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  Arquivo | CCVAlg - Astronomia
Com o apoio do Centro Ciência de Tavira
   
 
  Astroboletim #1974  
  07/02 a 09/02/2023  
     
 

Observação do Cometa ZTF (C/2022 E3)
Data: 7 de fevereiro de 2023
Hora: 18:30-19:30
Vamos observar o cometa C/2022 E3 (ZTF), que está agora no céu!
Venha descobrir connosco este cometa a que chamam "verde" e por que razão não voltará a estar tão próximo em muitos milénios! Esta observação é GRATUITA e não necessita inscrição.
Através de telescópio, entre as 18:30 e as 19:30!
Observação limitada às condições atmosféricas e no horário estipulado.
Telefone: 289 890 920
E-mail: info@ccvalg.pt

 
     
 

APRESENTAÇÃO ÀS ESTRELAS
O Género das Estrelas

Data: 9 de fevereiro de 2023
Hora: 18:30-20:30
Nesta sessão que decorre poucos dias antes do dia internacional das mulheres e das raparigas na ciência, convidamos uma investigadora e um investigador a explicar como estudam as suas estrelas favoritas e o que nelas descobrem, com um especial destaque para as suas denominações. Depois deste diálogo, faremos observação astronómica com telescópio para também termos contacto visual com alguns segredos estelares.
Adulto:
 4€
Jovem: 2€
Menores de 12 anos: gratuito.
A observação astronómica depende de condições meteorológicas favoráveis.
Inscrições obrigatórias (info@ccvalg.pt)
Pré-inscrições válidas até às 17:00 do dia anterior à realização da atividade. Após a hora referida o lugar pode não ser garantido.
Telefone: 289 890 920
E-mail: info@ccvalg.pt

 
     
 
EFEMÉRIDES

DIA 07/02: 38.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1979, Plutão movia-se para dentro da órbita de Neptuno pela primeira vez desde a sua descoberta. Sai de dentro da órbita de Neptuno no dia 11 de fevereiro de 1999.
Em 1984, durante a missão STS-41-B do programa do vaivém espacial, os astronautas Bruce McCandless II e Robert L. Stewart fazem o pimeiro passeio espacial sem ligação ao vaivém usando a Unidade de Manobra Tripulada.
Em 1991, a nave Salyut 7 despenha-se na atmosfera sobre a Argentina.
Em 1999, lançamento da sonda Stardust da NASA. Foi a primeira missão a recolher amostras de poeira cometária (Wild 2) e poeira cósmica.
Em 2001, lançamento da missão STS-98, do vaivém Atlantis, com o módulo "Destiny" da Estação Espacial Internacional. O lançamento ao pôr-do-Sol é descrito por muitos observadores experientes como dos lançamentos mais bonitos que alguma vez viram.

Em 2016, a Coreia do Norte lança o satélite Kwangmyŏngsŏng-4 para o espaço.
HOJE, NO COSMOS:
Nesta altura do ano, se viver perto da latitude 40º N, o lusco-fusco dura 1,5 horas. O final do anoitecer é quando deverá já estar pronto para observar o Cometa ZTF num céu sem Lua, pela primeira vez numa semana. Está em Cocheiro, menos brilhante porque já passou a sua maior aproximação pela Terra. Recomendamos apontar primeiro para Capella e seguir para Zeta Aurigae (Haedus). O cometa deverá estar entre Zeta Aurigae e a estrela Hassaleh.

 

DIA 08/02: 39.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1969, o meteorito Allende cai perto de Pueblito de Allende, Chihuahua, México.

Em 1974, após 84 dias no espaço, a última tripulação da primeira estação espacial americana, a Skylab, regressa à Terra.
Em 1992, a sonda espacial Ulysses usa a gravidade de Júpiter para poder explorar os polos do Sol.
HOJE, NO COSMOS:
Aviste o grande e brilhante Triângulo de Inverno a sudeste. Sirius é a estrela mais brilhante e e a que está mais baixa. Betelgeuse está para cima de Sirius, a cerca de dois punhos à distância do braço esticado. Para a sua esquerda brilha Procyon.
Consegue discernir as suas cores? Sirius (tipo espectral A0) é branca como a neve, Betelgeuse (M2) é amarelo-alaranjada e Procyon (F5) é branca com um ligeiro toque amarelo.
O interior do Triângulo de Inverno é ocupado principalmente pela parte dianteira de Unicórnio. Agora que a Lua está fora do céu ao início da noite, pode tentar observar o duplo ótico Delta Monocerotis. Cinco graus para oeste está o enxame aberto NGC 2301, de sexta magnitude.

 

DIA 09/02: 40.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1913, é visível ao longo da costa este do continente americano um grupo de meteoros, levando os astrónomos a concluir que a fonte foi um satélite natural da Terra, pequeno e de curta vida.
Em 1971, o módulo lunar da missão Apollo 14 volta à Terra após ter colocado homens na Lua pela 3ª vez.
Em 1975, a Soyuz 17 regressa à Terra.
Em 1986 regressava o cometa Halley.

Em 1995, os astronautas do vaivém espacial, na missão STS-63Bernard A. Harris, Jr. e Michael Foale tornam-se no primeiro africano-americano e primeiro inglês, respetivamente, a fazer passeios espaciais.
HOJE, NO COSMOS:
Saia à rua, tarde, para avistar a Lua perto da estrela Porrima (Gamma Virginis), de terceira magnitude. Porrima é um bonito binário telescópico, quando visto com alta ampliação. Os dois componentes, de brilho idêntico, estão separados por 3 segundos de arco e estão alinhados na direção norte-sul.

 
     
 
CURIOSIDADES


Os astrónomos descobriram 12 novas luas em torno de Júpiter, colocando a contagem total num recorde de 92. É mais do que qualquer outro planeta do nosso Sistema Solar. Saturno, o recordista anterior, passa agora para segundo lugar, com 83 luas confirmadas.
As novas luas de Júpiter foram descobertas utilizando telescópios no Hawaii e no Chile em 2021 e 2022. Variam entre 1 e 3 quilómetros de tamanho.

 
 
   
Hubble mede diretamente, e pela primeira vez, a massa de uma anã branca solitária
 
A anã branca LAWD 37 é a estrela no centro desta imagem pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA. Embora o seu "forno de fusão nuclear" tenha sido desligado, o calor retido arde à superfície a cerca de 100.000 graus Celsius, fazendo com que o remanescente estelar brilhe intensamente.
Crédito: NASA, ESA, P. McGill (Universidade da Califórnia, Santa Cruz e Universidade de Cambridge), K. Sahu (STScI), J. Depasquale (STScI)
 

Os astrónomos que utilizam o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA mediram diretamente, e pela primeira vez, a massa de uma anã branca isolada - o núcleo remanescente de uma estrela "queimada" como o Sol.

Os investigadores descobriram que a anã branca tem 56% da massa do nosso Sol. Isto concorda com as previsões teóricas anteriores da sua massa e corrobora as teorias atuais de como as anãs brancas evoluem como o produto final da evolução de uma estrela típica. Esta observação única fornece mais informações sobre as teorias da estrutura e composição das anãs brancas.

Até agora, as medições anteriores da massa das anãs brancas foram obtidas a partir da observação de anãs brancas em sistemas estelares binários. Ao observar o movimento de duas estrelas companheiras, os cientistas podem utilizar a simples física Newtoniana para medir as suas massas. No entanto, estas medições podem ser incertas caso a companheira da anã branca esteja numa órbita de longo período de centenas ou milhares de anos. O movimento orbital só pode ser medido por telescópios ao longo de uma breve "fatia" do movimento orbital da anã.

 
Esta ilustração mostra como a gravidade de uma anã branca em primeiro plano curva o espaço e dobra a luz de uma estrela de fundo. Os astrónomos que utilizam o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA mediram pela primeira vez, diretamente, a massa de uma única estrela isolada que não o nosso Sol - graças a este truque ótico da natureza. O alvo era uma anã branca - o núcleo sobrevivente de uma estrela "queimada", semelhante ao Sol. Quanto maior for a deformação temporária e infinitesimal da imagem da estrela de fundo, mais massiva é a estrela de primeiro plano. Os investigadores descobriram que a anã branca tem 56 por cento da massa do nosso Sol. Este efeito, chamado lente gravitacional, foi previsto como consequência da teoria da relatividade geral de Einstein há um século atrás.
Crédito: NASA, ESA, A. Feild
 

Para esta anã branca sem companheira, os investigadores tiveram de empregar um truque da natureza, chamado microlente gravitacional. A luz de uma estrela de fundo foi ligeiramente desviada pela deformação gravitacional do espaço pela anã branca em primeiro plano. Quando a anã branca passou em frente da estrela de fundo, a microlente fez com que ela aparecesse temporariamente deslocada da sua posição real no céu.

Os resultados foram publicados na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. O autor principal é Peter McGill, anteriormente da Universidade de Cambridge no Reino Undo que agora trabalha na Universidade da Califórnia, Santa Cruz.

McGill utilizou o Hubble para medir com precisão a luz de uma estrela distante "curvada" à volta da anã branca, conhecida como LAWD 37, fazendo com a estrela de fundo que mudasse temporariamente a sua posição aparente no céu.

Kailash Sahu do STScI (Space Telescope Science Institute) em Baltimore, no estado norte-americano de Maryland, o principal investigador Hubble desta observação recente, utilizou pela primeira vez microlentes em 2017 para medir a massa de outra anã branca, Stein 2051 B. Mas essa anã encontra-se num sistema binário amplamente separado. "A nossa última observação fornece uma nova referência porque LAWD 37 encontra-se sozinha", disse Sahu.

Os remanescentes colapsados de uma estrela que "ardeu" há mil milhões de anos, LAWD 37 tem sido bastante estudada porque fica a apenas 15 anos-luz de distância na direção da constelação da Mosca. "Dado que esta anã branca está relativamente próxima de nós, temos muitos dados sobre ela - temos informações sobre o seu espectro de luz, mas a peça que faltava no puzzle era a medição da sua massa", disse McGill.

 
Este gráfico mostra como a microlente foi utilizada para medir a massa de uma anã branca. A anã, chamada LAWD 37, é a estrela no centro desta imagem pelo Telescópio Espacial Hubble. A inserção mostra como a anã passou em frente de uma estrela de fundo em 2019. A linha azul ondulada traça o movimento aparente da anã através do céu, tal como visto da Terra. Embora a anã siga uma trajetória reta, o movimento da Terra à medida que orbita o Sol transmite um aparente desvio sinusoidal devido à paralaxe (a estrela está apenas a 15 anos-luz de distância. Portanto, está a mover-se a uma velocidade mais rápida contra o fundo estelar). Ao passar pela estrela de fundo mais fraca, o campo gravitacional da anã deformou o espaço (como a teoria da relatividade geral de Einstein previu há um século atrás). E esta deflexão foi medida com precisão pela extraordinária resolução do Hubble. A quantidade de deflexão produz uma massa para a anã branca equivalente a 56 por cento da massa do nosso Sol e fornece uma visão das teorias da estrutura e composição das anãs brancas. Esta é a primeira vez que os astrónomos medem diretamente a massa de uma única estrela isolada que não o nosso Sol.
Crédito: NASA, ESA, P. McGill (Universidade da Califórnia, Santa Cruz e Universidade de Cambridge), K. Sahu (STScI), J. Depasquale (STScI)
 

A equipa debruçou-se atentamente sobre a anã branca graças à missão Gaia da ESA, que faz medições extraordinariamente precisas da posição de quase duas mil milhões de estrelas. Múltiplas observações do Gaia podem ser usadas para seguir o movimento de uma estrela. Com base nestes dados, os astrónomos foram capazes de prever que LAWD 37 passaria brevemente em frente de uma estrela de fundo em novembro de 2019.

Assim que isto foi conhecido, os astrónomos utilizaram o Hubble para medir com precisão, durante vários anos, como a posição aparente da estrela de fundo no céu foi temporariamente desviada durante a passagem da anã branca.

"Estes eventos são raros e os efeitos são minúsculos", disse McGill. "Por exemplo, o tamanho medido do nosso desvio é como medir o comprimento de um carro na Lua, visto da Terra".

Uma vez que a luz da estrela de fundo era tão fraca, o principal desafio para os astrónomos era extrair a sua imagem do brilho da anã branca, que é 400 vezes mais brilhante do que a estrela de fundo. Apenas o Hubble pode fazer este tipo de observações de alto contraste no visível.

"Mesmo quando se identifica um destes eventos extremamente raros, ainda é extremamente difícil fazer estas medições", disse Leigh Smith da Universidade de Cambridge. "O brilho da anã branca pode causar listras em direções imprevisíveis, o que significa que tivemos que analisar cada uma das observações do Hubble com extremo cuidado, e as suas limitações, para modelar o evento e estimar a massa de LAWD 37".

"A precisão da medição da massa de LAWD 37 permite-nos testar a relação massa-raio das anãs brancas", disse McGill. "Isto significa testar a teoria da matéria degenerada (um gás, sob a gravidade, tão supercomprimido, que se comporta mais como matéria sólida) nas condições extremas dentro desta estrela morta", acrescentou.

 

Este gráfico mostra como a microlente foi utilizada para medir a massa de uma anã branca. A anã, chamada LAWD 37, é a estrela no centro desta imagem pelo Telescópio Espacial Hubble. As caixas à direita traçam a forma como a anã passou em frente de uma estrela de fundo em 2019. A linha azul ondulada traça o movimento aparente da anã através do céu, tal como visto da Terra. Embora a anã esteja a seguir uma trajetória reta, o movimento da Terra à medida que orbita o Sol transmite um aparente deslocamento sinusoidal devido à paralaxe (a estrela está apenas a 15 anos-luz de distância e por isso move-se a um ritmo mais rápido contra o fundo estelar). Ao passar pela estrela de fundo mais fraca, o campo gravitacional da anã deformou o espaço (como a teoria da relatividade geral de Einstein previu há um século atrás). E esta deflexão foi medida com precisão pela extraordinária resolução do Hubble. A quantidade de deflexão produz uma massa para a anã branca equivalente a 56 por cento da massa do nosso Sol e fornece uma visão das teorias da estrutura e composição das anãs brancas. Esta é a primeira vez que os astrónomos medem diretamente a massa de uma única estrela isolada que não o nosso Sol. A bússola aponta para a orientação do objeto na esfera celeste. O norte aponta para o pólo celeste norte que não é um ponto fixo no céu, mas que atualmente se encontra perto da Estrela Polar, na constelação circumpolar da Ursa Menor. As coordenadas celestes são análogas a um mapa terrestre, embora o leste e o oeste sejam transpostos porque estamos a olhar para cima e não para baixo.
Crédito: NASA, ESA, P. McGill (Universidade da Califórnia, Santa Cruz e Universidade de Cambridge), K. Sahu (STScI), J. Depasquale (STScI)

 

Os investigadores dizem que os seus resultados abrem a porta para previsões de eventos futuros com dados do Gaia. Para além do Hubble, estes alinhamentos podem agora ser detetados com o Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA. Uma vez que o Webb trabalha em comprimentos de onda infravermelhos, o brilho azul de uma anã branca em primeiro plano parece mais escuro no infravermelho, e a luz da estrela de fundo parece mais brilhante.

Com base nos poderes de previsão do Gaia, Sahu está a observar outra anã branca, LAWD 66, com o Webb. A primeira observação foi feita em 2022. Mais observações serão obtidas à medida que o desvio atinge o pico em 2024 e depois diminui.

"O Gaia mudou realmente o jogo - é excitante poder usar os dados do Gaia para prever quando os eventos vão acontecer, e depois observá-los a acontecer", disse McGill. "Queremos continuar a medir o efeito de microlente gravitacional e obter medições de massa para muitos mais tipos de estrelas".

Na sua teoria da relatividade geral de 1915, Einstein previu que quando um objeto compacto massivo passa em frente de uma estrela de fundo, a luz da estrela seria "dobrada" em torno do objeto de primeiro plano devido à curvatura do espaço pelo seu campo gravitacional.

Exatamente um século antes desta observação do Hubble, em 1919, duas expedições britânicas ao hemisfério sul detetaram pela primeira vez este efeito de lente durante um eclipse solar a 19 de maio. Foi aclamada como a primeira prova experimental da relatividade geral - que a gravidade curva o espaço. No entanto, Einstein estava pessimista de que o efeito pudesse alguma vez ser detetado para estrelas para lá do nosso Sistema Solar, devido à precisão necessária. "A nossa medição é 625 vezes mais pequena do que o efeito medido no eclipse solar de 1919", disse McGill.

// ESA/Hubble (comunicado de imprensa)
// STScI (comunicado de imprensa)
// Universidade de Cambridge (comunicado de imprensa)
// Universidade da Califórnia, Santa Cruz (comunicado de imprensa)
// Universidade de St. Andrews (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Monthly Notices of the Royal Astronomical Society)
// Artigo científico (arXiv.org)
// Lente gravitacional: anã branca passa em frente de distante estrela de fundo (HubbleWebbESA via YouTube)

 


Quer saber mais?

Notícias relacionadas:
EurekAlert!
SPACE.com
PHYSORG
SpaceRef

LAWD 37:
Simbad
Wikipedia

Anãs brancas:
NASA
Wikipedia

Microlentes gravitacionais:
Wikipedia

Teoria da Relatividade Geral:
Wikipedia

Teoria da matéria degenerada:
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
Hubblesite
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

Gaia:
ESA
ESA - 2
Gaia/ESA
Programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia
Catálogo DR3 do Gaia

 
   
Um exoplaneta que poderá albergar vida
 
Ilustração artística de um exoplaneta rochoso com a massa da Terra, como Wolf 1069 b, em órbita de uma estrela anã vermelha. Caso o planeta tenha sido capaz de reter a sua atmosfera, há grandes probabilidades de ter água líquida e condições habitáveis numa vasta área do seu lado diurno.
Crédito: NASA/Centro de Pesquisa Ames/Daniel Rutter
 

Foi recentemente descoberto um exoplaneta onde poderá valer a pena procurar sinais de vida. Análises efetuadas por uma equipa liderada pela astrónoma Diana Kossakoski do Instituto Max Planck para Astronomia descrevem um planeta que orbita a sua estrela hospedeira, a anã vermelha Wolf 1069, na zona habitável. Esta zona inclui distâncias em torno da estrela para as quais pode existir água líquida à superfície do planeta. Além disso, o planeta, chamado Wolf 1069 b, tem uma massa semelhante à da Terra. Muito provavelmente, este é um planeta rochoso que também pode ter uma atmosfera. Isto torna-o um dos poucos alvos promissores onde procurar sinais de condições favoráveis à vida e bioassinaturas.

Quando os astrónomos procuram planetas para lá do nosso Sistema Solar, estão particularmente interessados em planetas semelhantes à Terra. Dos mais de 5000 exoplanetas descobertos até agora, apenas cerca de uma dúzia têm uma massa semelhante à da Terra e habitam na zona habitável, a gama de distâncias, num sistema planetário, onde a água pode manter a sua forma líquida à superfície do planeta. Com Wolf 1069 b, temos mais um candidato na lista de exoplanetas sobre os quais a vida poderá ter evoluído.

Um planeta com dia e noite eternos

A deteção de planetas com baixa massa continua a ser um grande desafio. Diana Kossakowski e a sua equipa no Instituto Max Planck para Astronomia em Heidelberg assumiram esta tarefa. Como parte do projeto Carmenes, foi desenvolvido um instrumento especificamente para a procura de mundos potencialmente habitáveis. A equipa Carmenes está a utilizar este aparelho no Observatório de Calar Alto, na Espanha. "Quando analisámos os dados da estrela Wolf 1069, descobrimos um sinal claro e de baixa amplitude do que parece ser um planeta com aproximadamente a massa da Terra", disse Diana Kossakowski. "Orbita a estrela em cerca de 15,6 dias a uma distância equivalente a quinze avos da separação entre a Terra e o Sol". Os resultados do estudo foram agora publicados na revista Astronomy & Astrophysics.

De acordo com o estudo, a superfície da estrela anã é relativamente fria e, por isso, parece laranja-avermelhada. "Como resultado, a chamada zona habitável desloca-se para mais perto", explica Kossakowski. Apesar da sua pequena distância à estrela, o planeta Wolf 1069 b recebe, portanto, apenas cerca de 65% da energia que a Terra recebe do Sol. Estas condições especiais tornam os planetas em torno de anãs vermelhas como Wolf 1069 potencialmente amigáveis à vida. Além disso, todos eles podem partilhar uma propriedade especial: têm provavelmente bloqueio de marés. Por outras palavras, o planeta tem sempre a mesma face voltada para a estrela, enquanto a outra nunca "vê" a estrela. Portanto, há um dia eterno, enquanto do outro lado é sempre noite. Esta é também a razão pela qual vemos sempre o mesmo lado da Lua.

Simulações climáticas para exoplanetas

Se se assumir que Wolf 1069 b é um planeta "nu" e rochoso, a temperatura média mesmo no lado virado para a estrela seria de apenas -23º C. Contudo, de acordo com os conhecimentos atuais, é bem possível que Wolf 1069 b tenha formado uma atmosfera. Sob esta hipótese, a sua temperatura pode subir para 13º C, como demonstram as simulações por computador com modelos climáticos. Nestas circunstâncias, a água continuaria líquida e as condições favoráveis à vida poderiam prevalecer, porque a vida como a conhecemos depende da água.

 
Mapa simulado da temperatura à superfície de Wolf 1069 b, assumindo uma atmosfera semelhante à da Terra. O mapa está centrado num ponto que está sempre virado para a estrela. As temperaturas são dadas em Kelvin. 273,15 K corresponde a 0º Celsius. A água líquida seria possível à superfície do planeta dentro do círculo vermelho.
Crédito: Kossakowski et al. (2023)/Instituto Max Planck para Astronomia
 

Uma atmosfera não é apenas uma condição prévia para o aparecimento da vida de um ponto de vista climático. Também protegeria Wolf 1069 b da radiação eletromagnética altamente energética e das partículas que destroem possíveis biomoléculas. A radiação e as partículas ou provêm do espaço interestelar ou da estrela central. Se a radiação da estrela for demasiado intensa, pode também despojar a atmosfera de um planeta, como aconteceu em Marte. Mas, como anã vermelha, Wolf 1069 emite apenas radiação relativamente fraca. Assim, neste planeta recentemente descoberto pode ter sido preservada uma atmosfera. É até possível que o planeta tenha um campo magnético que o protege das partículas carregadas do vento estelar. Muitos planetas rochosos têm um núcleo líquido, o que gera um campo magnético através do efeito dínamo, semelhante ao do planeta Terra.

A difícil procura por exoplanetas com a massa da Terra

Tem havido um enorme progresso na busca por exoplanetas desde que o primeiro deste tipo foi descoberto há 30 anos. Ainda assim, as assinaturas que os astrónomos procuram a fim de detetar planetas com massas e diâmetros semelhantes à Terra são relativamente difíceis de extrair dos dados. A equipa Carmenes está à procura de pequenas mudanças periódicas no espectro estelar. Espera-se que estas mudanças surjam quando um companheiro "puxa" a estrela hospedeira, fazendo com que oscile. Como resultado, a frequência da luz medida a partir da Terra muda devido ao efeito Doppler. No caso de Wolf 1069 e do seu recém-descoberto planeta, estas flutuações são suficientemente grandes para serem medidas. Uma das razões é que a diferença de massa entre a estrela e o planeta é relativamente pequena, fazendo com que a estrela oscile em torno do centro de massa do sistema de forma mais pronunciada do que em outros casos. A partir do sinal periódico, a massa do planeta também pode ser estimada.

 
Ilustração que compara três sistemas exoplanetários de estrelas anãs vermelhas que hospedam planetas de massa terrestre. Os anéis verdes indicam as zonas habitáveis individuais.
Crédito: Departamento gráfico do Instituto Max Planck para Astronomia/J. Neidel
 

Apenas um punhado de candidatos para futura caracterização exoplanetária

A uma distância de 31 anos-luz, Wolf 1069 b é o sexto planeta, de massa terrestre e na zona habitável, mais próximo de nós. Pertence a um pequeno grupo de objetos, como Proxima Centauri b e TRAPPIST-1 e, que são candidatos a buscas por bioassinaturas. No entanto, tais observações estão atualmente para lá das capacidades da investigação astronómica. "Teremos provavelmente de esperar mais dez anos por isto", salienta Kossakowski. O ELT (Extremely Large Telescope), atualmente em construção no Chile, poderá ser capaz de estudar a composição das atmosferas destes planetas e possivelmente até detetar evidências moleculares de vida.

// Instituto Max Planck para Astronomia (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Astronomy & Astrophysics)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Quer saber mais?

Notícias relacionadas:
SPACE.com
PHYSORG
Forbes

Wolf 1069 b:
Exoplanet.eu
Open Exoplanet Catalogue

Wolf 1069:
Wikipedia

Anãs vermelhas:
Wikipedia

Exoplanetas:
Wikipedia
Lista de planetas (Wikipedia)
Lista de exoplanetas potencialmente habitáveis (Wikipedia)
Lista de extremos (Wikipedia)
Open Exoplanet Catalogue
NASA
Exoplanet.eu

Observatório de Calar Alto:
Página principal
Wikipedia
CARMENES

Projeto CARMENES:
Página principal

ELT (Extremely Large Telescope):
ESO
ESO - 2
Wikipedia

 
   
Investigadores completam primeiro estudo, no mundo real, da dinâmica da poeira levantada pelo Ingenuity
 
Imagem do helicóptero Ingenuity em Marte, obtida pelo rover Perseverance.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Universidade Estatal do Arizona
 

Marte é um planeta poeirento. Desde pequenos diabos de poeira a enormes tempestades que envolvem o planeta, a poeira é um desafio constante para as missões de investigação. Isto tem sido especialmente verdade para o Ingenuity, o pequeno helicóptero que desde fevereiro de 2021 que explora Marte juntamente com o rover Perseverance da NASA. Agora, investigadores do Instituto de Tecnologia Stevens, do SSI (Space Science Institute) e do JPL completaram o primeiro estudo, no mundo real, da dinâmica da poeira marciana com base nos primeiros voos históricos do Ingenuity no Planeta Vermelho, preparando o caminho para futuras missões extraterrestres com helicópteros.

O trabalho, publicado na edição de dezembro de 2022 da revista Journal of Geophysical Research: Planets, pode ajudar o programa MSR (Mars Sample Return) da NASA, que irá recuperar amostras recolhidas pelo Perseverance, ou a missão Dragonfly, com destino Titã, a maior lua de Saturno, em 2027.

"Há uma razão pela qual os pilotos de helicópteros na Terra preferem aterrar em helipontos", disse Jason Rabinovitch, coautor e professor assistente no Instituto Stevens. "Quando um helicóptero aterra no deserto, a sua corrente descendente pode levantar poeira suficiente para tapar completamente qualquer visibilidade (o termo técnico na aeronáutica é "brownout") - e Marte é efetivamente um grande deserto".

Rabinovitch trabalha no programa Ingenuity desde 2014, tendo-se juntado ao JPL pouco depois do conceito ter sido apresentado à NASA e tendo criado os primeiros modelos teóricos de levantamento de poeira por helicópteros em poeirentos ambientes marcianos. Rabinovitch continua a trabalhar com o JPL e investiga as interações pluma-superfície durante a descida controlada de uma nave espacial. Ele também modela a inflação supersónica de paraquedas e fenómenos geofísicos, tais como plumas em Encélado.

O estudo da dinâmica da poeira noutro planeta não é fácil, explicou Rabinovitch. "O espaço é um ambiente pobre em dados. É difícil transmitir vídeos e imagens para a Terra, pelo que temos de trabalhar com o que conseguimos obter".

Para superar esse desafio, Rabinovitch e colegas no JPL utilizaram técnicas avançadas de processamento de imagem para extrair informações de seis voos do Ingenuity, todos vídeos de baixa resolução captados pelo Perseverance. Ao identificar pequenas variações entre "frames" de vídeo, e a intensidade de luz de pixéis individuais, os investigadores conseguiram calcular tanto o tamanho como a massa total de nuvens de poeira levantadas à medida que o Ingenuity descolava, pairava, se manobrava e aterrava.

Os resultados não ficaram muito longe dos modelos de engenharia de Rabinovitch - um feito notável, dada a informação limitada à disposição da equipa já em 2014, quando Rabinovitch e colegas escreviam rascunhos em envelopes, cálculos com o objetivo de apoiar o conceito original do Ingenuity.

A investigação mostra que, tal como previsto, a poeira é uma consideração significativa para helicópteros extraterrestres, estimando-se que o Ingenuity tenha levantado cerca de um-milésimo da sua massa (1,8 kg) de cada vez que levantou voo. Isto corresponde a muitas vezes mais poeira do que aquela gerada por um helicóptero equivalente na Terra, apesar de Rabinovitch advertir que é complicado fazer comparações diretas.

"Foi emocionante ver o vídeo pela Mastcam-Z do Perseverance, que foi tirado por razões de engenharia e que acabou por mostrar o Ingenuity a levantar tanta poeira da superfície que até abriu uma nova linha de investigação", disse Mark Lemmon, cientista de investigação sénior no MSL (Mars Science Laboratory) do SSI e autor principal do estudo.

"Quando se pensa na poeira de Marte, é preciso considerar não só a gravidade mais baixa, mas também os efeitos da pressão do ar, temperatura, densidade do ar - há muita coisa que ainda não compreendemos totalmente", disse Rabinovitch. Ainda assim, acrescentou, é isso que torna o estudo das nuvens de poeira do Ingenuity tão excitante.

Uma melhor compreensão dos "brownouts" pode ajudar a NASA a alargar as futuras missões robóticas, mantendo os painéis solares operacionais durante mais tempo ou facilitando o pouso seguro de equipamento delicado na poeirenta superfície marciana. Também pode fornecer novos conhecimentos sobre o papel do vento e da poeira transportada pelo vento nos padrões climáticos e na erosão, tanto na Terra como em ambientes extremos noutras partes do Sistema Solar.

// Instituto de Tecnologia Stevens (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (Journal of Geophysical Research: Planets)
// Ingenuity levanta poeira em Marte (Instituto de Tecnologia Stevens via YouTube)

 


Quer saber mais?

Cobertura da missão do rover Perseverance pelo CCVAlg - Astronomia:
03/02/2023 - Rover Perseverance completa depósito de amostras marcianas
27/12/2022 - Rover Perseverance deposita a sua primeira amostra à superfície de Marte
16/12/2022 - Cientistas gravam pela primeira vez o som de um diabo de poeira marciano
09/12/2022 - Rover Perseverance recolhe amostras de poeira marciana
29/11/2022 - Rover Perseverance deteta mais carbono orgânico em Marte, em busca de sinais de vida
01/11/2022 - Os cientistas escolheram as primeiras amostras marcianas dignas de viajarem para a Terra
20/09/2022 - Rover Perseverance da NASA investiga terreno geologicamente rico de Marte
30/08/2022 - Rover Perseverance faz novas descobertas na Cratera Jezero
15/07/2022 - Perseverance explora locais de aterragem para a campanha MSR
07/06/2022 - Rover Perseverance da NASA estuda os ventos selvagens da Cratera Jezero
29/04/2022 - Helicóptero Ingenuity avista equipamentos que ajudaram ao pouso do rover Perseverance
21/12/2021 - Rover Perseverance faz descobertas surpreendentes
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Álbum de fotografias
NGC 2626 ao longo de "Vela Molecular Ridge"

(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Mike Selby & Mark Hanson
 
Centrada nesta colorida tela cósmica, NGC 2626 é uma bela e brilhante nebulosa de reflexão na Via Láctea do hemisfério sul. Junto a uma nuvem de poeira obscurecida e rodeada por emissão de hidrogénio avermelhado da grande região H II, RCW 27, encontra-se dentro de um complexo de nuvens moleculares poeirentas conhecida como "Vela Molecular Ridge". NGC 2626 é ela própria uma nuvem de poeira interestelar que reflete a luz azul da jovem estrela quente embutida e visível dentro da nebulosa. Mas as explorações astronómicas revelam muitas outras estrelas jovens e nebulosas associadas na região de formação estelar. NGC 2626 fica a cerca de 3200 anos-luz. A essa distância, este campo telescópico abrangeria cerca de 30 anos-luz ao longo de "Vela Molecular Ridge".
 
   
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