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Edição n.º 1334
20/12 a 22/12/2016
 
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EFEMÉRIDES

Dia 20/12: 355.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1904, era fundado o Observatório Solar do Mt. Wilson
Em 1996, morria Carl Sagan, considerado por muitos o maior divulgador de Astronomia da História.
Em 1999, lançamento da missão STS-103 do vaivém Discovery, a terceira missão de serviço ao Telescópio Hubble.

Observações: Com a Lua fora do céu, e o frio ar de dezembro estando especialmente limpo, é uma boa altura para montar o seu telescópio e tentar avistar a Galáxia do Triângulo, M33. Passa muito alto por estas noites, é grande mas ténue. Quanto menos poluição luminosa houver, melhor.

Dia 21/12: 356.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1968, lançamento da Apollo 8William A. AndersJames A. Lovell Jr. e Frank Borman tornaram-se nos primeiros seres humanos a sair da órbita da Terra.

Esta missão teve como objetivo alcançar a órbita da Lua, observar a sua superfície e o seu lado escuro. Duração da missão: 6 dias, 3 horas, 0 minutos e 42 segundos. 
Em 1984 era lançada a sonda soviética Vega 2.
Observações: Lua em Quarto Minguante, pelas 01:56. Encontra-se em Virgem, perto da cauda de Leão. Júpiter nasce por baixo da Lua cerca de hora e meia depois.
Começa o inverno, pelas 10:44 (verão no hemisfério sul). É o dia mais curto do ano. É quando o Sol está na sua declinação mais a sul no céu da Terra e começa a sua viagem de seis meses para norte.

Dia 22/12: 357.º dia do calendário gregoriano.
História:  Em 1891, o asteróide 323 Brucia torna-se no primeiro asteroide descoberto usando astrofotografia.
Em 2015, a SpaceX aterra o primeiro estágio de um foguetão Falcon 9 no solo, depois de alcançar baixa órbita terrestre às 01:40 UTC pela primeira vez na história.

Observações: Saia à rua antes do amanhecer e bem alto no céu a sudeste estarão Júpiter, a mais ténue Espiga e a Lua Minguante, formando uma linha. Aqueça-se e traga um telescópio!

 
CURIOSIDADES


O maior levantamento digital do Universo visível, mapeando milhares de milhões de estrelas e galáxias, foi anunciado publicamente pelo projeto Pan-STARRS. Os astrónomos e cosmólogos usaram um telescópio de 1,8 metros no cume de Haleakalā, Maui, Hawaii, para fotografar repetidamente três-quartos do céu durante mais de quatro anos. Os dados correspondem a três mil milhões de fontes separadas, incluindo estrelas, galáxias e outros objetos espaciais. Esta coleção imensa de informação contém dois petabytes de dados - o equivalente a mil milhões de "selfies" ou cem vezes o conteúdo total da Wikipedia. Os dados estão disponíveis aqui.

 
ESTUDO DE MICROLENTES SUGERE QUE OS PLANETAS EXTERIORES MAIS COMUNS SÃO DA MASSA DE NEPTUNO

Um novo estudo estatístico de planetas encontrados graças a uma técnica chamada microlente gravitacional sugere que os mundos com a massa de Neptuno são provavelmente o tipo mais comum de planeta para se formar nos reinos exteriores dos sistemas planetários. O estudo fornece a primeira indicação dos tipos de planetas à espera de ser encontrados longe de uma estrela hospedeira, onde os cientistas suspeitam que os planetas se formam de modo mais eficiente.

"Encontrámos o aparente ponto ideal nos tamanhos de planetas frios. Ao contrário de algumas previsões teóricas, inferimos a partir das nossas deteções atuais que os mais numerosos têm massas parecidas com a de Neptuno, e que não parece haver o aumento esperado no número a massas mais baixas," afirma o autor principal Daisuke Suzuki, investigador de pós-doutorado do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland, e da Universidade de Maryland Baltimore County. "Nós concluímos que os planetas com a massa de Neptuno nestas órbitas externas são cerca de vezes mais comuns do que os planetas com a massa de Júpiter em órbitas semelhantes à de Júpiter."

As microlentes gravitacionais tiram proveito dos efeitos de flexão da luz de objetos massivos previstos pela teoria geral da relatividade de Einstein. Ocorrem quando uma estrela de primeiro plano, a lente, alinha aleatoriamente com uma distante estrela de fundo, a fonte, a partir do ponto de vista da Terra. À medida que a estrela "lente" percorre a sua órbita em torno da Galáxia, o alinhamento muda ao longo de dias até semanas, alterando o brilho aparente da fonte. O padrão preciso dessas mudanças fornece aos astrónomos pistas sobre a natureza da estrela da lente, incluindo quaisquer planetas que possa albergar.

"Nós determinamos principalmente a massa do planeta em relação à estrela-mãe e sua separação," realça o membro da equipa David Bennett, astrofísico de Goddard. "Para cerca de 40% dos planetas de microlentes, podemos determinar a massa da estrela hospedeira e, portanto, a massa do planeta."

Foram descobertos mais de 50 exoplanetas usando microlentes, em comparação com os milhares detetados por outras técnicas, como a deteção do movimento ou diminuição do brilho de uma estrela provocada pela presença de planetas. Dado que os alinhamentos necessários entre as estrelas são raros e ocorrem aleatoriamente, os astrónomos precisam de monitorizar milhões de estrelas em busca das mudanças de brilho que assinalam um evento de microlente.

Este gráfico mostra 4769 exoplanetas e candidatos a planeta de acordo com as suas massas e distâncias relativas à linha de neve, o ponto onde a água e outros materiais ficam sólidos (linha vertical azul). As microlentes gravitacionais são particularmente sensíveis a planetas nesta região. Os planetas são coloridosde acordo com a técnica usada para os descobrir, legendada à direita. As massas para os candidatos a planeta não confirmados pela missão Kepler da NASA são calculadas com base nos seus tamanhos. Para comparação, o gráfico também inclui os planetas do nosso Sistema Solar.
Crédito: Centro de Voo Espacial Goddard da NASA
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No entanto, as microlentes possuem um grande potencial. Podem detetar planetas centenas de vezes mais distantes do que a maioria dos outros métodos, permitindo com que os astrónomos investiguem uma ampla faixa da nossa Via Láctea. A técnica pode localizar exoplanetas com massas menores e a maiores distâncias das suas estrelas hospedeiras e é sensível o suficiente para encontrar planetas flutuando sozinhos pela Via Láctea, sem ligação a estrelas.

As missões Kepler e K2 da NASA têm sido extraordinariamente bem-sucedidas a encontrar planetas que diminuem o brilho das suas estrelas, tendo até à data confirmado mais de 2500 descobertas. Essa técnica é sensível a planetas mais íntimos, mas não a mais distantes. Os levantamentos de microlentes são complementares, são mais eficientes nas partes exteriores dos sistemas planetários com uma menor sensibilidade a planetas mais próximos das suas estrelas.

"A combinação das microlentes com outras técnicas fornece-nos uma visão geral mais clara do conteúdo planetário da nossa Galáxia," afirma o membro da equipa Takahiro Sumi da Universidade de Osaka, no Japão.

De 2007 a 2012, o grupo MOA (Microlensing Observations in Astrophysics), uma colaboração entre investigadores do Japão e da Nova Zelândia, emitiu 3300 alertas informando a comunidade astronómica sobre eventos de microlentes em curso. A equipa de Suzuki identificou 1474 eventos de microlentes bem observados, 22 deles mostrando sinais planetários claros. Isto inclui quatro planetas nunca antes divulgados.

Para estudar estes eventos em maior detalhe, a equipa inclui dados do outro grande projeto de microlentes que operava durante o mesmo período, o OGLE (Optical Gravitational Lensing Experiment), bem como observações adicionais de outros projetos desenhados para seguir os alertas do MOA e do OGLE.

A partir desta informação, os cientistas determinaram a frequência de planetas em comparação com o rácio da massa do planeta/massa da estrela, juntamente com as distâncias que os separam. Para uma típica estrela que alberga um planeta, com 60% da massa do Sol, o típico planeta de microlente é um mundo que tem entre 10 e 40 vezes a massa da Terra. Para comparação, Neptuno no nosso próprio Sistema Solar, tem o equivalente a 17 Terras.

Os exoplanetas da massa de Neptuno como este na impressão de artista podem ser os mais comuns nas regiões geladas dos sistemas planetários. Para lá de uma certa distância de uma jovem estrela, a água e outras substâncias permanecem congeladas, levando a uma população abundante de objetos gelados que podem colidir e formar os núcleos de novos planetas. No pano da frente, um corpo gelado desse período passado passa pelo planeta.
Crédito: NASA/Goddard/Francis Reddy
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Os resultados implicam que os mundos frios com a massa de Neptuno são provavelmente os tipos mais comuns de planetas além da chamada "linha de neve", o ponto onde a água permanece congelada durante a formação planetária. No Sistema Solar, pensa-se que a linha de neve estivesse localizada a cerca de 2,7 vezes a distância média entre a Terra e o Sol, colocando-a, hoje em dia, no meio da cintura de asteroides.

O artigo que divulga estas descobertas foi publicado na edição de 13 de dezembro da revista The Astrophysical Journal.

"Para lá da linha de neve, os materiais que seriam gasosos mais perto da estrela condensam-se em corpos sólidos, aumentando a quantidade de material disponível para iniciar o processo de construção planetária," acrescenta Suzuki. "É aqui que pensamos que a formação planetária seja mais eficiente e é também a região onde a técnica de microlentes é mais sensível."

O WFIRST (Wide Field Infrared Survey Telescope) da NASA, com lançamento previsto para meados da década de 2020, levará a cabo uma extensa pesquisa de microlentes. Os astrónomos esperam que forneça determinações da massa e da distância para milhares de exoplanetas, completando o trabalho iniciado pelo Kepler e fornecendo o primeiro censo galáctico das propriedades planetárias.

Links:

Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
Neptunos frios: o ponto ideal dos exoplanetas? (NASA Goddard via YouTube)
The Astrophysical Journal
Artigo científico (arXiv.org)
ScienceDaily
PHYSORG

Planetas extrasolares:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares
Arquivo de Exoplanetas da NASA

Microlentes gravitacionais:
Wikipedia

MOA:
Página oficial
Wikipedia

OGLE:
Página oficial
Wikipedia

Telescópio Espacial Kepler:
NASA (página oficial)
K2 (NASA)
Arquivo de dados do Kepler
Descobertas planetárias do Kepler
Wikipedia

WFIRST:
NASA
Wikipedia

 
ASTRÓNOMOS DESCOBREM PASSADO SOMBRIO DE "ESTRELA DA MORTE", DESTRUIDORA DE PLANETAS
HIP 68468, uma estrela gémea do Sol a cerca de 300 anos-luz de distância, pode ter engolido um ou mais dos seus planetas, com base no lítio e nos elementos refratários descobertos recentemente perto da sua superfície.
Crédito: Gabi Perez/Instituto de Astrofísica das Canárias
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Uma equipa internacional de cientistas, incluindo investigadores da Universidade de Chicago, fez a rara descoberta de um sistema planetário com uma estrela hospedeira parecida com o Sol. Especialmente intrigante é a composição invulgar da estrela, que indica que ingeriu alguns dos seus planetas.

"Isso não significa que o Sol vai 'comer' a Terra em breve," comenta Jacob Bean, professor assistente de astronomia e astrofísica da Universidade de Chicago e coautor do artigo sobre a descoberta, publicado na revista Astronomy & Astrophysics. "Mas a nossa descoberta fornece uma indicação de que histórias violentas podem ser comuns para sistemas planetários, incluindo o nosso."

Ao contrário da artificial "Estrela da Morte", que destrói planetas na saga "Guerra das Estrelas", esta versão natural fornece pistas sobre como os sistemas planetários evoluem ao longo do tempo.

Os astrónomos descobriram o primeiro planeta em órbita de uma estrela que não o Sol em 1995. Desde então, foram identificados mais de dois mil exoplanetas. Entre eles, são raros os que orbitam uma estrela parecida com o nosso Sol. Devido à sua semelhança extrema com o Sol, estes denominados gémeos solares são alvos ideais para investigar as ligações entre as estrelas e os seus planetas.

Bean e colegas estudaram a estrela HIP 68468, situada a 300 anos-luz de distância, como parte de um projeto de vários anos para descobrir planetas que orbitam gémeos solares. É complicado extrair conclusões de um único sistema, advertiu Megan Bedell, estudante de doutoramento na mesma universidade, coautora da investigação e a principal descobridora planetária da colaboração. Ela disse que a equipa planeia "estudar mais estrelas como esta para ver se este é um resultado comum do processo de formação planetária."

As simulações computacionais mostram que daqui a milhares de milhões de anos, os puxões e empurrões gravitacionais entre os planetas vão, eventualmente, fazer com que Mercúrio caia para o Sol, realça Debra Fischer, professora de astronomia na Universidade de Yale, que não esteve envolvida na pesquisa. "Este estudo de HIP 68468 é um pós-morte deste processo em torno de uma estrela parecida com o nosso Sol. A descoberta aprofunda a nossa compreensão da evolução dos sistemas planetários."

Dois planetas descobertos

Usando o telescópio de 3,6 metros do Observatório La Silla no Chile, a equipa de investigação, de vários continentes, descobriu o seu primeiro exoplaneta em 2015. A mais recente descoberta precisa ser confirmada, mas inclui dois candidatos a planeta - um super-Neptuno e uma super-Terra. Orbitam surpreendentemente perto da sua estrela-mãe, um sendo 50% mais massivo que Neptuno e localizado à distância de Vénus da sua estrela. O outro, a primeira super-Terra em redor de um gémeo solar, tem três vezes a massa do nosso planeta e está tão perto da estrela que completa uma órbita a cada três dias.

"Estes dois planetas provavelmente não se formaram onde os vemos atualmente," acrescenta Bedell. Em vez disso, devem ter migrado das partes mais externas do sistema planetário. Outros planetas podem ter sido expelidos do sistema - ou ingeridos pela estrela hospedeira.

A composição de HIP 68468 aponta para uma história de ingestão planetária. Contém quatro vezes mais lítio do que seria de esperar para uma estrela com 6 mil milhões de anos, bem como um excesso de elementos refratários - metais resistentes ao calor e que são abundantes em planetas rochosos.

No interior quente de estrelas como HIP 68468 e o Sol, o lítio é consumido ao longo do tempo. Os planetas, por outro lado, preservam o lítio porque as suas temperaturas internas não são altas o suficiente para destruir o elemento químico. Como resultado, quando uma estrela engole um planeta, o lítio que o planeta deposita na atmosfera estelar salta à vista.

Em conjunto, o lítio e o material do planeta rochoso consumido, presentes na atmosfera de HIP 68468, são equivalentes à massa de seis Terras.

"Pode ser muito difícil conhecer a história de uma estrela em particular, mas de vez em quando temos sorte e encontramos estrelas com composições químicas que provavelmente vieram de planetas em queda," esclarece Fischer. "É o caso de HIP 68468. Os remanescentes químicos de um ou mais planetas estão 'manchados' na sua atmosfera."

"É como se víssemos um gato sentado ao lado de uma gaiola," comenta. "Se existirem penas amarelas saindo da boca do gato, provavelmente o gato engoliu um canário."

A equipa continua a estudar mais de 60 gémeos solares à procura de mais exoplanetas. Além disso, o GMT (Giant Magellan Telescope), atualmente em construção no Chile, será capaz de detetar mais exoplanetas parecidos com a Terra em torno de gémeos solares.

"Além de encontrar planetas parecidos com a Terra, o GMT permitirá com que os astrónomos estudem a composição atmosférica de estrelas em detalhes ainda maiores do que alcançamos hoje," comenta Bean. "Isso vai revelar ainda mais as histórias de sistemas planetários subtilmente impressas nas suas estrelas hospedeiras."

Links:

Notícias relacionadas:
Universidade de Chicago (comunicado de imprensa)
Artigo científico (arXiv.org)
Science alert
PHYSORG

HIP 68468:
SIMBAD

Planetas extrasolares:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
PlanetQuest
Enciclopédia dos Planetas Extrasolares
Arquivo de Exoplanetas da NASA

Observatório La Silla:
ESO
Wikipedia

GMT (Giant Magellan Telescope):
Página oficial
Wikipedia

 
ONDE ESTÁ O GELO DE CERES? NOVOS ACHADOS DA DAWN
A sonda Dawn da NASA determinou o conteúdo de hidrogénio até um metro de profundidade da superfície de Ceres. O azul indica maiores concentrações de hidrogénio, perto dos polos, enquanto o vermelho indica concentrações inferiores a latitudes mais baixas.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/PSI
(clique na imagem para ver versão maior)
 

À primeira vista, Ceres, o maior corpo na cintura de asteroides, pode não parecer gelado. As imagens obtidas pela sonda Dawn da NASA revelaram um mundo escuro e altamente craterado cuja área mais brilhante é composta por sais altamente refletivos - não gelo. Mas estudos recentemente publicados por cientistas da Dawn mostram duas linhas distintas de evidência para gelo à superfície ou perto da superfície do planeta anão. Os investigadores apresentaram os seus achados na reunião da União Geofísica Americana de 2016 em San Francisco.

"Estes estudos suportam a ideia que o gelo se separou da rocha no início da história de Ceres, formando uma camada crustal rica em gelo, e que o gelo permaneceu perto da superfície durante o resto da história do Sistema Solar," comenta Carol Raymond, investigadora principal adjunta da missão Dawn, no JPL da NASA em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia.

A água gelada nos outros corpos planetários é importante porque é um ingrediente essencial para a vida como a conhecemos. "Ao encontrarmos corpos ricos em água no passado distante, podemos descobrir pistas sobre onda a vida pode ter existido no início do Sistema Solar," realça Raymond.

O gelo está em toda a parte em Ceres

A superfície de Ceres é rica em hidrogénio, com uma maior concentração a latitudes médias e altas - consistente com grandes extensões de água gelada, de acordo com um novo estudo publicado na revista Science.

"Em Ceres, o gelo não está apenas localizado em algumas crateras. Está em toda a parte e está mais próximo da superfície a latitudes mais altas," afirma Thomas Prettyman, investigador principal do instrumento GRaND (Gamma Ray and Neutron Detector) da Dawn, que pertence ao Instituto de Ciências Planetárias em Tucson, Arizona, EUA.

Os investigadores usaram o instrumento GRaND para determinar as concentrações de hidrogénio, ferro e potássio até um metro de profundidade em Ceres. O GRaND mede o número e energia de raios-gama e neutrões emanados de Ceres. Os neutrões são produzidos à medida que os raios cósmicos galácticos interagem com a superfície de Ceres. Alguns são absorvidos pela superfície enquanto outros conseguem escapar. Dado que o hidrogénio diminui a velocidade dos neutrões, está associado com a fuga de um menor número de neutrões. Em Ceres, o hidrogénio está provavelmente na forma de água gelada (composta por dois átomos de hidrogénio e um átomo de oxigénio).

Em vez de uma camada sólida de gelo, é provável que exista uma mistura porosa de materiais rochosos na qual o gelo preenche os poros, descobriram os cientistas. Os dados do GRaND mostram que o gelo corresponde a cerca de 10% da massa da mistura.

"Estes resultados confirmam previsões feitas há quase três décadas de que o gelo pode sobreviver durante milhares de milhões de anos logo abaixo da superfície de Ceres," realça Prettyman. "A evidência reforça o caso para a presença de água gelada perto da superfície nos outros asteroides da cintura principal."

Pistas para a vida interior de Ceres

As concentrações de ferro, hidrogénio, potássio e carbono fornecem evidências adicionais de que a camada superior de material que cobre Ceres foi alterada por água líquida no interior de Ceres. Os cientistas teorizam que o decaimento de elementos radioativos no interior de Ceres produziu calor que dirigiu este processo de alteração, separando Ceres num interior rochoso e numa camada gelada exterior. A separação do gelo e da rocha levaria a diferenças na composição química da superfície e do interior de Ceres.

Dado que a classe de meteoritos a que chamamos condritos carbonáceos também foram alterados por água, os cientistas estão interessados em compará-los com Ceres. Estes meteoritos provavelmente vêm de corpos mais pequenos que Ceres, que tiveram fluxos líquidos limitados, de modo que podem fornecer pistas sobre a história do interior de Ceres. O estudo publicado na Science mostra que Ceres tem mais hidrogénio e menos ferro do que estes meteoritos, talvez porque as partículas mais densas afundaram-se enquanto os materiais ricos em salmoura subiram até à superfície. Alternativamente, Ceres ou os seus componentes podem ter-se formado numa região diferente do Sistema Solar do que os meteoritos.

Este vídeo obtido pela sonda Dawn da NASA mostra uma cratera em Ceres em que várias zonas estão permanentemente à sombra. Estas crateras são chamadas "armadilhas frias". A Dawn mostrou que a água gelada pode, potencialmente, ficar preservada nestes locais durante longos períodos de tempo.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
 

Gelo permanentemente à sombra

Um segundo estudo, liderado por Thomas Platz do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, em Gotinga, Alemanha, e publicado na revista Nature Astronomy, focou-se em crateras permanentemente à sombra no hemisfério norte de Ceres. Os cientistas examinaram cuidadosamente centenas destas crateras frias e escuras a que chamam "armadilhas frias" - algumas com menos de -160º C, tão frias que muito pouco do gelo se transforma em vapor ao longo de mil milhões de anos. Os investigadores encontraram depósitos de material brilhante em 10 destas crateras. Numa cratera parcialmente iluminada, o espectrómetro de mapeamento infravermelho da Dawn confirmou a presença de gelo.

Isto sugere que a água gelada pode ser armazenada em crateras escuras e frias em Ceres. O gelo nestas armadilhas frias já tinha sido avistado em Mercúrio e, em alguns casos, na Lua. Todos estes corpos têm inclinações muito pequenas em relação aos seus eixos de rotação, de modo que os seus polos são extremamente frios e salpicados com crateras permanentemente à sombra. Os cientistas acreditam que corpos impactantes podem ter entregado gelo a Mercúrio e à Lua. As origens do gelo nas armadilhas frias de Ceres são, no entanto, mais misteriosas.

"Estamos interessados em saber como este gelo aí chegou e como conseguiu durar tanto tempo," acrescenta o coautor Norbert Schorghofer da Universidade do Hawaii. "Pode ter vindo da crosta rica em gelo de Ceres, ou pode ter sido entregue a partir do espaço."

Independentemente da sua origem, as moléculas de água em Ceres têm a capacidade de pular de regiões mais quentes para os polos. Uma investigação anterior sugeriu uma ténue atmosfera de água, incluindo observações do vapor de água de Ceres realizadas pelo Observatório Espacial Herschel em 2012-13. As moléculas de água que deixam a superfície caem de volta para Ceres e podem aterrar nas armadilhas frias. Com cada salto existe uma hipótese de que a molécula seja perdida para o espaço, mas uma parte delas acaba nas armadilhas frias, onde se acumulam.

Este gráfico mostra um percurso teórico de uma molécula de água em Ceres. Algumas moléculas de água caem para crateras frias e escuras chamadas "armadilhas frias", onde muito pouco do gelo transforma-se em vapor, mesmo ao longo de mil milhões de anos.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Manchas brilhantes" recebem nomes

A área mais brilhante de Ceres, no interior da cratera Occator do hemisfério norte, não brilha por causa do gelo, mas sim por causa de sais altamente refletivos. Um novo vídeo, produzido pelo Centro Aeroespacial Alemão, em Berlim, simula a experiência de voar em redor desta cratera e de explorar a sua topografia. A brilhante região central de Occator, que inclui uma abóbada com fraturas, recebeu recentemente o nome de Cerealia Facula. O conjunto de manchas menos refletivas, para este do centro, chama-se Vinalia Faculae.

"O interior único de Occator pode ter sido formado através de uma combinação de processos atualmente em investigação," afirma Ralf Jaumann, cientista planetário e coinvestigador da Dawn no Centro Aeroespacial Alemão. "O impacto que criou a cratera pode ter desencadeado o afloramento de líquido a partir do interior de Ceres, que deixou para trás os sais."

Os próximos passos da Dawn

A Dawn começou a fase estendida da sua missão em julho e está atualmente a voar numa órbita elíptica a mais de 7200 km de Ceres. Durante a missão primária, a Dawn orbitou e realizou todos os seus objetivos originais em Ceres e em redor do protoplaneta Vesta, que a sonda visitou entre julho de 2011 e setembro de 2012.

Links:

Cobertura da missão Dawn pelo Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
05/08/2016 - O que está dentro de Ceres? Novas descobertas a partir de dados de gravidade
12/07/2016 - Dawn mapeia crateras em Ceres onde o gelo pode acumular-se
01/07/2016 - Atividade hidrotermal recente poderá explicar a área mais brilhante de Ceres
25/03/2016 - Manchas brilhantes e diferenças de cor em Ceres
18/03/2016 - Descobertas variações inesperadas nas manchas brilhantes de Ceres
25/12/2015 - Ceres: imagens a partir da órbita mais baixa da Dawn
11/12/2015 - Novas pistas sobre as manchas brilhantes de Ceres e suas origens
16/10/2015 - O que colide com Ceres, fica em Ceres
02/10/2015 - Equipa da Dawn partilha novos mapas e informações sobre Ceres
11/09/2015 - Manchas de Ceres em mais detalhe
23/06/2015 - Manchas de Ceres continuam a mistificar
28/04/2015 - Pontos brilhantes de Ceres novamente visíveis
10/03/2015 - Dawn é a primeira sonda a orbitar um planeta anão
03/03/2015 - Dawn aproxima-se de encontro histórico com planeta anão
27/02/2015 - "Mancha brilhante" em Ceres tem companheira mais ténue
30/01/2015 - Dawn captura imagens de Ceres com resolução superior à do Hubble
02/01/2015 - Sonda Dawn começa aproximação ao planeta anão Ceres
09/12/2014 - Dawn captura a sua melhor imagem, até agora, de Ceres 
03/09/2013 - Ceres - um dos factores de mudança no prisma do Sistema Solar
04/09/2012 - Dawn prepara-se para sair de Vesta e rumar até Ceres
11/05/2012 - Missão Dawn revela segredos de asteróide gigante 
13/12/2011 - Será Vesta o "planeta terrestre mais pequeno"?
19/07/2011 - Sonda Dawn envia imagens a partir de órbita de Vesta
15/07/2011 - Sonda Dawn entra em órbita de asteróide dia 15 de Julho
28/06/2011 - Dawn aproxima-se de estadia de um ano em asteróide gigante 
12/09/2007 - Dawn a um passo de viagem até cintura de asteróides

Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar (comunicado de imprensa)
Science
Nature Astronomy
Voo sobre Occator em Ceres (NASA/JPL via YouTube)
Sky & Telescope
Astronomy
Universe Today
EarthSky
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Ceres:
Wikipedia

Sonda Dawn:
Página oficial
NASA
Wikipedia

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
  Número de buracos negros vai duplicar em dois anos, graças a novo método de deteção (via Universidade de Waterloo)
Investigadores da Universidade de Waterloo desenvolveram um método que irá detetar aproximadamente 10 buracos negros por ano, duplicando o número atualmente conhecido num prazo de dois anos, e provavelmente desvendar a história dos buracos negros em pouco mais de uma década. Ler fonte
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - Sul de Júpiter pela Juno
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: NASAJPL-CaltechSwRIMSSS; Processamento: Damian Peach
 
O sul de Júpiter assoma-se a cerca de 37.000 quilómetros de distância nesta imagem da JunoCam obtida no dia 11 de dezembro. Os dados de imagem foram captados durante a terceira passagem rasante da sonda Juno por Júpiter, ainda na sua órbita de 53 dias. Com a região polar sul à esquerda, a grande oval esbranquiçada à direita é enorme, um sistema de tempestades que gira no sentido anti-horário. Mais pequena que a famosa Grande Mancha Vermelha, a tempestade oval tem apenas metade do diâmetro do planeta Terra, uma de uma sequência de ovais brancas atualmente no hemisfério sul do maior gigante gasoso do Sistema Solar.
 

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