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O LEGADO DA SONDA DAWN, PERTO DO FIM DA MISSÃO
14 de setembro de 2018

 


Impressão de artista da sonda Dawn manobrando acima de Ceres graças ao seu sistema de propulsão iónica.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
(clique na imagem para ver versão maior)

 

A missão da sonda Dawn da NASA está chegando ao fim, após 11 anos de inovações na ciência planetária, a reunir imagens de tirar o fôlego e a realizar feitos sem precedentes de engenharia.

A missão da Dawn foi prolongada várias vezes enquanto explorava Ceres e Vesta, que, quando combinados, perfazem 45% da massa da cintura principal de asteroides. Agora, a nave está prestes a ficar sem combustível hidrazina. Quando isso acontecer, provavelmente entre setembro e outubro, a Dawn perderá a sua capacidade de comunicar com a Terra. Permanecerá numa órbita silenciosa em torno de Ceres durante décadas.

"Embora seja triste ver a saída da Dawn da nossa família de missões, estamos intensamente orgulhosos dos seus muitos feitos," comenta Lori Glaze, diretora da Divisão de Ciências Planetárias na sede da NASA em Washington. "Esta nave espacial não só desvendou segredos científicos nestes dois mundos pequenos mas importantes, como também foi a primeira a visitar e a orbitar corpos em dois destinos extraterrestres durante a sua missão. Os feitos científicos e de engenharia da Dawn ecoarão ao longo da história."

A Dawn foi lançada a partir da Estação da Força Aérea de Cabo Canaveral em setembro de 2007, amarrada a um foguetão Delta II-Heavy. Entre 2011 e 2012, a sonda estudou Vesta, capturando imagens de crateras, desfiladeiros e até montanhas neste mundo parecido com um planeta.

Então, em 2015, as câmaras da Dawn detetaram um criovulcão e misteriosas manchas brilhantes em Ceres, que os cientistas descobriram mais tarde serem depósitos de sal produzidos pela exposição de líquido salobro a partir do interior de Ceres.

"O legado da Dawn é que ela explorou dois dos últimos mundos inexplorados do Sistema Solar," realça Marc Rayman do JPL da NASA em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia, que serve como diretor e engenheiro-chefe da missão Dawn. "A Dawn mostrou-nos mundos alienígenas que, durante dois séculos, foram apenas pontos de luz entre as estrelas. E produziu estes retratos detalhados e íntimos e revelou paisagens exóticas e misteriosas, diferentes de tudo o que já vimos."

Feitos de Engenharia

A Dawn é a única sonda a orbitar um corpo da cintura de asteroides. E é a única espaçonave a orbitar dois destinos extraterrestres. Estes feitos foram possíveis graças à propulsão iónica, um sistema de propulsão tremendamente eficiente, familiar aos fãs de ficção científica e entusiastas do espaço. A Dawn empurrou os limites das capacidades e resistência do sistema, mostrando quão útil é para outras missões que visam visitar vários destinos.

Impulsionado por propulsão iónica, a Dawn alcançou Vesta em 2011 e investigou o asteroide da superfície ao núcleo durante os 14 meses em órbita. Em 2012, os engenheiros manobraram a Dawn para fora de órbita, e conduziram-na através da cintura de asteroides durante mais de dois anos antes de inseri-la em torno do planeta anão Ceres, onde tem vindo a recolher dados desde 2015.

A missão teve como alvo Ceres e Vesta porque funcionam como cápsulas do tempo, sobreviventes intactos da primeira parte da nossa história.

"Vesta e Ceres contaram a sua história de como e onde se formaram, e como evoluíram - uma história magmática de fogo que levou a um Vesta rochoso e uma história mais fria e rica em água que resultou no antigo mundo oceânico Ceres," afirma Carol Raymond do JPL, investigadora principal da missão Dawn. "Estes tesouros de informações vão continuar a ajudar-nos a entender outros corpos no Sistema Solar no futuro."

Ceres Espetacular

À superfície de Ceres, os cientistas encontraram a química de um oceano antigo. "O que descobrimos foi completamente alucinante. A história de Ceres está espalhada por toda a superfície," observa Raymond.

Alguns dos pontos brilhantes revelaram-se depósitos brilhantes e salgados, compostos principalmente por carbonato de sódio, que chegaram à superfície numa salmoura lamacenta de dentro ou de baixo da crosta.

As descobertas reforçam a ideia de que os planetas anões, não apenas as luas geladas como Encélado e Europa, podiam ter abrigado oceanos durante a sua história - e potencialmente ainda o fazem. As análises dos dados da Dawn sugerem que ainda pode haver líquido sob a superfície de Ceres e que algumas regiões estavam geologicamente ativas até há pouco tempo, alimentando-se de um reservatório profundo.

Uma das maiores revelações da Dawn sobre Ceres está na região da Cratera Ernutet. Foram encontradas moléculas orgânicas em abundância. Estão entre os blocos de construção da vida, embora os dados da Dawn não possam determinar se os materiais orgânicos de Ceres foram formados a partir de processos biológicos.

"Existem evidências crescentes de que os compostos orgânicos em Ernutet vieram do interior de Ceres e, nesse caso, podem ter existido por algum tempo no oceano interior," explica Julie Castillo-Rogez, cientista do projeto Dawn e vice-investigadora principal no JPL.

Vesta Vibrante

Em Vesta, a Dawn mapeou as crateras deste mundo parecido com um planeta e revelou que o seu hemisfério norte sofreu impactos maiores do que o esperado, sugerindo que havia, ao início, um número maior de objetos grandes na cintura de asteroides do que os cientistas pensavam.

Em 1996, o Telescópio Espacial Hubble transmitiu imagens de uma montanha no centro de uma enorme bacia em Vesta agora chamada Rheasilvia. O mapeamento da Dawn mostrou que tem o dobro da altura do Monte Evereste e revelou desfiladeiros que rivalizam em tamanho com o Grande Canyon.

A Dawn também confirmou Vesta como a fonte de uma família muito comum de meteoritos.

Aproximando-se do Fim

A Dawn continuou a recolher imagens de alta-resolução, espectros de raios-gama e de neutrões, espectros infravermelhos e dados de gravidade em Ceres. Quase uma vez por dia, sobrevoa Ceres a aproximadamente 35 km da sua superfície - apenas mais ou menos 3/4 da altitude de um jato de passageiros - reunindo dados valiosos até gastar o que resta da hidrazina que alimenta os propulsores que controlam a sua orientação.

Dado que Ceres tem condições de interesse para os cientistas que estudam a química que leva ao desenvolvimento da vida, a NASA segue protocolos rígidos de proteção planetária para o descarte da nave Dawn. Ao contrário da Cassini, que deliberadamente mergulhou na atmosfera de Saturno para proteger o sistema da contaminação - a Dawn permanecerá em órbita de Ceres, que não tem atmosfera.

Os engenheiros desenharam a órbita final da Dawn para garantir que não colide com o planeta anão pelo menos durante 20 anos - e provavelmente durante mais algumas décadas.

Rayman, que liderou a equipa que voou a Dawn durante toda a missão e até à sua órbita final, gosta de pensar no final da Dawn desta maneira: como "um monumento inerte e celeste à criatividade e à engenhosidade humanas."

 


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Links:

Cobertura da missão Dawn pelo Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
16/06/2018 - Matéria orgânica em Ceres pode ser mais abundante do que se pensava inicialmente
15/12/2017 - Áreas brilhantes em Ceres sugerem atividade geológica
14/11/2017 - Dawn explora a evolução do interior de Ceres
31/10/2017 - Dawn encontra possíveis restos de um antigo oceano em Ceres
24/03/2017 - Gelo nas crateras permanentemente à sombra de Ceres ligado ao passado da inclinação axial
07/03/2017 - Criovulcanismo no planeta anão Ceres
21/02/2017 - Dawn descobre evidências de materiais orgânicos em Ceres
20/12/2016 - Onde está o gelo de Ceres? Novos achados da Dawn
05/08/2016 - O que está dentro de Ceres? Novas descobertas a partir de dados de gravidade
12/07/2016 - Dawn mapeia crateras em Ceres onde o gelo pode acumular-se
01/07/2016 - Atividade hidrotermal recente poderá explicar a área mais brilhante de Ceres
25/03/2016 - Manchas brilhantes e diferenças de cor em Ceres
18/03/2016 - Descobertas variações inesperadas nas manchas brilhantes de Ceres
25/12/2015 - Ceres: imagens a partir da órbita mais baixa da Dawn
11/12/2015 - Novas pistas sobre as manchas brilhantes de Ceres e suas origens
16/10/2015 - O que colide com Ceres, fica em Ceres
02/10/2015 - Equipa da Dawn partilha novos mapas e informações sobre Ceres
11/09/2015 - Manchas de Ceres em mais detalhe
23/06/2015 - Manchas de Ceres continuam a mistificar
28/04/2015 - Pontos brilhantes de Ceres novamente visíveis
10/03/2015 - Dawn é a primeira sonda a orbitar um planeta anão
03/03/2015 - Dawn aproxima-se de encontro histórico com planeta anão
27/02/2015 - "Mancha brilhante" em Ceres tem companheira mais ténue
30/01/2015 - Dawn captura imagens de Ceres com resolução superior à do Hubble
02/01/2015 - Sonda Dawn começa aproximação ao planeta anão Ceres
09/12/2014 - Dawn captura a sua melhor imagem, até agora, de Ceres 
03/09/2013 - Ceres - um dos factores de mudança no prisma do Sistema Solar
04/09/2012 - Dawn prepara-se para sair de Vesta e rumar até Ceres
11/05/2012 - Missão Dawn revela segredos de asteróide gigante 
13/12/2011 - Será Vesta o "planeta terrestre mais pequeno"?
19/07/2011 - Sonda Dawn envia imagens a partir de órbita de Vesta
15/07/2011 - Sonda Dawn entra em órbita de asteróide dia 15 de Julho
28/06/2011 - Dawn aproxima-se de estadia de um ano em asteróide gigante 
12/09/2007 - Dawn a um passo de viagem até cintura de asteróides

Notícias relacionadas:
NASA (comunicado de imprensa)
Dawn: Missão da Dawn à Cintura de Asteroides (NASA JPL via YouTube)
SPACE.com
Astronomy Now
spaceref
PHYSORG
COSMOS
Popular Science
Popular Mechanics

Sonda Dawn:
Página oficial
NASA
"Toolkit" da missão (NASA)
Wikipedia

Ceres:
Wikipedia

Vesta:
Wikipedia

 
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