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Edição n.º 1303
02/09 a 05/09/2016
 
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EFEMÉRIDES

Dia 02/09: 246.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1859, uma super tempestade solar afeta serviços telegráficos por toda a Europa, América, Japão e Austrália.
Em 1970, a NASA anuncia o cancelamento de duas missões Apollo à Lua, a Apollo 15 (a mesma designação é re-usada numa missão posterior) e a Apollo 19.

Em 1971, lançamento da soviética Luna 18, missão de recolha de amostras lunares. Colidiu com a Lua no dia 11 de setembro e as comunicações foram imediatamente perdidas.
Observações: Saturno na sua quadratura este, pelas 04:03.
Que tal um desafio ao lusco-fusco? Pouco depois do pôr-do-Sol, use binóculos para ver a super-fina Lua Crescente perto de Júpiter e Vénus, mesmo por cima do horizonte a oeste-sudoeste. A Lua será muito mais fácil de encontrar amanhã.

Dia 03/09: 247.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1976, a sonda Viking 2 aterrava na Planície Utopia, em Marte

Observações: Pouco depois do pôr-do-Sol, a Lua Crescente, baixa a oeste-sudoeste, aponta para Vénus mais para baixo e à direita, e igualmente para Júpiter.

Dia 04/09: 248.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1958, nascia Jacqueline Hewitt, astrofísica e primeira descobridora dos anéis de Einstein - a deformação da luz a partir de uma fonte, como por exemplo uma galáxia, num anel conhecido como lente gravitacional.

Observações: A Lua torna-se cada vez mais fácil de avistar com o passar dos dias. Hoje, está ainda mais afastada de Vénus e Júpiter. Quando as estrelas aparecerem, note o astro para baixo e para a esquerda do nosso satélite natural. É Espiga, a estrela mais brilhante da constelação de Virgem.

Dia 05/09: 249.º dia do calendário gregoriano.
História: Em 1977 arrancava o programa Voyager com o lançamento da sonda Voyager 1.

Em 1984, o vaivém espacial Discovery completava o seu voo inaugural.
Observações: Hoje, a Lua encontra-se para cima e para a esquerda de Espiga.
Vega está quase no zénite ao cair da noite; Arcturo encontra-se a oeste. A um-terço do caminho entre Vega e Arcturo está a constelação de Hércules. A dois-terços, o semicírculo da Coroa Boreal, com uma única "jóia" brilhante, a estrela Alphecca.

 
CURIOSIDADES


A estrela Epsilon Aurigae diminui de brilho (de magnitude 2,92 para 3,83) a cada 27 anos devido a um eclipse com um objecto escuro. Pensa-se que seja um grande disco escuro em órbita de um objecto desconhecido, possivelmente um sistema binário de duas pequenas estrelas do tipo-B. O eclipse dura entre 640 e 730 dias.

 
XMM-NEWTON REVELA O PASSADO EXPLOSIVO DA VIA LÁCTEA
Esta impressão artística mostra a Via Láctea como poderá ter sido há 6 milhões de anos atrás durante uma fase "quasar" de atividade. Uma ligeira bolha laranja estende-se desde o Centro Galáctico até um raio de aproximadamente 20.000 anos-luz. Fora dessa bolha, um "nevoeiro" difuso de gás com uma temperatura de um milhão de graus poderá explicar a matéria em falta da Galáxia, totalizando 130 mil milhões de massas solares.
Crédito: Mark A. Garlick/ESA
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Uma bolha gigante em torno do centro da Via Láctea mostra que há seis milhões de anos atrás o buraco negro supermassivo da nossa Galáxia estava em chamas com uma energia furiosa. Ela também emite uma luz sobre o esconderijo da chamada matéria "em falta" da Galáxia.

Enquanto a misteriosa matéria escura agarra a maioria das primeiras páginas de jornal, os astrónomos sabem que ainda lhes falta encontrar toda a matéria normal da Galáxia, denominada bariónica. Isso agora mudou, graças ao trabalho do observatório de raios-X XMM-Newton da ESA.

Uma análise detalhada das observações de arquivo mostrou que há uma grande quantidade de matéria bariónica espalhado pela Galáxia. O XMM-Newton encontrou-a na forma de gás a uma temperatura de um milhão de graus que permeia tanto o disco da Galáxia, onde a maioria das estrelas se encontram, e um volume esférico que rodeia toda a Galáxia.

A nuvem esférica é vasta. Considerando que o Sol está apenas a 26.000 anos-luz do centro da Galáxia, a nuvem estende-se a uma distância de pelo menos 200.000 - 650.000 anos-luz.

Fabrizio Nicastro, do Instituto Nacional de Astrofísica, Observatório Astronómico de Roma, Itália, e seus colegas foram no rastro dos bários perdidos há mais de 15 anos. A sua mais recente descoberta com o XMM-Newton mostra que há suficiente gás quente, a milhões de graus, na Galáxia para explicar isto tudo.

Permaneceu despercebido por tanto tempo porque não emite luz visível. Em vez disso, os astrónomos descobriram-no porque o oxigénio na nuvem absorveu os raios-X em comprimentos de onda muito específicos de luz a ser emitida por objetos celestes mais distantes.

Impressão de artista do XMM-Newton.
Crédito: ESA - C. Carreau
(clique na imagem para ver versão maior)
 

E esta não foi a única descoberta para a equipa à espera nos dados. Quando chegou a altura de modelar os dados com simulações de computador, para compreender a maneira pela qual o gás foi distribuído ao redor da galáxia, a equipa não obteve a resposta de que estava à espera.

"De acordo com a física gravitacional simples, espera-se que a densidade do gás diminua a partir do centro para fora", diz Nicastro. Neste quadro, a densidade do gás atingiria o seu pico no centro da Galáxia e seria menor nas arestas exteriores. Mas havia um problema. "Passei três meses a tentar combinar os dados com esse modelo e simplesmente não conseguia", diz Nicastro.

Depois de tentar tudo, ele mudou a densidade pico para fora do centro da Galáxia. A uma distância de cerca de 20.000 anos-luz do centro da galáxia o modelo encaixava melhor. Foi intrigante o porquê de isto melhorar as coisas até se lembrar que esta distância é também o tamanho de dois grandes "balões" de raios-gama encontrados em 2010 pelo observatório de raios-gama Fermi, da NASA, que se estendem dezenas de milhares de anos-luz acima e abaixo o centro de nossa Galáxia.

Então Nicastro construiu um modelo de densidade diferente, no qual havia uma bolha central de gás de baixa densidade que se estende para o exterior a 20.000 anos-luz. Quando ele aplicou esse modelo nos seus dados de raios-X, descobriu que se encaixava perfeitamente.

"Isso foi inesperado e ao mesmo tempo muito emocionante", diz Nicastro. Isso significa que algo empurrou o gás para fora do centro da Galáxia, criando uma bolha gigante.

Os astrónomos sabem que existe um buraco negro supermassivo no centro da nossa Galáxia. Encontra-se em silêncio e escuridão nos dias de hoje, mas a bolha indica que há seis milhões de anos atrás as coisas eram muito diferentes.

O buraco negro supermassivo estava a despedaçar estrelas e nuvens de gás e a engolir o conteúdo. No caminho para a aniquilação, a matéria condenada estava a aquecer e a libertar grandes quantidades de energia que abria caminho através do halo de gás, abrindo a bolha.

Quando os astrónomos olham para o universo mais amplo, veem que uma pequena percentagem de galáxias contém um núcleo extremamente brilhante. Estes núcleos são denominados núcleos ativos de galáxias e, como resultado deste estudo, os astrónomos sabem agora que a nossa Via Láctea teve alguma vez um deles.

Seis milhões de anos mais tarde, a onda de choque criada por esta atividade atravessou 20.000 anos-luz no espaço, criando a bolha que o XMM-Newton observou. Entretanto, o buraco negro supermassivo ficou sem 'alimento' nas proximidades, ficando tranquilo novamente.

"Penso que a evidência da Via Láctea ter sido mais ativa no passado é agora forte", diz Nicastro.

"Demos um grande passo em frente com este resultado", diz Norbert Schartel, Cientista do Projeto da ESA para o XMM-Newton. "Isso significa que a próxima geração de telescópios de raios-X, tais como a missão ATHENA da ESA, terá muito que estudar após o seu lançamento em 2028."

Links:

Notícias relacionadas:
ESA (comunicado de imprensa)
Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica (comunicado de imprensa)
Artigo científico (arXiv.org)
SPACE.com
Universe Today
Space Daily
COSMOS

Via Láctea:
Núcleo de Astronomia do CCVAlg
Wikipedia
SEDS

Observatório XMM-Newton:
ESA
Wikipedia

 
IMAGIOLOGIA DA PEQUENA POEIRA DO COMETA EM 3D

A Rosetta retratou os mais pequenos grãos de poeira do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko até agora encontrados, com o seu Sistema de Análise de Poeira Micro-Imaging, MIDAS.

O sistema MIDAS funciona através da recolha e posterior digitalização física dos grãos com um Microscópio de Força Atómica. Este utiliza uma ponta muito fina, um pouco como uma agulha de um gira-discos antigo, a qual é digitalizada sobre uma partícula. A deflexão da agulha e, por conseguinte, a altura da amostra são medidos para construir uma imagem 3D. Isto permite aos cientistas determinar a estrutura da partícula e, assim, ter uma visão sobre como poderia ter sido formada.

Os novos resultados, publicados na revista científica Nature, fornecem evidências de que as partículas de poeira continuam a ser agregadas abaixo da escala de tamanho já relatado pelo instrumento COSIMA. Isto é, mesmo nas escalas muito pequenas de algumas dezenas de micrómetros até algumas centenas de nanómetros, os grãos de poeira analisados pelo MIDAS parecem ser constituídos por numerosos grãos menores.

Imagens topográficas de microscopia de força atómica das partículas A, B e C do MIDAS.
Crédito: ESA/Rosetta/IWF para a equipa MIDAS IWF/ESA/LATMOS/Universiteit Leiden/Universität Wien
 

"Para entender como os cometas são formados, precisamos entender a estrutura dos grãos mais pequenos e como são construídos", diz Mark Bentley, do Instituto de Pesquisas Espaciais da Academia Austríaca de Ciências, em Graz, Áustria, investigador principal do MIDAS e autor principal do artigo.

"O que observamos com o MIDAS é que tudo é feito de agregados menores e menores; é semelhante ao que o instrumento COSIMA vê, mas em continuação até escalas ainda menores."

Imagens topográficas de microscopia de força atómica da partícula compacta D do MIDAS.
Crédito: ESA/Rosetta/IWF para a equipa MIDAS IWF/ESA/LATMOS/Universiteit Leiden/Universität Wien
(clique na imagem para ver versão maior)
 

O MIDAS detetou ambos grãos pequenos compactos hermeticamente embalados e grãos maiores e mais porosos, espaçados entre si de forma suave. Os grãos do cometa também parecem ser alongados, várias vezes mais numa direção do que os outros, de acordo com observações de poeira no meio interestelar.

Imagens topográficas de microscopia de força atómica da partícula E do MIDAS, um agregado ligeiramente comprimido e suave abrangendo muitos grãos.
Crédito: ESA/Rosetta/IWF para a equipa MIDAS IWF/ESA/LATMOS/Universiteit Leiden/Universität Wien
 

Exemplos de diferentes tipos, que foram recolhidos pelo MIDAS a partir de meados de novembro de 2014 até fevereiro de 2015, são apresentados nas figuras que acompanham esta publicação.

Um grão particularmente grande e poroso, capturado do cometa 67P/C-G, tem propriedades semelhantes a um tipo denominado 'grão de poeira interplanetário' ('interplanetary dust grain' - IDP), que se pensa que terá crescido em agregados porosos de partículas esféricas menores durante as fases iniciais da formação do Sistema Solar.

Estes novos resultados do MIDAS reforçam a ligação entre os IDPs e a poeira de cometas. A estrutura observada de "agregado de agregados" das partículas dá indicações para o seu mecanismo de formação e de como estas partículas podem formar uma camada fracamente ligada à superfície do núcleo do cometa.

Links:

Cobertura da missão Rosetta pelo Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
01/07/2016 - Ajuste final da Rosetta para 30 de setembro
31/05/2016 - Cometa da Rosetta contém ingredientes da vida
12/04/2016 - O cometa que muda de cor
16/02/2016 - Philae enfrenta hibernação eterna
15/01/2016 - Confirma-se que gelo exposto à superfície do cometa da Rosetta é água
03/11/2015 - Resultados da missão Rosetta antes do periélio
30/10/2015 - Primeira deteção de oxigénio molecular num cometa
06/10/2015 - Rosetta espia o lado escuro do Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko
29/09/2015 - Cometa da Rosetta é um binário de contacto
25/09/2015 - Rosetta revela ciclo de água do Cometa 67P/C-G
14/08/2015 - O grande dia da Rosetta ao Sol
11/08/2015 - "Fogos de artifício" cometários antes do periélio
07/08/2015 - Há um ano que a Rosetta orbita o Cometa 67P/C-G
04/08/2015 - Ciência à superfície do Cometa 67P/C-G
03/07/2015 - Depressões no Cometa 67P/C-G produzem jatos
26/06/2015 - Água gelada exposta, detetada à superfície do Cometa 67P/C-G
19/06/2015 - Despertar do Philae desencadeia intenso esforço de planeamento
16/06/2015 - O módulo de aterragem da Rosetta, Philae, acordou
12/06/2015 - Equipa da Rosetta avista brilho que poderá ser módulo desaparecido
05/06/2015 - Estudo ultravioleta revela surpresas na cabeleira de cometa
17/04/2015 - Rosetta e Philae descobrem que cometa não é magnetizado
24/03/2015 - Sonda Rosetra faz a primeira deteção de nitrogénio molecular num cometa
06/02/2015 - Rosetta "mergulha" para encontro íntimo
27/01/2015 - Rosetta observa cometa a largar o seu revestimento de poeira
23/01/2015 - Dando a conhecer o cometa da Rosetta
12/12/2014 - Rosetta alimenta debate sobre origem dos oceanos da Terra
28/11/2014 - Onde diabos pousou o Philae?
21/11/2014 - Primeiros resultados científicos do Philae
18/11/2014 - Philae completa missão principal antes de hibernar
14/11/2014 - Philae poisa no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko
11/11/2014 - Como aterrar num cometa
07/11/2014 - Adeus "J", olá Agilkia
28/10/2014 - O "perfume" do Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko
17/10/2014 - ESA confirma local de aterragem do Philae
30/09/2014 - Philae com aterragem prevista para 12 de Novembro
16/09/2014 - Está escolhido o local de aterragem do Philae
26/08/2014 - Onde é que o Philae vai aterrar?
08/08/2014 - A nave Rosetta chega ao seu cometa de destino
05/08/2014 - Sonda Rosetta chega a cometa esta semana
01/04/2014 - Philae está acordado!
17/01/2014 - O despertador mais importante do Sistema Solar
13/07/2010 - Rosetta triunfa no asteróide Lutetia
13/11/2009 - Será que o "flyby" da Rosetta indica uma nova física exótica? 
06/11/2009 - Rosetta faz último "flyby" pela Terra a 13 de Novembro 
06/09/2008 - Rosetta passa por Steins: um diamante no céu 
03/09/2008 - Contagem decrescente para "flyby" por asteróide 
28/02/2007 - A semana dos "flybys" 
01/06/2004 - Primeira observação científica da Rosetta 
12/03/2004 - Escolhidos os dois asteróides para aproximação da Rosetta 
09/03/2004 - Sonda Rosetta finalmente lançada

Notícias relacionadas:
ESA (blog da Rosetta)
Imagiologia da poeira cometária (ESA via YouTube)
Nature
SPACE.com
PHYSORG
engadget

Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko:
Wikipedia
ESA

Sonda Rosetta:
ESA
Blog da Rosetta - ESA
NASA
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Wikipedia

 
PRIMEIRAS ESTRELAS FORMARAM-SE AINDA MAIS TARDE DO QUE SE PENSAVA
Impressão de artista de uma porção da linha temporal do Universo, por volta da "época da reionização" - o processo que ionizou a maioria do material no cosmos.
A ilustração começa com a libertação da Radiação Cósmica de Fundo (esquerda), a luz mais antiga da história do cosmos, que data até 380.000 anos após o Big Bang, e continua até à direita, com a formação das primeiras estrelas e galáxias do Universo.
Crédito: ESA - C. Carreau
(clique na imagem para ver versão maior)
 

O satélite Planck da ESA revelou que as primeiras estrelas do Universo começaram a formar-se mais tarde do que as observações anteriores da Radiação Cósmica de Fundo indicavam. Esta nova análise também mostra que essas estrelas foram as únicas fontes necessárias para explicar a reionização dos átomos no cosmos, tendo completado metade deste processo quando o Universo tinha atingido os 700 milhões de anos.

Com a grande quantidade e variedade de estrelas e galáxias que habitam o Universo atual, é difícil imaginar quão diferente o nosso cosmos de 13,8 mil milhões de anos era quando tinha apenas alguns segundos de idade. Nessa fase inicial, era uma sopa quente e primordial de partículas, principalmente eletrões, protões, neutrinos e fotões - as partículas da luz.

Neste ambiente denso, o Universo era como um nevoeiro "opaco", pois as partículas de luz não podiam viajar quaisquer distâncias significativas sem colidirem com eletrões.

À medida que o cosmos se expandia, o Universo tornava-se mais frio e mais rarefeito até que, após mais ou menos 380.000 anos, tornou-se finalmente "transparente". Nessa altura, as colisões entre partículas eram extremamente esporádicas e os fotões podiam viajar livremente através do cosmos.

Sumário da história de quase 14 mil milhões de anos do Universo, mostrando em particular os eventos que contribuíram para a radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
O cronograma da secção superior da ilustração mostra uma impressão de artista da evolução do cosmos em larga escala. Os processos variam entre a inflação, a breve era de expansão acelerada do Universo quando tinha apenas uma pequena fração de um segundo, a libertação da CMB, a forma mais antiga de luz do Universo, impressa no céu quando o cosmos tinha apenas 380.000 anos; e da "Idade das Trevas" até ao nascimento das primeiras estrelas e galáxias, que reionizaram o Universo quanto tinha apenas algumas centenas de milhões de anos, até ao presente.
Pequenas flutuações quânticas geradas durante o período inflacionário são as sementes das estruturas futuras: as estrelas e galáxias de hoje. Depois do fim da inflação, as partículas de matéria escura começaram a aglomerar-se em torno destas sementes cósmicas, construindo lentamente uma teia cósmica de estruturas. Mais tarde, depois da libertação da CMB, a matéria normal começou a cair na direção destas estruturas, eventualmente dando origem às estrelas e galáxias.
As imagens circulares na secção inferior mostram ampliações de alguns processos microscópicos que tiveram lugar durante a história cósmica: desde pequenas flutuações geradas durante a inflação, até à sopa densa de luz e partículas que preencheram o Universo jovem; passando pela última dispersão de luz pelos eletrões, que deram origem à CMB e à sua polarização, até à reionização do Universo, provocada pelas primeiras estrelas e galáxias, que induziram polarização adicional na CMB.
Crédito: ESA
(clique na imagem para ver versão maior)
 

Hoje, os telescópios como o Planck podem observar esta luz fóssil por todo o céu, luz esta a que chamamos Radiação Cósmica de Fundo. A sua distribuição no céu revela pequenas flutuações que contêm uma riqueza de informações sobre a história, composição e geometria do Universo.

A libertação da Radiação Cósmica de Fundo aconteceu num momento em que os eletrões e os protões se uniram para formar átomos de hidrogénio. Este é o primeiro momento, na história do cosmos, em que a matéria se encontrava num estado eletricamente neutro.

Depois disso, passaram-se algumas centenas de milhões de anos até que estes átomos se unissem e, eventualmente, dessem origem à primeira geração de estrelas do Universo.

À medida que estas primeiras estrelas nasciam, encheram os seus arredores com luz, que subsequentemente dividiu átomos neutros, transformando-os de volta às suas partículas constituintes: eletrões e protões. Os cientistas referem-se a este período como a "época de reionização". Não demorou muito para que a maioria do material do Universo se tornasse completamente ionizado - à exceção de poucos locais isolados -, e assim ficou desde então.

As observações de galáxias muito distantes, que albergam buracos negros supermassivos, indicam que o universo tinha sido completamente reionizado quando tinha aproximadamente 900 milhões de anos. O ponto de partida deste processo, no entanto, é muito mais difícil de determinar e tem sido um tema muito debatido nos últimos anos.

"A Radiação Cósmica de Fundo diz-nos quando a época de reionização começou e, por sua vez, quando as primeiras estrelas se formaram no Universo," explica Jan Tauber, cientista do projeto Planck da ESA.

Para fazer esta medição, os cientistas aproveitam o facto de que uma fração da Radiação Cósmica de Fundo é polarizada: parte da luz vibra numa direção preferencial. Isto deriva dos fotões da Radiação Cósmica de Fundo que ressaltam dos eletrões - algo que aconteceu muito frequentemente na sopa primordial, antes da Radiação Cósmica de Fundo e novamente depois, quando a luz das primeiras estrelas trouxe eletrões livres de volta para o palco cósmico.

"É nas pequenas flutuações da polarização da Radiação Cósmica de Fundo que podemos ver a influência do processo de reionização e deduzir quando começou," acrescenta Tauber.

Visualização da polarização da Radiação Cósmica de Fundo, detetada pelo satélite Planck da ESA por todo o céu.
A Radiação Cósmica de Fundo é um retrato da luz mais antigo do Universo, impressa no céu quando o Universo tinha apenas 380.000 anos. Mostra pequenas flutuações de temperatura que correspondem a regiões de densidades ligeiramente diferentes, representando as "sementes" de todas as estruturas futuras: as estrelas e galáxias de hoje.
Uma pequena fração da Radiação Cósmica de Fundo é polarizada - vibra numa direção preferida. Isto é um resultado do último encontro desta luz com eletrões, antes de começar a sua viagem cósmica. Por esta razão, a polarização da Radiação Cósmica de Fundo retém informações acerca da distribuição de matéria no início do Universo, e o seu padrão no céu segue o padrão das pequenas flutuações observadas na temperatura da Radiação Cósmica de Fundo.
Na imagem, a escala de cores representa diferenças de temperatura na radiação cósmica de fundo, enquanto a textura indica a direção da luz polarizada. Os padrões vistos na textura são característicos da polarização de "modos-E", o tipo de polarização dominante na radiação cósmica de fundo.
Para fins de ilustração, ambos os conjuntos de dados foram filtrados para mostrar principalmente o sinal detetado em escalas de aproximadamente 5º no céu. No entanto, as flutuações tanto na temperatura como na polarização estão presentes e foram observadas pelo Planck também a escalas angulares muito mais pequenas.
Crédito: ESA e Colaboração Planck
(clique na imagem para ver versão maior)

 

A primeira estimativa da época de reionização surgiu em 2003 pelo WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe) da NASA, sugerindo que este processo possa ter começado no início da história cósmica, quando o Universo tinha apenas um par de centenas de milhões de anos. Este resultado era problemático porque não existem evidências de que quaisquer estrelas se tenham formado até então, o que significaria postular outras fontes exóticas que poderiam ter motivado a reionização naquela altura.

Esta primeira estimativa foi em pouco tempo corrigida, pois os dados subsequentes do WMAP empurraram o tempo inicial para épocas posteriores, indicando que o Universo só se tornou significativamente reionizado, pelo menos, aos 450 milhões de anos da sua história.

Isto aliviou, mas não resolveu completamente o puzzle: embora as primeiras das "primeiras" estrelas já tivessem sido observadas quando o Universo tinha 300 a 400 milhões de anos, não está claro se estas estrelas eram as principais culpadas pela total reionização do cosmos ou se outras fontes adicionais e mais exóticas desempenharam, igualmente, um papel.

Em 2015, a Colaboração Planck forneceu novos dados para resolver o problema, movendo a época de reionização até mais tarde na história cósmica e revelando que este processo estava a meio quando o Universo tinha cerca de 550 milhões de anos. O resultado foi baseado nos primeiros mapas de todo o céu da polarização da Radiação Cósmica de Fundo pelo Planck, obtidos com o seu instrumento LFI (Low-Frequency Instrument).

Agora, uma nova análise de dados de outro detetor do Planck, o HFI (High-Frequency Instrument), que é mais sensível a este fenómeno do que qualquer outro até agora, mostra que essa reionização começou ainda mais tarde - muito mais tarde do que quaisquer outros dados anteriores sugeriam.

"As medições altamente sensíveis do HFI demonstraram claramente que a reionização foi um processo muito rápido, começando relativamente tarde na história cósmica e tendo reionizado o Universo a 50% quando este tinha mais ou menos 700 milhões de anos," comenta Jean-Loup Puget do Institut d'Astrophysique Spatiale em Orsay, França, investigador principal do HFI do Planck.

"Estes resultados estão agora ajudando-nos a modelar o início da fase de reionização."

"Nós também confirmámos que não são necessários outros agentes, além das primeiras estrelas, para reionizar o Universo," salienta Matthieu Tristram, cientista da Colaboração Planck do Laboratoire de l'Accélérateur Linéaire em Orsay, França.

O novo estudo localiza a formação das primeiras estrelas muito mais tarde do que se pensava na linha do tempo cósmico, sugerindo que a observação da primeira geração de galáxias está bem ao alcance dos instrumentos astronómicos futuros e, possivelmente, até mesmo de alguns dos atuais.

Na verdade, é provável que algumas das primeiras galáxias já tenham sido detetadas com exposições longas, como o Hubble Ultra Deep Field do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA, e será mais fácil do que o esperado avistar muitas mais com observatórios futuros como o James Webb da NASA/ESA/CSA.

Links:

Cobertura da missão Planck pelo Núcleo de Astronomia do CCVAlg:
06/02/2015 - Planck revela que primeiras estrelas nasceram tarde
02/02/2015 - Planck: ondas gravitacionais permanecem elusivas
18/03/2014 - Primeira evidência directa da inflação cósmica
22/03/2013 - Planck revela um Universo quase perfeito
17/01/2012 - Instrumento HFI do Planck completa estudo do Universo primordial
06/07/2010 - Imagem global do céu revela neblina galáctica por cima de fundo cósmico
18/05/2009 - Herschel e Planck lançados com sucesso
13/05/2009 - Satélite Planck pronto para medir o Big Bang

Notícias relacionadas:
ESA (comunicado de imprensa)
NASA (comunicado de imprensa)
Astronomy & Astrophysics - Matthieu Tristram e Colaboração
Astronomy & Astrophysics - Colaboração Planck
PHYSORG
Popular Science

Universo:
Universo (Wikipedia)
Idade do Universo (Wikipedia)
Estrutura a grande-escala do Universo (Wikipedia)
Big Bang (Wikipedia)
Cronologia do Big Bang (Wikipedia)

Radiação cósmica de fundo em micro-ondas:
Wikipedia

Observatório Planck:
ESA (ciência e tecnologia)
ESA (centro científico)
ESA (página de operações)
NASA
Wikipedia

Telescópio Espacial Hubble:
Hubble, NASA 
ESA
STScI
SpaceTelescope.org
Base de dados do Arquivo Mikulski para Telescópios Espaciais

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
ESA
Wikipedia

 
TAMBÉM EM DESTAQUE
  Descoberta "ganha" a Tatooine, descobre estrelas gémeas com três exoplanetas gigantes (via Instituto Carnegie para Ciência)
Uma equipa de cientistas descobriu três planetas gigantes num sistema binário composto por "gémeas" estelares que são, efetivamente, da família do nosso Sol. Uma alberga dois planetas e a outra é a mãe do terceiro. O sistema representa o binário com a mais pequena separação, já observado, no qual ambos as estrelas têm planetas. Ler fonte
     
  A neve de metano de Plutão, no limite da escuridão (via NASA)
A parte mais a sul de Plutão que a sonda New Horizons da NASA pôde "ver" durante a sua maior aproximação de julho de 2015 contém uma variedade de características geológicas fascinantes, e fornece pistas sobre o que poderá estar nas regiões escondidas pela escuridão durante o "flyby". Ler fonte
     
  Planeta Nove pode significar ruína para o Sistema Solar (via Universidade de Warwick)
O Sistema Solar pode tornar-se desastroso quando o Sol morrer, caso o Planeta Nove exista. Cientistas descobriram que a presença do Planeta Nove - o planeta hipotético que poderá existir nos confins do Sistema Solar - pode provocar a eliminação de pelo menos um planeta gigante quando o Sol morrer, atirando-os para o espaço interestelar através de uma espécie de efeito "pinball". Ler fonte
 
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - A Via Láctea
(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: Juan Carlos Casado (TWANEarth and Stars)
 
Sobre céus escuros, a aparição da Via Láctea pode ser um espetáculo avassalador. Esticando-se quase paralelamente ao horizonte, esta rica paisagem cósmica da nossa Galáxia, acima do poeirento deserto da Namíbia vai desde as zonas brilhantes de Centauro a sul (esquerda) até Cefeu a norte (direita). Obtido no início de agosto, este panorama estelar noturno captura os aglomerados de estrelas e rios de poeira cósmica, juntamente com cores de nebulosas dificilmente visíveis a olho nu. Marte, Saturno e Antares, visíveis mesmo em céus noturnos mais luminosos, formam o brilhante triângulo celeste que quase toca as árvores abaixo do bojo central da Via Láctea. Claro, a nossa Galáxia não é a única galáxia na fotografia. Outros dois membros do nosso Grupo Local, a Galáxia de Andrómeda e a Galáxia do Triângulo, encontram-se perto do limite direito, para lá do arco da Via Láctea.
 

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