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  Astroboletim #2063  
  15/12 a 18/12/2023  
     
 
EFEMÉRIDES

DIA 15/12: 349.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1852, nascia Henri Becquerel, físico que, juntamente com Marie e Pierre Curie, recebeu o prémio Nobel da Física pela sua descoberta da radioatividade. A unidade SI da radioativade, o becquerel (Bq), tem o seu nome.
Em 1911, Roald Amundsen escreve no seu diário o estranho comportamento do Sol no céu ao chegar ao polo sul (possivelmente o primeiro grupo a alcançar qualquer um dos polos).  
Em 1965 as Gemini 6 e 7 realizam o seu primeiro encontro entre duas naves em órbita da Terra.

Os astronautas da Gemini 6 eram Walter Schirra e Thomas Stafford, e os da Gemini 7 Frank Borman e James A. Lovell Jr
Em 1970, a sonda soviética Venera 7 aterra em Vénus e torna-se na primeira sonda a transmitir dados da superfície de outro planeta. Embora esta transmissão tivesse durado apenas 23 minutos, possivelmente devido à sonda ter aterrado de lado por causa de uma avaria no seu para-quedas, os sensores de temperatura e pressão confirmaram que a pressão à superfície do planeta era noventa vezes maior que na Terra e a temperatura era de mais de 475 graus centígrados. 
Em 1984 era lançada a Vega 1 (missão para o planeta Vénus e Cometa Halley).
HOJE, NO COSMOS:
O Triângulo de Verão está cada vez mais baixo a oeste e Altair é a primeira estrela a desaparecer (para observadores a latitudes médias norte). Comece por avistar Vega, de magnitude zero, a oeste-noroeste logo após o anoitecer. A estrela mais brilhante para cima de Vega é Deneb. Altair, a terceira estrela do Triângulo, está mais longe para a esquerda de Vega. Quão mais tarde na noite, ou nesta estação, consegue observar Altair?

 

DIA 16/12: 350.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1857 nascia Edward Emerson Barnard, astrónomo americano.

É mais conhecido pela sua descoberta da estrela de Barnard em 1916, com este nome em sua honra.
Em 1917 nascia Arthur C. Clarke, proponente de longa data das viagens espaciais, autor, futurista, inventor, explorador dos oceanos e apresentador de televisão. 
Em 1965 a Pioneer 6 foi lançada para uma órbita solar entre Vénus e a Terra
Em 1969 nascia Adam Riess, astrofísico americano, que partilhou com Saul Perlmutter e Brian P. Schmidt, em 2011, o Prémio Nobel da Física por fornecer evidências da aceleração da expansão do Universo.
Em 2000, usando dados científicos registados pela sonda em Júpiter, Galileu, a 20 de maio, os cientistas do JPL anunciam provas de um oceano salgado por baixo da superfície de Ganimedes, a maior lua do Sistema Solar. Junta-se a Calisto e a Europa como luas de Júpiter com prováveis oceanos de água líquida por baixo do gelo.
Em 2015, o Hubble divulga a imagem da primeira explosão, prevista, de uma supernova.
HOJE, NO COSMOS:
Já alguma vez viu o nascer de Sirius? Encontre um local com o horizonte desimpedido a este-sudeste e observe o nascer de Sirius a cerca de dois punhos à distância do braço esticado por baixo da cintura de Orionte. Sirius nasce pelas 20:30, dependendo do local onde o observador vive.
Cerca de 15 minutos antes do nascer de Sirius, uma estrela mais fraca nasce logo à direita de onde Sirius vai nascer: Beta Canis Majoris ou Mirzam. O seu nome árabe significa "arauto", e o que Mirzam anuncia é Sirius. Não é fácil confundi-las; o arauto de segunda magnitude tem apenas 1/20 do brilho de Sirius, que nasce pouco depois.
Quando uma estrela está muito baixa tende a piscar lentamente, muitas vezes em cores vívidas. Sirius é brilhante o suficiente para mostrar bem esses efeitos, especialmente através de binóculos.

 

DIA 17/12: 351.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1957, os EUA lançam com sucesso o primeiro missil balístico intercontinental Atlas em Cabo Canaveral, Flórida.

Em 2003, voo 11P do SpaceShipOne, pilotado por Brian Binnie, o seu primeiro voo supersónico.
HOJE, NO COSMOS:
Esta noite, aviste Saturno a cerca de 3º para cima da Lua Crescente. A Lua está a cerca de 1,3 segundos-luz. Saturno está atualmente a 84 minutos-luz, quase 4000 vezes mais longe.

 

DIA 18/12: 352.º DIA DO CALENDÁRIO GREGORIANO
NESTE DIA ACONTECEU...

Em 1856 nascia J. J. Thomson, físico inglês, conhecido pela descoberta do eletrão e pela invenção do espectrómetro de massa.
Em 1958, lançamento do Projecto SCORE, o primeiro satélite de comunicações.
Em 1966, Richard Walker descobre a lua de Saturno, Epimeteu, que depois esteve "perdida" durante 12 anos.

Em 1973, é lançada a Soyuz 13, tripulada pelos cosmonautas Valentin Lebedev e Pyotr Klimuk, de Baikonur, União Soviética.
Em 1999, a NASA lança para órbita a plataforma Terra, transportando cinco instrumentos de observação terrestre: o ASTERCERESMISR,
MODIS e MOPITT
Em 2001, a aventureira sonda da NASA, Deep Space 1, desliga os seus motores iónicos e a missão chega ao fim.
Em 2018, um meteoro explode sobre o Mar de Bering com uma força 10 vezes superior à da bomba atómica que destruiu Hiroshima em 1945.
HOJE, NO COSMOS:
Esta é a altura do ano em que M31, a Galáxia de Andrómeda, passa perto do zénite pouco depois do anoitecer (se viver a latitudes médias norte). A hora exata depende da sua longitude. Uns binóculos mostram M31 logo ao lado do joelho da figura da constelação de Andrómeda.

 
 
   
Webb identifica a mais pequena anã castanha que flutua livremente
 
Esta imagem do instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA mostra a parte central do enxame estelar IC 348. Os astrónomos vasculharam o enxame em busca de anãs castanhas minúsculas e flutuantes: objetos demasiado pequenos para serem estrelas, mas maiores do que a maioria dos planetas. Encontraram três anãs castanhas que têm menos de oito vezes a massa de Júpiter. A mais pequena tem apenas três a quatro vezes a massa de Júpiter, o que desafia as teorias sobre a formação de estrelas.
As cortinas finas que preenchem a imagem são material interestelar que reflete a luz das estrelas do enxame - o que é conhecido como uma nebulosa de reflexão. O material também inclui moléculas que contêm carbono, conhecidas como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, ou HAPs. A estrela brilhante mais próxima do centro da imagem é, na realidade, um par de estrelas de tipo B num sistema binário, as estrelas mais massivas do enxame. Os ventos destas estrelas podem ajudar a esculpir o grande "loop" visto no lado direito do campo de visão.
Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI e K. Luhman (Universidade Estatal da Pensilvânia) e C. Alves de Oliveira (ESA)
 

Quão pequeno pode ser o tamanho de uma estrela em formação? As anãs castanhas são por vezes chamadas estrelas falhadas, uma vez que se formam como estrelas através de um colapso gravitacional, mas nunca ganham massa suficiente para iniciar a fusão nuclear. As anãs castanhas mais pequenas podem sobrepor-se em massa a planetas gigantes. Numa tentativa de encontrar a anã castanha mais pequena, os astrónomos que utilizam o Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA descobriram o novo recordista: um objeto que tem apenas três a quatro vezes a massa de Júpiter.

As anãs castanhas são objetos que se situam na linha entre as estrelas e os planetas. Formam-se como estrelas, tornando-se suficientemente densas para colapsar sob a sua própria gravidade, mas nunca se tornam suficientemente densas e quentes para começar a fundir hidrogénio e transformar-se numa estrela. No limite inferior da escala, algumas anãs castanhas são comparáveis a planetas gigantes, com apenas algumas vezes a massa de Júpiter.

Os astrónomos estão a tentar determinar o objeto mais pequeno que se pode formar de forma semelhante a uma estrela. Uma equipa internacional, utilizando o Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA, identificou o novo detentor do recorde: uma minúscula anã castanha que flutua livremente, com apenas três a quatro vezes a massa de Júpiter.

"Uma pergunta básica que se encontra em todos os manuais de astronomia é: quais são as estrelas mais pequenas? É a isso que estamos a tentar responder", explicou o autor principal Kevin Luhman da Universidade Estatal da Pensilvânia.

Para localizar esta recém-descoberta anã castanha, Luhman e a sua colega Catarina Alves de Oliveira escolheram estudar o enxame estelar IC 348, situado a cerca de 1000 anos-luz de distância, na região de formação estelar de Perseu. Este enxame é jovem, com apenas cerca de cinco milhões de anos. Consequentemente, as anãs castanhas ainda são relativamente brilhantes na luz infravermelha, devido ao calor da sua formação.

A equipa começou por fotografar o centro do enxame usando o instrumento NIRCam (Near-Infrared Camera) do Webb para identificar candidatas a anãs castanhas a partir do seu brilho e cores. Seguiram os alvos mais promissores usando o NIRSpec (Near-Infrared Spectrograph) do Webb.

A sensibilidade ao infravermelho do Webb foi crucial, permitindo à equipa detetar objetos mais ténues do que os telescópios terrestres. Além disso, a visão nítida do Webb permitiu-lhes determinar quais os objetos vermelhos que eram anãs castanhas pontuais e quais os que eram galáxias de fundo.

Este processo de seleção levou a três alvos intrigantes com massas entre três e oito vezes a de Júpiter, com temperaturas à superfície que variam entre 830 e 1500 graus Celsius. O mais pequeno destes alvos tem apenas três a quatro vezes a massa de Júpiter, de acordo com modelos de computador.

Explicar como é que uma anã castanha tão pequena se pode formar é um desafio teórico. Uma nuvem pesada e densa de gás tem muita gravidade para colapsar e formar uma estrela. No entanto, devido à sua gravidade mais fraca, deveria ser mais difícil para uma pequena nuvem colapsar e formar uma anã castanha, e isto é especialmente verdade para anãs castanhas com massas de planetas gigantes.

"É muito fácil, para os modelos atuais, criar planetas gigantes num disco à volta de uma estrela," disse Catarina Alves de Oliveira da ESA, investigadora principal do programa de observação. "Mas neste enxame, seria improvável que este objeto se formasse num disco, em vez de se formar como uma estrela, e três massas de Júpiter são 300 vezes mais pequenas do que o nosso Sol. Por isso, temos de perguntar: como é que o processo de formação de estrelas funciona com massas tão pequenas?"

 
Imagem que realça a posição das três anãs castanhas descobertas neste curto levantamento estelar de IC 348.
Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI e K. Luhman (Universidade Estatal da Pensilvânia) e C. Alves de Oliveira (ESA)
 

Para além de fornecerem pistas sobre o processo de formação estelar, as minúsculas anãs castanhas também podem ajudar os astrónomos a compreender melhor os exoplanetas. As anãs castanhas menos massivas sobrepõem-se aos maiores exoplanetas; por isso, seria de esperar que tivessem propriedades semelhantes. No entanto, uma anã castanha livremente flutuante é mais fácil de estudar do que um exoplaneta gigante, uma vez que este último está escondido no brilho da sua estrela hospedeira.

Duas das anãs castanhas identificadas neste levantamento mostram a assinatura espetral de um hidrocarboneto não identificado, uma molécula que contém átomos de hidrogénio e de carbono. A mesma assinatura infravermelha foi detetada pela missão Cassini da NASA nas atmosferas de Saturno e da sua lua Titã. Também foi observada no meio interestelar, o gás entre as estrelas.

"Esta é a primeira vez que detetamos esta molécula na atmosfera de um objeto para lá do nosso Sistema Solar", explicou Catarina. "Os modelos para atmosferas de anãs castanhas não preveem a sua existência. Estamos a olhar para objetos com idades mais jovens e massas mais baixas do que alguma vez vimos antes, e estamos a ver algo novo e inesperado."

Uma vez que os objetos estão bem dentro da gama de massas dos planetas gigantes, levanta-se a questão de saber se são de facto anãs castanhas, ou se são planetas fugitivos que foram ejetados de sistemas planetários. Embora a equipa não possa excluir esta última hipótese, argumenta que é muito mais provável que sejam anãs castanhas do que planetas ejetados.

Um planeta gigante ejetado é improvável por duas razões. Primeiro, esses planetas são pouco comuns em geral, quando comparados com planetas de massas mais pequenas. Em segundo lugar, a maioria das estrelas são estrelas de baixa massa, e os planetas gigantes são especialmente raros entre essas estrelas. Consequentemente, é pouco provável que a maioria das estrelas de IC 348 (que são estrelas de baixa massa) sejam capazes de produzir planetas tão massivos. Além disso, como o enxame tem apenas cinco milhões de anos, não deve ter havido tempo suficiente para que os planetas gigantes se formassem e fossem ejetados dos seus sistemas.

A descoberta de mais objetos deste tipo ajudará a clarificar o seu estatuto. As teorias sugerem que é mais provável encontrar planetas fugitivos na periferia de um enxame estelar, pelo que a expansão da área de pesquisa pode identificá-los caso existam em IC 348.

O trabalho futuro pode também incluir estudos mais longos que possam detetar objetos mais fracos e mais pequenos. Esperava-se que o curto levantamento realizado pela equipa detetasse objetos tão pequenos como o dobro da massa de Júpiter. Levantamentos mais longos poderiam facilmente atingir uma massa de Júpiter.

Estas observações foram efetuadas como parte do programa GTO (Guaranteed Time Observation) #1229. Os resultados foram publicados na revista The Astronomical Journal.

// ESA (comunicado de imprensa)
// ESA/Webb (comunicado de imprensa)
// NASA (comunicado de imprensa)
// STScI (comunicado de imprensa)
// Universidade Estatal da Pensilvânia (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (The Astronomical Journal)

 


Quer saber mais?

Notícias relacionadas:
SPACE.com
Universe Today
ScienceDaily
science alert
PHYSORG

Anãs castanhas:
Wikipedia
Andy Lloyd's Dark Star Theory

IC 348:
Simbad
Wikipedia

Nuvem molecular de Perseu:
Wikipedia

JWST (Telescópio Espacial James Webb):
NASA
STScI
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Blog do JWST (NASA)
Programas DD-ERS do Webb (STScI)
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NIRCam (NASA)
MIRI (NASA)
NIRSpec (NASA)

 
   
Rover Perseverance decifra a história antiga de lago marciano
 
Este mosaico de 360 graus do local "Airey Hill", no interior da cratera Jezero, foi gerado a partir de 993 imagens individuais obtidas pela Mastcam-Z do rover Perseverance, entre 3 e 6 de novembro. O rover permaneceu estacionado em Airey Hill várias semanas durante a conjunção solar.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/ASU/MSSS
 

Ao assinalar o seu milésimo dia marciano no Planeta Vermelho, o rover Perseverance da NASA completou recentemente a sua exploração do antigo delta de um rio que contém evidências de um lago que encheu a cratera Jezero há milhares de milhões de anos. Até à data, o cientista de seis rodas recolheu um total de 23 amostras, revelando a história geológica desta região de Marte.

Uma amostra chamada "Lefroy Bay" contém uma grande quantidade de grãos finos de sílica, um material conhecido por preservar fósseis antigos na Terra. Outra, "Otis Peak", contém uma quantidade significativa de fosfato, que está frequentemente associado à vida tal como a conhecemos. Ambas as amostras são também ricas em carbonato, que pode preservar um registo das condições ambientais de quando a rocha se formou.

As descobertas foram partilhadas na terça-feira, 12 de dezembro, na reunião de outono da União Geofísica Americana, em São Francisco.

"Escolhemos a cratera Jezero como local de aterragem porque as imagens de órbita mostravam um delta - uma evidência clara de que um grande lago encheu a cratera. Um lago é um ambiente potencialmente habitável e as rochas do delta são um ótimo ambiente para enterrar sinais de vida antiga como fósseis no registo geológico", disse o cientista do projeto Perseverance, Ken Farley do Caltech. "Depois de uma exploração minuciosa, reunimos a história geológica da cratera, traçando a sua fase de lago e rio do princípio ao fim."

Jezero formou-se a partir do impacto de um asteroide há quase 4 mil milhões de anos. Após o pouso do Perseverance em fevereiro de 2021, a equipa da missão descobriu que o chão da cratera é feito de rocha ígnea formada a partir de magma subterrâneo ou de atividade vulcânica à superfície. Desde então, encontraram arenito e lamito, sinalizando a chegada do primeiro rio à cratera centenas de milhões de anos mais tarde. Por cima destas rochas encontram-se lamitos ricos em sal, indicando a presença de um lago pouco profundo que sofreu evaporação. A equipa pensa que o lago acabou por crescer até 35 quilómetros de diâmetro e 30 metros de profundidade.

Mais tarde, a água de fluxo rápido transportou pedras do exterior de Jezero, distribuindo-as no topo do delta e noutros pontos da cratera.

"Conseguimos ver um esboço geral destes capítulos da história de Jezero em imagens de órbita, mas foi necessário aproximarmo-nos com o Perseverance para compreender realmente a linha temporal em pormenor", disse Libby Ives, pós-doutorada no JPL da NASA no sul da Califórnia, que gere a missão.

 
Esta imagem da cratera Jezero de Marte é sobreposta com dados de minerais detetados a partir de órbita. A cor verde representa carbonatos - minerais que se formam em ambientes aquosos com condições que podem ser favoráveis à preservação de sinais de vida antiga. O Perseverance da NASA está atualmente a explorar a área verde acima do leque de Jezero (centro).
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS/JHU-APL
 

Amostras sedutoras

As amostras recolhidas pelo Perseverance têm o tamanho de um pedaço de giz de sala de aula e são armazenadas em tubos metálicos especiais como parte da campanha MSR (Mars Sample Return), um esforço conjunto da NASA e da ESA. Trazer os tubos para a Terra permitiria aos cientistas estudar as amostras com equipamento de laboratório potente, demasiado grande para ser levado para Marte.

Para decidir quais as amostras a recolher, o Perseverance começa por usar uma ferramenta de abrasão para desgastar um pedaço de uma prospetiva rocha e depois estuda a química da rocha usando instrumentos científicos de precisão, incluindo o PIXL (Planetary Instrument for X-ray Lithochemistry), construído pelo JPL.

Num alvo a que a equipa chama "Bills Bay", o PIXL detetou carbonatos - minerais que se formam em ambientes aquosos com condições que podem ser favoráveis à preservação de moléculas orgânicas (as moléculas orgânicas formam-se tanto por processos geológicos como por processos biológicos). Estas rochas também tinham sílica em abundância, um material que é excelente para preservar moléculas orgânicas, incluindo as relacionadas com a vida.

"Na Terra, esta sílica de grão fino é o que se encontra frequentemente num local que já foi arenoso", disse Morgan Cable do JPL, o investigador principal adjunto do PIXL. "É o tipo de ambiente onde, na Terra, os restos de vida antiga podem ser preservados e encontrados mais tarde".

Os instrumentos do Perseverance são capazes de detetar tanto estruturas microscópicas, semelhantes a fósseis, como alterações químicas que podem ter sido deixadas por micróbios antigos, mas ainda não viram evidências de nenhuma delas.

Num outro alvo que o PIXL examinou, chamado "Ouzel Falls", o instrumento detetou a presença de ferro associado a fosfato. O fosfato é um componente do ADN e das membranas celulares de toda a vida terrestre conhecida e faz parte de uma molécula que ajuda as células a transportar energia.

Depois de avaliar as descobertas do PIXL em cada uma destas manchas de abrasão, a equipa enviou comandos para o rover recolher amostras de rocha nas proximidades: "Lefroy Bay" foi recolhida junto a Bills Bay e "Otis Peak" em Ouzel Falls.

"Temos condições ideais para encontrar sinais de vida antiga, onde encontramos carbonatos e fosfatos, que apontam para um ambiente aquoso e habitável, bem como sílica, que é ótima para a preservação", disse Cable.

O trabalho do Perseverance está, naturalmente, longe de estar terminado. A quarta campanha científica da missão vai explorar a margem da cratera Jezero, perto da entrada do desfiladeiro onde um rio inundou o fundo da cratera. Foram detetados ricos depósitos de carbonato ao longo da margem, que se destaca nas imagens orbitais como um anel dentro de uma banheira.

// NASA (comunicado de imprensa)
// Animação artística de água a entrar na Cratera Jezero (JPL via YouTube)

 


Quer saber mais?

Cobertura da missão do rover Perseverance pelo CCVAlg - Astronomia:
03/10/2023 - Perseverance filma um diabo de poeira marciano
08/09/2023 - Experiência de produção de oxigénio, MOXIE, conclui a sua missão marciana
07/02/2023 - Investigadores completam primeiro estudo, no mundo real, da dinâmica da poeira levantada pelo Ingenuity
03/02/2023 - Rover Perseverance completa depósito de amostras marcianas
27/12/2022 - Rover Perseverance deposita a sua primeira amostra à superfície de Marte
16/12/2022 - Cientistas gravam pela primeira vez o som de um diabo de poeira marciano
09/12/2022 - Rover Perseverance recolhe amostras de poeira marciana
29/11/2022 - Rover Perseverance deteta mais carbono orgânico em Marte, em busca de sinais de vida
01/11/2022 - Os cientistas escolheram as primeiras amostras marcianas dignas de viajarem para a Terra
20/09/2022 - Rover Perseverance da NASA investiga terreno geologicamente rico de Marte
30/08/2022 - Rover Perseverance faz novas descobertas na Cratera Jezero
15/07/2022 - Perseverance explora locais de aterragem para a campanha MSR
07/06/2022 - Rover Perseverance da NASA estuda os ventos selvagens da Cratera Jezero
29/04/2022 - Helicóptero Ingenuity avista equipamentos que ajudaram ao pouso do rover Perseverance
21/12/2021 - Rover Perseverance faz descobertas surpreendentes
12/10/2021 - Perseverance obtém mais informações sobre o passado da Cratera Jezero
14/09/2021 - Rover Perseverance recolhe peças do puzle da história de Marte
07/09/2021 - Rover Perseverance da NASA obtém primeira amostra marciana
29/05/2021 - O detetive a bordo do rover Perseverance
14/05/2021 - Braço robótico do Perseverance começa a realizar ciência
04/05/2021 - Helicóptero marciano Ingenuity começa nova fase de demonstração
12/03/2021 - SuperCam do Perseverance transmite os primeiros dados
09/03/2021 - Rover Perseverance move-se pela primeira vez
26/02/2021 - À procura de vida nas amostras do rover Perseverance
19/02/2021 - Rover Perseverance da NASA pousa em segurança no Planeta Vermelho
09/02/2021 - Rover Perseverance a poucos dias de pousar em Marte
10/11/2020 - Estudo mostra a dificuldade em encontrar evidências de vida em Marte
31/07/2020 - Missão do rover Perseverance a caminho do Planeta Vermelho
30/06/2020 - Aproxima-se o lançamento do rover Perseverance
27/11/2018 - Os locais de aterragem dos próximos rovers marcianos da NASA e da ESA

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Desvendando os segredos das FRBs: cientistas encontram mais peças do puzzle dos misteriosos sinais espaciais
 
Espetros dinâmicos (ou gráficos em "cascata") para todas as rajadas da FRB 20220912A detetadas usando o ATA (Allen Telescope Array), os perfis de pulso em média de frequência e os espetros em média de tempo. As regiões sombreadas a vermelho nos gráficos das séries temporais indicam o intervalo de tempo das subrajadas definidas, com linhas verticais vermelhas a demarcar as subrajadas adjacentes.
Crédito: Sofia Z. Sheikh et al., Instituto SETI
 

Uma equipa de cientistas do Instituto SETI revelou novos conhecimentos sobre um mistério cósmico conhecido como FRBs (Fast Radio Bursts, em português "rajadas rápidas de rádio"). A descoberta e a observação pormenorizada da repetitiva FRB 20220912A, efetuada no ATA (Allen Telescope Array) atualizado do Instituto SETI, lançam luz sobre a natureza destes sinais espaciais.

As FRBs são flashes breves e intensos de ondas de rádio provenientes do espaço profundo. Embora a maioria ocorra apenas uma vez, algumas "repetidoras" emitem sinais mais do que uma vez, o que aumenta a intriga de compreender a sua origem. Ao longo de 541 horas de observação, os investigadores detetaram 35 FRBs da repetidora FRB 20220912A. As observações, efetuadas com o ATA, cobriram uma vasta gama de frequências de rádio e revelaram padrões fascinantes. Todas as 35 rajadas rápidas de rádio foram encontradas na parte inferior do espetro de frequências, cada uma com a sua assinatura energética única.

"Este trabalho é excitante porque confirma as propriedades conhecidas das FRBs e descobre algumas novas", disse a Dra. Sofia Sheikh do Instituto SETI, bolseira de pós-doutoramento e autora principal. "Estamos a tentar encontrar a possível fonte das FRBs, por exemplo, objetos extremos como os magnetares, mas nenhum modelo existente consegue explicar todas as propriedades que foram observadas até agora. Foi maravilhoso fazer parte do primeiro estudo de FRBs realizado com o ATA - este trabalho prova que os novos telescópios com capacidades únicas, como o ATA, podem fornecer um novo ângulo sobre os mistérios pendentes na ciência das FRBs."

As descobertas detalhadas, recentemente publicadas na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, mostram os comportamentos intrigantes das FRBs. Estes sinais misteriosos apresentam uma deriva de frequência descendente, uma ligação entre a sua largura de banda e a frequência central, e alterações na duração das rajadas ao longo do tempo. A equipa também observou algo que nunca tinha sido relatado antes: houve uma queda notável na frequência central das rajadas ao longo dos dois meses de observação, revelando um inesperado "apito" deslizante cósmico.

Além disso, os investigadores utilizaram estas observações para prever um ponto de corte para as rajadas mais brilhantes de FRB 20220912A, indicando a sua contribuição para a taxa global de sinais cósmicos. De facto, este objeto específico foi responsável por alguns pontos percentuais de todas as FRBs fortes no céu durante estas observações.

O estudo também investigou os padrões temporais das sequências das rajadas, procurando repetições dentro e entre as FRBs. Não foi encontrado nenhum padrão claro, o que realça a imprevisibilidade destes fenómenos celestes.

Este trabalho demonstra o importante papel do ATA na descodificação dos mistérios das FRBs. O ATA tem a capacidade única de registar um grande número de canais de frequência ao mesmo tempo, mesmo que estejam muito separados - por exemplo, quando algumas frequências são muito altas e outras muito baixas. Isto permite verificações instantâneas quando uma FRB chega, para restringir o que a FRB está a fazer em frequências altas e baixas simultaneamente. As atualizações em curso prometem ainda mais capacidades, para ver FRBs mais ténues em ainda mais frequências simultaneamente, assegurando que o ATA permanece na vanguarda do avanço da nossa compreensão das FRBs.

"É emocionante ver o ATA envolvido na investigação de FRBs três anos após o início do seu programa de atualização," disse o Dr. Wael Farah, Cientista do Projeto ATA do Instituto SETI e coautor. "O ATA possui capacidades únicas que estão a ser utilizadas em muitos esforços de investigação, incluindo transientes rápidos."

Esta descoberta marcante representa um passo significativo na busca contínua para desvendar os segredos de objetos extremos no Universo. À medida que os cientistas continuam a explorar o cosmos, cada caraterística única que descobrimos aproxima-nos da compreensão das origens e da natureza destes sinais cósmicos cativantes.

// Instituto SETI (comunicado de imprensa)
// Real Sociedade Astronómica (comunicado de imprensa)
// Artigo científico (arXiv.org)

 


Quer saber mais?

FRB (Fast Radio Burst, em português "rajada rápida de rádio"):
Wikipedia
Catálogo de FRBs (Universidade Swinburne)

Magnetar:
Wikipedia
AstronomyOnline.org

ATA (Allen Telescope Array):
Instituto SETI
Wikipedia

 
   
Também em destaque
  NEOWISE comemora 10 anos e planeia o fim da missão (via NASA)
O NEOWISE da NASA tem tido uma década atarefada. Desde o início da sua missão reativada a 13 de dezembro de 2013, o telescópio espacial descobriu um cometa único, observou mais de 3000 objetos próximos da Terra, reforçou as estratégias internacionais de defesa planetária e apoiou o encontro de outra missão da NASA com um asteroide distante. E esta é apenas uma lista parcial de feitos. Ler fonte
     
  Nave espacial com 14 polegadas fornece novos pormenores sobre os "Júpiteres quentes" (via Universidade do Colorado em Boulder)
Uma nave espacial do tamanho de uma caixa de cereais recolheu medições precisas das atmosferas de planetas grandes e inchados chamados "Júpiteres quentes". As descobertas, lideradas por uma equipa da Universidade do Colorado em Boulder, podem ajudar a revelar a forma como as atmosferas destes e de muitos outros mundos se escapam para o espaço. Ler fonte
 
   

Álbum de fotografias
Céu Profundo: A Nebulosa do Coração

(clique na imagem para ver versão maior)
Crédito: William Ostling, Telescope Live
 
O que é que excita a Nebulosa do Coração? Primeiro, a grande nebulosa de emissão à esquerda, catalogada como IC 1805, parece-se um pouco com um coração humano. A nebulosa brilha intensamente na luz vermelha emitida pelo seu elemento mais proeminente, o hidrogénio, mas esta imagem de longa exposição foi também misturada com luz emitida pelo silício (amarelo) e pelo oxigénio (azul). No centro da Nebulosa do Coração estão estrelas jovens do enxame estelar aberto Melotte 15 que estão a corroer vários pilares de poeira pitorescos com a sua luz energética e ventos que excitam átomos. A Nebulosa do Coração está localizada a cerca de 7500 anos-luz de distância, na direção da constelação de Cassiopeia. Em baixo, à direita da Nebulosa do Coração, encontra-se a Nebulosa Cabeça de Peixe. Esta imagem ampla e profunda mostra claramente, no entanto, que o gás brilhante rodeia a Nebulosa do Coração em todas as direções.
 
   
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