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Edição n.º 1359
17/03 a 20/03/2017
 
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31/03/17 - APRESENTAÇÃO ÀS ESTRELAS
19:30 - Este evento inclui uma apresentação sobre um tema de astronomia, seguida de observação astronómica noturna com telescópio (dependente de meteorologia favorável).
Local: CCVAlg
Preço: 2€
Pré-inscrição: siga este link
Telefone: 289 890 920
E-mail: info@ccvalg.pt

 
EFEMÉRIDES

Dia 17/03: 76.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1958 era lançada a primeira sonda a energia solar, a Vanguard 1.

Transportava um sensor de medição de temperatura e um transmissor de rádio. O seu sistema de energia parou em 1964, embora se pensasse que continuaria a orbitar a Terra e a transmitir dados durante 1000 anos.
Em 2013, o maior meteorito (desde que a NASA começou a observar a Lua em 2005) atinge a Lua.
Observações: Na divisão tradicional entre o inverno e a primavera está a ténue constelação de Caranguejo. Está situada entre Gémeos para oeste e Leão para este. Por mais ténue que seja, Caranguejo contém um objeto único: o enxame do Presépio, M44. É difuso a olho nu caso tenha acesso a um céu escuro. Com binóculos, é bonito mesmo em áreas com poluição luminosa. Procure o astro a menos de metade da distância entre Pollux (de Gémeos) e Régulo (de Leão).
Saturno na sua quadratura oeste, pelas 21:35.
Eclipse de Europa, entre as 21:49 e as 00:28 (já de dia 18).
Ocultação de Europa, entre as 22:51 e as 01:21 (já de dia 18).

Dia 18/03: 77.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1781, Charles Messier redescobre o enxame globular M92.
Em 1965, Aleksei Leonov torna-se o primeiro homem a passear no espaço após sair durante 12 minutos no exterior da Voskhod 2.

Em 1980, um foguetão Vostok preparado para uma missão de reabastecimento explode na rampa de lançamento, no Cosmódromo de Plesetsk, matando 50 pessoas.
Em 2011, inserção orbital da sonda MESSENGER em Mercúrio.
Observações: Trânsito da sombra de Io, entre as 05:14 e as 07:29.

Dia 19/03: 78.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1915, Plutão era fotografado pela primeira vez. No entanto, não foi identificado como planeta.

Em 2008, GRB 080319B, uma explosão cósmica que se torna no objeto mais distante visível [brevemente] a olho nu.
Observações: Esta é a altura do ano em que Orionte desce a sudoeste depois do anoitecer, com a sua Cintura quase na horizontal. Mas a que horas é que está mesmo na horizontal? Depende da sua localização e da sua latitude. Consegue determinar a hora precisa deste evento?

Dia 20/03: 79.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1916, era publicada a Teoria da Relatividade Geral na sequência das lectures apresentadas à Academia Prussiana de Ciências a 25 de Novembro de 1915.
Em 1964 era criada a ESRO (European Space Research Organization) percursora da ESA (Agência Espacial Europeia).

Em 2015, um eclipse solar, o equinócio e uma super-Lua ocorrem no mesmo dia.
Observações: Equinócio vernal. Começa a primavera. Pleas 10:29.
Lua em Quarto Minguante, pelas 15:58.
Eclipse de Ganimedes, entre as 20:30 e as 23:25.
Ocultação de Io, entre as 21:16 e as 23:33.
Ocultação de Ganimedes, entre as 22:25 e as 00:53 (já de dia 21).

 
CURIOSIDADES


Encélado mede apenas 505 km de diâmetro, mais pequena que o Reino Unido (em comprimento).

 
PROTOESTRELA GANHA BRILHO RESPLANDECENTE, REMODELANDO O SEU BERÇÁRIO ESTELAR

Uma protoestrela gigante, profundamente aninhada no seu berçário estelar poeirento, recentemente "rugiu" para a vida, brilhando quase 100 vezes mais do que antes. Esta explosão, aparentemente desencadeada por uma avalanche de gás formador de estrelas que chocou contra a superfície da estrela, apoia a teoria de que as estrelas jovens podem sofrer surtos de crescimento intenso que remodelam o seu ambiente.

Os astrónomos fizeram esta descoberta comparando novas observações do ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), no Chile, com observações anteriores do SMA (Submillimeter Array) no Hawaii.

"Tivemos a sorte de detetar esta espetacular transformação de uma estrela jovem e massiva," comenta Todd Hunter, astrónomo do NRAO (National Radio Astronomy Observatory) em Charlottesville, no estado norte-americano de Virginia, autor principal de um artigo publicado na revista Astrophysical Journal Letters. "Através do estudo de uma densa nuvem de formação estelar, tanto com o ALMA como com o SMA, pudemos ver que algo dramático ocorreu, mudando completamente um berçário estelar ao longo de um período de tempo surpreendentemente curto."

Em 2008, antes da era do ALMA, Hunter e colegas usaram o SMA para observar uma porção pequena, mas ativa da Nebulosa Pata de Gato (também conhecida como NGC 6334), um complexo de formação estelar localizado a cerca de 5500 anos-luz da Terra na direção da constelação de Escorpião. Esta nebulosa é semelhante, em muitos aspetos, com a sua prima mais para norte, a Nebulosa de Orionte, que também está repleta de estrelas jovens, enxames e núcleos densos de gás que estão prestes a tornarem-se estrelas. A Nebulosa Pata de Gato, no entanto, está a formar estrelas a um ritmo mais rápido.

No interior da Nebulosa Pata de Gato, vista numa imagem infravermelha obtida pelo Telescópio Espacial Spitzer da NASA (esquerda), o ALMA descobriu que uma estrela jovem está a sofrer um surto de crescimento intenso, brilhando quase 100 vezes do que antes e remodelando o seu berçário estelar (direita).
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), T. Hunter; C. Brogan, B. Saxton (NRAO/AUI/NSF); NASA Spitzer
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As observações iniciais, pelo SMA, desta região da nebulosa, apelidada NGC 6334I, revelaram o que parecia ser um típico protoenxame: uma nuvem densa de poeira e gás que abrigava várias estrelas ainda em crescimento.

As estrelas jovens formam-se nestas zonas quando regiões de gás se tornam tão densas que começam a colapsar sob a sua própria gravidade. Ao longo do tempo, formam-se discos de poeira e gás em torno destas estrelas nascentes e afunilam material para as suas superfícies, ajudando ao seu crescimento.

No entanto, este processo pode não ser inteiramente lento e estável. Os astrónomos agora pensam que as estrelas jovens podem também sofrer surtos espetaculares de crescimento, períodos em que rapidamente adquirem massa devorando vorazmente o gás da formação estelar.

Imagem do ALMA da poeira brilhante no interior de NGC 6334I, um protoenxame que contém uma estrela jovem que está passar por um surto de crescimento intenso, provavelmente despoletado por uma avalanche de gás que cai sobre a sua superfície.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO); C. Brogan, B. Saxton (NRAO/AUI/NSF)
(clique na imagem para ver versão maior)
 

As novas observações desta região pelo ALMA, obtidas em 2015 e 2016, revelam que, nos anos desde as observações originais do SMA, ocorreram mudanças dramáticas numa área do protoenxame chamada NGC 6334I-MM1. Esta região é agora quatro vezes mais brilhante em comprimentos de onda milimétricos, o que significa que a protoestrela central é quase 100 vezes mais luminosa do que antes.

Os astrónomos especulam que a razão por trás deste aumento é um aglomerado invulgarmente grande de material que foi atraído para o disco de acreção da estrela, criando uma confusão de poeira e gás. Assim que o material acumulado se tornou suficiente, a confusão estourou, libertando uma avalanche de material sobre a estrela em crescimento.

Comparando observações de dois telescópios diferentes, o ALMA e o SMA, os astrónomos notaram um surto massivo na nuvem de formação estelar. Dado que as imagens do ALMA são mais sensíveis e mostram detalhes mais finos, foi possível usá-las para simular o que o SMA poderia ter visto em 2015 e 2016. Ao subtraírem as imagens anteriores do SMA, das imagens simuladas, os astrónomos conseguiram ver uma mudança significativa em MM1 enquanto que as outras três fontes milimétricas (MM2, MM3 e MM4) permaneceram inalteradas.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO); SMA, Harvard/Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica
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Este evento extremo de acreção aumentou consideravelmente a luminosidade da estrela, aquecendo a sua poeira circundante. Foi esta poeira quente e brilhante que os astrónomos observaram com o ALMA. Embora já tenham sido observados eventos semelhantes no infravermelho, esta é a primeira vez que tal evento foi identificado em comprimentos de onda milimétricos.

Para garantir que as mudanças observadas não eram o resultado de diferenças nos telescópios ou simplesmente um erro de processamento de dados, Hunter e colegas usaram os dados do ALMA como um modelo para simular com precisão o que o SMA - com as suas capacidades mais modestas - teria observado se realizasse operações parecidas em 2015 e 2016. Ao subtrair digitalmente as imagens reais de 2008 pelo SMA, das imagens simuladas, os astrónomos confirmaram que houve, de facto, uma mudança significativa e consistente num membro do protoenxame.

"Quando nos certificámos de que estávamos a comparar dois conjuntos de observações no mesmo 'campo de jogo', ficámos a saber que estávamos a testemunhar um momento muito especial no crescimento de uma estrela," realçou Crystal Brogan, também do NRAO e coautora do artigo.

Surgiu uma confirmação adicional deste evento em dados complementares obtidos pelo Observatório de Radioastronomia de Hartebeesthoek na África do Sul. Este observatório, com uma única antena, monitorizava sinais de rádio de masers na mesma região. Os masers são o equivalente natural, no rádio, aos lasers. São alimentados por uma variedade de processos energéticos em todo o Universo, incluindo surtos de estrelas em rápido crescimento.

Os dados do Observatório de Hartebeesthoek revelam um pico abrupto e dramático na emissão de masers desta região no início de 2015, apenas alguns meses antes da primeira observação do ALMA. Tal pico é precisamente o que os astrónomos esperariam ver caso uma protoestrela sofresse um grande crescimento.

"Estas observações acrescentam evidências à teoria de que a formação estelar é pontuada por uma sequência de eventos dinâmicos que constroem uma estrela, ao invés de um crescimento contínuo e suave," conclui Hunter. "Também nos dizem que é importante monitorizar estrelas jovens no rádio e em comprimentos de onda milimétricos, porque estes comprimentos de onda permitem-nos perscrutar as profundezas das mais jovens regiões de formação estelar. A observação destes eventos, no seu estágio mais inicial, pode revelar novos fenómenos do processo de formação das estrelas."

Links:

Notícias relacionadas:
Observatório ALMA (comunicado de imprensa)
NRAO (comunicado de imprensa)
The Astrophysical Journal Letters
EurekAlert!
ScienceDaily
PHYSORG

NGC 6334:
Wikipedia

Formação estelar:
Wikipedia

ALMA:
Página principal
ALMA (NRAO)
ALMA (NAOJ)
ALMA (ESO)
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
A MATÉRIA ESCURA ERA MENOS INFLUENTE NO UNIVERSO PRIMORDIAL
Representação esquemática de galáxias com discos em rotação no Universo primordial (à direita) e atual (à esquerda). Observações feitas com o VLT (Very Large Telescope) do ESO sugerem que tais galáxias massivas com discos a formar estrelas no Universo primordial eram menos influenciadas pela matéria escura (mostrada a vermelho), uma vez que esta se encontrava menos concentrada. Como resultado, as regiões mais exteriores das galáxias distantes rodam mais lentamente do que as regiões comparáveis em galáxias do Universo local. As suas curvas de rotação, em vez de se apresentarem planas, decrescem com o aumento do raio.
Crédito: ESO/L. Calçada
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Novas observações indicam que galáxias massivas a formar estrelas durante o pico da formação galáctica, há 10 mil milhões de anos atrás, eram dominadas por matéria "bariónica", ou seja normal. Este facto está em perfeito contraste com as galáxias atuais, onde os efeitos da misteriosa matéria escura parecem ser muito maiores. Este resultado surpreendente foi obtido com o auxílio do VLT (Very Large Telescope) do ESO e sugere que a matéria escura tinha menos influência no Universo primordial do que tem atualmente. Este trabalho foi apresentado em 4 artigos científicos, um dos quais foi publicado anteontem na revista Nature.

A matéria normal apresenta-se sob a forma de estrelas brilhantes, gás resplandecente e nuvens de poeira. No entanto, a matéria escura mais elusiva não emite, absorve ou reflete luz e por isso apenas pode ser observada através dos seus efeitos gravitacionais. A presença de matéria escura explica por que é que as regiões mais externas das galáxias em espiral próximas rodam mais rapidamente do que o que seria de esperar se apenas estivesse presente a matéria normal que observamos de forma direta.

O disco de uma galáxia em espiral roda com um período de centenas de milhões de anos. Os núcleos destas galáxias têm enormes concentrações de estrelas, mas a densidade de matéria brilhante diminui em direção à sua periferia. Se a massa da galáxia consistisse inteiramente de matéria normal, então as regiões externas menos densas deveriam rodar mais lentamente do que as regiões centrais mais densas. No entanto, observações de galáxias em espiral próximas mostram que as suas regiões internas e externas rodam aproximadamente à mesma velocidade. Estas "curvas de rotação planas" indicam que estes objetos devem conter enormes quantidades de matéria não luminosa situada num halo que rodeia o disco galáctico.

Uma equipa internacional de astrónomos, liderada por Reinhard Genzel do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre em Garching, na Alemanha, utilizou os instrumentos KMOS e SINFONI montados no VLT do ESO, no Chile, para medir a rotação de seis galáxias massivas a formar estrelas no Universo distante, na época do pico da formação galáctica, há 10 mil milhões de anos atrás.

O que a equipa descobriu é assaz intrigante: contrariamente às galáxias em espiral presentes no Universo atual, as regiões externas destas galáxias distantes parecem rodar mais lentamente que as regiões mais próximas do núcleo — sugerindo que existe menos matéria escura presente do que o esperado.

Representação esquemática de galáxias com discos em rotação no Universo primordial e atual. Observações feitas com o Very Large Telescope do ESO sugerem que tais galáxias massivas com discos a formar estrelas no Universo primordial eram menos influenciadas pela matéria escura. Como resultado, as regiões mais exteriores das galáxias distantes rodam mais lentamente do que as regiões comparáveis em galáxias do Universo local. As suas curvas de rotação, em vez de se apresentarem planas, decrescem com o aumento do raio.
Crédito: ESO
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Surpreendentemente, as velocidades de rotação não são constantes, mas diminuem com a distância ao centro das galáxias," comenta Reinhard Genzel, autor principal do artigo científico publicado na Nature. "Existem muito provavelmente duas causas para este facto. A primeira é que estas galáxias massivas primordiais são fortemente dominadas por matéria normal, com a matéria escura a desempenhar um papel muito menos preponderante do que no Universo local. A segunda é que estes discos primordiais são muito mais turbulentos do que as galáxias em espiral que observamos na nossa vizinhança cósmica."

Ambos estes efeitos parecem tornar-se mais marcados à medida que os astrónomos observam cada vez mais longe no passado, em direção ao Universo primordial. Este facto sugere que três a quatro mil milhões de anos após o Big Bang, o gás nas galáxias já se encontrava eficientemente condensado em discos planos em rotação, enquanto os halos de matéria escura que os rodeavam eram muito maiores e mais dispersos. Aparentemente foram precisos milhares de milhões de anos para que a matéria escura também se condensasse, razão pela qual o seu efeito dominante é apenas observado atualmente.

Esta explicação é consistente com as observações, que mostram que as galáxias primordiais eram muito mais ricas em gás e muito mais compactas do que as galáxias atuais.

As seis galáxias mapeadas neste estudo fazem parte de uma amostra muito maior composta por uma centena de discos longínquos a formar estrelas, observados pelos instrumentos KMOS e SINFONI, montados no VLT do ESO no Observatório do Paranal, no Chile. Para além das medições das galáxias individuais descritas acima, foi também criada uma curva de rotação média combinando os sinais mais fracos das outras galáxias. Esta curva composta mostra igualmente a mesma tendência de diminuição da velocidade quando nos afastamos dos centros das galáxias. Adicionalmente, dois outros estudos de 240 discos a formar estrelas apoiam igualmente estes resultados.

Modelos detalhados mostram que, enquanto a matéria normal representa em média cerca de metade da massa total de todas as galáxias, para elevados desvios para o vermelho esta matéria domina completamente a dinâmica das galáxias.

Links:

Notícias relacionadas:
ESO (comunicado de imprensa)
Instituto Max Planck para Física Extraterrestre (comunicado de imprensa)
ESOcast (ESO via YouTube)
Artigo científico (PDF)
Nature
Artigo científico - 2 (PDF)
Artigo científico - 3 (PDF)
Artigo científico - 4 (PDF)
Sky & Telescope
SPACE.com
ScienceDaily
New Scientist
EarthSky
PHYSORG

Matéria escura:
Wikipedia

VLT:
Página oficial
Wikipedia

ESO:
Página oficial
Wikipedia

 
POLO SUL DE ENCÉLADO É MAIS QUENTE POR BAIXO DA SUPERFÍCIE

Ao longo da última década, a missão internacional da Cassini revelou uma intensa atividade no polo sul da gelada lua de Saturno, Encélado, com fraturas quentes que expelem jatos ricos em água e que sugerem um mar subterrâneo. Um novo estudo, baseado em observações de micro-ondas dessa região, mostra que a lua é mais quente do que o esperado apenas alguns metros abaixo da sua superfície gelada. Isto sugere que o calor é produzido sobre uma ampla área nesta região polar, transportado sob a crosta e que o reservatório de água líquida de Encélado pode estar à espreita apenas alguns quilómetros abaixo.

Em 2005, observações da missão Cassini revelaram plumas de vapor de água e gelo libertadas para o espaço a partir do polo sul de Encélado, a sexta maior lua de Saturno. Estes jatos têm origem nas "listras de tigre" - quatro fraturas quentes na superfície gelada da lua. A composição salgada destes jatos aponta para um mar subterrâneo de água líquida que pode interagir com o núcleo rochoso de Encélado, semelhante ao oceano subsuperficial que se pensa existir na lua de Júpiter, Europa.

Muitos dos "flybys" da Cassini por Encélado foram dedicados a compreender a estrutura interior deste corpo fascinante e o seu reservatório líquido potencialmente habitável. Agora, um estudo baseado em dados recolhidos durante uma passagem rasante em 2011 indica que o mar oculto da lua pode estar mais próximo da superfície do que se pensava anteriormente.

Imagem a cores falsas de Encélado, que relça as listras de tigre a azul.
Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"Durante este 'flyby', obtivemos as primeiras e, infelizmente, as únicas observações de alta resolução do polo sul de Encélado em comprimentos de onda de micro-ondas," comenta Alice Le Gall do LATMOS (Laboratoire Atmosphères, Milieux, Observations Spatiales) e da UVSQ (Université Versailles Saint-Quentin), França. Alice é membro associada do instrumento RADAR da Cassini e autora principal do novo estudo, publicado na revista Nature Astronomy.

"Estas observações fornecem uma visão única do que está a acontecer por baixo da superfície. Mostram que os primeiros metros abaixo da superfície da área que investigámos, embora a uns frios 50-60 K, são muito mais quentes do que esperávamos: provavelmente até 20 K mais quentes em alguns lugares," acrescenta.

"Isto não pode ser explicado apenas como resultado da iluminação do Sol e, em menor escala, do aquecimento de Saturno, de modo que deve haver uma fonte adicional de calor."

O calor detetado parece estar sob uma camada muito mais fria de geada, uma vez que nenhuma anomalia semelhante foi encontrada em observações infravermelhas da mesma região - essas estudam a temperatura da superfície, mas não são sensíveis ao que está por baixo.

As observações utilizadas por Alice e seus colaboradores cobrem uma faixa estreita, em forma de arco, da região polar sul, com cerca de 500 km de comprimento e 25 de largura, localizadas apenas 30 a 50 km para norte das listras de tigre. Devido às restrições operacionais do "flyby" de 2011, não foi possível obter observações micro-ondas das próprias fraturas ativas. Isto teve o benefício de permitir com que os cientistas observassem que os terrenos termicamente anómalos de Encélado se estendem bem para lá das listras de tigre.

As listras de tigre no polo sul de Encélado: A região estudada está indicada pela banda colorida.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute
(clique na imagem para ver versão maior)
 

"A anomalia térmica que vemos em micro-ondas é especialmente pronunciada em três fraturas que não são diferentes das listras de tigre, exceto que não parecem ser, de momento, a fonte dos jatos," salienta Alice.

Estas fraturas aparentemente dormentes situadas acima do mar quente e subterrâneo apontam para um caráter dinâmico da geologia de Encélado: a lua pode ter passado por vários episódios de atividade em diferentes locais durante a sua história passada.

Mesmo que as observações cubram apenas uma pequena região dos terrenos polares sul, é provável que toda a região seja quente e que o oceano de Encélado esteja a uns meros 2 km da superfície gelada. O achado está em concordância com os resultados de um outro estudo recente, liderado por Ondrej Cadek e publicado em 2016, que estimou a espessura da crosta de Encélado. Com uma profundidade média de 18-22 km, a concha gelada parece diminuir para menos de 5 km no polo sul.

Alice e seus colaboradores pensam que a fonte subterrânea deste aquecimento está ligada com o ciclo de marés da lua ao longo da sua órbita excêntrica em redor de Saturno. Isto induz compressões de tensão e deformações na crosta, levando à formação de falhas e fraturas enquanto, ao mesmo tempo, aquece as camadas subsuperficiais. Neste cenário, a crosta gelada mais fina da região polar sul está sujeita a uma maior deformação das marés que, por sua vez, liberta mais calor e contribui para a manutenção da água subterrânea no estado líquido.

"Esta descoberta abre novas perspetivas para investigar o surgimento de condições habitáveis nas luas geladas dos gigantes gasosos," comenta Nicolas Altobelli, cientista do projeto Cassini-Huygens da ESA.

"Se o mar subterrâneo de Encélado estiver realmente tão perto da superfície como este estudo indica, então uma missão futura a esta lua, transportando um instrumento de penetração de radar, poderá ser capaz de detetá-lo."

Links:

Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
10/05/2016 - Jatos de Encélado: surpresas na luz de uma estrela
20/10/2015 - Imagens mais próximas do norte de Encélado
18/09/2015 - Cassini descobre oceano global em Encélado
13/03/2015 - Cassini sugere atividade hidrotermal no oceano de Encélado
04/04/2014 - Encélado tem um mar subterrâneo
24/06/2011 - Cassini captura spray oceânico em lua de Saturno
08/03/2011 - Cassini descobre que Encélado é um verdadeiro poço de energia
26/02/2010 - Cassini descobre pletora de plumas e zonas quentes em Encélado
26/06/2009 - Descoberta de sais pela Cassini aponta para oceano por baixo de Encélado
24/07/2009 - Lua de Saturno mostra evidências de amónia
29/11/2008 - Jactos de Encélado - molhados ou apenas selvagens?
26/08/2008 - Cassini observa fonte dos jactos em Encélado
13/08/2008 - Cassini revisita lua gelada de Saturno
09/08/2008 - Cassini prepara-se para passar novamente por Encélado
29/03/2008 - Cassini prova material orgânico de Encélado
15/03/2008 - Cassini voa pelas plumas de Encélado
14/03/2007 - Um começo quente pode explicar os geysers de Encélado
10/03/2006 - Cassini encontra sinais de água líquida em lua de Saturno
02/12/2005 - Vulcões de gelo em Encélado

Notícias relacionadas:
ESA (comunicado de imprensa)
NASA/JPL (comunicado de imprensa)
Nature Astronomy
SPACE.com
Universe Today
Space Daily
PHYSORG
ars technica

Encélado:
Solarviews
Wikipedia

Saturno:
Solarviews
Wikipedia

Cassini:
Página oficial (NASA)
Wikipedia

 
VENTO MERIDIONAL DE VÉNUS FOI DETETADO PELA PRIMEIRA VEZ EM AMBOS OS HEMISFÉRIOS

A primeira evidência científica de que existe em Vénus uma circulação de vento entre o equador e os polos, ou vento meridional, foi reunida por uma equipa internacional liderada por Pedro Machado, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Este resultado foi publicado anteontem num artigo da revista científica Icarus, publicação de referência na área de estudo do Sistema Solar.

Através do estudo da radiação solar refletida no topo das nuvens de Vénus, Pedro Machado e a sua equipa identificaram, em ambos os hemisférios, uma componente de vento perpendicular ao equador, concordante com a circulação atmosférica característica de uma célula de Hadley (uma célula de Hadley, pela primeira vez identificada na atmosfera da Terra por George Hadley no século XVIII, é uma circulação atmosférica caracterizada pela ascensão de ar quente na região do equador e fluindo na direção dos polos rumo a latitudes médias, onde desce de novo para mais perto da superfície e regressa ao equador) e com uma velocidade média de 81 km/h.

A cúpula do Telescópio Canada-France-Hawaii.
Crédito: CFHT e Jean-Charles Cuillandre
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Segundo Pedro Machado (IA e FCUL), "esta deteção é crucial para entender o transporte de energia entre a zona equatorial e as altas latitudes, trazendo luz a um fenómeno que há décadas permanece inexplicado e que é a super-rotação da atmosfera de Vénus."

A super-rotação da atmosfera de Vénus consiste no facto de os ventos paralelos ao equador, ou ventos zonais, serem responsáveis por a atmosfera completar uma volta ao planeta em apenas pouco mais de quatro dias terrestres, ou seja, 60 vezes mais rápido do que o período de rotação do globo sólido, que é de 243 dias terrestres.

Pedro Machado, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, junto ao Telescópio Canada-France-Hawaii.
Crédito: Pedro Machado
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Atualmente a comunidade científica procura um modelo físico capaz de explicar este fenómeno de super-rotação. Neste artigo, a equipa contribui para este modelo através de um estudo da variação do vento paralelo ao equador, ou vento zonal, ao longo do tempo e ao longo das várias latitudes, assim como com os primeiros dados sobre a existência de um vento meridional. Um dos próximos passos será identificar o ramo do vento meridional a menor altitude em que o ar regressa ao equador.

Machado e a sua equipa são também autores do único método, hoje existente, que utiliza a radiação visível para a medição, a partir de telescópios na Terra, da velocidade instantânea do vento na atmosfera de outro planeta. Baseia-se no efeito de Doppler que as nuvens, pela sua deslocação, aplicam à luz do Sol que refletem.

Aquisição sequencial de espectros do lado diurno de Vénus a partir do Telescópio Canada-France-Hawaii em 19 de abril de 2014.
Crédito: Pedro Machado et al.
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Pedro Machado comenta: "Vários grupos de investigação tentaram medir o vento meridional em Vénus. As tentativas feitas até agora baseadas em observações a partir do solo foram infrutíferas, enquanto que as que utilizaram dados da sonda espacial Venus Express estavam limitadas ao hemisfério sul e revelando resultados pouco conclusivos."

Os dados deste estudo foram obtidos com observações simultâneas e coordenadas da atmosfera de Vénus realizadas com a sonda Venus Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), e com o Telescópio Canada-France-Hawaii (CFHT) utilizando o espetrógrafo de alta resolução ESPaDOnS.

Links:

Notícias relacionadas:
Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (comunicado de imprensa)
Artigo científico (Icarus)
PHYSORG
Observador

Vénus:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg 
Wikipedia

Célula de Hadley:
Wikipedia

Venus Express:
ESA 
NASA
Wikipedia

Observatório do Canadá-França-Hawaii (CFHT):
Página oficial
Wikipedia

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
  Experiências mostram que lagos de Titã podem ter bolhas de azoto (via NASA)
Um estudo recente mostrou como os lagos e mares de hidrocarbonetos na lua de Saturno, Titã, podem ocasionalmente ter zonas dramáticas de bolhas. Os cientistas simularam as condições à superfície de Titã e descobriram que grandes quantidades de azoto podem ser dissolvidas no metano líquido extremamente frio que chove e se acumula em lagos, rios e mares. Ligeiras alterações de temperatura e pressão podem fazer com que esse azoto "borbulhe" como o gás de bebidas refrigerantes. Ler fonte
     
  Descobertos eletrões relativistas com as sondas Van Allen da NASA (via NASA)
As cinturas de radiação da Terra, duas regiões de partículas carregadas que rodeiam o nosso planeta, foram descobertas há mais de 50 anos, mas o seu comportamento ainda não é completamente compreendido. Agora, novas observações da missão Van Allen da NASA mostram que os eletrões mais velozes e energéticos na cintura interna não estão presentes tanto tempo quanto se pensava. Ler fonte
     
  Visualizando disco de detritos para compreender evolução de sistema planetário (via Carnegie Science)
Quando os planetas começam a formar-se, as consequências do processo deixam um anel de material rochoso e gelado que gira e colide em redor de uma jovem estrela central. Análogos à Cintura de Kuiper do nosso Sistema Solar, estes discos de restos deixados para trás da formação de planetas podem ser detetados pelos astrónomos e estudados para ajudar a compreender os processos que fabricam sistemas planetários. Ler fonte
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - Mimas à Luz de Saturno
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Equipa de Imagem da CassiniSSIJPLESANASA
 
Espreitando das sombras, o hemisfério de Mimas, voltado para Saturno, está quase em escuridão ao longo de um dramático crescente iluminado pelo Sol. O mosaico foi captado perto da aproximação final da sonda Cassini de passado dia 30 de janeiro de 2017. A câmara da Cassini estava apontada na direção quase do Sol a apenas 45.000 quilómetros de Mimas. O resultado é uma das visões de mais alta resolução da lua gelada e altamente craterada que mede 400 quilómetros em diâmetro. Uma versão melhorada revela melhor o hemisfério voltado para Saturno da lua em rotação síncrona iluminado por luz solar refletida pelo próprio Saturno. Para a ver, siga este link. Outras imagens de Mimas, pela Cassini, incluem a grande Cratera Herschel da pequena lua.
 

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