. As duas máquinas de vapor Compound (de alta e baixa pressão) eram um modelo de perfeição e economia de combustível pois realizavam 75 cavalos-vapor com uma superfície de grelha reduzida. O único ruído produzido pelo sistema devia-se à rotação das correias de transmissão.

Na sala das máquinas havia uma bomba, com motor, destinada a elevar 30 metros cúbicos de água, por hora, para as caldeiras, seis vezes mais do que a água que a cidade consumia. A má qualidade da água viria a provocar danos irreparáveis nas caldeiras da fábrica de electricidade, num futuro próximo.

Pela cidade, os arcos voltaicos e as lâmpadas de dezasseis velas, de fio metálico (tântalo), agradavam imenso à população. A partir desta data, os navegantes que sulcavam os mares próximos de Faro, viam nada menos de doze arcos arcaicos a anunciar-lhes que a cidade mais ao Sul de Portugal já aderira à civilização e ao progresso.

Até final dos anos 30 produz-se electricidade neste local. A partir de então, Faro passa a ser alimentado por uma linha de alta tensão que termina na Central. Em 1957 delibera-se municipalizar o serviço público de energia eléctrica e o edifício fica sem aproveitamento. Os Bombeiros Municipais instalam-se aqui em 1962 onde permanecem até 1993.

O complexo da antiga Central Eléctrica, património da Câmara Municipal de Faro, depois de recuperado, alberga a partir de Agosto de 1997 o Centro Ciência Viva do Algarve.

Bibliografia
- SANTOS, Luís Filipe Rosa. Faro – um olhar sobre o passado recente (segunda metade do século XIX), Câmara Municipal de Faro, Faro,1997.

- PAULA, Rui; Paula, Frederico. Faro, evolução urbana e património, Câmara Municipal de Faro, Faro, 1993.

Agradecimentos
Família Sousa Magalhães
Bombeiros Municipais de Faro

Nota
Para complementar este pequeno texto sobre o actual edificio do CCVAlg tentou-se encontrar fotos da época. Como é possível verificar esse esforço não teve grandes resultados.
Se possuir fotos sobre o edificio ou tiver conhecimento de factos curiosos ocorridos no mesmo, por favor contacte-nos. Teremos todo o prazer em recolher o seu contributo.


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